Ttulo: A Caixa da Borboleta.
Autor: Santa Montefiore.
Ttulo original:
Dados da edio: Crculo de Leitores, Lisboa, 2008.
Gnero: romance.
Digitalizao: Fernando Jorge Alves Correia.
Correco: Dores Cunha.
Estado da obra: corrigida.
Numerao de pgina: cabealho.

Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destina-se unicamente  leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de direitos de autor,
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Contracapa: Federica Campione adora o pai. Pouco importa que ele passe meses longe da extica costa chilena onde moram. Quando lhe oferece uma caixa mgica do Peru,
Federica acredita que ele estar para sempre junto dela.
Destroada pela separao dos pais, Federica  forada a instalar-se na Cornualha com a me, e leva consigo a caixa da borboleta, a nica parte do pai que a pode
consolar naquele perodo doloroso.  medida que entra na idade adulta, Federica tenta recuperar a sensao de segurana h muito perdida nos braos do gal Torquil
Jensen. A partir da segurana de um casamento aparentemente perfeito, Federica inicia uma dolorosa viagem de autodescoberta; sero precisos vrios anos de sofrimento
para se libertar da sua gaiola dourada e descobrir a verdadeira lio da caixa da borboleta. Uma saga pica de amor, posse e metamorfose.
Nascida em Inglaterra em 1970, Santa Montefiore cresceu numa quinta de Hampshire e foi educada na Sherborne School for Girls. Estudou Espanhol e Italiano na Universidade
de Exeter e passou a maior parte dos anos 90 em Buenos Aires, onde a me crescera. Converteu-se ao judasmo em 1998 e casou com o historiador Simon Sebag Montefiore.
Vivem em Londres com os dois filhos. E irm da jornalista Tara Palmer-Tomkinson e confidente do prncipe Carlos, que foi ao
seu casamento.

A CAIXA DA BORBOLETA
Traduo de EUGENIA ANTUNES
TTULO ORIGINAL: The Butterfly Box
AUTOR: Santa Montefiore
2002 by Santa Montefiore
TRADUO: Eugenia Antunes
REVISO: Fernanda Alves
PR-IMPRESSO: Fotocompogrfica, Lda.
IMPRESSO: Printer Portuguesa
Casais de Mem Martins - Rio de Mouro em Abril de 2008
NMERO DE EDIO: 7262
DEPSITO LEGAL NMERO 274 16508
ISBN 978-972-42-4270-5
Crculo de Leitores, S
Rua Prof. Jorge da Silva Horta, 1, 1500-499 Lisboa
www.circuloleitores.pt

Reservados todos os direitos. Nos termos do Cdigo do Direito de Autor,  expressamente proibida a reproduo total ou parcial desta obra por qualquer meio, incluindo
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Aos meus pais
Os meus mais profundos agradecimentos  minha prima Anderly Hardy pela sua orientao sobre todos os aspectos da vida chilena, e a Susan Fletcher, minha editora,
e a Jo Frank, meu agente, pelos conselhos, sabedoria e apoio que me concederam.
Gostaria de agradecer ao Gibran National Committee pela permisso concedida para citar O Profeta, de Kahlil Gibran.
"O amor alimenta-se a si prprio.
O amor no possui nem quer ser possudo,
Porque o amor basta ao amor."
Kahlil Gibran, O Profeta

PARTE I
CAPTULO UM
Vina del Mar, Chile, Vero de 1982
Federica abriu os olhos para um mundo diferente. Estava calor, mas a humidade no constitua um grande problema, uma vez que a brisa marinha transportava consigo
uma corrente submarina fresca, trazda de onde se detivera, entre as ondas do frio oceano Pacfico. O seu quarto ganhava lentamente vida sob a plida luz matutina
que penetrava pela fenda nas cortinas, lanando aveludados feixes de luz no cho e nas paredes, engolindo os ltimos vestgios da noite, expondo a fila regimental
de bonecas adormecidas. O ladrar constante do co da Senora Baraca, ao fundo da rua, deixara o animal com pouco mais que um latido rouco, mas o fiel amigo continuava
a ladrar como sempre fizera. Um dia perderia a voz por completo, pensou ela, o que no seria mau de todo; pelo menos, no contribuiria para as insnias dos vizinhos.
Certa vez, a caminho da escola, tentara dar-lhe uma bolacha, mas a me advertira-a que, provavelmente, o animal estava contaminado por toda a sorte de maleitas.
" melhor no lhe tocares, no sabes por onde andou", aconselhara ela, afastando a filha de seis anos pela mo. Contudo, o problema era esse mesmo; o co nunca estivera
em parte alguma. Federica inspirou o doce aroma das laranjeiras que flutuava pelo ar e quase conseguia sentir o sabor da fruta que pendia pesadamente, quais embrulhos
lustrosos, de uma rvore de Natal. Pontapeou para trs o lenol que a cobria e ajoelhou-se aos fundos da cama, inclinando-se por entre as cortinas para um mundo
que no era o mesmo de quando o Sol se pusera no dia anterior. com o nascimento do novo Sol, um estremecimento percorreu o seu magro corpo, fazendo com que um sorriso
largo se esboasse no seu rosto plido. Hoje, o seu pai regressava a casa ao fim de vrios meses em viagem.
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Ramon Campione era um homem enorme. No apenas em estatura

- com bem mais de um metro e oitenta, era alto para chileno e alto para italiano, uma vez que a sua famlia era originria de Itlia -, mas na sua enorme imaginao,
que, tal como a prpria galxia, parecia interminvel e cheia de surpresas. As suas aventuras levavam-no aos cantos mais recnditos do planeta, onde era inspirado
por tudo o que via de diferente e tudo o que testemunhava de belo. Viajava, escrevia e viajava mais um pouco. A famlia mal o conhecia. Nunca permanecia o tempo
suficiente para que descobrissem a pessoa por trs das palavras e das fotografias mgicas que tirava. Na mente da filha era mais poderoso que Deus. A menina dissera
certa vez ao padre Amadeo que Jesus no era nada comparado com o seu pai, capaz de muito mais que transformar a gua em vinho. "O meu pai consegue voar", dissera
ela com orgulho. A me sorrira apologeticamente para o sacerdote e revirara os olhos, explicando calmamente que Ramon experimentara uma nova engenhoca na Sua para
voar pela montanha de esquis. O padre Amadeo acenara com a cabea em sinal de compreenso, mas mais tarde abanou-a e preocupou-se que a criana, um dia, se magoasse
quando o pai tombasse, o que aconteceria sem dvida um dia, do elevado pedestal sobre o qual ela to cegamente o colocara. Deveria centrar tal devoo em Deus e
no num homem, pensou o sacerdote.
Federica ansiava que fossem horas de se levantar, mas era ainda cedo. O cu mostrava-se plido, tranquilo e to grande quanto uma vasta e resplandecente lagoa, e
apenas o co a ladrar e o chilrear dos pssaros ressoava contra o silencioso despertar da aurora. Do quarto conseguia ver o oceano a desaparecer no meio da nvoa
cinzenta no horizonte, como se o cu estivesse a sorv-lo. A me levava-os muitas vezes  praia de Caleta Abarca, uma vez que no tinham uma piscina para se refrescarem,
embora o mar fosse quase demasiado frio para permitir banhos. Por vezes, iam at  pequena aldeia litoral de Cachagua, a cerca de uma hora para norte, ao longo da
costa, e ficavam em casa dos avs, que tinham a uma bonita casa de Vero, com telhado de colmo, rodeada por enormes palmeiras e accias. Federica adorava o mar.
O pai dissera uma vez que ela adorava o mar porque nascera sob o signo do Caranguejo. Porm, ela no gostava muito de caranguejos.
Aps um longo momento escutou passos nas escadas e depois a voz aguda do seu irmo mais novo, Enrique, que recebera a alcunha de Hal em honra do prncipe Henrique
da pea de Shakespeare, Henrique IV. Tal
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fora ideia de Ramon - embora a sua esposa fosse inglesa, no tinha qualquer interesse por literatura ou histria a no ser que fosse sobre si mesma.
- Querida, j ests vestida! - exclamou Helena, surpreendida ao ver Federica atravessar o patamar a correr para o quarto do irmo, onde Helena o estava a vestir.
- O pap chega hoje! - entoou ela, incapaz de permanecer quieta por um momento.
- Pois chega - confirmou Helena, inspirando profundamente para refrear o ressentimento que sentia em relao ao ausente marido. - Est quieto com os ps, Hal. No
consigo calar-te os sapatos se continuares a balan-los.
- Achas que o pap chega antes do almoo? - perguntou Federica, ajudando automaticamente a me a abrir as cortinas e permitindo que o calor do Sol inundasse o sombrio
quarto com o entusiasmo que apenas a manh consente.

- Deve chegar antes do meio-dia, o avio aterra s dez - respondeu ela, pacientemente. - Muito bem, querido, ests um amor - acrescentou, penteando o cabelo preto
de Hal para trs com uma escova macia. Ele abanou a cabea em protesto e soltou um grito antes de se contorcer para sair da cama e correr para o patamar.
- Eu vesti o meu melhor vestido para ele - disse Federica, seguindo alegremente a me escada abaixo.
- Bem vejo, querida.
- Hoje vou ajudar a Lidia a preparar o almoo. Vamos fazer o prato favorito do pap.
- E qual  o prato preferido do pap?
- Pastel de choclo e como bolo de boas-vindas vamos fazer merengon de lcum - revelou Federica, sacudindo o seu cabelo louro dos ombros para que tombasse numa s
espessa madeixa pelas costas. Afastara-o da testa com uma bandelete o que, em conjunto com a sua pequena estatura, a fazia parecer ainda mais nova.
- O pap chega hoje - anunciou Federica a Hal enquanto ajudava a me a pr a mesa.
Prato tpico chileno de milho (choclo) ralado e transformado em pasta que se coloca sobre uma preparao de carne, cebola e outros ingredientes e vai ao forno. (N.
da T.)
 um bolo merengado de uma fruta subtropical, Pouteria lucuma, de origem andina. (N. da T.)
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- Ser que ele me traz um presente? - inquiriu Hal que, com quatro anos de idade, apenas se recordava do pai pelos presentes que este lhe trazia.
- Claro que traz, querido. Ele traz-vos sempre presentes - disse Helena, colocando uma chvena de leite frio frente ao filho. - Seja como for,  Natal, por isso
vo receber muitos presentes. - Federica supervisionou o irmo enquanto este mergulhava a colher na lata de chocolate em p e o despejava no leite. Pegou ento no
pano molhado que estava em cima do lava-loias para limpar o chocolate que no chegara  chvena. - Fede, os croissants esto prontos, j sinto o cheiro deles a
comearem a queimar avisou Helena, acendendo um cigarro. Olhou ansiosamente para o relgio na parede e mordeu o lbio inferior. Sabia que devia levar as crianas
ao aeroporto para irem buscar o pai, como outras mes fariam. Contudo, no se atrevia a tal. A embaraosa viagem desde o aeroporto de Santiago at  costa, todo
o caminho a fazer conversa de circunstncia, como se tudo fosse cor-de-rosa. No, seria muito melhor v-lo ali, a casa era grande, havia mais espao no qual ambos
se podiam perder. Que absurdo, pensou ela amargamente, que se tivessem perdido um ao outro h muito tempo, algures nas vastas distncias que haviam colocado entre
eles, algures nas terras distantes e personagens imaginrias que pareciam to mais importantes para Ramon do que as pessoas na vida dele, de carne e osso e que precisavam
de si. Ela tentara. Tentara com afinco, mas agora sentia-se vazia por dentro e cansada de ser negligenciada.

Federica espalhou manteiga num croissant e bebeu o seu leite gelado com chocolate, cavaqueando com o irmo com um entusiasmo que tornava a sua voz mais aguda e irritava
a me, de p junto  janela, soprando fumo contra o vidro. Outrora haviam estado apaixonados, mas at o dio era uma expresso de amor, apenas uma face diferente.
Agora Helena j no o odiava. Isso teria constitudo uma boa razo para ficar. Porm, o que sentia era indiferena e isso assustava-a. Nada poderia crescer desse
sentimento. Era uma emoo rida, to rida quanto a face da Lua. Helena construra uma vida para si no Chile porque acreditara, tal como a sua filha mais tarde,
que Ramon era Deus. Era seguramente o homem mais encantador e garboso que Polperro alguma vez vira. Depois, o seu artigo aparecera na National Geographic com fotografias
das antigas grutas dos contrabandistas e castelos em runas que Helena lhe mostrara, contudo, de alguma forma, as fotografias pareciam imersas numa luminosidade
que no pertencia  natureza. Havia qualquer coisa de mstico nas fotos que Helena no conseguia definir. Cada palavra que ele
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escrevia encantava-a e permanecia nos seus ouvidos muito depois de ela ter virado a ltima pgina. Agora reconhecia essa magia como sendo amor, pois seguira-os durante
os primeiros seis anos, convertendo at as coisas mais mundanas, tal como encher o depsito do carro com gasolina, numa experincia mgica. O amor que faziam pertencera
a outro plano bem acima do fsico, e ela acreditara que o poder estava dentro dele e nele apenas. S depois de se desvanecer  que se apercebeu que a ligao fora
cortada - como se se tratasse de electricidade, a "magia" deles fora criada pelos dois e cessava no instante em que um deles se sentisse desencantado com ela. E
uma vez desaparecida, extinguir-se-ia para sempre. Esse tipo de bruxaria detinha um grande poder, mas um curto perodo de vida. A princpio tinham viajado juntos,
at aos confins da China, aos ridos desertos do Egipto e aos lagos da Sucia. Quando ela engravidou de Federica regressaram para se instalar no Chile. A "magia"
deles seguira-os at a tambm, onde a costa de areias finas e brancas e a simplicidade pastoral a encantara. Porm, agora ecoava o vazio que ela sentia dentro de
si porque o amor que preenchera o local se esgotara. No havia motivos para ficar. Estava cansada de fazer de conta. Estava farta de fazer de conta para si mesma.
Ansiava pelos chuvosos e verdejantes montes da sua juventude e a saudade fazia-lhe tremer as mos. Acendeu novo cigarro e olhou mais uma vez para o relgio.
Federica arrumou a loia do pequeno-almoo, cantarolando para si mesma e danando aos pulinhos pela cozinha. Hal brincava com o seu comboio na sala de brincar. Helena
permanecia junto  janela.
- Mam - gritou Hal. - O meu comboio est estragado, no anda. - Helena pegou no mao de cigarros e abandonou a cozinha, deixando Federica a acabar de arrumar tudo.
Depois de levantada a mesa e lavada a loia, colocou o avental e esperou que Lidia chegasse.
Quando Lidia entrou, afadigada, pelo porto, viu o pequeno e ansioso rosto de Federica pressionado contra o vidro, sorrindo alegremente para si.
- Boa, senorita - cumprimentou sem flego ao entrar no vestbulo. - Ests pronta bem cedo.
- At j arrumei a mesa do pequeno-almoo - respondeu Federica em espanhol. Embora a me falasse fluentemente espanhol, em famlia sempre tinham falado ingls, mesmo
quando o pai estava em casa.
-- Pois, s uma boa menina - arquejou Lidia, seguindo a criana at  cozinha. - Ah, meu anjo, j trataste de tudo comentou, lanando
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os seus olhos escuros para as tigelas e colheres j dispostas sobre a mesa.
- Quero que fique tudo perfeito para o pap - explicou Federica, as suas faces ruborizadas. Mal conseguia conter a sua impacincia e refreou o seu desejo de correr,
avanando aos pulinhos em vez de andar. Dessa forma, os nervos miudinhos que sentia no estmago eram saciados, mas no em demasia. Ldia debateu-se para vestir o
macaco cor-de-rosa e lavou as morenas mos inchadas. Sugeriu que Federica fizesse
o mesmo.
- Tens sempre de lavar as mos antes de cozinhar. No sabemos por onde andaram - aconselhou.
- Como o co da Senora Baraca - comentou Federica.
- Pobrecito - suspirou Lidia, inclinando a sua redonda cabea para um lado e esboando um meio sorriso. - Preso todo o dia naquele quintal to pequeno, no admira
que ladre de manh  noite.
- Ela nunca o leva a passear? - perguntou Federica, passando as mos por baixo da torneira.
- Sim, ocasionalmente, mas j est velha - respondeu Lidia e ns, as pessoas velhas, no temos assim tanta energia para coisas dessas.
- Tu no s velha, Lidia - argumentou Federica num tom amvel.
- Velha, no, apenas gorda - disse Helena em ingls, entrando na cozinha com a locomotiva de brincar de Hal. - Teria muito mais energia se no comesse tanto. Imaginem
suportar todo aquele peso o dia inteiro. No admira que respire como um asmtico.
- Buenos dias, senora - cumprimentou Lidia, que no entendia ingls.
- bom dia, Lidia. Preciso de uma faca para consertar este maldito comboio - disse Helena em espanhol, sem sequer tentar forar um sorriso, por mais pequeno que fosse.
Estava demasiado ansiosa e impaciente para pensar em quem quer que fosse que no ela mesma.
- Se fosse a si, no me preocupava com isso. Dom Ramon no tarda estar em casa e ele saber arranjar isso.  trabalho de homem - disse Lidia, alegremente.
- Obrigada, Lidia, foi de uma grande ajuda. Fede, passa-me uma faca - disse Helena, contrariada. Federica estendeu-lhe uma faca e ficou a observ-la a sair da cozinha.
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- Oh,  to emocionante que o teu pap chegue hoje - comentou Lidia num tom animado, abraando Federica com carinho. - Aposto que esta noite nem conseguiste dormir.
- No preguei olho - respondeu a menina, olhando para o relgio. - No tarda estar aqui - disse e Lidia reparou que as suas pequenas mos tremiam quando comeou
a cortar a manteiga em pedaos.
- Cuidado para no te cortares - advertiu carinhosamente. No queres que o teu pap chegue a casa e cumprimente uma filha com apenas sete dedos. - Riu a cozinheira,
depois arquejou e tossiu.
Helena, habitualmente muito hbil a consertar coisas, partiu a locomotiva. Hal comeou a chorar. Helena puxou-o para si e conseguiu anim-lo com a promessa de lhe
comprar outra locomotiva, maior, melhor.

- De qualquer maneira, esta locomotiva j estava velha e gasta. De que serve uma locomotiva assim? O comboio fica muito melhor sem a locomotiva - argumentou e pensou
no quanto ela mesma gostaria de ser uma carruagem independente, sem uma locomotiva. Acendeu mais um cigarro. As portas para o jardim estavam abertas, convidativas
 suave brisa marinha que cheirava a laranjas e ozono. Estava demasiado calor para ficarem ali parados nos subrbios. Deviam era estar na praia, pensou com frustrao.
Limpou a testa transpirada com a mo e consultou o relgio. Sentiu um aperto na garganta. O avio dele j teria aterrado.
Federica e Lidia afadigavam-se pela cozinha como um par de abelhas num canteiro. Federica adorava ser includa nos preparativos e seguia as instrues de Lidia com
grande entusiasmo. Sentia-se como uma adulta e Lidia tratava-a como tal. Cavaqueavam acerca das dores de costas e cibras no estmago de Lidia e sobre a verruga
do seu marido, que lhe causava muitos problemas.
- Tenho medo de colocar os ps onde ele ps os dele - explicava ela -, por isso uso meias at no duche.
- Eu c tambm teria - concordou Federica, sem saber ao certo o que seria uma verruga.
- s sensvel como eu - respondeu Lidia, sorrindo para a escanzelada criana que tinha um modo de ser avanado para a idade. Lidia achava que Federica era demasiado
madura para uma criana de quase
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sete anos, mas bastava olhar-se para a me dela para perceber porqu. Helena dava-lhe tanta responsabilidade, demasiada provavelmente, que a menina seria bem capaz
de gerir toda a casa sem ela.
Quando Helena entrou na cozinha, o cheiro do pastel de choclo inundou-lhe os sentidos e o seu estmago contorceu-se de fome e tenso. Federica limpava a loia, enquanto
Lidia lavava os utenslios e as tigelas. Helena conseguiu roubar o que restava do recheio antes de as mos sapudas de Lidia mergulharem a malga na gua. Raspou o
dedo em redor do fundo da tigela e levou-o aos lbios plidos.
- Muito bom, querida - disse ela, impressionada. Sorriu para a filha e passou-lhe a mo pelo sedoso cabelo louro. - s uma ptima cozinheira. - Federica sorriu,
acostumada aos humores variveis da me. Um minuto estava irascvel, no minuto seguinte bem-disposta, ao contrrio do pai, que se mostrava sempre alegre e descontrado.
O elogio de Helena deliciou Federica como de costume, fazendo-a inchar ao ponto de parecer at mais alta.
-  no apenas uma boa cozinheira, senora, como tambm uma ptima dona de casa - comentou Lidia, ternamente, o enorme sinal negro no seu queixo estremecendo ao mesmo
tempo que contorcia o rosto num sorriso largo. - Arrumou a mesa e a loua do pequeno-almoo sozinha - acrescentou ainda num tom mais ou menos acusador, pois a senora
Helena deixava sempre tudo para a filha fazer.
- Eu sei - respondeu Helena. - No imagino o que faria sem ela

- disse num tom indiferente, sacudindo a cinza do cigarro para o caixote e abandonando a cozinha. Encaminhou-se para o andar de cima. Estava cansada. O corao pesava-lhe
de tal maneira que at subir as escadas lhe pareceu um esforo hercleo. Avanou pelo fresco corredor branco, os ps descalos pisando as ripas de madeira do soalho,
a mo demasiado desencantada at para acariciar as orqudeas nos vasos,  medida que passava. No seu quarto, as cortinas de linho branco brincavam com a brisa como
se tentassem abrir-se sozinhas. Irritadamente, afastou-as e contemplou o mar. Jazia trmulo e iridescente, convidando-a a zarpar com ele para outras paragens. O
horizonte prometia-lhe liberdade e uma vida nova.
- Mam, queres que te ajude a arrumar o quarto? - inquiriu Federica num tom suave. Helena virou-se e olhou para o rosto pequeno e inocente da filha.
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- Presumo que queiras pr tudo bonito para o pap - comentou, agarrando num cinzeiro e apagando o cigarro nele.
- bom, apanhei umas flores... - respondeu ela com um ar envergonhado.
Helena sentiu um aperto no corao. Condoa-se pela filha, pelo amor que ela sentia pelo pai, apesar das longas ausncias que deviam, quando muito, faz-la odi-lo.
Mas no, a menina amava-o incondicionalmente e quanto mais ele se ausentava mais feliz ela ficava por v-lo quando regressava, correndo para os seus braos como
uma amante agradecida. Ansiava por dizer-lhe a verdade e despedaar-lhe as iluses, por despeito, porque desejava partilhar ainda dessas iluses. Achava o mundo
das crianas to ditosamente simplista e invejava a filha.
- Est bem, Fede. Pe tudo bonito para o pap. Ele vai adorar as flores, tenho a certeza - concordou relutantemente. - Faz de conta que no estou c - acrescentou
ainda, avanando para a casa de banho e fechando a porta atrs de si. Federica escutou-a abrir a torneira do chuveiro e a gua bater contra a banheira de esmalte.
Fez ento a cama, perfumando os lenis com lavanda fresca como a av lhe ensinara, e colocou um pequeno jarro azul de madressilvas sobre a mesa-de-cabeceira do
pai. Dobrou a roupa da me e guardou-a no velho armrio de carvalho, arrumando a confuso com que a se deparou at as prateleiras se assemelharem a uma loja bem
organizada. Abriu ento a janela o mais que pde para que os aromas do jardim e do mar afugentassem o ftido cheiro dos cigarros da me. Depois sentou-se frente
ao toucador e ps de p uma fotografia antiga do pai que sorria para si por detrs do vidro de uma ornamentada moldura de prata. Era muito bem parecido, com o seu
lustroso cabelo preto, pele morena, olhos castanhos reluzentes, sinceros e inteligentes e uma enorme boca que esboava o sorriso torcido de um homem com um sentido
de humor irreverente e encantador. Acariciou o vidro com o polegar e surpreendeu a sua expresso melanclica no espelho. No reflexo viu apenas a sua me. O cabelo
louro-plido, os olhos azul-claros, os plidos lbios cor-de-rosa, a pele descorada - desejava ter herdado os traos italianos do pai. Ele era to bonito e, sem
dvida, que um dia Hal seria to encantador quanto ele. Porm, Federica estava habituada a receber muita ateno devido ao seu longo cabelo claro, quase branco.
Todas as restantes meninas da sua turma eram morenas como Hal. As pessoas fitavam-na quando ia a Valparaso com a me, e a senora Escobar, que geria a loja de sanduches
na
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praa, chamava-lhe "La Angelita" (pequeno anjo) porque no acreditava que um ser humano pudesse ter um cabelo to claro. A melhor amiga de Helena, Lola Miguens,
tentara copi-la, oxigenando o cabelo, mas a meio do processo perdera a coragem, por isso agora andava pela cidade com o cabelo da cor dos telhados de terracota,
o que Federica achava muito feio. A me no se preocupava em cuidar de si mesma como as mulheres chilenas, que traziam sempre as unhas compridas e pintadas, batom
e roupas imaculadas. Helena andava com o cabelo apanhado despreocupadamente em cima da cabea e um cigarro pendurado nos lbios. Federica achava que a me ficava
lindssima quando se esforava e, a julgar por fotografias antigas, fora outrora uma bonita mulher. Contudo, recentemente, desleixara-se. Federica esperava que ela
fizesse um esforo pelo pai.
Helena emergiu da casa de banho numa nuvem de vapor. Tinha as mas do rosto rosadas e os olhos brilhantes da humidade. Federica deitou-se sobre a colcha branca
adamascada e observou a me a preparar-se para o regresso do marido. Helena sentiu o aroma a lavanda e o perfume doce das laranjas e coibiu-se de acender outro cigarro.
Sentia-se culpada. Federica estava to entusiasmada que, qual cavalo na linha de partida, no parava quieta, ao passo que ela aguardava o regresso de Ramon com nervosismo
e o conhecimento secreto de que a qualquer momento reuniria coragem e o abandonaria de vez. Enquanto maquilhava o rosto, observou a filha pelo espelho, sem que esta
soubesse que estava a ser observada. Federica contemplava o mar pela janela aberta como se o pai chegasse de barco e no de carro. O seu perfil era infantil, contudo,
a sua expresso era a de uma mulher adulta. A ansiosa expectativa na sua testa e lbios trementes evidenciavam demasiada sabedoria para uma criana da idade dela.
Venerava o pai com a devoo de um co, ao passo que Hal venerava a me, que, segundo Helena, era mais merecedora do seu amor.
Depois de pronta, vestindo um par de calas justas brancas e uma T-shirt, o cabelo amassado e preso no cimo da cabea, ainda molhado e por pentear, Helena sentou-se
na cama ao lado da filha e acariciou-lhe o rosto com a mo hmida.
- Ests linda, querida. A srio que sim - elogiou e beijou afectuosamente a testa inocente da filha.
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- Ele no demora, pois no? - perguntou Federica.
-J no deve tardar - respondeu Helena, dissimulando o tremor na sua voz com uma habilidade que advinha de anos de prtica. Levantou-se abruptamente e desceu as
escadas  pressa. No podia fumar no quarto, seria impensvel depois de Federica o ter preparado com tanto carinho, mas estava desesperada por um cigarro. Ao chegar
ao fundo das escadas, as suas alpergatas a tocar nos frios ladrilhos de pedra do vestbulo, a porta da frente abriu-se e Ramon preencheu a soleira da porta como
um enorme lobo preto. Helena sobressaltou-se e o seu estmago contorceu-se. Olharam um para o outro, avaliando sem palavras o frgido afastamento que ainda crescia
entre eles, sempre que se encontravam juntos na mesma diviso.

- Fede, o pap chegou! - gritou Helena, mas por mais impassveis que as suas feies se revelassem, a voz deixava entrever uma emoo reprimida. Os olhos castanho-escuros
de Ramon desviaram-se do semblante empedernido da mulher em busca da filha que escutara guinchar de alegria, antes de o precipitado tamborilar dos seus pequenos
ps se fazer ouvir pelo soalho do patamar e pelas escadas, descidas duas a duas. Passou pela me e saltou para os braos fortes do pai. Envolveu o hirsuto pescoo
dele com os seus magros braos e afundou o rosto na garganta dele, inalando aquele aroma condimentado e poderoso que o tornava diferente de todas as restantes pessoas
do mundo. Ele beijou-lhe o rosto quente, levantando-a do cho e rindo com tanta fora e to alto que sentiu a vibrao ressoar no seu corpo como se fosse um tremor
de terra.
- Ah, vejo que tinhas saudades minhas! - comentou ele, andando com ela  volta at ela se ver forada a enrolar as pernas em redor da cintura dele para no cair.
- Sim, pap! - ria Federica, agarrada ao pai ao mesmo tempo que a felicidade que sentia quase a sufocava.
Nesse momento Hal correu para o vestbulo, olhou para o pai e irrompeu em lgrimas. Helena, grata pela distraco, correu para ele e pegou-lhe ao colo, beijando-lhe
as faces hmidas.
-  o pap, Hal. O pap j chegou - disse ela, tentando animar um pouco a voz, porm o seu tom era indiferente, e Hal apercebeu-se disso e comeou outra vez a chorar.
Ramon pousou a filha e avanou at ao rapazinho.
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- Halcito,  o pap - disse ele, sorrindo para o rosto assustado da criana com os seus grandes e generosos lbios. Hal escondeu a cara no pescoo de Helena e abraou-se
ainda mais  me.
- Lamento, Ramon - desculpou-se ela, pressentindo o desapontamento dele, mas ficando secretamente agradada com a rejeio do filho. Queria dizer-lhe que no podia
esperar que os filhos o amassem quando ele no fazia parte da vida deles, mas via o amor que Federica sentia por ele incendiar-lhe as mas do rosto e a admirao
reluzir nos seus olhos plidos e confiantes e percebeu que isso no era inteiramente verdade. No obstante, ele no merecia o amor da filha.
- Tenho um presente para ti, Hal - revelou ele, afastando-se na direco da mala e abrindo-a. - E tenho um para ti tambm, Fede - acrescentou, ao mesmo tempo que
a filha lhe colocava afectuosamente a mo no ombro enquanto ele vasculhava o contedo da mala em busca das prendas. - Ah, isto  para ti, Hal - anunciou, aproximando-se
de novo do filho cujos olhos se esbugalharam ao contemplar o colorido comboio de madeira que o pai abanava  sua frente. Esqueceu o seu medo e estendeu as mos.
- Toma, achei que ias gostar.
- Eu parti a locomotiva dele hoje - disse Helena, fazendo um esforo em prol dos filhos. - No podia ter vindo em melhor altura, no , Hal?
- ptimo - respondeu Ramon, regressando  mala. - Ora bem, e agora onde est o teu presente, Fede? Trouxe-te uma coisa muito especial - declarou, olhando para o
rosto expectante da filha. Sentiu de novo a mo dela nas suas costas. Era muito tpico de Federica precisar de ter sempre algum tipo de contacto fsico para se sentir
prxima. Enterrou as mos mais profundamente na mala que estava recheada no de roupas mas de cadernos de apontamentos, equipamento fotogrfico e recordaes de
pases distantes. Por fim, os seus dedos sentiram a superfcie spera do papel de seda. Puxou o embrulho para fora, acautelando-se para no bater com ele contra
o seu equipamento. - Aqui est - declarou, colocando-o sobre as trmulas mos de Federica.

- Obrigada, pap - disse ela, desembrulhando o presente com todo o cuidado. Hal correra para o quarto de brincar para testar o seu novo comboio. Helena acendeu um
cigarro e fumava-o com nervosismo, encostada contra o corrimo da escada.
- E como  que tu ests? - inquiriu Ramon sem se aproximar dela.
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- ptima, como sempre. Nada mudou - respondeu friamente.
- Muito bem - replicou ele.
Helena suspirou como se estivesse exausta.
- Temos de falar, Ramon.
- Agora no.
- Claro.
- Mais tarde.
Federica desembrulhou o papel e descobriu uma caixa de madeira toscamente esculpida. No era bonita. No era sequer encantadora. Sentiu as lgrimas arderem-lhe nos
olhos e um n apertar-lhe a garganta. Estava desiludida. No era por querer um presente melhor, pois no era materialista ou mimada, mas porque o presente de Hal
era bem mais bonito que o seu. Federica entendia os presentes do pai como um reflexo do seu amor. No deveria am-la muito, se nem se dera ao trabalho de lhe arranjar
uma prenda bonita.
- Obrigada, pap - disse ela meio sufocada, engolindo as lgrimas com vergonha. -  muito bonita. - Contudo, no teve foras para se rebelar contra as suas emoes.
Contivera a ansiedade toda a manh e j no havia espao para a desiluso. As lgrimas marejaram-lhe os olhos e correram-lhe pelo rosto.
- Fede, mi amor - surpreendeu-se ele, abraando-a e beijando-lhe as faces.
-  bonita - repetiu ela, tentando soar agradecida e no querendo ofend-lo.
- Abre-a - sussurrou-lhe ele ao ouvido. Ela hesitou. - V, amorcita, abre-a. - Federica levantou a tampa com a mo a tremer. A pequena caixa podia ser simples por
fora, feia at, mas por dentro era a coisa mais bela que ela alguma vez vira e, para alm disso, tocava a melodia mais estranha e encantadora que jamais escutara.
CAPITULO DOIS

Federica contemplou a caixa de boca aberta. O interior estava coberto de pequenas pedras de todas as cores que reluziam, como se cada gema contivesse um pequeno
corao de luz muito prprio. No havia um nico pedao de madeira, nem uma fresta mnima exposta entre os hipnotizantes cristais. Vista de dentro, a caixa parecia
ser feita apenas de jias e nem um pouco de madeira, como o centro de uma rocha cristalizada. No fundo da caixa estremeciam as delicadas asas de uma borboleta cujas
cores variavam entre um azul-escuro, o mais plido tom de azul-marinho e por fim o mbar. Eram to delicadas que Federica lhes tocou com a ponta do dedo para se
convencer de que eram pedras verdadeiras e no gotas de gua luzente de uma lagoa encantada. Uma estranha luz iridescente fazia a borboleta estremecer como se estivesse
prestes a estender as asas e levantar voo. Federica deslocou a caixa cuidadosamente para um lado e para o outro para ver de onde vinha a luz, e de imediato ficou
maravilhada com o movimento mgico da borboleta que, quando ela inclinou a caixa, passou de azul a rosa, a encarnada, a cor de laranja. Suspendeu a respirao e
colocou a caixa de novo direita. A borboleta adquiriu de novo os seus tons marinhos antes de se tornar uma vez mais flamejante, quando Federica experimentou inclinar
de novo a caixa.
-  linda - fungou, sem levantar os olhos daquela brilhante arca do tesouro.
- A beleza nem sempre est por fora, Fede - explicou o pai ternamente, abraando-a. Levantou os olhos para a sua esposa que continuava encostada ao corrimo a soprar
fumo para o ar como um drago. Helena suspirou impacientemente e abanou a cabea antes de se encaminhar para o corredor, o fumo a flutuar por trs de si como se
fosse
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um fantasma. Queria dizer-lhe que no podia comprar o amor da filha com presentes para sempre.
Contudo, infelizmente, sabia que ele nem sequer tinha de o comprar; j o tinha de graa.
Ramon ergueu-se e desviou os olhos do rasto de fumo que, em conjunto com a animosidade, era tudo o que restava da sua mulher. Contemplou o rosto radiante da filha,
absorta em relao  tenso que fazia o ambiente toldar-se com a fora invisvel do desapontamento. Passou a mo pelo queixo barbudo e pelo cabelo preto sujo que
j lhe chegava aos ombros. Estava calor. Precisava de ar e de um banho de mar. Ansiara por regressar a casa, arquitectara o regresso na sua cabea, romantizara-o.
Contudo, agora que estava em casa queria partir outra vez. O lar era sempre mais doce nas miragens da sua mente. Era melhor deix-lo a mesmo.
- Anda da, Fede - desafiou ele. - Vamos at  praia, s tu e eu. Traz a caixa contigo. -- Federica ps-se de p de um pulo, apertou o seu tesouro contra o esqulido
peito e, dando a mo ao pai, seguiu-o pela porta da frente.
- E a mam e Hal? - perguntou, delirante de alegria por s ela ter sido escolhida para ir com o pai.
- O Hal est satisfeito a brincar com o seu comboio e a mam fica a tomar conta dele. Para alm disso, quero contar-te como descobri a tua caixa. H uma lenda muito
triste ligada  caixa e eu sei o quanto gostas de histrias.
- Adoro as tuas histrias - apressou-se ela a dizer, avanando aos pulinhos para acompanhar as grandes passadas do pai.
Helena observou impotentemente o seu marido a sair de casa, levando consigo o esmagador peso da sua presena, e de repente sentiu-se enganada, como se a presso
que se acumulara no seu peito tivesse sido por nada. A casa parecia tranquila e, de alguma forma, maior do que quando o possante corpo dele a preenchera. Frustrada,
Helena mordeu o lbio inferior. "Como se atreve ele a deixar-nos", pensou com amargura. "Porque no fica por c ao menos por uma vez?"
O sol do meio-dia estava escaldante, apesar da brisa marinha que o tentava arrefecer. Desceram a rua, passando pelo co da Senora Baraca que puxou pela trela e emitiu
um frentico conjunto de latidos quando
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os viu. Federica contou ao pai que o co ladrava todo o tempo porque queria correr para um lado e para o outro e no o podia fazer naquele pequeno quintal.
- bom, ento levemo-lo a passear - sugeriu Ramon.

- A srio? Podemos? - respondeu, entusiasmada. Observou com orgulho o pai tocar  campainha. Esperaram  sombra de uma amendoeira. O som de crianas a brincar na
rua ressoava pelo ar, as suas risadas semelhantes  melodia de aves marinhas na praia. Federica no desejava estar junto delas. Desejava apenas que o pai ficasse
desta vez e nunca mais partisse.
- Si? - escutou-se uma voz por trs da porta. Era grossa e gutural, abafada pelo catarro na sua garganta.
- Senora Baraca.  Ramon Campione - disse ele com a firmeza prpria de tudo o que fazia. Federica endireitou-se, imitando o seu pai que caminhava sempre muito direito.
- E  mesmo Ramon Campione - confirmou a mulher, aventurando-se para fora de casa como um corvo tmido. Era idosa e corcovada e usava um vestido preto de luto embora
o marido j tivesse morrido h mais de uma dcada. - Achava que estava do outro lado do mundo
- cacarejou a idosa.
- Agora estou em casa - respondeu Ramon, suavizando um pouco a voz para no a assustar. Federica apertava com fora a mo do pai. - A minha filha gostaria muito
de levar o seu co a dar um passeio pela praia. Talvez ns lhe pudssemos fazer o favor de o exercitar.
A idosa mastigou as gengivas por um momento.
- Bem, eu conheo-vos, por isso no mo iro roubar - pensou em voz alta. - Talvez o consigam calar por mim. Se no der em doida de sofrimento, fico louca com tanto
ladrar.
- Faremos o melhor que pudermos por si - garantiu ele e sorriu cortesmente. - No  assim, Fede? - Federica encostou-se mais a ele e baixou os olhos, envergonhada.
Os dedos nodosos da Senora Baraca atrapalharam-se com a trela, os plos do seu queixo iluminados como teias de aranha pelo sol. Por fim, abriu o porto e entregou
o co a Ramon. O co parou de ladrar e comeou a pular, a arquejar e a resfolegar com o entusiasmo de um prisioneiro libertado.
- O nome dele  Rasta - informou a mulher com as mos nas ancas. - O meu filho deu-mo antes de ter desaparecido de vez.  tudo o que me resta. Preferia ter o meu
filho, faria muito menos barulho.
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- Traremos o Rasta de volta antes do almoo - assegurou Ramon.
- Como quiser, Dom Ramon - respondeu a mulher, pestanejando contra a luz do sol com o desconforto de uma criatura que se acostumou  escurido da sua melancolia.
Ramon e Federica avanaram colina abaixo em direco ao mar, quase a correr para acompanhar Rasta, que pulava e trotava  frente deles, esticando a trela at ao
limite, sequioso de farejar cada porto e poste, cada pedao de relva ou rvore, alando a perna, indiscriminadamente, onde quer que captasse o odor de outro animal.
Estava ridiculamente feliz. O corao de Federica transbordava de alegria ao testemunhar o escanzelado rafeiro negro desfrutar de liberdade pela primeira vez em
muitos meses, talvez. Olhou para o pai cheia de admirao. No havia nada que ele no pudesse fazer.

Atravessaram a estrada que corria paralelamente  costa e depois desceram os degraus at  praia de Caleta Abarca. Uma ou duas pessoas deambulavam para cima e para
baixo, uma criana brincava com um pequeno co, lanando uma bola para o mar e incentivando-o a ir busc-la. Federica descalou as sandlias e sentiu a areia macia,
como a farinha de Lidia, por entre os dedos. Ramon vestiu os cales de banho, deixando a roupa e os mocassins de couro numa pilha e Federica a tomar conta dela
enquanto ele se ia refrescar nas frias guas do Pacfico. Observou-o a correr em direco ao mar, seguido avidamente por Rasta. Era forte e peludo com o robusto
fsico de um homem capaz de escalar montanhas, e, contudo, caminhava e deslocava-se com uma graciosidade surpreendente. A imaginao de Ramon Campione era to vasta
e misteriosa quanto o mar, recheada de naufrgios e continentes afundados. Federica crescera a escutar as histrias dele e, de certa forma, tais histrias haviam
tornado a ausncia dele menos vincada. Quando contemplava a sua curta vida, via apenas os longos passeios pela frtil mente do pai. Essas eram as aventuras de que
se recordava, no os muitos meses de seca. Observou-o a chapinhar com Rasta na resplandecente gua. A luz reflectia-se nos cumes das ondas e no cabelo lustroso dele
e, se no soubesse que se tratava do seu pai, poderia at ter afirmado que era uma foca brincalhona. Repousou a caixa no colo e passou a mo pela spera superfcie
de madeira. Interrogou-se a quem pertencera outrora. Um frmito de expectativa percorreu-lhe a coluna ao pensar noutra histria
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mgica. Abriu a caixa ao som de minsculos guizos e maravilhou-se mais uma vez com as refulgentes gemas que faziam as asas de borboleta abanar.
Por fim, o corpo molhado de Ramon sentou-se ao lado dela na areia quente para secar sob o sol. Rasta, relutante em parar de desfrutar da sua liberdade por um momento
sequer, galopava para cima e para baixo na praia, jogando  apanhada com o mar. Ramon estava satisfeito por a filha gostar da caixa. Ela merecia-a. Afinal de contas,
Helena tinha razo, no era um bom pai. Os bons pais ofereciam o seu tempo livre aos filhos. Ele no podia ser esse tipo de pai. No estava na sua natureza. Era
um vagabundo, um nmada. A me costumava dizer-lhe que as crianas davam de acordo com o que os pais investiam. Bem, nesse caso, ele deveria ter feito alguma coisa
de bom, pois Federica amava-o, e esse amor era evidente. Contemplou o horizonte azul e interminvel e interrogou-se quanto tempo permaneceria nesta costa antes que
os seus irrequietos ps levassem a melhor e os ventos de novas aventuras soprassem  sua janela, seduzindo-o para longe.
- Conta-me a lenda, pap - pediu Federica. Ramon ergueu a filha e colocou-a entre as suas pernas, de forma a ficar sentado por trs dela com os braos em redor do
seu corpo e o pescoo eriado contra o dela. Olharam ambos para o mosaico de cristais e escutaram o suave tinir das minsculas campnulas.

- Esta caixa pertenceu outrora a uma formosa princesa inca - comeou ele. Federica arquejou deliciada. Adorava as histrias dele e aconchegou-se melhor no corpo
do pai, pois sabia que esta seria especial. Manteve a caixa aberta nas pregas do seu vestido amarelo, passando as pontas dos dedos delicadamente pelas pedras e virando-a
para um lado e para o outro para ver as cores mudarem misteriosamente, como que por magia. - A princesa inca chamava-se Topahuai e vivia num palcio na aldeia de
Pisac, no Peru. Os Incas foram uma antiga civilizao indgena que venerava o Sol, Inti, e prestava homenagem ao seu imperador. Abaixo do imperador havia a nobreza,
os "incas capac", os verdadeiros descendentes do inca fundador, Manco Capac. Topahuai fazia parte de uma dessas casas governantes chamadas panacas. A sua pele era
macia e morena, o seu rosto redondo, e tinha perspicazes olhos verdes e cabelos
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negros e compridos que ela penteava numa trana que lhe pendia pelas costas quase at ao cho. Era admirada por toda a gente e todos os jovens da nobreza ansiavam
por despos-la. Porm, Topahuai estava secretamente apaixonada por um homem de nascimento humilde, um membro dosyanakuna, uma casta que servia os panacas. Um casamento
entre estas duas classes to distintas era impensvel, mas Topahuai e Wanchuko, que era o nome do jovem, amavam-se tanto que desafiavam as leis da sua terra e encontravam-se
em segredo. Por vezes, Topahuai disfarava-se de mulher da castayanakuna e passeavam despercebidos pelas ruas, davam as mos longe dos olhares desconfiados dos familiares
dela e at se beijavam quando ningum estava a olhar. Ora, Topahuai tinha apenas treze anos. Poders achar que  uma idade muito tenra para uma rapariga pensar em
casamento, mas naquela poca os treze anos eram o incio da idade adulta para as mulheres, e os pais da princesa tinham j comeado a procurar um marido apropriado
para ela. Topahuai sentia-se presa num mundo de rgidos cdigos sociais. Sabia no seu ntimo que teria de casar com um homem de sangue nobre e desistir de Wanchuko
para sempre. Assim, Wanchuko decidiu fazer-lhe uma caixa que passasse to despercebida que ela poderia lev-la consigo para onde quer que fosse sem levantar suspeitas,
mas que contivesse no seu interior uma mensagem secreta que apenas ela perceberia e que lhe recordaria o amor que ele sentia por ela. Assim, Wanchuko comeou a talhar
uma simples caixa de madeira. F-la to simples e rude que era quase feia.
"Depois de talhada a caixa, correu montes e cavernas em busca das mais belas pedras que conseguisse encontrar. Algumas eram preciosas, algumas eram simples cristais,
outras eram gemas raras que retirava do fundo de lagos, pedras de um azul e verde to requintado, que lhe pareciam ser feitas de gua cristalina. Uma vez reunidas
todas as pedras, fechou-se no seu pequeno quarto e cinzelou e talhou sem descanso cada pedra, engastando-a no interior da caixa. Depois, concebeu uma caixa bem mais
pequena que continha um mecanismo especial, inventado por ele, para que quando a caixa maior fosse aberta uma singular melodia, semelhante ao tilintar de pequenos
sinos, ressoasse no seu interior. Reza a lenda que a caixa era mgica, talhada com a fora do amor que ele sentia pela princesa, o qual no era deste mundo. Fora
com a ajuda dessa vibrao que as pedras haviam sido engastadas no seu lugar, como que por
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sortilgio.  que Wanchuko no usou qualquer tipo de cola, como outros artesos teriam feito. As pedras seguravam-se mutuamente, formando um magnfico mosaico. Se
uma pedra fosse tirada do seu lugar, todas as restantes cairiam e a imagem perder-se-ia para sempre. Assim se v que a caixa ter sido feita por intermdio de magia.
No h outra explicao. No fundo da caixa, Wanchuko desenhou uma borboleta que simboliza a priso de Topahuai e a beleza dela. Quando lha ofereceu, a princesa chorou
grossas lgrimas argnteas e afirmou que desejava ter asas como uma borboleta para poder voar dali para longe com ele. O que Wanchuko no sabia era que o simbolismo
da borboleta ultrapassaria a priso e a beleza. As borboletas apenas vivem um dia. A vida de Topahuai seria abreviada, tal como a da borboleta, no auge da sua magnificncia.
"O Imprio Inca encontrava-se tambm no apogeu do seu poderio. Era o maior e mais poderoso imprio que a Amrica do Sul alguma vez conhecera. Mas a sua sorte mudaria
drasticamente.
"Os Espanhis aportaram nas costas da Amrica e conquistaram o Peru, num dos mais sangrentos episdios na histria do imprio. Foi nessa altura, quando toda a esperana
se esgotara e o sangue de milhares de incas tingia os rios e corria montanhas abaixo at aos vales, que resolveram sacrificar a bela e querida Topahuai ao deus da
guerra, numa desesperada tentativa para que a divindade os salvasse. Segurando a caixa contra o peito, a princesa fora adornada com um requintado vestido de ls
tecidas e o seu cabelo fora entranado com uma centena de cristais reluzentes. Sobre a sua cabea colocaram um enorme leque de penas brancas que a transportariam
at ao outro mundo e afugentariam os demnios que pudesse encontrar pelo caminho. Wanchuko foi incapaz de a salvar. Pde apenas assistir, impotente e despedaado,
 procisso de sumo sacerdotes e dignitrios que a conduziu pelo estreito trilho montanhoso. Quando passou junto a ele, os seus grandes olhos verdes fixaram-no com
uma tal intensidade que uma luz se acendeu em redor da cabea dela, uma luz que no era deste mundo. Os lbios dele tremiam, esticou o brao para agarrar o manto
que a cobria, num esforo para a salvar. Mas foi intil. O squito passou por ele e continuou a palmilhar o trilho, penetrando na bruma da montanha, e prosseguindo
at  ponte que ligava este mundo e o prximo, ponte essa que Topahuai teria de atravessar sozinha. Wanchuko estava demasiado zangado para chorar, demasiado receoso
para correr atrs dela. Ficou petrificado no seu lugar,
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 espera, desejando que tudo aquilo terminasse. Ao abrir a mo viu um brilhante pedao de tecido na sua palma tremente. Um momento depois escutou um grito breve
e lancinante. Virou a cabea na direco da montanha, onde o grito ecoou momentaneamente nos picos escarpados, antes de desaparecer no vento. Quando voltou a olhar
para a mo, o pedao de l transformara-se numa resplandecente borboleta. Assombrado, observou-a a bater suavemente as asas na sua palma, por uns segundos, como
se atordoada pela sua prpria metamorfose. Depois levantou voo. Topahuai tornara-se, afinal de contas, numa borboleta e o seu esprito era agora livre.
Federica estava to emocionada, que uma pequena lgrima correu lentamente pelo seu rosto, deteve-se um pouco no lbio, pingou para o queixo e por fim para a caixa,
onde se infiltrou por entre os cristais.
- Como  que conseguiste a caixa, pap? - sussurrou ela, como se o som da sua voz estilhaasse a delicadeza do momento.

- Encontrei-a numa aldeia chamada Puca Pucara. A famlia de Topahuai conseguira salv-la antes de Topahuai ser sepultada na encosta da montanha. Trouxeram a caixa
de volta  aldeia onde a mantiveram at os Espanhis chegarem. Foi ento que a me de Topahuai deu a caixa a Wanchuko, pois sempre soubera o segredo que a filha
guardara no corao, e disse-lhe que abandonasse o Peru at que fosse seguro regressar. Assim, Wanchuko partiu, como lhe fora instrudo e s regressou muitas dcadas
depois, era j um homem idoso. Nunca casara, pois jurara que apenas amaria Topahuai. Vagueara pelo mundo sozinho, pensando unicamente nela. Em sonhos, tanto acordado
como a dormir, o seu rosto redondo e olhos sorridentes apareciam-lhe e confortaram-no ao longo da sua solitria vida. Quando regressou a Pisac no reconheceu ningum.
A sua famlia fora chacinada em conjunto com a de Topahuai; na morte no havia divises sociais. Tinham todos morrido juntos, nobres e servos.  beira do desespero,
percorreu o mesmo caminho que Topahuai fizera naquele fatdico dia, h tantos anos. No cimo do trilho, para sua surpresa, deparou-se com uma pequena mulher idosa
sentada no cho a contemplar o reino dos cumes montanhosos. Estava sozinha. Quando se aproximou reconheceu a idosa como sendo a irm de Topahuai, Topaquin. O tempo
enrugara-lhe a pele e encolhera-lhe os ossos, mas ainda assim reconheceu-a e, quando se aproximou dela, tambm Topaquin
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percebeu quem ele era e convidou-o a juntar-se a si. Conversaram sobre Topahuai, sobre a sua curta e trgica vida e os exrcitos de destruio espanhis que haviam
dizimado a cultura e o modo de vida inca para todo o sempre. Wanchuko deu a caixa a Topaquin, dizendo-lhe que o esprito de Topahuai danava na luz dos cristais
e cantava na melodia dos minsculos sinos. Depois deitou-se no mesmo lugar onde a vida de Topahuai lhe fora to cruelmente tirada e morreu. Tambm ele atravessou
a ponte que une esta vida  prxima. Porm, no estava sozinho, pois Topahuai estava com ele e o amor dela estava l para o guiar, para que nenhum mal o atormentasse.
"A caixa foi levada para Puca Pucara e a permaneceu durante muito tempo, passando de gerao em gerao. O mais estranho  que me foi dada por uma senhora de idade.
Disse-me que a caixa tinha poderes especiais. Que eu precisava mais da caixa do que ela. Ento, embrulhou-a e deu-ma. Deve ser inestimvel, Fede, tal como tu. Por
isso, estima-a, pois foi feita com amor e deve ser estimada com amor.
- Estim-la-ei para sempre, pap. Obrigada - disse Federica, imensamente grata e to enternecida com a histria, que os seus olhos pareciam brilhar ainda mais.
Ramon olhou para o relgio enquanto a filha, petrificada, acariciava a borboleta com a mo trmula.
- Devamos ir andando para casa para almoarmos - sussurrou ao ouvido dela, afagando a suave pele do seu plido pescoo com as pontas dos dedos. - Onde est o Rasta?
- inquiriu, olhando para um lado e para o outro. Ps-se de p e espreguiou-se antes de voltar a vestir-se. Federica seguiu-lhe relutantemente o exemplo. Fechou
a caixa e levantou-se. Alisou o seu bonito vestido amarelo e chamou o co. Ainda cheio de energia, apareceu molhado e cheio de areia e com uma bola nos dentes.
- Anda, Rasta - chamou ela, batendo na sua coxa. O animal correu at ela e largou a bola no cho. Federica abanou a cabea. Algum andaria provavelmente  procura
da bola, pensou, pegando nela com dois dedos para no sujar a mo. Olhou para todo o lado, mas no viu ningum. - Que devo fazer com esta bola, pap?
- Oh, acho que o co pode ficar com ela. Pobre Rasta. No tem mais nada com que brincar e no vejo ningum  procura da bola 31

respondeu o pai, deslizando os ps para dentro dos sapatos. Federica lanou a bola na direco das escadas e Rasta largou a correr atrs dela.
- Anda, vamos embora ?- disse Ramon, pegando na mo da filha e dirigindo-se para os degraus.
- Foi uma histria maravilhosa, pap.
- Sabia que irias gostar.
- Adorei. E adoro a caixa. Guard-la-ei para sempre. Ser o meu bem mais precioso - afirmou ela, pressionando-a contra o peito.
Ramon estava absorto em pensamentos enquanto subiam a colina de regresso a casa. Tinha um lgubre pressentimento de que Helena desistira. Havia uma expresso distante
nos olhos dela que at ento nunca vira. Uma espcie de resignao. J no via nas feies dela aquele trao conflituoso, destemido. Era como se estivesse cansada
de combater e quisesse abandonar a batalha. Suspirou profundamente. Federica continuava noutras paragens, em Pisac com Topahuai e Wanchuko e caminhava ao lado dele
em silncio e absorta.
Devolveram Rasta  Senora Baraca, que ficou agradecida por ver o co a arquejar e a abanar a cauda de satisfao em vez de a ladrar. Disse que Federica podia lev-lo
a passear sempre que quisesse.
- Uma vez que no te mordeu, deve gostar de ti - concluiu ela, sem sorrir, mastigando as gengivas.
Federica seguiu o pai rua acima.
- A mam diz que eu no devia mexer no co. Que no sabemos por onde andou - explicou ao pai.
- Mas agora sabemos - argumentou ele, sorrindo e piscando o olho. - Ainda assim, eu faria como a me diz e lavava as mos antes do almoo.
- Cozinhei o teu almoo preferido com a Ldia - anunciou ela, orgulhosamente.
Ramon sorriu de orelha a orelha, os seus cintilantes dentes contrastando com a pele morena.
- Pastel de choclo - disse ele e Federica acenou com a cabea. No te mereo.
- Oh, claro que mereces. s o melhor pai do mundo - declarou ela, alegremente, abraando a sua caixa mgica e apertando a mo do pai com tanta fora que ele percebeu
que a filha falava mesmo a srio.
CAPTULO TRS
Federica seguiu o pai ao longo da escassa sombra do meio-dia que as frondosas accias projectavam, pelo porto do jardim e pelo carreiro que conduzia  porta da
frente. Mesmo antes de a chegarem, Lidia apareceu, ruborizada e ansiosa.
- Dom Ramon! A Senora Helena est  vossa espera para almoar. Mandou-me ir  vossa procura - arquejou, o seu pesado peito subindo e descendo com o esforo.
Ramon avanou at ela, desarmando-a com o seu largo sorriso.
- Bem, Lidia, agora j no tem de ir, uma vez que estamos de volta. Ouvi dizer que h pastel de choclo para o almoo - comentou ele, ultrapassando-a e entrando no
vestbulo.
- Si, Dom Ramon. A Federica preparou-o sozinha - disse a cozinheira, fechando a porta e seguindo-os at  cozinha.

- Cheira divinamente - observou Ramon, inspirando o quente aroma a cebolas. - No te esqueas de lavar as mos, Fede - lembrou ele, passando as suas por gua. Os
olhos de Federica brilhavam de alegria e no parava de sorrir. Depois de lavar as mos correu para a sala de estar para contar  me a lenda da caixa.
- Mam! - chamou ela, avanando aos pulinhos pelo corredor. Mam.
Helena emergiu da sala de estar com um ar zangado e abatido, transportando Hal nos braos.
- Onde  que estiveram, Fede? - perguntou ela, passando a mo pelo cabelo despenteado da filha. - O Hal est a morrer de fome.
- Fomos  praia. Levmos o co da Senora Baraca, o Rasta. Sabes, ele j no ladra, apenas queria ser libertado para correr um pouco. Pobre
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animal. O pap foi dar um mergulho e eu fiquei a tomar conta da roupa dele. O Rasta tambm se meteu na gua. Depois o pap contou-me a lenda.
- Que lenda? - quis saber Helena, fazendo a vontade  filha enquanto a encaminhava para a sala de jantar.
- Sobre Topahuai e Wanchuko. A princesa inca. Esta caixa foi feita para ela.
- A srio? Muito interessante - disse Helena num tom paciente. Olhou para o marido quando este entrou na sala, preenchendo-a com a sua presena e a atmosfera tensa
que uma vez mais regressava quela casa. Cruzaram o olhar por um momento como dois estranhos observando-se curiosamente pela primeira vez. Helena foi a primeira
a desviar os olhos.
- Quero ficar ao lado do pap - declarou Federica, puxando por uma cadeira e apontando possessivamente para o individual.
- Podes sentar-te onde quiseres, querida - disse Helena, colocando Hal na cadeira dele. - Espero que tenhas lavado as mos - acrescentou, recordando-se do co.
- Lavei, sim. A Senora Baraca parece uma bruxa - comentou Federica com uma gargalhada.
-  verdade, parece mesmo - concordou Ramon, rindo numa tentativa de aliviar o ambiente.
- bom, espero bem que ela no te tenha lanado nenhum feitio
- interveio Helena, fazendo um esforo em prol das crianas. Sentia a garganta apertada e o peito pesado sob a presso de ter de fazer de conta que estava tudo bem.
Ansiava por conversar a ss com Ramon. Precisava de aliviar o fardo dos seus pensamentos. Necessitava resolver a situao. No podiam continuar assim. No era justo
para nenhum deles.
- Oh, no. Ela ficou muito agradecida por lhe termos passeado o co - contraps Federica.
- Quero ver o co - choramingou Hal, contorcendo-se de impacincia na sua cadeira. Lidia entrou com o fumegante pastel de choclo.
- A Fede fez isto para ti esta manh - anunciou Helena, sentando-se na ponta oposta da mesa, frente ao marido.
- Ouvi dizer que sim. s muito boa para mim, Fede - agradeceu ele sem mentir.
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- Sem dvida que  - comentou Helena, secamente. Gostaria de ter acrescentado que ele no merecia nem um pouco o afecto da filha, mas conteve o impulso com um gole
de gua. - Trabalhou a manh toda, no foi, Fede?

- O pap ainda no viu o quarto dele - acrescentou a menina, esboando um sorriso envergonhado.
- O que fizeste ao meu quarto, sua travessa?
- Ters de ver por ti mesmo, pap.
- A Fede apanhou flores esta manh - revelou Hal, deslealmente. - Foi, no foi, Fede?
- Mam! - protestou Federica, frustrada.
- Gostaste do teu comboio, Hal? - perguntou Ramon para distrair o filho e impedi-lo de desmascarar a irm.
-  muito colorido e anda muito depressa - disse, entoando pouca-terra, pouca-terra. Lidia colocou-lhe um prato de comida  frente.
- No gosto de milho - resmungou ele, encostando-se e cruzando os braos frente ao peito.
- Gostas, sim - contrariou Federica. - Est s a dizer que no porque fui eu que fiz.
- No estou nada.
- Ests, sim.
- No.
- Ests.
- J chega, meninos - repreendeu Ramon com firmeza. - Hal, come o milho ou vais para o teu quarto sem almoo e sem o comboio.
Hal lanou um olhar carrancudo  irm, os seus olhos castanhos transbordando de ressentimento.
A conversa entre Ramon e Helena girou em torno das crianas. Se os midos se calassem, o que costumava acontecer depois de uma discusso, ver-se-iam forados a falar
um com o outro, coisa que nenhum deles queria fazer, pelo menos com aquela falsa cordialidade, como um par de actores numa pea mal escrita. Ramon deixou que Federica
contasse  me a histria da princesa inca, interrompendo-a apenas quando ela lhe pedia ajuda com algum pormenor que esquecera. Ramon ficou surpreendido com o quanto
ela ainda se recordava. Helena escutou, virando-se para atender Hal uma vez ou duas, quando ele choramingara
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para chamar a ateno da me. Federica estava habituada a ser interrompida pelo irmo, estava tambm acostumada a que ela lhe fizesse a vontade, dizendo "o que ,
meu amor?" num tom de voz paciente e arrastado. No se importava. Por vezes acabamos por tolerar coisas puramente por fora do hbito.
- Que histria maravilhosa, querida. E a caixa agora  tua. s uma menina cheia de sorte - disse Helena. No acrescentou "e espero que tomes bem conta dela", como
outras mes fariam, pois sabia que Federica era mais responsvel em relao a coisas assim do que ela mesma.
- Tinha pensado que podamos ir at Cachagua por umas duas semanas - sugeriu Ramon, fortuitamente, como se tudo estivesse normal, como se no tivesse reparado na
mudana no semblante de Helena. Passvamos o Natal com os meus pais. Eles iam adorar ver-te a ti e aos midos.

- Oh, sim, por favor, mam! - guinchou Federica encantada com a ideia. Adorava visitar os avs. Tinham uma acolhedora casa com telhado de colmo e vista para o mar.
Helena teria preferido que ele no tivesse verbalizado tal ideia frente aos midos. Precisavam primeiro de conversar. Ele nem sequer a consultara. Agora, se dissesse
que no podiam ir, desapontaria os filhos. No suportava desiludi-los. Hal olhava-a tambm com os seus esperanosos olhos castanhos.
- Sim! Sim! - gritou, batendo com o garfo na mesa. Tambm adorava ficar em casa dos avs. Estes costumavam comprar-lhe gelados e lev-lo a andar de pnei pela praia.
O av lia-lhe histrias e passeava-o aos ombros.
- Est bem, iremos at Cachagua - concedeu ela, pouco convencida. - Ramon, preciso de falar contigo depois de almoo. Por favor, no desapareas outra vez com a
Fede. - Tentou simular um tom casual para no alarmar as crianas. Sabia muito bem o que queria dizer-lhe e temia que os seus pensamentos se infiltrassem sorrateiramente
pelas suas palavras e a trassem.
- Fica descansada - respondeu ele, franzindo a testa. Havia qualquer coisa de definitivo no tom de voz dela e Ramon no gostou disso. As mulheres tinham sempre de
relacionar tudo, de racionalizar cada pormenor. Tudo tinha de ser resolvido. Helena era assim. Era incapaz de seguir o curso de uma coisa e ver no que resultava.
Tinha de tomar decises e formaliz-las.
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Depois do primeiro prato, que Ramon agradeceu  filha beijando-lhe a plida testa com ternura, Federica desapareceu em direco  cozinha para ajudar Lidia a adicionar
os toques finais no merengon de lucuma de boas-vindas. Uma vez ausente da sala de jantar, Helena e Ramon falaram com Hal, tudo menos falar um com o outro. Hal comeou
a exibir-se com todas as atenes de que se via alvo e cantou uma cano que aprendera na escola sobre um burro. Ambos os pais o observaram, tudo menos olharem um
para o outro. Por fim, a porta abriu-se e Federica entrou com um bolo merengado na mo e com uma vela a tremeluzir no centro. Hal comeou a cantar parabns a voc.
Ramon e Helena riram e, por um momento, a tenso no pescoo e no peito dela desvaneceu-se, conseguindo respirar convenientemente.
Federica colocou o bolo frente ao pai e ficou a v-lo soprar a vela. Hal bateu as suas pequenas mos e riu-se ao constatar que a vela se reacendera como que por
magia. Ramon fingiu-se surpreendido e soprou-a mais uma vez. Ambas as crianas se riram, certas de que o pai estava genuinamente espantado com aquela chama que no
se extinguia. Por fim, ele molhou as pontas dos dedos no seu copo de gua e apertou o pavio. A chama foi abafada e fumegou como forma de protesto.
- Bem-vindo a casa! - leu ele em voz alta nas letras encaracoladas e infantis de Federica, desenhadas a castanho sobre a cobertura espumosa branca que se assemelhava
a um mar encapelado. - Obrigado, Fede
- disse, puxando-a para si e beijando-lhe o rosto. Federica permaneceu ao colo dele enquanto o pai partia o bolo. Hal esticou a sua colher de sobremesa na direco
do bolo, conseguindo um pedao de merengue que tratou de levar de imediato  boca antes que algum o impedisse de o fazer. Helena fez de conta que no vira. Estava
demasiado exausta para despender a pouca energia que ainda conservava para a conversa com Ramon nas traquinices do filho.

Depois do almoo, Federica juntou-se relutantemente a Hal no jardim enquanto os seus pais subiam ao primeiro andar para conversarem. Interrogava-se sobre o que precisariam
eles de falar e ficou desapontada com a me por a afastar do pai. Levou a caixa consigo para o jardim e, sentada ao abrigo da sombra das laranjeiras, abriu-a e pensou
na histria que o pai lhe contara.
- Posso ver a tua caixa? - inquiriu Hal, sentando-se ao lado dela.
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- Sim, se tiveres cuidado.
- Eu mexo com cuidado - prometeu. - Uau!  muito bonita.
- Pois . Pertenceu outrora a uma princesa inca.
- Inca? O que  isso? - perguntou Hal.
- Os Incas foram um povo que viveu h muito tempo no Peru explicou Federica.
- O que aconteceu  princesa?
- No escutaste a histria que eu contei quando estvamos  mesa? - estranhou a irm, sorrindo complacentemente para ele.
- Quero ouvi-la outra vez - disse Hal. - Por favor.
- Muito bem. Eu conto-ta de novo - concordou ela. - Mas tens de estar calado e atento, ou no te conto nada.
- Eu prometo estar sossegado - garantiu e bocejou. Estava muito calor, mesmo  sombra. O tnue zumbido das abelhas nos canteiros e o distante murmrio do mar eram
um calmante rudo de fundo para as lnguidas horas da siesta. Federica colocou o brao em redor do corpo do irmo e permitiu que este encostasse a cabea a ela.
- H muito, muito tempo, nas profundezas do Peru - comeou Federica e Hal fechou os olhos e contemplou um estranho mundo novo.
Ramon seguiu a mulher escadas acima. Nenhum deles falou. Observou-a a avanar pelo corredor com os ombros curvados e a cabea pendida. Ao aproximar-se do quarto,
o aroma a lavanda chegou-lhe s narinas e f-lo recordar-se da casa da sua me em Cachagua. Como se lendo-lhe os pensamentos, Helena informou-o de que Federica preparara
os lenis com lavanda fresca do jardim.
O quarto estava fresco e arrumado e cheirava tambm a laranjas e a rosas. Ramon olhou em redor da diviso que haviam partilhado durante a maior parte de sete anos
de um casamento de doze, mas no sentia que pertencesse ali. Apesar das flores que Federica lhe colocara na mesa-de-cabeceira e de toda a carinhosa preparao dos
lenis, aquele era o quarto da sua esposa, e a frieza do semblante dela dava-lhe a entender que j no era bem-vindo.
Colocou a mala no cho e sentou-se na beira da cama. Helena avanou at  janela e ficou a olhar o mar.
- Ento, queres conversar sobre o qu? - perguntou Ramon, embora j conhecesse a resposta.
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- Ns - respondeu ela, friamente.
- E que se passa connosco?
- bom, j no  a mesma coisa, pois no?
- No.
- Estou cansada de fazer de conta que est tudo bem frente aos midos. No est nada bem. No sou feliz. Pode estar tudo muito bem para ti que viajas por todo o
mundo como um cigano, escrevendo os teus livros de histrias. Mas eu  que fico presa aqui nesta casa sem ti. Sem qualquer apoio. Criei estas duas crianas quase
sozinha - queixou-se ela e sentiu a tenso no pescoo aumentar e pressionar-lhe a cabea como se fosse um torno.

- Mas sempre soubeste que a minha vida era essa. No tinhas quaisquer expectativas. Tu prpria o disseste. Deste-me total liberdade porque compreendias que no podia
sobreviver sem isso - argumentou ele, abanando a cabea e franzindo a testa.
- Bem sei. Mas no sabia como iria ser de verdade. No incio viajvamos juntos. Era um sonho. Adorava isso e adorava-te a ti. Mas agora... - A voz dela sumiu-se.
- Agora? - inquiriu ele num tom melanclico.
- Agora j no te amo. - Virou-se da janela para o enfrentar. Reparando no ar de mgoa que lhe transformava o rosto, apressou-se a acrescentar: - O amor tem de ser
alimentado, acarinhado, e no deixado ao abandono, a degradar-se, Ramon. Amei-te outrora, mas agora j nem sequer te conheo. No reconheceria o amor ainda que me
esbofeteasse na cara. Tudo o que sei  que estou cansada e farta de estar sozinha e que tu me deixas sempre sozinha, meses a fio. E sempre o fars concluiu. As lgrimas
correram-lhe em cascata pelo rosto abaixo, uma aps a outra, at formarem dois estreitos riachos de infelicidade.
- O que queres ento fazer? - perguntou ele.
Helena avanou timidamente na direco dele e sentou-se a seu lado na cama.
- Se temesses perder-me, Ramon, ficavas e escrevias aqui. Mudarias por mim. Mas no o fars, pois no? - Ele pensou nisto por um momento, mas o seu silncio respondeu
 pergunta dela. - Amas-me, Ramon? - atreveu-se ela a perguntar.
Os olhos brilhantes e cor de castanha de Ramon contemplaram-na desoladamente.
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- Sim, amo,  minha maneira, Helena. Ainda te amo. Mas no te amo o suficiente para mudar por ti. Se ficasse aqui contigo e com as crianas, murcharia. Secaria como
uma planta no deserto. No entendes? No quero perder-te, ou s crianas, mas no sou capaz de mudar confessou ele, abanando a cabea. - Chego a casa e a primeira
coisa em que penso  quando  que poderei partir de novo. Lamento.
Ficaram ambos sentados em silncio. Helena chorava aliviada por ter exprimido os seus sentimentos. O fardo que a sobrecarregava desapareceu e sentiu-se mais leve.
Ramon interrogava-se sobre o que ela ia fazer. No queria perd-la. Helena era a sua rede de segurana. Gostava de ter um lar ao qual podia regressar. Ainda que
raramente o usasse, o facto de esse lar existir dava-lhe segurana. Amava os filhos, mas no estava habituado s rotinas dirias prprias das crianas. No era um
homem de famlia.
- O que vai ento acontecer agora? - inquiriu ele ao fim de algum tempo.
- Quero ir para casa - respondeu ela, levantando-se e caminhando de novo para junto da janela.
- Referes-te a Inglaterra?
- Sim.
- Mas isso  no outro lado do mundo! - protestou ele.
- E porque  que isso te haveria de preocupar? Tu prprio ests sempre do outro lado do mundo e sempre estars. Que diferena faz onde estamos? Estars sempre noutro
continente.
- Mas, e as crianas?

- Iro  escola em Inglaterra. Vamos viver na Cornualha com os meus pais. - Depois, correu para junto dele e ajoelhou-se no cho aos ps dele. - Por favor, Ramon.
Por favor, deixa-me lev-los para casa. No suporto mais viver aqui. No da forma como as coisas esto agora. Sem ti, no faz sentido, no entendes? No perteno
aqui como tu. Teria pertencido, se o tivesse planeado, mas agora quero regressar a casa.
- O que irs dizer aos midos?
- Direi que vamos para casa. Que irs ver-nos, tal como sempre fizeste. Apenas iremos viver num pas diferente. Eles ainda so muito novos, aceitaro a mudana -
disse ela com firmeza, e depois olhou para ele, suplicantemente. - Por favor, Ramon.
- Queres o divrcio? - perguntou ele.
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- No - respondeu ela de imediato. - No, no quero divorciar-me.
- Ento, apenas uma separao?
- Sim.
- E depois?
- Depois, nada. Apenas quero sair desta situao - explicou ela, deixando pender a cabea.
A premonio dele estava correcta. Helena ia deix-lo. Precisava da autorizao dele para sair do pas com as crianas e ele conceder-lha-ia. Como poderia negar-lhe
isso? Os filhos eram mais dela do que dele, a julgar pelo tempo que ambos passavam com eles. Ela tinha razo, que importava em que lugar do mundo estivessem? Ramon
estaria sempre a milhares de quilmetros de distncia.
- Est bem, podes levar os midos de volta a Inglaterra - concedeu ele, pesarosamente. - Mas, primeiro, quero lev-los a ver os meus pais em Cachagua. Quero dar-lhes
um Natal em famlia, para que se lembrem de mim para sempre dessa forma.
- Ramon - sussurrou ela, pois a sua voz enrouquecera de emoo -, irs visitar-nos, no ? - Procurou os olhos dele, temendo que ao desligar-se do marido ele deixasse
de se esforar por fazer parte da vida dos filhos.
- Claro - respondeu ele, acenando a desgrenhada cabea.
- Os midos vo sentir terrivelmente a tua falta. No podes abandon-los, Ramon. Eles precisam de ti.
- Eu sei.
- No os castigues pelas minhas aces. Isto  entre ns, adultos, no lhes diz respeito.
- Eu sei.
- A Fede ama-te tanto, e o Hal tambm. No conseguiria viver comigo mesma se lhes virasses as costas por minha causa. - Sentou-se abruptamente. - No irei, se deixar-te
significar privar os meus filhos do seu pai. Sacrificarei a minha felicidade pela deles - declarou e comeou a soluar.
Ramon estava confuso. Passou a mo pelos cabelos louros da mulher.
- No os abandonarei, Helena - garantiu.
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- Obrigada - disse ela, olhando-o atravs das lgrimas.

De repente, sentiu a boca dele na sua. Sem compreender as suas aces, os corpos de ambos rebelavam-se contra o frio distanciamento das suas mentes. Arrancaram a
roupa como animais sedentos, esgravatando o solo em busca de gua. Helena sentiu os plos do queixo dele contra o seu e a humidade suave dos lbios dele. Durante
todos os meses em que ele estivera ausente, ela apenas sonhara em fazer amor com outros homens. Tivera vrias oportunidades, mas rejeitou cada uma delas pela simples
razo de ser a esposa de outro homem, mesmo que apenas de nome. Abandonava-se agora ao toque de um homem, muito embora no sentisse mais nada por ele seno gratido.
Nestes intensos momentos de intimidade podiam perfeitamente ter-se enganado ao acreditar que o amor entre ambos se reacendera. No entanto, Helena sabia que o prazer
sexual, por si s, era um amor falso, to ilusrio quanto uma miragem. Fechou os olhos, bloqueando a triste realidade da sua situao e permitiu-se sentir prazer
 medida que as mos dele acariciavam as curvas do seu corpo como se o explorassem pela primeira vez.
Tinham-se passado muitos meses desde a ltima vez que se haviam unido desta forma. Ambos haviam esquecido como era o corpo do outro. Como se no tivesse controlo
sobre os seus impulsos, os dedos dela seguiram a aresta da coluna dele e acariciaram-lhe os ombros como costumavam fazer quando o que os impelia era o amor. Passou
a lngua pela pele dele e sentiu o gosto a mar misturado com o seu aroma masculino. Quando ele a beijou, a boca dele na sua, o rosto dele a centmetros do seu, ela
abriu os olhos e viu que os dele estavam fechados. Interrogou-se com quem estaria ele a sonhar e se tambm ele tivera oportunidades de se envolver com outras mulheres
durante as suas viagens. No queria saber. Depois, ele estava j dentro de si, despertando o seu desejo adormecido, que suportara muitos meses de hibernao, e no
pensou mais nas mulheres que ele poderia ter tido. Ambos se esqueceram do outro  medida que os seus corpos se contorciam e fundiam, absortos aos gemidos que se
escapavam das suas gargantas e aos suspiros delirantes que ressoavam bem fundo dentro deles.
Quando o momento passou e ficaram deitados, suados e exaustos, lado a lado, o impetuoso odor das suas peles misturando-se com a doce fragrncia a lavanda e rosa,
contemplaram o tecto e interrogaram-se por que se haviam deixado arrebatar.
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Helena estava demasiado embaraada para olhar para ele e cobriu envergonhadamente o seu escaldante corpo com a colcha. Uma atitude ridcula depois de ele o ter desfrutado
de forma to ntima. Remexeu na gaveta da mesa-de-cabeceira em busca de um cigarro. Ao encontrar um, acendeu-o com uma mo trmula e inalou o fumo impacientemente.
Que estranho, pensou ela, que possamos estar to prximos quanto duas pessoas podem estar e depois, de repente, no espao de segundos, estarmos aqui deitados lado
a lado mas separados por milhares de quilmetros. Olhou para ele que virou o rosto para ela.
- Foi bom - afirmou ele.
- Pois foi - respondeu.
- No o lamentes, Helena. No faz mal ceder aos prazeres da carne, ainda que no se sinta mais nada a no ser desejo fsico.
Ela voltou a inalar o fumo.
- No me arrependo - disse. No sabia, na verdade, se se arrependia ou no. Teria mesmo feito amor sem amor? Afastou o pensamento com o fumo que soprou pela boca.
J no importava. Ia regressar a casa.
CAPTULO QUATRO

Ramon observou a mulher a vestir-se sob a luz tnue do quarto. Nenhum deles falou. O cheiro do tabaco mascarou a lavanda que Federica pressionara contra a roupa
da cama e o perfume das flores que to carinhosamente apanhara e colocara na mesa-de-cabeceira do pai, na jarra azul brilhante. A cama desalinhada era tudo o que
restava da paixo que os unira. Ramon interrogou-se se alguma coisa restaria do amor que haviam partilhado. Depois escutou a voz suave de Federica a cantar no jardim
e apercebeu-se de que os seus filhos eram as expresses fsicas de um amor que, outrora, ele e Helena haviam partilhado alegremente, e estremeceu ao contemplar a
ideia de ficar sem eles.
O corpo de Helena era ainda firme, elegante e detentor daquela palidez translcida que o atrara pela primeira vez, h doze anos. Ela tinha agora trinta anos, demasiado
jovem para estar sozinha sem as atenes de um homem carinhoso e atencioso que cuidasse dela. Quando a conhecera naquelas frias praias da Cornualha, ela era muito
jovem e sentira-se preparada para sacrificar tudo s para poder estar perto dele. Haviam viajado por todo o mundo juntos, unidos por esta sede por aventura e pelo
desejo dela de ser amada. E resultara at a domesticidade os afastar. Observou-a a pentear o seu cabelo louro, a apanh-lo no cimo da cabea. Preferia quando ela
o usava solto pelas costas. Outrora, chegara-lhe  cintura. Certa vez, ele enfeitara-lho com jasmim. Era bela nessa altura. Agora parecia cansada e o desencantamento
que sentia exauria-lhe o rosto de cor, de forma que a sua caracterstica palidez, outrora to cativante, j no resplandecia, concedendo-lhe, ao invs disso, um
ar esgotado. Se no a deixasse ir, acabaria por no restar nada dela.
Helena apercebeu-se de que o marido a observava pelo espelho, mas no sorriu como no passado teria feito.
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- Quando  que queres ir a Cachagua? - perguntou ela.
- Amanh. Eu telefono aos meus pais e digo-lhes que vamos.
- O que lhes vais dizer?
- Sobre ns?
- Sim.
Ramon suspirou e sentou-se.
- No sei ainda.
- Ho-de pensar que sou desumana. Vo culpar-me - disse Helena e a voz dela vacilou.
- No, no vo. Conhecem-me melhor do que tu pensas.
- Sinto-me culpada - disse ela e olhou para o seu reflexo no espelho.
- Tomaste a tua deciso - contraps ele, impassivelmente, pondo-se de p.

Helena queria que ele lhe suplicasse que ficasse. Esperara que ele se pusesse de joelhos e prometesse mudar, como outros homens teriam feito. Porm, Ramon no era
como os outros homens. Era invulgar. Fora pela sua singularidade que ela se apaixonara. Ramon era to auto-suficiente que no precisava de ningum. Apenas necessitava
de ar para respirar, da viso para abarcar todos os maravilhosos locais por onde viajava, e de uma caneta para apontar tudo o que via e sentia. No precisara do
amor dela, mas ela dera-lho, no desejando nada de volta a no ser a aceitao dele. Contudo, est na natureza humana querer sempre mais. Depois de conquistar o
amor dele quisera a liberdade dele tambm. Mas ele revelara-se relutante em renunciar a ela. Ainda assim era. Ramon fora to difcil de apanhar quanto uma nuvem,
por isso Helena deveria ter percebido que ele nunca mudaria, que chegaria uma altura em que ficaria sozinha, pois a alma dele pertencia ao mundo e ela no tinha
mais fora para lutar por ele. Mas, ainda assim, Helena queria que ele lutasse por ela. Como poderia ainda am-la, mas recusar-se a lutar por ela? Ramon fazia-a
sentir-se intil, indigna.
Helena saiu para o jardim, semicerrando os olhos contra o brilho intenso do sol e deu com Hal a dormir  sombra de uma laranjeira enquanto Federica cantava para
si mesma sentada no balouo. Sabia que Federica ficaria desgostosa por deixar a brincadeira, mas a separao dos pais mago-la-ia muito mais. Helena observou-a a
balanar-se ao sol, ignorando a negra nuvem que se agigantava para assombrar o seu dia perfeito. Quando viu a me na soleira da porta, saltou do balouo, pegou na
caixa mgica que colocara na relva e correu para ela.
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- J terminaste de conversar com o pap? - perguntou.
- Sim, j terminei, querida. Vamos para Cachagua amanh - anunciou, sabendo como isso deixaria a filha feliz. Federica sorriu de orelha a orelha.
- Contei ao Hal a histria da princesa inca. Ele adormeceu. - Soltou uma gargalhada. Hal estava deitado de costas, os seus pequenos braos e pernas estendidos num
ditoso abandono, o peito subindo e descendo calmamente sob o calor da tarde.
- bom, o melhor  no o acordarmos - disse Helena, observando o filho com ternura. Hal era to parecido com o pai! Tinha o cabelo escuro de Ramon e a mesma cor de
olhos, mas sem aquele exasperante reflexo de auto-suficincia. Federica era mais feliz sozinha, mas Hal precisava de ateno constante. Era a parte de Ramon que
Helena amara e  qual lhe fora permitido apegar-se. Hal precisava dela e amava-a incondicionalmente.
Federica entrou em casa e encontrou o pai na sala de estar a falar ao telefone em espanhol. Avanou para junto dele com a caixa e encavalitou-se no brao do sof,
 espera que o pai terminasse para que pudesse falar com ele. Escutou a conversa e apercebeu-se de que ele estava a falar com a sua av.
- Conta  abuelita sobre a minha caixa - pediu ela, entusiasmada.
- No, conta-lhe tu - disse ele, estendendo-lhe o auscultador.
- Abuelita, o pap trouxe-me uma caixa que pertenceu a uma princesa inca... Sim, a uma princesa verdadeira... Sim, conto-te tudo amanh... Tambm eu... Um beijo
grande para ti,yo tambin te quiero - disse ela e soprou um beijo  av pelo telefone, o que fez o pai soltar uma gargalhada ao mesmo tempo que ela lhe devolvia
o telefone.
- Estaremos ento a a tempo do almoo - afirmou ele antes de desligar. - Muito bem, Fede, o que haveremos de fazer agora?
- No sei - respondeu ela e sorriu, pois sabia que o pai tinha sempre alguma coisa planeada.
- Vamos at  cidade comprar um presente para a av, est bem?
- E um sumo - acrescentou ela.
- Um sumo e uma sanduche de palta - disse ele, pondo-se de p. - Vai dizer  tua me que regressaremos a tempo do lanche.
Abacate. (N. da T.)
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Mariana Campione desligou o telefone e gritou para o marido, Ignacio, deitado na cama de rede no terrao a ler, os culos de armao redonda encavalitados no seu
nariz aquilino e o panam puxado por cima das espessas sobrancelhas - uma indicao de que no desejava ser incomodado.
- Nacho, o Ramon voltou e vem visitar-nos com a famlia amanh
- anunciou, encantada. Ignacio no se mexeu, excepto para mudar de pgina. Mariana, uma mulher encorpada, de ossos largos, cabelo grisalho e rosto amvel e sincero,
atravessou as portas que davam para o terrao onde o marido estava deitado  sombra de uma accia. - Mi amor, ouviste o que eu disse? O Ramon voltou. Vm visitar-nos
amanh - repetiu ela, sorrindo de alegria.
- Eu ouvi-te, mulher - disse ele sem levantar os olhos do livro.
- Nacho, no mereces ter netos - protestou a mulher, sorrindo e abanando a cabea.
- Ele desaparece durante meses a fio e nem sequer uma carta  capaz de enviar! Que tipo de homem faz isto  sua famlia? J no  a primeira vez que to digo, a Helena
h-de acabar por perder a pacincia com ele. Eu perdi a minha h muitos anos e no sou casado com ele - argumentou Ignacio num tom srio e depois olhou para a mulher
por cima do livro para ver a reaco dela.
- No digas disparates - ralhou ela, amavelmente. - A Helena  uma boa me e esposa.  leal ao Ramon. No quero com isto dizer que ele faa bem em deix-la sozinha
como faz, mas ela  uma mulher como antigamente. Compreende-o. Estou felicssima que eles nos venham visitar. - O seu rosto largo enrugou-se num sorriso carinhoso.
- Quanto tempo  que vo ficar? - perguntou ele, olhando ainda para a mulher.
- No sei. Ele no disse.
- Ainda assim, suponho que devemos estar gratos - acrescentou Ignacio, sarcasticamente. - Dos nossos oito filhos, o Ramon  o nico que vemos menos vezes, por isso
quando aparece sempre  uma ocasio especial.
- Agora j ests a ser impertinente.
- Pelo amor de Deus, Mariana, o Ramon  um homem de quarenta anos, ou coisa que o valha... J ia sendo boa altura de crescer e tomar alguma
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responsabilidade antes que perca tudo. Se a paciente e mrtir mulher dele o deixar, o culpado ser ele e s ele e eu ficarei cem por cento do lado dela.
Mariana soltou uma gargalhada e retirou-se para o fresco interior da casa. Escutara os argumentos do marido vezes suficientes para os conhecer de cor. Ramon era
apenas um livre-esprito e compreendia-o, tal como Helena, pensava ela enquanto se dirigia  cozinha para informar a jovem empregada, Estella, sobre a iminente chegada
da famlia de Ramon. Ele era to talentoso que seria um erro muito grande prend-lo e asfixiar uma criatividade to valiosa. Mariana lia e relia todos os livros
e artigos que o filho escrevia e ficava inchada de orgulho quando as pessoas lhe confessavam o quanto apreciavam tambm a escrita dele. Ramon era famoso no Chile
e merecia todo o respeito de que desfrutava. "Eu sei que sou me dele", costumava ela dizer ao marido, "mas ele escreve, de facto, que  uma maravilha."

Estella despertara da siesta e estava j a tratar dos legumes para o jantar quando Mariana entrou na cozinha. Como acontecia na maioria dos lares chilenos dos mais
abastados, a cozinha fazia parte dos alojamentos da empregada, em conjunto com o quarto e a casa de banho dela, que ficavam nas traseiras da casa, escondidos por
trs de arbustos perenes e buganvlias. Estella era nova. Depois de Consuelo, empregada da famlia durante vinte anos, ter falecido no Vero anterior, tinham tido
a sorte de encontrar Estella, por intermdio de amigos que tinham uma casa de Vero em Zapallar, a vila vizinha. Mariana gostara dela de imediato. Ao contrrio de
Consuelo que se tornara demasiado idosa para limpar convenientemente e demasiado amarga para cozinhar com entusiasmo, Estella lanara-se logo ao trabalho, polindo,
varrendo, esfregando e arejando com uma energia que s a juventude concedia e com um sorriso que transbordava da sua natureza gentil e desejo de agradar. Era delicada,
discreta e aprendia depressa, uma qualidade essencial, uma vez que Ignacio era um homem impaciente e pedante.
- Estella, o meu filho Ramon chega amanh para o almoo com a esposa e os dois filhos pequenos. Por favor, prepara o quarto de hspedes azul para eles e o quarto
ao lado. Bem sei como o meu filho gosta de espao. As crianas podem partilhar o mesmo quarto.  mais divertido assim.
- Si, Senora Mariana - respondeu Estella, obedientemente, tentando ocultar o seu entusiasmo. Ouvira falar muito sobre Ramon Campione,
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vira a fotografia dele nos jornais muitas vezes e at lera alguns dos seus artigos. A poesia das suas descries inflamara-lhe o corao e desde que soubera quem
os seus novos patres eram que ansiara por o conhecer. Gostava de vaguear pela casa, observando as fotografias colocadas sobre as mesas e as lareiras. Ramon tinha
um ar to formoso e romntico, com os seus longos cabelos pretos, olhos castanhos penetrantes e boca generosa, que parecia demasiado grande para o rosto, mas ao
mesmo tempo to cativante. Passara longos momentos a espanejar o vidro que protegia a imagem dele do p. Agora ia finalmente conhec-lo e mal se conseguia conter.
- Perfuma a roupa da cama com lavanda e coloca flores frescas nos dois quartos. No te esqueas das flores. A Federica aprecia muito a natureza.  uma menina muito
querida. Toalhas lavadas, gua fresca e fruta - instruiu Mariana, no esquecendo um nico pormenor.
- Quanto tempo iro eles ficar, Senora Mariana? - inquiriu Estella, tentando controlar o tremor na sua voz antes que este a trasse. Mariana encolheu os ombros.
- No fao ideia, Estella. Dez dias, talvez mais. vou tentar convenc-los a ficar at ao Ano Novo, embora seja difcil prender o meu filho a um stio s. O Ramon
encara cada dia como ele se apresenta, nunca faz planos - comentou orgulhosamente. - Um minuto est aqui e pensamos que veio para ficar e no minuto seguinte levanta-se
e vai-se embora, sem mais nem menos. E depois deixamos de o ver ou de ter notcias dele durante meses. Foi assim que Deus o fez, por isso no me queixo.
- Si, Senora Mariana - respondeu Estella.
- Os meus netos adoram manjar blanco. Por favor, assegura-te de que no falta, detestava ter de os desapontar - acrescentou ainda antes de abandonar a cozinha.

Estella suspirou de satisfao. Comeou a preparar os quartos logo de seguida. Cirandou pelo quarto das crianas como um tornado, varrendo as tbuas do soalho, espanejando
os mveis e fazendo as camas com lenis de linho irlands. Tratou do quarto de casal com mais cuidado, aromatizando a roupa de cama com lavanda e abrindo as venezianas
para que o ar fresco e o chilrear dos pssaros, que voavam pelos eucaliptos, enchesse o quarto. Quando abriu a porta do quarto de Ramon, respirou fundo antes de
fazer a cama lenta e carinhosamente, passando 49
os seus elegantes dedos morenos pela almofada para alisar quaisquer vincos. Imaginou-o ali deitado, olhando fixamente para si, convidando-a a juntar-se a ele. Depois
deitou-se na cama e fechou os olhos, inalando o intenso aroma das tuberosas que colocara numa jarra sobre a cmoda. Sorriu ao pensar que talvez amanh a cabea dele
estivesse onde a dela repousava agora e que ele nunca saberia que haviam estado to prximos.
Esperava que Ramon ficasse muito tempo.
Ignacio pousou o livro e rolou para fora da cama de rede. Sentia-se ensonado e letrgico. O final de tarde estava fresco, as sombras alongando-se, a mar trepando
pela costa como um predador nocturno. Deixou-se ficar no terrao, encostado ao parapeito, contemplando a superfcie regular do mar que suspirava hipnoticamente.
Sentia-se inquieto. O seu rosto envelhecido enrugou-se numa expresso ansiosa enquanto tentava descobrir o motivo da sua inquietao. A luz amadurara para um laranja
quente  medida que o Sol pairava atrs do horizonte, preparando-se para amanhecer noutra parte do mundo. Talvez tivesse sido a melancolia natural do pr do Sol
a mensageira deste sentimento, pensou esperanosamente. Contudo, sabia que tinha mais a ver com o seu filho do que com a natureza. Pressentia que as coisas no estavam
como deveriam estar.
Mariana avanou para o terrao para se juntar a ele e lhe levar o seu habitual copo de usque com gua.
- Aqui tens - disse ela, estendendo-lho. - Ests muito calado esta tarde - acrescentou, sorrindo para ele.
- Estou ensonado - replicou ele, bebericando a sua bebida.
- Leste demasiado tempo.
-  verdade.
- Tanta leitura pode subjugar uma pessoa - comentou ela, amavelmente, acariciando-lhe o brao moreno e curtido pelo sol.
- Pois .
- Seja como for, amanh j ters o Ramon e a Helena para te distrares, e aquelas adorveis crianas.
- Eu sei - concordou Ignacio, acenando com um ar grave.
- O Ramon deu  Fede uma caixa que pertenceu a uma princesa inca. Ou pelo menos foi isso que ela me contou - referiu Mariana, contemplando o sol a inundar o mar
de dourado.
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- Soa a uma das histrias do Ramon.
- Pois soa, no ? - Soltou uma gargalhada. -  mesmo tpico do Ramon. A imaginao dele nunca pra de me surpreender.
- com que ento, uma princesa inca...
- A Fede acredita que sim.

-  claro que acredita, Mariana, a mida venera o pai - apontou ele, abanando a cabea. - Ela venera-o e ele abandona-a tempos a fio.  uma pena.
- Oh, Nacho, com franqueza!  por causa disso que ests to calado? Por causa do modo de vida do nosso filho? Na verdade, isso no nos diz respeito. Se para eles
est tudo bem, no deveramos meter-nos.
- Mas ser que para eles est tudo bem? - questionou ele, olhando-a nos olhos. - No tenho assim tanta certeza. Os meus ossos dizem-me outra coisa.
- Os teus ossos esto velhos, Nacho. Admira-me que ainda sintam o que quer que seja - brincou ela.
- Podem estar velhos, mulher, mas so to sensveis quanto sempre foram. Ds um passeio comigo pela praia? - convidou ele de repente, acabando o que restava do usque
de um s trago.
Mariana fez um ar surpreendido.
- Agora?
- Sim, claro. Ns os mais velhos temos de aproveitar enquanto ainda somos capazes. Amanh podemos j c no estar.
- Que disparate, mi amor. Realmente, s vezes, s uma companhia muito infeliz. Mas est bem, eu dou um passeio contigo pela praia. Podemos tirar os sapatos, molhar
os ps e andar de mos dadas como antigamente.
- Ficaria muito satisfeito - confessou ele, tirando o panam e beijando-a na bochecha macia.
- Seu velho romntico - troou ela, rindo-se da patetice de ambos. J no tinham idade para este tipo de jogos.
Ramon aconchegou a roupa a Federica. Reparou que a caixa estava na mesa-de-cabeceira ao lado dela.
- Tenho medo que a caixa j a no esteja quando eu acordar confessou ela de repente, o seu suave rosto contorcendo-se de ansiedade.
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- No te preocupes, Fede, ainda aqui estar quando acordares. Ningum a levar enquanto dormes, prometo.
-  a coisa mais bela que alguma vez tive. No queria nada, mas mesmo nada, ficar sem ela.
- No ficars - tranquilizou-a ele, beijando-a na testa. - J reparaste que o co da Senora Baraca no est a ladrar?
- Est feliz e cansado, como eu - disse Federica, sorrindo para o pai.
- Est exausto.
- E amanh, podemos lev-lo a passear antes de irmos para Cachagua?
- Claro que podemos - respondeu ele, acariciando-lhe o rosto com a ponta dos dedos. - Podemos lev-lo a correr pela praia outra vez.
- Tenho pena da Senora Baraca - disse ela.
- Porqu?
- Porque  uma pessoa muito triste.
-  ela que escolhe ser assim, Fede.
- Ai sim?
- Sim. Toda a gente pode escolher ser feliz ou triste.
- Mas a mam contou-me que o marido dela morreu - protestou Fede.
- A mam tem razo, mas o marido dela morreu h mais de dez anos, antes sequer de tu teres nascido. Ou seja, foi h muito tempo.
- Mas Wanchuko ficou triste durante toda a vida.

- Sim,  verdade. Mas no tinha de o fazer. Por vezes,  melhor seguir em frente do que ficarmos presos ao passado - explicou Ramon. - Devemos tirar lies do passado
e depois seguir em frente.
- E o que deveria a Senora Baraca ter aprendido com o seu passado? - quis saber Federica, bocejando.
- Que deveria passar mais tempo a cuidar do seu co do que a chorar o falecido marido, no achas? - e riu.
- Sim - concordou ela e fechou os olhos. Ramon ficou a observ-la a deixar-se arrastar para um mundo de princesas e borboletas mgicas. As suas longas pestanas reflectiam
a luz que entrava do corredor, concedendo-lhe uma beleza celestial. O rosto dela era longo e nobre, generoso e honesto. Sentiu um n na garganta ao pensar em deix-la
e, embora isso
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no o tenha feito mudar de ideias, tornou-se pelo menos mais difcil de aceitar. Inclinou-se e beijou-lhe a testa mais uma vez, sentindo a sua aveludada pele contra
os seus secos lbios. Sentiu o aroma do sabonete dela e o odor dos seus cabelos. Queria envolv-la nos seus braos e proteg-la da dura realidade de um mundo que
apenas a desapontaria.
Antes de se deitar, escapuliu-se tambm at ao quarto de Hal para o observar enquanto dormia. No se sentia to prximo do filho. A criana tinha apenas quatro anos
e mal o conhecia. Hal era mais ligado  me e pouca ateno dava ao pai. Hal no precisava dele como Federica. Contemplou o rapazinho a chuchar no dedo, abraado
ao seu coelho de brincar. Hal parecia encarnar as qualidades de um anjo, como se tivesse sido colocado na cama por Deus em pessoa. A pele dele era imaculada, a expresso
serena e satisfeita. Ramon passou a sua spera mo pelo cabelo do filho. Hal mexeu-se e mudou de posio, mas no acordou. Ramon abandonou o quarto to silenciosamente
quanto entrara.
A cama estava fria apesar da noite estar quente. Helena dormia enroscada num dos lados, mesmo na extremidade da cama, num esforo para evit-lo. Ramon deitou-se
de costas, contemplando o glido luar a avanar pelo tecto. Nenhum deles recordou o febril interldio da tarde. No queriam faz-lo. Helena desejava que no tivesse
acontecido e ruborizava-se de vergonha quando pensava nisso. Por isso, fazia de conta que simplesmente no acontecera. Sentia-o a seu lado, no porque ele se mexesse,
pois no mexia, mas porque a atmosfera estava to pesada que era como se uma terceira pessoa ocupasse o espao entre eles. Helena temia mover-se ou fazer qualquer
barulho, por isso respirava superficialmente e permanecia to rgida quanto um cadver. Quando o sono por fim os venceu foi agitado e frgil. Helena sonhou que chegara
 Cornualha, mas no era capaz de achar Polperro. Ramon sonhou que estava na praia enquanto Federica se afogava no mar. No fazia nada para a salvar.
CAPITULO CINCO

Quando Federica acordou ficou desapontada ao ver a nvoa martima redemoinhar densa e cinzenta frente  sua janela, obscurecendo o Sol matinal e silenciando os pssaros.
Estava frio e hmido. A me sempre lhe dissera que a nvoa marinha era atrada para a costa pelo calor em Santiago. Se estivesse muito calor na capital, Vina ficaria
enevoada. Federica detestava a nvoa. Era deprimente. Depois esqueceu os cus cinzentos e puxou a sua caixa da borboleta para o colo. Abriu-a, deslocou-a para um
lado e para o outro, passou os dedos pelas pedras, satisfeita por a luz continuar a fazer com que as iridescentes asas estremecessem e tremeluzissem. Foi assim que
a me a encontrou, absorta no mundo mgico de faz de conta de Ramon, algures entre as montanhas do Peru.
Helena mal dormira. Ou, pelo menos, sentia-se como se no tivesse pregado olho. Sentia a cabea pesada. Tomara um analgsico e esperava que fizesse efeito rapidamente.
Entrou no quarto de Federica ainda de roupo, seguida por Hal, j vestido e a brincar com o seu novo comboio. Quando Federica a viu, plida e com olheiras, reparou
de imediato e perguntou-lhe se estava bem.
- Estou ptima, querida, obrigada - respondeu Helena, forando um pequeno sorriso. Contudo, os seus olhos no sorriram. Permaneceram embotados e sem expresso. Federica
franziu a testa e fechou a caixa.
- No pareces muito bem, mam. Queres que te faa o pequeno-almoo? Onde est o pap? - perguntou, saltando da cama.
- O pap ainda est a dormir, por isso  melhor no o acordarmos. Porque no vestes o teu roupo e vamos fazer o pequeno-almoo juntas? - sugeriu, passando a mo
pela cabea de Hal quando este passou
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por ela a fazer rudos de comboio. Federica vestiu o roupo e interrogou-se se o pai se lembraria que prometera lev-la at  praia com Rasta. Esperava que o pai
acordasse, ao invs de passar a manh toda na cama, como tinha tendncia a fazer. Desceu as escadas e dirigiu-se  cozinha. Hal estava sentado no cho a arrastar
o comboio pelos ladrilhos de terracota e por baixo da mesa, falando para si mesmo e continuando a fazer rudos de comboios.
Federica ajudou a me a pr a mesa do pequeno-almoo na sala de jantar. Quando o pai estava em casa deixavam de comer na cozinha, um hbito ingls que Helena nunca
perdera, e comiam como os chilenos na sala de jantar. Lidia chegaria s dez horas para limpar a casa e fazer o almoo. Ramon raramente entrava na cozinha. Crescera
habituado a ter empregados, ao contrrio de Helena, cuja cozinha familiar era o corao da casa.
Ramon acordou e deu por si sozinho numa cama estranha. Foi preciso um momento para se recordar de onde estava e para que a infelicidade da mulher o encontrasse de
novo. Olhou para a janela, onde as cortinas danavam com a brisa fria vinda do Pacfico e que trazia consigo a hmida nvoa marinha. No queria levantar-se. A atmosfera
no quarto estava sufocantemente opressiva. Queria tapar a cabea com os lenis e imaginar que estava bem longe nas nuvens, acima da nvoa e da infelicidade que
pendia densa sobre as paredes da casa como limo. Permaneceu deitado sentindo-se desanimado, reprimindo o impulso de se levantar, fazer a mala e partir.
Depois escutou os passos leves da filha. O desnimo transformou-se em culpa e espreitou por cima dos lenis.

- Ests acordado, pap? - perguntou ela. Ramon viu o rosto expectante da filha avanar, os seus grandes olhos azuis pestanejando para si, esperanosamente. Caminhava
como se no quisesse acord-lo. Avanava aos poucos como um veado tmido, indeciso se o animal deitado na cama era amigo ou inimigo. Ramon empurrou o lenol para
baixo para que ela pudesse ver que no estava a dormir. O rosto dela iluminou-se e sorriu de orelha a orelha.
- Fiz-te o pequeno-almoo, pap - declarou, e as suas bochechas brilharam de orgulho. - Podemos ir at  praia apesar de estar nevoeiro?
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- Podemos ir  praia agora mesmo - respondeu ele, animando-se com a ideia de sair de casa. - Levamos o Rasta connosco. Gostavas, no gostavas? E depois partimos
para Cachagua.
- A mam diz que estar sol quando chegarmos a Cachagua - declarou, saltando impaciente de um p para outro.
Enquanto Ramon estava na casa de banho, Federica ocupou-se a abrir as cortinas e a fazer a cama. Estava habituada a cuidar da me, mas cuidar do pai dava-lhe ainda
mais prazer. Era uma novidade. Ramon tomou o pequeno-almoo por Federica. Hal terminara o seu e estava a brincar sozinho na sala de estar. O seu interesse pelo comboio
excedia em muito o seu interesse pelo pai, que encarava com reserva e desconfiana, pois apercebia-se da tenso no ambiente, como  costume das crianas pequenas.
Helena estava sentada  mesa a bebericar o seu caf. Ramon reparou que os olhos dela, estavam encarnados e o rosto exaurido de cor. Sorriu para ela, educadamente,
mas ela no lhe sorriu de volta, at Federica ter entrado na sala de estar com os croissants. S ento  que se endireitou na cadeira e fez um esforo por agir como
se tudo estivesse bem.
Depois do pequeno-almoo, Ramon pegou novamente na mo de Federica e conduziu-a estrada abaixo at  praia, segurando na outra a trela de Rasta. Federica j no
se importava que estivesse nevoeiro ou sol. Estava com o pai, s os dois. Sentia-se especial e amada e segurava a caixa da borboleta com fora contra o peito. Tiraram
os sapatos, os ps grandes e morenos de explorador de Ramon faziam os de Federica, pequenos e rosados, parecer ainda mais pequenos e vulnerveis. Juntos, caminharam
pela praia, deixando o mar acariciar-lhes os ps e cobri-los de espuma. Ramon contou-lhe histrias sobre os locais que visitara, as pessoas que conhecera, e Federica
escutava-o abismada, suplicando por outra, at que estavam a caminho de Cachagua, subindo a costa por entre o nevoeiro.
 medida que deixavam a cidade para trs, a estrada foi deixando entrever o encanto pastoral das zonas rurais. Passaram por pequenas aldeias de casas coloridas com
telhados de chapa ondulada e janelas sem vidros que davam para interiores escuros. Bancas de venda de fruta salpicavam a beira da estrada, e carroas puxadas por
cavalos sarnentos avanavam pelos caminhos de areia, conduzidas por chilenos curtidos pelo tempo nos seus ponchos. Ces escanzelados farejavam o cho ressequido
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em busca de alguma coisa para comer, e crianas de rostos sujos brincavam com paus e latas velhas de Coca-Cola, os seus grandes olhos escuros contemplando o carro
com curiosidade  medida que passava. A estrada era poeirenta e esburacada aqui e ali. Pararam ao fim de algum tempo para descansarem e se refrescarem. O nevoeiro
comeava a levantar e o Sol j espreitava. A sombra das esguias accias escurecia ao mesmo tempo que a luz se intensificava por trs delas, abrindo caminho por entre
a nvoa. Federica bebia um copo de limonada enquanto Ramon mastigava uma empanada. As morenas e sujas crianas chilenas estavam sentadas em grupo contra a parede
caiada da barraca, observando Federica e Helena de olhos esbugalhados, sussurrando umas para as outras, ansiando por se aproximarem e tocarem nos seus cabelos louros,
angelicais, e verem do que eram feitos.
Helena e Ramon sentiam-se muito melhor por estarem fora de casa, longe do local que no representava mais nada a no ser infelicidade para Helena e desapontamento
para Ramon. com o aparecimento do sol, comearam a sorrir um para o outro e a abandonar-se  animada tagarelice dos filhos. Os olhos de Helena voltaram a brilhar
e a cor regressou s suas mas do rosto. Ramon esperava que talvez ela pudesse mudar de ideias. Um par de semanas longe de casa far-lhe-ia bem.
Mariana e Ignacio tomaram o pequeno-almoo na sala de jantar, uma vez que a neblina tornava desagradvel uma refeio ao ar livre no terrao. Quando Estella entrou
com o caf e as torradas, no seu impecvel uniforme azul, com os cabelos negros soltos pelas costas, Mariana notou que havia qualquer coisa de diferente nela e comentou
o facto com o marido.
- A mim parece-me na mesma - replicou ele, olhando para a empregada por cima dos culos para a ver melhor. - Na mesma - repetiu ele, devolvendo a sua ateno ao
enorme quebra-cabeas a que se dedicava.
Mariana observou-a a servir o caf. Estava definitivamente diferente. No era o cabelo, pois no era a primeira vez que o usava solto. Era qualquer coisa no rosto
dela. Parecia estar mais maquilhada. Tinha as mas do rosto rosadas e os olhos brilhavam como seixos molhados. Cheirava a sabonete e a rosas e a sua pele brilhava
devido ao leo que espalhara nela. Mariana sorriu e interrogou-se por que motivo Estella se dera a tais trabalhos.
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- Acho que ela deve ter um "amigo" em Cachagua - comentou ainda com Ignacio, que no estava nem um pouco interessado na vida privada da sua empregada. - Sim, ela
deve ter um pretendente, Nacho. Ora, ora, quem ser? - interrogou-se em voz alta e esfregou o queixo com a ponta dos dedos. Estella reparou que Mariana a estava
a observar com um ar conhecedor e corou. Sorriu de volta, nervosamente, e abandonou a sala, receosa que a Senora Mariana pudesse adivinhar a razo por trs dos seus
rubores.
Por volta do meio-dia, o cu exibia um majestoso tom de azul, os ltimos farrapos de nvoa dissipados pelo feroz calor do sol de Dezembro. Mariana sentou-se  sombra
no terrao, atenta ao som do carro, ocupando-se do seu bordado, enquanto Ignacio tratava da correspondncia dentro de portas. Acabara de ir verificar os quartos
e as casas de banho e viera muito satisfeita com a nova empregada, que cumprira todas as instrues da patroa, no esquecendo nenhum pormenor. Gostava do facto de
a rapariga ter iniciativa. E at ia um pouco mais longe sem que tal lhe fosse pedido. Mariana contemplou o sombrio terrao de madeira, os vasos de plantas e altas
palmeiras que o abrigavam do sol e reparou que tinham todas sido regadas. No pedira a Estella que o fizesse, ela mesma tomara a iniciativa de o fazer sem esperar
que lho pedissem. "A isso chamava-se iniciativa", pensou Mariana com satisfao.

 medida que o carro descia a estrada poeirenta para Cachagua, Federica desceu o vidro do carro e meteu a cabea de fora. Cachagua era a mais bonita das aldeias
costeiras. Uma vedao baixa de madeira, parcialmente ocultada por luxuriantes fenos e folhas de palmeira, rodeava cada casa de telhado de colmo. Por vezes, a nica
prova visvel de que havia uma casa escondida por trs de uma tal abundncia de verdura era a elevada torre de gua que se elevava para aparar a chuva. Era um osis
de rvores - palmeiras, accias e eucaliptos. Os seus doces aromas misturavam-se com o sal do oceano e os arbustos de jasmim zumbiam com o af das abelhas. O trilho
arenoso serpenteava pelo pueblo at  comprida praia dourada e mar cristalino. A casa de Ignacio e Mariana era a mais bonita da aldeia. Escondida por trs de exuberantes
rvores, assemelhava-se a uma cabana de madeira sobre estacas com um enorme terrao suspenso sobre as rochas, junto ao mar. O interior estava escassamente decorado
com tapetes tecidos, multicoloridos, e sofs carmesim. Mariana
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sempre tivera muito bom gosto e Ignacio detestava tralha. Fora conhecido por passar as mos, de forma impaciente, sobre superfcies que achava demasiado atravancadas,
deitando tudo ao cho. Tinha um temperamento violento que apenas Mariana conseguia suavizar com a sua voz calma e apaziguadora e modos dceis, detectando sempre,
antecipadamente, os acessos de clera do marido pelo sbito intumescimento das orelhas dele.
Quando o carro atravessou os portes, Ramon fez soar a buzina. O corao de Mariana saltou, mais por se ter sobressaltado do que por emoo, pois passara pelas brasas
e esquecera-se de estar atenta  chegada deles. Chamou o marido e, erguendo-se da cadeira lentamente - a idade j no lhe permitia pr-se de p de um pulo como costumava
fazer quando era jovem -, avanou para a porta para os receber e cumprimentar.
As mos de Estella estavam hmidas de tanto nervosismo. Encostou-se ao lava-loias e alisou o seu uniforme azul-claro. Escutou as vozes animadas das crianas, o
riso contagiante da Senora Mariana enquanto as abraava e beijava, e depois a voz solene e grave de Dom Ignacio. Aguou o ouvido para distinguir a voz de Ramon Campione,
mas o burburinho de vozes adultas tornava a dele indistinta. Nem sequer sabia como ela soava.
Federica correu para o terrao estendendo a sua caixa para que a av a admirasse. Helena admoestou-a para que fosse paciente, que a aboelita teria todo o tempo do
mundo para a ver mais tarde, depois de matar as saudades do pap. Federica recuou obedientemente para a cama de rede, onde se enroscou como um co e ficou a ver
os avs a conversar com os pais. Hal estava sentado nos joelhos de Helena com o comboio, que fazia avanar para a esquerda e para a direita em cima da mesa. Aps
algum tempo, Federica fartou-se de esperar e abriu a caixa para contemplar o seu mundo secreto de faz de conta.
- Quanto tempo  que ficam connosco? - perguntou Ignacio sem cerimnia, reparando na impacincia nos olhos do filho. Ramon encolheu os ombros e olhou com prudncia
para a cama de rede. Federica j no estava a escutar a conversa.
- No sei - respondeu.
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- Mas ficam at ao Natal, no ficam? - sondou Mariana. - Certamente que no pensavam ir-se embora antes do Natal! - acrescentou, aterrada com semelhante ideia.

-  claro que no - garantiu Helena e esboou um sorriso.
- Ento, porque no ficam at ao Ano Novo? Ainda no sei quem vir, provavelmente o Felipe e a Maria Lcia e o Ricardo e a Antonella. Ningum me avisa de nada, limitam-se
todos a aparecer quando lhes apetece - declarou ela, fingindo queixar-se, mas sorrindo de satisfao. Ramon olhou para Helena, mas a arte da comunicao silenciosa
que outrora haviam partilhado perdera-se h muito em conjunto com a intimidade.
- Seria um prazer - respondeu Helena, pensando nas crianas e na semana extra que teriam na companhia do pai. Podiam regressar a Inglaterra depois do Ano Novo. Um
novo ano e um novo comeo, pensou ela e suspirou. Mariana reparou na tenso entre eles e a sua vivacidade esmoreceu-se um pouco. Olhou de relance para o marido,
capaz de sentir os seus pensamentos mesmo sem olhar para ela.
- ptimo - concluiu ele e acenou com a cabea.
Nesse instante, precisamente no momento em que um desconfortvel silncio se preparava para se abater sobre a conversa, Estella apareceu no terrao com um tabuleiro
de pisco sour. Mantinha-se concentrada no que estava a fazer por recear tropear e fazer uma figura ridcula. Ramon ps-se de p para a aliviar da sua carga.
- Cuidado,  pesado - disse ele, tirando-lhe o tabuleiro das mos. Estella olhou para ele por entre as suas espessas pestanas negras e respondeu em voz baixa e harmoniosa:
- Obrigada, Dom Ramon.
Ramon sorriu-lhe e ela sentiu o estmago contrair-se e as mas do rosto em chamas. Voltou a baixar os olhos. O rosto dela era to macio, to inocente e generoso
que o impulso imediato de Ramon foi examin-lo um pouco mais, mas sentia que os pais e a mulher os estavam a observar. Pesarosamente, desviou os olhos, virou-se
e colocou o tabuleiro das bebidas na mesa. Quando olhou de relance para trs de si, a empregada tinha j desaparecido no interior da casa, deixando apenas um tnue
perfume a rosas.
Ramon verteu a tradicional bebida chilena de limo pisco nos copos e estendeu-os aos pais e a Helena. Depois de se voltar a sentar, reparou
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que a empregada estava de regresso com dois enormes copos de sumo de laranja para as crianas.
- A Estella  a nova empregada - disse Mariana em voz baixa.  maravilhosa. Lembram-se da Consuelo? - inquiriu. Ramon acenou que sim distraidamente, com um olho
na jovem mas madura empregada que atravessava o terrao de volta  cozinha. - bom, a querida e idosa Consuelo faleceu o Vero passado. Eu j no sabia o que havia
de fazer, no era Nacho? No sabia onde havia de procurar.
- Ento, como  que a encontrou? - perguntou Helena, satisfeita por haver novo tema de conversa.
- bom, nem fui eu que a descobri, foram os Mendoza, que tm uma casa de Vero em Zapallar. Ela  sobrinha da empregada deles, a Esperanza. A que  muito vesga -
explicou, e depois acrescentou: Pobre Esperanza.
- Ento, est satisfeita com a Estella? - quis saber Helena, afastando o cabelo da testa do filho e beijando-o ternamente.

- Muito.  eficiente e trabalhadora e no nos d problemas nenhuns.
- Ao contrrio da Lidia - comentou Helena com uma gargalhada.
- Tem sempre de se queixar de alguma coisa. Se no forem as costas  a barriga, os ps ou os tornozelos que incham com o calor. Mal consegue deslocar-se pela casa,
quanto mais limpar com jeito. A pobre da Federica  que faz tudo.
- com certeza que no! - exclamou Ignacio, consternado.
- bom, ela gosta - apressou-se Helena a explicar.
- Parece gostar, sim - acrescentou Ramon em defesa dela. A Helena  uma boa me, pap - disse ainda, olhando para a esposa na esperana de ganhar um sorriso. Helena
permaneceu impassvel, como se no o tivesse escutado.
-  claro que  - corroborou Mariana. - Fede, anda c e mostra-me a tua lindssima caixa - chamou, e a menina saltou da cama de rede e correu at ela.
- Eu tambm quero v-la - protestou Ignacio, puxando a menina para o seu colo.
Federica colocou a caixa sobre a mesa.
- Pertenceu outrora a uma princesa inca - explicou Fede num tom solene. Deteve-se ento numa pausa dramtica antes de levantar
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a tampa. Para sua grande satisfao, o av arquejou e aproximou a caixa para ver melhor. Empurrou os culos para junto dos olhos e espreitou para dentro da caixa.
- Por Dios, Ramon, onde  que encontraste este tesouro? Deve valer uma fortuna!
- Foi-me oferecida no Peru - respondeu Ramon. Federica inchou de orgulho.
- No Peru, ha? - Depois passou os dedos pelas pedras.
-  uma caixa mgica, aboelito - avanou Federica.
- Estou a ver que sim - concordou Ignacio. - Toma, mulher, v bem isto.  extraordinria. - Empurrou a caixa por cima da mesa na direco de Mariana. Helena sentia-se
culpada por no ter prestado mais ateno ao presente da filha.
- Minha querida,  lindssima - comentou num tom de admirao.
- Se inclinarmos a caixa para um lado e para o outro, as asas mexem-se. Reparem! - mostrou Federica, pegando na caixa e pendendo-a de um lado para o outro. Todos
contemplaram o efeito com espanto.
- Meu amor, ests absolutamente certa - referiu Mariana, abanando a cabea, incrdula. - Nunca vi uma coisa assim.
- Pap, posso contar a histria? - Ramon acenou que sim e Federica, os seus enormes olhos azuis brilhando de satisfao, comeou a contar-lhes a lenda da caixa da
borboleta. Todos a escutaram em silncio a relatar a histria que o pai lhe contara.
Sem que ningum a visse, Estella estava por trs das portas que davam para o terrao, observando o rosto folgazo de Ramon a sorrir com enorme ternura para a filha.
Era ainda mais bonito do que nas fotografias e possuidor de um carisma que preenchia a casa e a dominava. Permaneceu oculta na sombra, to imvel quanto uma esttua
de mrmore, contemplando-o com os olhos enquanto a sua mente era arrastada para o mundo da fantasia.

Depois do jantar, e de as crianas terem ido para a cama, Ignacio e Ramon levaram as suas bebidas at  praia e caminharam pela gua, tal como Ignacio fizera na
noite anterior com a esposa. O cu estava lmpido e tremeluzente, o mar iluminado pela Lua fosforecente que pendia impondervel sobre as suas cabeas. A princpio
falaram de trivialidades, sobre o ltimo livro de Ramon e as suas mais recentes aventuras. Por fim, o pai, sorveu o resto da sua bebida e colocou-se frente a Ramon.
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- Que se passa, filho? - perguntou sem rodeios.
Ramon ficou em silncio por um momento. No sabia ao certo.
- Ela vai deixar-me, pai - declarou. Ignacio deteve-se.
- Vai-te deixar? - repetiu, incrdulo.
- Sim.
- Porqu?
- J no me ama.
- Que grande disparate! - rugiu. - Ela clama  por ateno, qualquer palerma consegue perceber isso. Que mais? - exigiu saber. Ramon enterrou os ps na areia.
- No lhe dou qualquer apoio.
- Entendo.
- Ela quer que eu mude.
- E porque no o fazes?
- No consigo.
- s demasiado egosta - disse o pai num tom severo.
- Sim. Sou muito egosta.
- E as crianas? - Ramon encolheu os ombros. - Ama-las, no amas?
- Sim, claro, mas...
- Mas! No existem "mas" no que diz respeito s crianas, filho. Os midos precisam de ti.
- Eu sei. Mas eu no posso ser o que eles querem.
- E porque no?
- Porque simplesmente no consigo ser um homem de famlia, pai. No estou talhado para isso. Assim que chego a casa fico com vontade de partir de novo. Fico com
uma sensao de claustrofobia na boca do estmago. No posso estar parado. Preciso de ser livre. No posso ser restringido. - Sufocou.
- Cresce, Ramon, por amor de Deus - disse o pai, impacientemente. Ramon ficou surpreendido. Sentia-se, de novo, como um rapazinho a ser castigado pelo pai. Permaneceram
em silncio, olhando um para o outro por entre o crepsculo. Por fim, comearam a caminhar pela praia em direco a casa, cada qual absorto nos seus pensamentos.
No havia mais nada a dizer. Ramon no conseguia explicar a sensao de priso que sentia, e Ignacio sabia que os seus conselhos no eram bem recebidos.
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Helena ficou aliviada quando Ramon sugeriu que dormiria no quarto ao lado. Sorriu para ele agradecida. Ramon no lhe contou a conversa que tivera na praia com o
pai. Ela j no era a sua aliada. Eram estranhos. Corteses, distantes, desconfiados.

Ramon meteu-se na cama. Sentiu o aroma a lavanda e a tuberosa e pensou em Estella. Pensou nas mos dela a fazer a cama e a colocar as flores na jarra. No valia
a pena reprimir os seus desejos como teria antigamente feito, antes de o adultrio se ter tornado uma forma de vida. Antigamente, no desejava mais ningum a no
ser a sua esposa. Esta amara-o como, acreditava ele, mais ningum o poderia amar. Nesses primeiros tempos, poderia fechar os olhos que continuaria a estar com ela;
mais tarde, fechava os olhos e estava com outra pessoa, outra pessoa qualquer. Naquele momento, fechou os olhos e pensou em Estella. O seu tmido semblante, receoso
e no entanto descarado. Os seus carnudos lbios que pediam para serem beijados e a sua pele brilhante que no conseguia esconder o desejo que a inflamava por dentro
como uma fogueira. Interrogou-se onde seria o quarto dela e se ficaria surpreendida por v-lo na soleira da sua porta. Quase saiu da cama para a ir procurar, mas
admoestou-se contra tamanha imprudncia. Uma coisa era quando andava nas suas viagens, sozinho com os seus segredos. Mas aqui, na casa dos seus pais, no era correcto.
Suspirou e virou-se de barriga para cima. A brisa estava fresca e penetrava pelas fendas da veneziana, mas, ainda assim, sentia-se quente e inquieto, inflamado pelo
desejo.
Depois fez algo completamente insano. Levantou-se e foi at  praia. Sob a luz argntea, tirou a toalha que o cobria e entrou nu no mar. A gua fria aturdiu-lhe
os sentidos e arquejou. Nadou em direco ao horizonte at os ps deixarem de sentir o fundo e o corpo ter arrefecido a ponto de no ter pensamentos concupiscentes.
Deitou-se ento de costas, flutuando com os braos esticados e remando levemente com as mos. Contemplou o escuro cu e interrogou-se o que haveria para l das estrelas.
Deixou-se arrastar pela corrente at deixar de sentir a humilhao das duras palavras do pai. No silncio da sua cama aqutica, j no se preocupava com nada. Tinha
a mente entorpecida e o corao frio e insensvel. Quando finalmente se colocou na vertical, reparou que flutuara para mais longe do que tencionara. Nadou freneticamente
de volta  costa, a cabea matraqueando com as muitas histrias que escutara
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em criana sobre pessoas que eram arrastadas para o alto mar e se afogavam. Quando sentiu de novo o fundo debaixo dos ps, o seu corao aquietou-se e caminhou em
direco  praia, grato por estar vivo.
Estella estava no terrao observando ansiosamente a praia em busca de Dom Ramon que desaparecera no mar. No conseguira adormecer por saber que dormiam sob o mesmo
tecto. O seu corpo tremia com um desejo que mal conseguia controlar. Por isso, viera at ao terrao para respirar ar fresco e aclarar as ideias. Fora nessa altura
que o vira avanar pela areia, tirar a toalha e caminhar nu para dentro de gua. Tivera de se agarrar  balaustrada para se impedir de o seguir e revelar o que sentia
por ele. Mas o tempo passara e ele no regressara. Estella sabia de pessoas que se haviam afogado nestas guas frias e sentira um n no estmago ao pensar que lhe
podia ter acontecido o mesmo.

Para seu grande alvio, vislumbrou a silhueta dele a sair da gua. Estava vivo. Estava salvo. Podia respirar novamente. Oculta pela escurido, viu-o pegar na toalha
e secar-se. Depois comeou a avanar praia acima com a toalha pendurada em redor do pescoo. Estella recuou em direco  parede,  medida que ele se aproximava.
Foi incapaz de deixar de olh-lo todo o tempo que ele caminhou naquela direco, ignorando que os olhos dela lhe consumiam febrilmente o corpo nu. Depois de ele
desaparecer no interior da casa, deixou-se cair no cho de madeira e cobriu a cara com as mos. Estava a enlouquecer. Que iria ele pensar?
Quando Ramon voltou a meter-se entre os lenis; sentia-se fresco e menos perturbado. Fechou os olhos e escutou o corao que comeava a bater menos aceleradamente,
e a respirao acalmar-se  medida que o sono o vencia.
Estella retirou-se para o seu quarto to agitada quanto anteriormente e deitou-se na cama atormentada por pensamentos sobre ele.
CAPITULO SEIS
Na manh seguinte, Ramon acordou com o barulho dos filhos a brincar l fora. Deixou-se ficar deitado a olhar para as venezianas, para as brilhantes faixas de luz
que penetravam pelas frinchas da madeira como que a procur-lo. Lembrou-se de Estella e o pensamento f-lo saltar da cama com entusiasmo. Abriu as venezianas. Ouvia
a voz animada de Federica no terrao e o tom calmo e indulgente da sua me. Vestiu um par de cales e uma T-shirt e caminhou descalo pelo soalheiro corredor. Reparando
que o resto da famlia estava l fora, avanou para a cozinha na esperana de encontrar Estella. Ficou decepcionado. A cozinha estava calma e vazia. Ela estivera
ali, pois o po estava em cima da tbua e os legumes dispostos sobre a bancada. Sentia o aroma a rosas misturado com qualquer coisa que pertencia apenas a ela. Farejou
o ar como um animal. Esperou um pouco, mas ela no apareceu. Frustrado, passou  sala de jantar, seguindo o perfume dela que foi aumentando de intensidade at ele
perceber que ela estava algures por perto. Os seus batimentos cardacos aceleraram-se com a excitao da perseguio.
- Buenos dias, Dom Ramon - escutou uma voz por trs de si. Virou-se e deu com ela agachada a mudar um disco. Reparou na coxa exposta e na bonita curva do seu tornozelo.
A sua vontade era esticar o brao e tocar-lhe.
- Buenos dias, Estella - respondeu, reparando que as mas do rosto dela se ruborizaram ao escutar o seu nome. Sorriu-lhe at a presso do seu olhar a fazer desviar
o dela. com a mo a tremer, colocou a agulha sobre o disco no prato do gira-discos. Cat Stevens ressoou pela sala. - Dana, Estella? - perguntou ele. Ela ps-se
de p com um ar embaraado.
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- No, senor - respondeu, pestanejando nervosamente as suas compridas pestanas.
- Eu adoro danar - acrescentou ele, balanando-se impelido pela msica e pela leveza que sentia no corao. Estella sorriu. Quando ela sorria, todo o seu rosto
ganhava vida, pensou ele. Os dentes dela eram brilhantes e brancos contra o tom achocolatado da sua pele. Os sedosos cabelos negros estavam apanhados numa espessa
trana que lhe pendia pelas costas. com a mo pouco firme, prendeu uma madeixa que tombara por trs da delicada orelha. Ramon observou cada gesto e, consciente dos
olhos dele sobre si, Estella corou. - Gosta de c estar? perguntou ele, tentando impedir que ela voltasse  cozinha.
- Si, Dom Ramon.
- A minha me disse-me que est muito satisfeita consigo, que trabalha muito bem.
- Muito obrigada - respondeu ela e sorriu outra vez.
Ramon foi subitamente desarmado pelo encanto do radiante rosto

de Estella.
- Fica linda quando sorri - disse impulsivamente. Ela reconheceu o desejo na voz dele e estremeceu, pois sabia que seria incapaz de ocultar o que sentia.
- Gracias, Dom Ramon - agradeceu meio sufocada, baixando os anelantes olhos para no trair os seus sentimentos.
- Foi a Estella que colocou a lavanda no meu quarto, e as flores? - Si, senor- respondeu sem flego, oprimida pela proximidade dele. Ramon estava to prximo que
conseguia sentir o seu perfume.
- So lindas. Obrigado. - Observou-a hesitando entre sair dali e ficar, consciente de que devia retirar-se para a cozinha, mas era incapaz de se afastar dele. Estella
humedeceu os lbios secos com a ponta da lngua e ele aproximou-se mais dela. Ela arquejou e sentiu todo o peso do olhar dele sobre si.
- Acha-me atraente, no acha? - disse ele num sussurro, cheirando a transpirao que perpassava pelo leve algodo do uniforme dela.
- Sim, acho-o atraente, Dom Ramon - confessou ela tambm num sussurro e engolindo em seco.
- Quero beij-la, Estella. Quero beij-la desesperadamente - declarou, abeirando-se ainda mais dela. Os rudos oriundos do terrao desvaneceram-se
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com o rugido do mar. Era apenas ele e Estella e a queixosa melodia de Cat Stevens que cantava "Oh baby baby its a wild world" no disco por trs deles.
- Pap, podemos ir  praia? - perguntou Federica, entrando de repente na sala, contente por ver o pai levantado e vestido. Ramon sobressaltou-se e ps-se direito.
Os ombros de Estella retesaram-se e, com a graciosidade de uma pantera, virou-se e esgueirou-se de volta para o fresco santurio da cozinha, onde se encostou  mesa
e se abanou com o seu livro de receitas. O corao palpitava-lhe como um pssaro assustado e as pernas tremiam-lhe como se tivesse caminhado sobre elas pela primeira
vez. Sentiu um fio de transpirao correr-lhe pelas costas e por entre os seios. Estava excitada por ele a desejar tambm, mas, ao mesmo tempo, receosa, pois sabia
que no devia dormir com um homem casado cuja mulher e filhos se encontravam na mesma casa. Sabia que podia perder o emprego. Sabia tambm que ele apenas a desejava
sexualmente, que no queria mais nada a no ser fazer amor consigo e depois coloc-la de lado e regressar ao leito marital. Contudo, no se importava. Uma noite,
rezou, meu Deus, d-me apenas uma noite e nunca mais voltarei a desviar-me do meu caminho. No conseguia conter-se. Era incapaz de resistir-lhe. Inclinou-se sobre
a mesa e comeou a cortar os legumes e a concentrar-se no almoo para acalmar os nervos.
Ramon seguiu relutantemente a filha at ao terrao e sentou-se  mesa, satisfeito por conseguir assim ocultar a excitao que lhe deformava os cales. Serviu-se
de caf e espalhou manteiga numa torrada. Helena estava sentada na outra extremidade do terrao com a me dele e Hal. Estava mais contente e descontrada, mas Ramon
no reparou, pois apenas via Estella e s pensava num plano para conseguir lev-la para a cama.

Federica sentou-se numa cadeira ao lado dele, balanando as pernas impacientemente. Colocou a caixa na mesa frente a ela. Abria-a e fechava-a, virava-a e inclinava-a,
mas Ramon estava demasiado absorto nos seus pensamentos para lhe conceder a ateno que ela desejava.
- bom dia, filho - cumprimentou Ignacio, emergindo com o seu panam na cabea e com umas calas largas cor de marfim e uma camisa azul-celeste de manga curta. -
Hoje podamos ir almoar a Zapallar e depois seguir at Papudo. Sei que algum aqui gostaria muito de andar de pnei - sugeriu e soltou uma gargalhada ao ver Federica
saltar da cadeira e correr para ele.
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- Sim, por favor! - suplicou ela, abraando-se  cintura do av. Ignacio acariciou-lhe o cabelo louro e tirou o chapu para se abanar. Estava calor e o ar parecia
pegajoso com o aroma a eucalipto.
- Que magnfica ideia, Nacho - comentou Mariana. - As crianas iam adorar. Gostavas de comer um gelado, no gostavas, Hal? perguntou ao neto que estava a brincar
com uma caixa de brinquedos que Mariana mantinha em casa para os netos. Hal acenou que sim com a cabea antes de se concentrar de novo no seu jogo.
- vou levar a Fede at  praia - declarou Ramon, que no fazia qualquer teno de ir almoar a Zapallar. Planeava passar a tarde a fazer amor com Estella.
- vou com vocs, Ramon - disse Mariana. - Sabe-me bem o passeio. Fica bem aqui, Helena? - perguntou.
Helena sorriu e acenou que sim com a cabea.
- Fico perfeitamente bem aqui com o Hal, obrigada - respondeu. Esperava que Ramon informasse os pais do que haviam combinado, pois achava que no tinha coragem suficiente
para lhes dizer que queria separar-se do filho deles. Observou-os a desaparecer dentro de casa. Dormira bem e acordara de bom humor. A casa de Mariana e Ignacio
era um local tranquilo e fresco, afastado da tenso que parecia pender das paredes na sua casa em Vina. Aqui sentia-se liberta. Tinham quartos separados e ela tinha
o seu prprio espao. Ramon dilua-se por entre os pais. No parecia to grande e opressivo com eles como parecia quando estava sozinho consigo. Recostou-se na cadeira
e pensou em Polperro.
Ramon e Mariana vaguearam pela praia enquanto Federica pulava e saltava, brincando  apanhada com as ondas que trepavam pela areia. Era ainda cedo para as pessoas
comearem a encher a areia com as suas toalhas e corpos untados, por isso tinham a praia s para eles.
- Estou to contente que tenhas regressado, Ramon - afirmou Mariana. Descalara as sandlias e as unhas pintadas de encarnado contrastavam com a areia enquanto caminhava.
- Sentimos muito a tua falta quando te ausentas. Conheo-te bem, filho, e compreendo-te - disse num tom melanclico -, por isso no entendas isto como uma queixa.
s um motivo de muito orgulho para ns.
- Tambm me orgulho muito de vocs, mam - devolveu ele, dando-lhe a mo. - No sei porque no consigo ficar mais tempo, alguma coisa dentro de mim me diz para no
parar.
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- Eu sei.  a tua criatividade, mi amor- disse ela como se isso desculpasse tudo.

- Quem me dera ser casado com algum como tu - suspirou Ramon.
- A Helena compreende-te melhor do que tu pensas.  bom para vocs viajarem juntos. Ontem ela parecia muito tensa e fatigada, mas hoje parece j ter ganho umas cores.
Parece muito mais feliz.
- Parece? - perguntou ele. Mal reparara.
- Sim, claro que parece. Sabes que ela precisa de algum tempo para se habituar de novo a ti de cada vez que regressas. Tens de ser paciente e no esperar demasiado.
- Sim, tens razo. - Ramon estava satisfeito por o pai no ter partilhado com a me a conversa que tivera com ele no dia anterior. Sabia que devia ser ele a dizer
a verdade  me. Que Helena se preparava para deix-lo, para deixar o Chile, partindo para comear de novo num pas distante. Porm, sabia que seria um desgosto
para a me no poder ver os netos crescer e no suportava ter de lhe fazer isso. A me estava to feliz por v-los! No era o momento adequado. Por isso, limitou-se
a sorrir para ela.
- Me, importas-te que eu no v a Zapallar com vocs? Estou cansado e um pouco abatido. Gostava de passar algum tempo sozinho. Sei que me compreendes melhor que
ningum. Queria um pouco de tempo s para mim, sem os midos - explicou cuidadosamente, sabendo como convencer a me devido a anos de prtica.
Mariana dissimulou o seu desapontamento.
- bom, tendo em conta que vais passar tanto tempo connosco, por esta vez passa -- concordou.
- Quatro semanas - disse ele.
- Falta assim tanto tempo para o Ano Novo? - perguntou Mariana, espantada. - No, deve ser menos, mi amor, j estamos em Dezembro.
- bom, pouco menos de quatro semanas.
- Que vo comprar aos midos para o Natal?
- No sei - respondeu Ramon, sinceramente. Ele e Helena estavam to absortos com os seus prprios problemas que se haviam esquecido por completo do Natal.
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- Deste aquela caixa deslumbrante  Fede. Ela anda to feliz com aquilo que no deve estar  espera de mais nada - comentou Mariana, recordando-se da espantosa beleza
do estranho objecto.
- Oh, a Helena comprou-lhes montanhas de presentes. Nesse departamento esto certamente mais do que bem servidos - disse, soltando uma gargalhada.
- So umas crianas bem afortunadas. Vamos ter um Natal maravilhoso, vais ver - garantiu a me, apertando-lhe a mo.

Federica ficou decepcionada por o pai no ir com eles almoar em Zapallar e fez um esforo para engolir as lgrimas. Helena foi acometida por uma confusa mistura
de emoes. Por um lado ficou aliviada e ansiava por algum tempo longe do perturbador peso da presena dele, mas por outro, sentia-se atrada para ele como uma temerria
mosca em redor da cabea de um boi. Sentia-se compelida a estar perto dele, mais que no fosse para provocar uma reaco. Ignacio comentou secamente que ele tivera
j trs meses s para si, mas aps a conversa entre eles na noite anterior compreendia que o filho queria tempo, no para estar sozinho, mas longe da mulher, e isso
entristecia-o. Fazia votos para que ambos acordassem e se dessem conta de que valia a pena salvarem o seu casamento.
Ramon ficou a ver o carro desaparecer no caminho arenoso e acenou a Federica, que acenou de volta, desoladamente, com a sua pequena e plida mo.
Estava muito calor. O sol do meio-dia martelava a terra com toda a sua fora. Ramon limpou a testa suada com as costas da mo e entrou em casa. Foi direito  cozinha
em busca de Estella, mas esta no estava l. Por isso, caminhou apressadamente para o terrao, o seu corao a bater contra o peito de expectativa, mas ela tambm
no estava l. Varreu a sala de estar com os olhos, j impaciente. No queria perder um momento sequer. Por fim, avanou pelo corredor abaixo em direco ao seu
quarto. Escutou o sussurrar de lenis e a doce voz dela enquanto cantava para si mesma.
Quando ele apareceu na soleira da porta, Estella deu um pulo. Ningum lhe dissera que Dom Ramon no ia a Zapallar com o resto da famlia. Estava espantada, pestanejando
em sobressalto.
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- Dom Ramon, assustou-me - queixou-se num tom afogueado. Levou a mo ao pescoo como que para tentar soltar o n que sentia na garganta.
- Peo desculpa, no era minha inteno assust-la. No sabia que estava aqui - mentiu ele.
- Posso arrumar o seu quarto mais tarde - sugeriu ela, largando o lenol e rodeando a cama na direco dele com o objectivo de abandonar o quarto.
- Sim, pode faz-lo mais tarde - respondeu ele, segurando-a pelo antebrao para a impedir de sair. Ela arquejou. Ramon colocou ento ambas as mos nos braos dela
e empurrou-a contra a parede. O peito dela subia e descia expectantemente. Reparou numa gotcula de suor na suave pele que formava o vale entre os seus seios. Levou
o dedo at ela e desf-la.
- Est nervosa? - perguntou, os seus olhos escuros examinando o rosto ansioso da empregada.
- O senhor  casado - respondeu ela, imbecilmente.
- Apenas no papel, Estella. Apenas no papel - disse num tom pesaroso. Depois inclinou a cabea e roou os lbios nos dela. Ela engoliu para libertar a tenso que
lhe apertava a garganta e fechou os olhos. Ele beijou-lhe a pele hmida do pescoo, percorrendo-lhe a orelha com a lngua. Tinha um sabor salgado e um odor a rosas.
As mos dele deslizaram at  bainha do uniforme e treparam por ele acima, os dedos traando o contorno das suas coxas e anca. Ela arquejou. Dominada pela fora
do carisma dele, sentiu o corpo perder a energia e ceder a uma vontade bem maior que a sua. Momentos como este pertenciam ao mundo dos sonhos e Estella estava determinada
a aproveit-lo, pois amanh seria um outro dia. Os plos do queixo dele no pescoo dela distraram-na momentaneamente, por isso quando a boca dele se colou  sua
deu-se conta de que os dedos dele brincavam com o elstico das cuecas dela, acariciando a pele hmida da parte interna das suas coxas. Quando a lngua de Ramon comeou
a explorar o interior macio da sua boca, entregou-se por completo. Os dedos dele puxaram-lhe as cuecas para o lado e descobriram o mago do seu desejo, onde ansiava
por ser tocada. Permaneceram pressionados um contra o outro, a respirao de ambos superficial e em unssono, os seus corpos escaldantes banhados

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no suor um do outro. Os dedos dele sentiam o aveludado dos stios mais recnditos dela e apreciou a forma como as pestanas dela estremeciam, quais asas de borboletas,
 medida que se abandonava s carcias dele.
Deitou-a sobre a cama e levantou-lhe o uniforme por cima da cabea, revelando-lhe a pele morena e os generosos seios. Vira o corpo dela nos seus febris sonhos; a
realidade no o desapontou. Tirou-lhe a roupa interior cuidadosamente e contemplou a sensualidade dela com gosto. Estella abriu os olhos e olhou para ele aturdida
de prazer, as plpebras pesadas e semicerradas. J no se mostrava tmida ou envergonhada. Permaneceu deitada numa atitude sensual, esperando que ele fizesse com
ela o que quer que desejasse. Ramon despiu a T-shirt e os cales e permaneceu de p frente a ela, exibindo toda a glria do seu corpo nu. Ela contemplou-o sem pressas
e com admirao. Tinha o rosto inflamado e os lbios encarniados dos beijos dele. Ela era linda e a sua beleza compensava-o da infelicidade do seu casamento. Por
isso deixou-se imergir nela e esqueceu-se de si mesmo. No fim, deitados ainda entrelaados na cama meio feita, iluminada pelo sol difuso que entrava pelas venezianas
que Estella fechara para manter o quarto fresco, Ramon desfrutou da sensao de bem-estar e sentiu o bater vigoroso do seu corao. Olhou para o rosto escaldante
dela e para o comprido cabelo cor de bano espalhado sobre a cama como um leque. Estella reparou que ele estava a olhar para si e sorriu de satisfao. Ele passou-lhe
a mo pelas costas, os dedos brincando com as vrtebras distraidamente. com a maioria das mulheres, desejara que elas desaparecessem assim que o momento de paixo
terminava, mas havia qualquer coisa de caloroso em relao a Estella. Queria que ela ficasse.
-  muito bom estar assim deitado em cima de ti - disse ele por fim.
Estella sentia-se embriagada de amor.
- Obrigada, Dom Ramon - respondeu, desejando que a tarde durasse para sempre. Conseguia escutar o bater do corao dele no largo peito e sentir os plos dele contra
o seu rosto. Ele era macio e caloroso tambm. Queria dizer-lho, mas apesar da proximidade fsica, Estella sabia que os lugares que ocupavam no mundo colocavam um
fosso entre eles, por isso acautelou-se para no falar despropositadamente.
Federica montou o pequeno pnei para um lado e para o outro ao longo da praia. Helena at a deixou trotar sozinha enquanto conduzia
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o pnei de Hal pelas rdeas. Papudo era uma pitoresca aldeia piscatria virada para o mar, anichada no sop de montanhas brumosas. Mariana comprou-lhes gelados e
Ignacio foi sentar-se  sombra dos eucaliptos a beber caf e a guardar a preciosa caixa de Federica enquanto jogava uma pacincia. Helena gostara muito do almoo
em Zapallar, as crianas haviam encantado toda a gente com as suas conversas e gargalhadas inocentes e mal pensara em Ramon.

Federica no parara de pensar no pai. Tinha saudades dele. Gostaria que a tivesse visto montar e recordara-se da vez em que ele lhe construra o mais bonito castelo
de areia decorado com ptalas brancas e conchas. Quando se meteram no carro para voltar a casa a horas do ch, o seu nimo melhorou com a ideia de voltar a v-lo.
Ramon fez amor com Estella uma segunda vez. A empregada era um festim delicioso e havia partes dela que no provara ainda. Uma vez saciada a sua luxria e curiosidade,
empurrou-a, sob protesto, para o banho, onde relutantemente permitiram que a gua arrastasse todos os vestgios do seu adultrio. S quando se comeou a secar 
que Ramon olhou para o relgio. A tarde ia bem avanada. O resto da famlia estaria de regresso a qualquer instante. Disse a Estella que fosse mudar de uniforme,
pois estava todo amarrotado e manchado de suor. Ela entrou em pnico quando viu o estado em que o quarto se encontrava e se lembrou de todas as tarefas que haviam
ficado por fazer, as quais poderiam denunci-la. Contudo, Ramon vagueou at ao terrao, sentou-se ao sol, pegou no livro do pai e comeou a ler com uma expresso
satisfeita que lhe suavizava o rosto severo.
Estella correu para o seu quarto onde prendeu apressadamente o cabelo numa trana, mudou de uniforme e se refrescou com gua-de-colnia. Correu ento a arrumar os
quartos sem mais demora. No tinha tempo para se pr a contemplar a magia e doura daquela tarde, a languidez do amor que haviam feito ou a paixo que tornara tudo
o resto parecer insignificante e dispensvel. Quando escutou as vozes das crianas, ao mesmo tempo que a porta da entrada se abria de par em par, sobressaltou-se,
pois com certeza que estavam  espera do lanche e ela nem sequer comeara ainda a prepar-lo.
- Pap, andei de pnei sozinha! - gritou Federica, correndo para o pai. Ele estava de bom humor e puxou-a para o colo.
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- Sozinha? s uma autntica amazona! - exclamou ele, entre gargalhadas e beijando-lhe a face quente.
- O Hal tambm montou, mas a mam teve de o guiar, ele ainda  demasiado pequeno para cavalgar sozinho. O abuelito tomou conta da minha caixa. Guardou-a toda a tarde
- referiu orgulhosamente, colocando-a sobre a mesa.
- Espero que no a percas um destes dias - disse ele.
- Pap! Nunca perderei esta caixa - respondeu ela, espantada que o pai pensasse, por um minuto sequer, que ela pudesse extraviar o seu bem mais precioso.
- A Fede andou de pnei sozinha - disse Mariana, abanando-se ao mesmo tempo que avanava lentamente para o terrao.
- Tens um ar exausto, mam - comentou Ramon, sorrindo afectuosamente para ela.
- E estou, Ramon. Foi um dia escaldante e cansativo. Mas maravilhoso. Sentimos a tua falta, mi amor. - Afundou-se numa poltrona.
- bom, por aqui esteve tudo muito tranquilo - disse ele, bocejando. - No fiz mais nada a tarde toda a no ser ler o livro do pai.  bastante bom.
- Me alegro - respondeu a me e suspirou. - Fico contente que tenhas passado uma tarde agradvel.
- E se fssemos os dois tomar um banho de mar antes de dormir?
- sugeriu Ramon a Federica, querendo de repente compens-la por no ter passado a tarde com ela.
- Sim, sim, pap - entusiasmou-se ela. - O abuelito pode tomar conta da minha caixa outra vez - aventou ao ver o av chegar ao terrao com o seu panam. - No podes,
abuelito?

- O qu, Fede? - respondeu este, esbugalhando os olhos e fingindo-se surpreendido. Federica soltou umas risadinhas; adorava quando o av fazia caretas.
- Podes tomar conta da minha caixa enquanto eu vou nadar no mar com o pap - repetiu.
- Cuidado para no seres comida pelos crocodilos - advertiu ele na brincadeira.
- No mar no h crocodilos, av! - protestou ela a rir.
Estella emergiu com um pesado tabuleiro com ch, bolo e biscoitos. Ramon ajudou-a a pous-lo sobre a mesa. Os seus olhares cruzaram-se,
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estabelecendo entre eles o silencioso lao da cumplicidade. Estava igual quela manh, excepto nos cantos da boca que se curvavam de satisfao, apesar dos seus
esforos para se conter.
- Acho que a Estella tem um namorado na aldeia - comentou Mariana quando a empregada abandonou o terrao.
- Dios, Mariana, e que importa isso? - disse Ignacio, cortando o bolo.
- Oh, no importa nada, Nacho, estou apenas muito curiosa de saber quem ser - explicou, pegando numa chvena e num pires e estendendo-o a Helena que emergia da
escura sala de estar com Hal.
- O que te faz pensar que ela tem um namorado, mam? - quis saber Ramon, divertido.
- A rapariga parece brilhar.  coisa de mulher. Consigo pressenti-lo na forma como anda e nos seus olhos.
- Sua velha diabinha discernente - brincou ele. Helena sentou-se ao lado de Federica e acendeu um cigarro. A proximidade do marido fazia-a sentir-se inquieta.
- Posso ser velha, mi amor, mas no sou uma diabinha - replicou Mariana, os seus plidos olhos cinzentos sorrindo para o filho.
- E qual  o mal de ela ter um namorado? - interveio Ignacio, encolhendo os ombros.
- Quem  que tem um namorado? - perguntou Helena, estendendo a Hal um pedao de bolo.
- A Estella.
- Eu tambm acho - concordou Helena. -  intuio feminina, como diz a Mariana. V-se nos olhos dela.
Ramon riu com vontade.
-  assim mesmo. No admira que tenha bom aspecto. Parece bem satisfeita - comentou ele com orgulho.
- bom, se o rapaz a comprometeu, espero bem que case com ela. Alguns homens no so to honrados quanto deveriam ser - referiu Mariana, severamente. - Pobre rapariga,
espero que saiba o que anda a fazer.
Ramon provou o bolo.
-  bom, no , Fede? - perguntou, sorrindo para a filha. Ela sorriu de volta e acenou que sim com a cabea. Mariana observou a neta
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e reparou que ela nunca tirava os olhos do pai. Tambm amava a me. Helena era uma boa me. Contudo, havia um lao muito especial entre Ramon e Federica. Entristecia-a
que o filho estivesse constantemente a abandon-la. Observou o rosto venerador da neta e sentiu pena dela.

CAPITULO SETE
As semanas seguintes foram quentes e lnguidas. Mariana aproveitou para passar mais tempo com os netos e conceder a Helena uma pausa na vida familiar. Reparou que
a nora ficava muitas vezes tensa e infeliz, habitualmente quando estava perto do marido, pois nessas alturas fumava o dobro do habitual. Reparou tambm, contudo,
que ela o observava constantemente. Sempre que falava era para benefcio dele e quando Ramon no reagia, ela permanecia em silncio como que resolvida a forar uma
reaco. Por vezes, Ramon mal reconhecia a presena dela. Porm, Mariana recusava-se a acreditar que o casamento deles se estava a desintegrar e atribuiu o que sucedia
ao afastamento natural causado pelos muitos meses de separao.
Federica e Hal brincavam na praia, nadavam nas guas frias e entretinham-se a desenhar e a mostrar as suas habilidades aos orgulhosos avs e pais, que os aplaudiam
e amavam, fazendo-os sentirem-se estimados e seguros.
Ignacio observava o filho com um pessimismo crescente. Disfarava-o por trs das caretas e das brincadeiras que fazia em prol dos netos. No entanto, por dentro sabia
que, a menos que o filho mudasse e tomasse conta da sua famlia adequadamente, Helena acabaria mesmo por deix-lo. Interrogava-se se isso significaria tambm deixar
o Chile. Seria um desgosto se ela levasse os midos para Inglaterra. Cresceriam noutro pas, com outros avs e esqueceriam as razes e famlia chilenas. E seria
culpa de Ramon e s de Ramon. Era egosta e irresponsvel. Aquele casamento estivera condenado desde o incio.
As escapadelas de Ramon com Estella eram aproveitadas sempre que conseguiam algum tempo juntos e sozinhos. Ela esgueirar-se-ia at
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ao quarto dele a meio da noite, quando o luar banhava a cama de prateado e os aromas a jasmim e eucalipto se elevavam com o calor para envolver os corpos deles com
o seu intenso perfume. Faziam amor no sigilo das poucas horas em que o resto da casa estava imerso no mundo dos sonhos. A princpio, Estella cativara a curiosidade
e desejo de Ramon; nunca sequer esperara cativar-lhe tambm o corao. Porm, pouco a pouco, naqueles momentos mgicos em que jaziam lado a lado, separados apenas
pela pele, Ramon sentia dentro dela um estranho poder que o aprisionava e se recusava a deix-lo partir. Sentia a falta dela quando desempenhava o papel de marido
e pai durante o dia, ansiando pelas lnguidas noites em que ela aparecia para o amar outra vez. Via o rosto dela de cada vez que fechava os olhos e sentia a sua
presena muito antes de ela se aproximar. O seu singular perfume a rosas pegava-se s suas narinas e recordava-o da paixo e da ternura que partilhavam e Ramon ansiava
por lev-la para longe consigo.
O Natal chegou e partiu. Os seus dois irmos, Felipe e Ricardo, juntaram-se a eles com as respectivas mulheres e filhos, por isso Federica e Hal tiveram os primos
para brincar e a casa transformou-se num enorme recreio recheado de brinquedos espalhados pelo cho e de gargalhadas que ecoavam pelas paredes. Foi s depois da
partida deles que Ramon e Helena se sentaram frente a Mariana e a Ignacio para os informarem dos seus planos.

- Vamo-nos separar - anunciou Ramon sem rodeios, olhando fixamente para o cho para no ter de suportar a desiluso da me. Seguiu-se uma solene pausa, durante a
qual os olhos de Mariana se marejaram de lgrimas e Ignacio esfregou o queixo em busca de alguma coisa para dizer. Helena acendera um cigarro e fumava-o nervosamente,
fazendo figas para que no a encarassem a ela como a m da fita.
Por fim, Ignacio pronunciou-se:
- Quando  que vo diz-lo s crianas?
- Tm mesmo de o dizer aos midos? - perguntou Mariana com a voz embargada e limpando os olhos. - Vo ficar to desgostosos, em especial a Federica. No podem continuar
como esto agora? Assim como assim, mal se vem um ao outro.
- A Helena quer lev-los de volta para Inglaterra - declarou Ramon num tom acusador. Helena sentiu-se trada.
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- Para Inglaterra? - Mariana estava sem flego, como se algum a tivesse esmurrado na barriga. Tentou respirar normalmente, mas as suas inspiraes eram curtas e
superficiais.
- Temi o pior - declarou Ignacio.
- Para Inglaterra? To longe? - repetiu Mariana num tom mais que pesaroso, deixando pender os ombros em sinal de derrota. - No os veremos crescer - sussurrou.
- No posso continuar desta forma - gaguejou Helena, apologeticamente. - Quero comear de novo.
- Mas porqu em Inglaterra? Fica to longe! - suplicou Mariana.
- S para vocs. Para mim  a minha ptria. O Chile para mim  que  o outro lado do mundo. Haveremos de vir visitar-vos e vocs podem vir tambm visitar-nos. O
Ramon ir, no irs, Ramon? Disseste que sim - respondeu ela, antecipando-se.
- Sim, irei.
- No podes abandonar os teus filhos. Passas metade da tua vida em locais longnquos, filho, a Inglaterra no te ficar assim to fora de mo - disse Ignacio num
tom brusco.
- No queria nem um pouco magoar as crianas, mas no sou feliz e elas pressentem-no - explicou Helena. - O Ramon no est em casa para ser um marido como os outros
e ajudar-me a cri-las. No o consigo fazer sozinha e estou farta deste tipo de vida.
- Mas no vos preocupa o modo como os midos vo encarar a separao? Em especial a Fede...  to sensvel! Ficar devastada. Basta olhar para a forma como ela olha
para o pai, com aquele seu ar adorador, para perceber que o coraozinho dela se vai partir quando souber
- soluou Mariana, pegando na mo de Ignacio como amparo. Helena sentiu-se magoada; Federica tambm amava a me.
- Eu sei. Tambm j pensei nisso. Mas eles so novos. No posso viver a minha vida pelos meus filhos. Tambm tenho de pensar em mim - argumentou Helena, dando uma
longa passa no cigarro com a mo a tremer. Queria acrescentar: "porque mais ningum o ir fazer".
- Ramon, no podias tentar? No podes ficar pelo menos uns quantos meses e dar uma nova oportunidade a este casamento? - sugeriu Ignacio. Porm, sabia que os seus
poderes de persuaso no eram to fortes quanto outrora poderiam ter sido.
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- No - respondeu Ramon, enfaticamente, abanando a cabea. No resultar. A Helena e eu j no nos amamos. Se continuarmos juntos, acabaremos por nos odiar.
Helena engoliu em seco e pestanejou para conter a emoo. Ramon dissera antes que a amava.
- Ento, no h mais nada a fazer? - inquiriu Mariana numa voz triste, baixando a cabea.
- Mais nada - respondeu Helena, suspirando.
- Ento, quando  que estava a pensar partir? - quis saber Ignacio.
Ramon olhou para Helena. Esta encolheu os ombros e abanou a cabea.
- Ainda no sei. Suponho que ainda vou demorar algum tempo a arrumar as nossas coisas. Terei de dizer aos meus pais. Temos tambm de falar com os midos. Presumo
que partiremos assim que pudermos - retorquiu e depois comeou a roer as unhas com impacincia. Queria partir de imediato.
- O divrcio no ser fcil - referiu Mariana, lembrando-se que a Igreja Catlica proibia o divrcio.
- Eu sei - respondeu Ramon. - Ns no queremos o divrcio. No pretendemos casar com outras pessoas. Queremos apenas ser livres um do outro.
- E eu quero regressar a casa - acrescentou Helena, surpreendida por Ramon e ela concordarem por fim em alguma coisa.
Ramon pensou em Estella e desejou poder lev-la dali consigo. Helena pensou nas costas de Polperro e sentiu-se mais perto.
- Quando  que vo dar a notcia aos meus queridos netos? - perguntou Mariana, friamente. Considerava as aces de ambos de um grande egosmo. - Pensem muito bem
antes de o fazerem - advertiu.
- Vo mago-los de forma irreparvel. Espero que saibam bem o que esto a fazer.
- Falaremos com eles amanh, antes de regressarmos a Vina anunciou Helena num tom resoluto, observando circunspectamente o marido. At onde tinha de o empurrar?
interrogou-se, o corao dele deve ser feito de pedra. Mariana levantou-se da cadeira e retirou-se para dentro de casa. Parecia de repente mais velha.
- Pelo menos tero os avs por perto para os confortar - declarou Ramon com amargura, mirando a mulher com um ar acusador.
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- A culpa no  minha, Ramon - argumentou Helena, exasperada.
- Tu  que te recusas a mudar.
- A culpa no  de ningum, Helena - interrompeu Ignacio.  de ambos. Mas se a separao  o que vocs querem, ento assim ter de ser.  a vida, e a vida nem sempre
 um mar de rosas. - Ramon desejou que fosse um mar das rosas de Estella. - Falem com eles amanh e sejam cuidadosos e amveis - acrescentou, porm sabia que no
havia uma forma amvel de dizer a qualquer criana que os pais j no se amavam.

Helena estava demasiado inquieta para dormir. Foi sentar-se l fora sob as estrelas, devorando um cigarro atrs do outro, observando o fumo flutuar pelo ar levado
pela brisa antes de ser engolido pela noite. Estava profundamente entristecida e ansiosa em relao ao dia de amanh e  conversa com os seus amados filhos, mas
sabia que tal conversa no podia ser evitada. Seria ainda mais cruel fazer de conta que no se passava nada. Acabariam por suspeitar de alguma coisa mais cedo ou
mais tarde, ou pelo menos Federica acabaria por perceber. Imaginou o rosto inocente da filha e sentiu uma punhalada de culpa atravessar-lhe o corao. Escondeu a
cara nas mos e chorou. Tentou convencer-se que tudo ficaria bem assim que se estabelecessem em Polperro. Estariam rodeados pelos pais dela, que Federica vira algumas
vezes e Hal apenas uma. Adorariam Inglaterra e fariam novos amigos. Agradeceu a Deus o facto de sempre ter falado em ingls com eles, pois esse seria pelo menos
um obstculo que no teriam de ultrapassar.
Deveria ser por volta da uma da manh quando avanou em bicos de ps pelo corredor em direco ao quarto onde os filhos dormiam. Abriu a porta e observou-os sob
o tnue luar. Dormiam ignorando o terramoto que iria abalar as suas vidas no dia seguinte. Passou a mo pelo rosto de Hal e beijou-o na testa. Ele agitou-se e sorriu,
mas no despertou. Depois avanou para a cama de Federica, a sua mgica caixa da borboleta na mesa-de-cabeceira, onde a podia guardar, mesmo a dormir. Pegou na caixa
e examinou-a sem a abrir, pois no queria acord-los com a msica que a caixa produzia. Sentiu um n na garganta ao recordar-se da expresso feliz de Federica a
olhar para o pai com gratido, segurando o seu presente contra o peito, estimando-o tanto pela caixa em si, como pelo facto de lhe ter sido dada pelo pai. De repente,
sentiu-se acometida
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por remorsos. No conseguia fazer aquilo aos filhos. No conseguia dizer-lhes. No podia priv-los do pai. Por muito que precisasse de uma nova vida, subitamente
sentia-se incapaz de usar os filhos como pees inocentes na sua batalha com Ramon. Teria de pensar noutra estratgia, num outro plano.
Chorando, correu corredor abaixo at ao quarto de Ramon. Queria dizer-lhe que precisava de pensar melhor. Que se apercebera que no era capaz de afastar os filhos
de tudo o que lhes era familiar. Arquejando, as lgrimas embotando-lhe a viso, deteve-se a tremer  porta do quarto dele, receando entrar. Colocou a mo na maaneta
da porta, preparando-se para a rodar, quando escutou vozes. Surpreendida, susteve a respirao e ps-se  escuta. Horrorizada, recuou. Ramon estava a fazer amor
com algum. Reconheceu os suspiros dele de imediato e o roar de lenis. Quando escutou o riso baixo e satisfeito de uma mulher, sentiu uma enorme fria crescer
dentro de si. Queria entrar de rompante e exp-los, mas temia Ramon, sempre temera. Pressionando o ouvido contra a porta, esforou-se por reconhecer a voz da mulher.
Escutou mais sussurros e mais risos. Revoltava-a que ele pudesse estar a fazer amor com outra mulher debaixo do mesmo tecto que os seus filhos. Depois, tudo se encaixou.
A mulher s podia ser Estella. Recordou-se ento da conversa que haviam tido no terrao acerca de Estella e do seu pretenso namorado e lembrou-se da expresso de
orgulho que Ramon inexplicavelmente exibira. No admira que estivesse to contente consigo mesmo. Mal conseguia conter a sua raiva e a sua decepo. Estivera preparada
para sacrificar a sua felicidade. Era bem bvio que ele no estava preparado para sacrificar a dele - nem sequer pelos prprios filhos. Retrocedeu e, limpando lgrimas
de desgosto e autocomiserao, avanou derrotada para o seu quarto.

Na manh seguinte Helena acordou cedo. No era de surpreender que tivesse dormido mal, um sono leve e atormentado por perturbadores sonhos insulados pela ansiedade.
No parara na cama, debatendo-se com as implicaes da infidelidade do marido. Estivera muito perto de mudar de ideias, mas agora nada poderia alterar a sua resoluo.
Nem mesmo o arrependimento. O chilreio despreocupado dos pssaros e a tmida luz da aurora despertaram-na e ficou aliviada por j no ser de noite. Tomou banho e
vestiu-se antes de acender um cigarro para ganhar coragem. Ia falar com Ramon.
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Abriu as venezianas e soprou o fumo para o ar fresco da manh. O mar estava plido, acariciando suavemente a margem com o movimento ritmado da mar. Fez-lhe lembrar
Polperro, embora o mar fosse muito diferente na Cornualha. A as ondas vinham rebentar a terra. Em crianas, costumavam lanar-se contra elas e deixar-se arrastar
at  areia, densa como argila e boa para construir castelos. Tambm os odores eram diferentes. O ozono salgado, a areia hmida e grossa repleta de caranguejos e
lagoas nas rochas recheadas de ourios-do-mar. Sentiu saudades de casa e isso temperou a sua determinao. Apagou o cigarro meio fumado no cinzeiro e, inspirando
profundamente, caminhou com coragem em direco ao corredor.
Frente  porta do quarto dele hesitou. As vozes estavam agora silenciadas e Helena apercebeu-se do sono satisfeito de amantes saciados a penetrar pela frincha por
baixo da porta. Recordando-se do horror da sua descoberta, rodou a maaneta da porta e entrou sem demoras. Ramon estava deitado de costas. Estella estava enroscada
nele com a cabea sobre o peito dele. A mo dele pendia sobre os longos cabelos negros de Estella, que lhe tombavam pelas costas. Estavam nus  excepo do lenol,
que pouco ou nada os cobria. Helena colocou-se frente  cama com os braos cruzados no peito, a sua boca pouco mais que uma fina linha de amargura. Ramon sentiu
a presena dela nos seus sonhos e abriu os olhos. No se mexeu, olhando fixamente para ela como se quisesse focar a sua imagem, no percebendo se estava ainda a
dormir. Pestanejou. Helena continuou a olh-lo com repugnncia. Ramon apercebeu-se ento de que pestanejar no iria faz-la desaparecer ou acord-lo, pois j estava
acordado. Deu uma cotovelada a Estella, que se enroscou ainda mais naquele deleitvel estado de sonolncia. Voltou a acotovel-la, desta vez com mais urgncia. Ela
abriu os olhos alarmada ao ver Helena em combusto lenta aos ps da cama. Arquejou de horror, saltou da cama com um grito, reuniu apressadamente a sua roupa, e fugiu
do quarto a soluar de vergonha. Ramon colocou as mos entrelaadas por trs da cabea e dardejou a mulher com o olhar.
- O que pensas que ests a fazer, Helena? - perguntou, como se esta fosse culpada de entrar ilegitimamente.
Helena abanou a cabea incrdula.
- Como assim, o que estou eu a fazer? - respondeu ela, soltando a sua fria. - Andas a fornicar com a empregada sob o mesmo tecto que a tua mulher e os teus filhos.
No tens nenhum respeito por ns?
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- Acalma-te, Helena - replicou ele num tom paternalista. - Ambos sabemos que o nosso casamento no passa de um pedao de papel de m qualidade. Tu  que queres pr-lhe
fim. Eu no. Eu no quero separar a nossa famlia, tu  que queres. Que te importa se eu durmo com a empregada ou com qualquer outra pessoa? - Sentou-se na cama.
- Para mim -me indiferente com quem tu fornicas, Ramon. Mas seria de esperar que tivesses ainda alguma rstia de decncia. Os teus filhos esto no quarto ao fundo
do corredor. E se a Fede tivesse tido um pesadelo e tivesse vindo  tua procura? - argumentou, lvida de raiva.
- No veio - respondeu ele, redondamente.
- Graas a Deus.
- Repara, a deciso foi tua de me deixares e os levares para Inglaterra - contraps ele, erguendo a voz.
- S porque tu j no nos queres - devolveu ela, quase a gritar com ele, frustrada. - Tu prprio o afirmaste, que assim que chegas a casa tens vontade de partir
outra vez. Como  que achas que isso nos faz sentir? J no somos uma famlia e tu sabe-lo. - Helena queria que ele protestasse que podiam ainda ser, que queria
tentar de novo, mas ele limitou-se a semicerrar os seus vazios olhos negros e voltou a olh-la.
- Est bem. J discutimos isso - concluiu ele e bocejou. - Falamos com os midos hoje como combinado e podes partir assim que quiseres. No te impedirei.
- No, no o fars, porque j no te convm faz-lo. Estou a dar-te a tua liberdade. Toda. Assim, no ters de regressar a casa nunca mais.
Na breve pausa que se seguiu, enquanto ambos olhavam um para o outro com desprezo, os soluos desgostosos de Federica fizeram-se ouvir por baixo da porta. Helena
arquejou. Ramon ficou plido.
- Oh, meu Deus - murmurou, levantando-se e vestindo as calas ao mesmo tempo que se apressava para a porta. Abriram-na ambos ao mesmo tempo e deram com a filha sentada
no cho a tremer. Escutara tudo. Estella passara pelo quarto dela a chorar e acordara-a. Em pnico, a menina correra para o quarto da me e constatara que estava
vazio. Chegara ento  porta do quarto do pai a tempo de escut-los a despedaar tudo aquilo em que crescera a acreditar.
- Fede, querida - disse Helena, agachando-se e tomando-a nos braos. - Est tudo bem. O pap e eu estamos apenas a ter uma discusso palerma.
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- Nem tudo o que dissemos era a srio - acrescentou Ramon, tentando tir-la dos braos da me.
- Deixa-nos em paz, por favor, Ramon - ordenou Helena num tom inflexvel. Ramon afastou-se, surpreendido com a dureza da voz dela. Observou impotentemente a sua
mulher pegar em Federica ao colo e lev-la corredor abaixo at ao seu quarto. Depois de entrar fechou a porta, colocando-o de parte. Ramon sentiu de repente um tremendo
acesso de solido. Caminhou de volta ao seu quarto e sentou-se na cama. No sabia o que havia de fazer consigo mesmo. O seu corao ardia de culpa e remorso. Deixou
pender a cabea entre as mos e chorou.
Helena sentou-se na cama, com a filha em lgrimas agarrada a si em desespero. Abraou-a melhor e embalou-a, beijando-lhe a testa e acariciando-lhe o cabelo numa
tentativa de a confortar e acalmar. Partia-se-lhe o corao de a ver sofrer tanto e sentia o ressentimento contra o marido crescer dentro de si como blis.

- J passou, Fede. O pap ama-te muito, muito - comeou a explicar. - Ambos te amamos muito.
- Mas o pap j no nos quer - argumentou ela entre soluos. Se nos quisesse no estava sempre a ir-se embora.
Helena tinha vontade de matar o marido pela dor que causava aos filhos. Eram vtimas inocentes de um mundo de adultos que eram demasiado novos para compreender.
- O pap quer-nos. Pelo menos, quer-te a ti e ao Hal. Gosta muito de vocs os dois.  por isso que ele e eu no somos felizes. Porque vos queremos a ti e ao Hal,
mas no nos queremos um ao outro.
- J no amas o pap?
- No  assim to simples, querida - argumentou Helena, tentando suavizar o golpe. - O pap viaja demasiado.  esse o trabalho dele e tem de faz-lo. No  por no
querer estar junto de ns. Sabes todas aquelas histrias maravilhosas que ele te conta? - Federica acenou que sim. - bom, ele no teria todas essas histrias diferentes
para contar se no visitasse locais deslumbrantes em todo o mundo. O pap regressa com aventuras fantsticas para te contar, e no te esqueas da caixa mgica que
ele descobriu para ti. Se no te amasse, no te teria dado essa caixa. No passaria tanto tempo contigo. Por isso, no duvides do amor dele, querida. A mam e o
pap apenas no querem mais estar juntos. Mas isso no tem nada a ver contigo e com o Hal. Tem a ver connosco e connosco
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apenas. Compreendes? - Federica acenou de novo. - E ns daqui a pouco tempo vamos embarcar numa aventura. Tu, eu e o Hal declarou, tentando fazer a notcia soar
excitante.
- Para Inglaterra - revelou Federica, sombriamente.
Helena estremeceu ao aperceber-se de que a filha escutara toda
a conversa.
- Sim, para Inglaterra - confirmou. - Tenho a certeza que vais adorar Inglaterra. Vamos para uma bonita cidade junto ao mar. H l enormes gaivotas que sobrevoam
as praias. As rochas esto cheias de caranguejos e camares. Podes ir pescar com o av, e a av leva-te  feira. H castelos em runas para explorar e novos amigos
 espera para te conhecer.
- Mas nunca mais voltarei a ver o abuelito e a abuelita? - perguntou num tom tristonho.
-  claro que vers. E o pap ir visitar-nos como sempre fez. A nica diferena  que iremos viver numa casa diferente e ningum falar espanhol. Viveremos com
o av e a av, por isso poders v-los a toda a hora.
- Posso levar a caixa da borboleta comigo?
- Claro que podes, meu amor. Podes levar tudo o que quiseres.
- No verei o Rasta nunca mais - lembrou-se ela, em pnico. Quem  que o levar a passear?
- Algum o far. No te preocupes.
- Ir comear novamente a ladrar.
- Talvez te possamos comprar um co s para ti. Gostarias? - sugeriu Helena, desesperada por compensar a filha. Federica sentou-se e limpou o nariz com as costas
da mo. Os seus olhos abriram-se muito com a excitao.
- Posso ter um co s para mim? - perguntou, incrdula. De repente, Inglaterra j no lhe soava assim to mal.
- Sim. Podes ter um co s teu - respondeu Helena, aliviada por Federica estar novamente a sorrir.

- Quando  que vamos para Inglaterra? - quis saber.
- Assim que emalarmos tudo em casa.
- Posso ir dizer  abuelita que vou ter um co s meu? - inquiriu, deslizando do colo da me para o cho.
- Eu vou contigo. Mas, primeiro, vamos vestir-te e acordar o Hal.
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Quando Ramon saiu para o terrao, Helena estava sentada  mesa do pequeno-almoo com Federica, Hal e os seus pais. Os olhos dele precipitaram-se de um para o outro,
antecipando que a mulher lhes tivesse contado tudo. Federica observou-o circunspectamente por cima do seu copo de leite com chocolate. Hal tagarelava como se nada
tivesse acontecido. Ramon sentou-se ao lado da me e esperou que algum falasse.
- A Fede disse-me que vai ter um co s dela quando chegar a Inglaterra - declarou Mariana e, embora sorrisse, a tenso estava bem patente nos seus olhos. Bastava
imagin-los longe dali para a sua viso se toldar.
- A srio, Fede? Isso  espectacular - disse ele num tom acanhado. - Que nome lhe vais dar?
- Rasta - respondeu ela, mas no sorriu. Ramon sentiu o corao partir-se.
- Porque  que eu no posso ter um co? - queixou-se Hal, olhando para a me.
- Tambm podes brincar com o Rasta - explicou ela, tentando soar contente, embora tudo o que queria fazer era fugir dali e chorar.
- Eu quero um coelho - disse Hal, mudando de opinio. - Em Inglaterra h coelhos?
- Se tiveres um coelho, o Rasta  capaz de o comer, Hal - admoestou Federica com amabilidade.
- A Lidia no gosta de ces, por isso a Fede ter de deixar o Rasta em Inglaterra quando regressarmos - argumentou ele, segurando a sua caneca com ambas as mos
e bebendo o seu leite frio com chocolate.
Os olhos de Ramon e Helena cruzaram-se e assim permaneceram durante um longo momento, olhando um para o outro, desamparadamente. Helena no tivera coragem de dizer
a Hal que nunca mais regressariam.
Quando Estella apareceu no terrao, plida e envergonhada, Ramon apercebeu-se de que Helena no contara a ningum o seu adultrio, pois Mariana comentou o aspecto
da empregada com a mesma curiosidade que demonstrara da ltima vez.
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- Oh, meu Deus. Parece-me que a Estella deve ter-se zangado com o namorado. No parece nada satisfeita - referiu, bebericando o seu caf.
- Logo lhe passa - disse Ignacio com indiferena.
- Sim, logo lhe passar - concordou Helena sem olhar para o marido. - Alguns homens no merecem as lgrimas que se vertem por eles - acrescentou causticamente.

Estella regressou  cozinha e irrompeu mais uma vez em lgrimas de vergonha e autocomiserao. Recordou-se da cara da Senora Helena, contorcida pela fria, ali de
p, imvel, como uma imagem da Virgem Maria, aos ps da cama. Dom Ramon nunca mais voltaria a falar consigo. Fora divinal, mas agora Deus, sem dvida, que a castigaria.
Pedira apenas uma noite e fora-lhe concedido muito mais. Porm, no era o suficiente. Amava-o. Sabia que no devia. Ele no pertencia ao seu mundo e as divises
entre classes eram to grandes quanto rigorosas. Contudo, o seu corao ignorava tais fronteiras e continuava a ansiar por ele.
Depois do pequeno-almoo, Helena tentou encorajar Federica a brincar com Hal, mas tudo o que a menina queria fazer era enroscar-se no colo da me e chuchar no dedo,
coisa que parara de fazer h muito tempo. Helena queria conversar com Mariana. Conseguira apenas dizer-lhe que a neta recebera a notcia de que iam viver para Inglaterra
to suavemente quanto possvel. Federica correra ento a contar aos avs que ia ter um co.
Ramon ofereceu-se para levar Federica at  praia para tomarem um banho, mas ela segurou a sua caixa mgica contra o peito e aconchegou-se ainda mais no colo da
me. Ramon sentiu-se desanimado. Ignacio foi at  praia com Ramon, em lugar da neta, e tiveram uma conversa de homem para homem. Uma vez que Helena apenas os informara
de que tinham j falado com Federica, Ramon no partilhou com o pai quaisquer outros pormenores. No queria ser visto sob uma luz menos enaltecedora. Os pais no
precisavam de saber mais nada. Pensou em Estella, imaginou-a de cabea pendida e olhos encarnados de chorar e desejou poder estar ao lado dela.
Federica ajudou a me a arrumar as roupas nas malas enquanto Hal as aborrecia, desemalando tudo o que elas colocavam nas malas. Federica preferiu levar a caixa consigo,
no querendo perd-la por entre as
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roupas e os presentes de Natal. Ramon procurou Estella apressadamente na cozinha. Sabia que no tinha muito tempo at partirem e no queria ser apanhado de novo.
Vagueou pela casa fazendo de conta que procurava a sua mquina fotogrfica. Encontrou-a, por fim, no quarto dela, a chorar sobre a cama e para o panuelo de algodo
e renda que a av lhe fizera. Ao v-lo na soleira da porta, fungou e disse-lhe que se fosse embora, porm Ramon sabia bem que no era isso que ela queria. Sentou-se
ao lado dela e segurou-lhe o rosto hmido entre as mos.
- No te abandonarei - disse ele. - Virei buscar-te, prometo. Ela olhou-o, sobressaltada, os seus confiantes olhos castanhos contemplando-o desorientada.
- Mas eu teria de partir - gaguejou ela.
- Porqu? A Helena no contou nada aos meus pais. Eles acham apenas que tiveste uma zanga com o teu namorado - explicou. A Helena vai para Inglaterra com os midos.
Eu regressarei para te vir buscar. - Parecia to simples, to fcil!
Estella lanou os braos em redor do pescoo dele, aliviada e grata.
- Obrigada, Dom Ramon - agradeceu, soluando para o pescoo dele.
- Por amor de Deus, chama-me Ramon - disse ele, rindo. Acho que j temos intimidade suficiente para abolirmos essas disparatadas formalidades.
- Ramon - pronunciou ela. Gostava do modo como o nome dele soava, por isso voltou a diz-lo. - Ramon.
Acariciou-lhe o rosto febril com a palma da mo e pressionou os seus lbios contra os dela, inalando o aroma dela e saboreando o sal das suas lgrimas.

- Espera por mim, Estella. Regressarei. Prometo. - Levantou-se e deixou-a novamente a chorar para o seu panuelo.
Contudo, as lgrimas dela no eram mais de desgosto, mas de esperana.
Mariana e Ignacio abraaram as crianas com tristeza, incertos se as voltariam a ver. Beijaram a nora, reprimindo o ressentimento que ambos sentiam, desejando-lhe
uma boa viagem at Inglaterra. Mariana culpava-a secretamente pelo colapso do casamento, apesar do seu lado racional lhe dizer que Ramon era o principal culpado.
No lhe parecia natural sentir
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ressentimento ou m vontade em relao ao prprio filho e tinha de o sentir por algum. Beijou Ramon com um amor que era incondicional e obstinadamente cego. Ignacio
no era to de vistas curtas. H j algum tempo que previa que isto fosse acontecer. Agora que as suas previses se haviam tornado realidade, estava muito triste,
mas no deixava de ser realista. Abraou Ramon e desejou a ambos muitas felicidades.
- No os percas de vista, Ramon. Eles precisam de ti - foi tudo o que disse antes de o filho subir para o carro e a famlia desaparecer pelo caminho. com as testas
franzidas de tristeza, Ignacio e Mariana ficaram a v-los partir, at nada mais restar seno o p que os pneus haviam levantado e a mgoa que lhes pesava nos coraes.
Estella afastou-se da janela, receando ser vista, e voltou  cozinha. Preparou-se para cortar os vegetais e esperar, como lhe fora dito.
Federica deixou-se ficar sentada no carro em silncio. Queria chorar, mas sabia que tinha de ser forte pela me. Chorar apenas serviria para deixar os pais ainda
mais tristes. Assim, engoliu com fora e pestanejou para combater as lgrimas. Olhou para o lado, para o irmo, absorto em relao  drstica e sbita mudana que
estava prestes a abalar as suas vidas. Recordava-se de cada palavra da discusso dos pais e interrogava-se se seria verdade que o pai j no a queria. Malgrado os
seus melhores esforos, uma grossa lgrima escorreu-lhe pela ma do rosto. Limpou-a de imediato antes que algum reparasse. Abriu a sua caixa e tentou desesperadamente
encontrar na magia dela o amor do pai.
CAPTULO OITO
Os dias que se seguiram pareceram suspensos numa espcie de limbo. Enquanto Helena emalava tudo o que para si e os seus filhos era mais precioso, Ramon levou Hal
e Federica a dar longos passeios pela praia com Rasta e at  Calle Valparaso para comerem sanduches de palla e sumos. Tudo parecia normal. Abaixo da superfcie,
porm, as coisas estavam longe da normalidade.

Na noite em que regressaram, Federica acordou a chorar. Quando a me correra para junto dela descobriu que ela molhara a cama. Puxou a filha para os seus braos,
beijando-lhe o rosto hmido e assegurando-lhe que estava tudo bem, que no fazia mal, que at os adultos, por vezes, molhavam a cama. Federica no compreendia o
que acontecera e enterrou a cara no peito da me, envergonhada. Porm, Helena compreendia bem de mais e ansiava por que a sua vida assentasse arraiais em Polperro.
Teria levado Federica para a sua cama, no tivesse Hal j ocupado o espao entre a me e Ramon, o espao habitualmente deixado livre para a indiferena e a autocomiserao.
Correra para o quarto dos pais a chorar, tendo tido um pesadelo. Porm, Helena sabia que este pesadelo mais no era que um sintoma, tal como a incontinncia de Federica,
da tenso que o colapso do casamento lhes estava a provocar. Os culpados eram eles, os adultos, apenas eles.
Quando Ramon dormia, sonhava com Estella. Quando estava acordado imaginava-a. Foi apenas devido a Estella que conseguiu ultrapassar os traumticos dias que se seguiram.
Longos dias a desmanchar a casa e a empacotar tudo, a contactar imobilirias que a pusessem  venda, agentes de viagem que tratassem da viagem de Helena e das crianas
para Inglaterra. Ramon desejava pr-se novamente  estrada, livre da turbulncia
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que Helena trouxera  vida deles. Compraria um apartamento em Santiago, um stio que funcionasse como base de partida. Um espao s para si, sem os constrangimentos
da domesticidade, ao qual pudesse regressar e do qual pudesse partir sem quaisquer explicaes. Transferiu dinheiro para Inglaterra, o suficiente para que vivessem
bem. Helena deveria ter ficado grata, a oferta dele fora generosa, mais do que generosa, mas ela apenas sentia amargura.  semelhana do que fazia com os seus presentes,
Ramon achava que era fcil comprar o afecto das pessoas, desde que no tivesse de investir o seu tempo ou a sua presena. Helena aceitou, porque tinha de aceitar,
por causa dos filhos, mas teria preferido lanar-lho  cara.
Federica enroscou-se como um bicho-da-conta. A luz do candeeiro da rua enchia o seu quarto de um brilho alaranjado. A luz costumava ser tranquilizadora. Costumava
faz-la sentir-se segura. Isso j no acontecia. Puxou os joelhos mais contra o peito e chuchou no dedo. Fora  casa de banho pelo menos duas vezes em dez minutos.
No porque precisasse, mas porque temia voltar a molhar a cama. O pai dera-lhe um beijo de boa noite. At lhe contara uma histria. Uma das suas aventuras. Escutara-o,
sentada no joelho dele como de costume. Porm, quando ele no final a beijara, ela dera por si a querer mais. Um beijo mais prolongado, um abrao mais apertado. Quando
ele sara do quarto, sentira-se destituda, como se o pai no a tivesse amado o suficiente. J no se sentia segura e estimada. Sentia-se necessitada. Ansiava que
a me a beijasse e segurasse contra o seu corpo. Permanecia acordada na cama a imaginar planos que justificassem a sua ida ao quarto dos pais a meio da noite. Um
pesadelo era a desculpa de Hal, teria de pensar numa coisa diferente. Assim, fez de conta que estava doente. A me fora compreensiva e permitira que ela dormisse
na cama dos pais na segunda noite, mas na terceira Hal teve outro pesadelo, por isso Federica foi rapidamente levada para a sua cama, onde adormeceu a chorar. Estava
assustada em relao  ida para Inglaterra. No queria deixar Vina del Mar ou o Chile, ou o abuelito e a abuelit. No queria que as coisas mudassem. Acima de tudo,
queria que a me e o pai fossem amigos outra vez. No entanto, por muito ou melhor que eles fizessem de conta, sabia que eles j no gostavam um do outro. Escutara
tudo.
Por fim, o dia da partida chegou. com rostos srios, observaram Ramon a carregar o carro com as malas. Federica no conseguiu engolir as
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lgrimas. No queria deixar o pai. No sabia quando o voltaria a ver. Em Vina as esperas haviam sido felizes, afinal de contas era a casa dele, acabaria por regressar
mais cedo ou mais tarde. Sempre o fizera. Mas agora a sua nova casa no seria tambm a casa dele.
Ramon pegou-lhe ao colo e abraou-a com fora, beijando-lhe o rosto.
- O pap ama-te, Fede. O pap ama-te muito. Lembra-te disso, mi amor, O pap amar-te- sempre, mesmo que no esteja contigo. Quando o Sol brilha e tu sentes aquele
calorzinho no teu corpo,  o amor do pap. Compreendes? - Federica acenou que sim com a cabea, demasiado perturbada para falar. No queria que ele a deixasse ir.
Mas tinha de ser. Tinham um avio para apanhar e o txi estava  espera para os levar a Santiago. Helena achara que seria menos traumtico para as crianas se Ramon
se despedisse delas em casa e no as acompanhasse ao aeroporto. Pegou no filho, que no compreendia ainda bem o que se passava, e beijou-lhe o rosto rechonchudo.
- O pap tambm te ama, Hal. S bonzinho para a mam, est bem? - A voz embargou-se-lhe e teve de fechar os olhos e esconder o rosto no cabelo negro e brilhante
do filho.
Federica segurou a caixa contra si e acenou adeus ao pai, que permaneceu desoladamente no meio da estrada, acenando de volta com um sorriso trmulo, como um gigante
trapalho. Virou-se para olhar pela janela de trs do carro e continuou a acenar at o txi dobrar a esquina e perder de vista o pai. Depois encostou-se ao vidro,
observando as casas a passar, entorpecida de tristeza. Sentia-se como se o seu interior lhe tivesse sido arrancado  colher, deixando um enorme vazio que apenas
o seu pai poderia preencher. Foi todo o caminho at ao aeroporto a preocupar-se com Rasta, Receava que ningum o levasse a passear e ele comeasse novamente a ladrar
de puro tdio e infelicidade. S j no aeroporto  que parou de chorar. Nunca antes estivera dentro de um avio e o enorme aparelho fascinou-a e entusiasmou-a. Deu
a mo  me e avanaram pela pista de descolagem. Helena sorriu ternamente e apertou-lhe a mo.
Depois de as luzes serem apagadas e de Hal e Federica terem adormecido nos seus lugares, Helena reflectiu sobre os ltimos dias, aliviada por j pertencerem ao passado.
Colocaria o Chile para trs das suas costas, e Ramon tambm. Comearia uma nova vida em Inglaterra. Sentia-se esgotada, esvaziada de emoes. Recordou a conversa
telefnica que
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tivera com a me e sentiu as lgrimas a marejarem-lhe os sonolentos olhos. Estivera to ocupada a jogar o jogo do faz de conta em benefcio dos filhos que nem concedera
a si mesma o luxo de chorar. Agora que eles estavam a dormir, chorou silenciosamente, aliviando a tenso no pescoo e no maxilar. S de pensar na voz da sua me,
sentia o estmago contorcer-se de saudade. Escutara o pai em pano de fundo e, de repente, desejara mais do que tudo no mundo correr para eles, como fizera em criana,
e deixar que eles a reconfortassem com as suas palavras gentis e presena tranquilizadora. Tinham ficado tristes ao saber que Helena decidira deixar o marido, mas
contentes por eles estarem de regresso.

Jake e Polly Trebeka haviam assistido impotentemente ao casamento e partida da filha para viver do outro lado do mundo. Ambos haviam gostado de Ramon, apesar das
grandes diferenas culturais que os tinham impedido de o compreender. Nunca lhes havia sido concedido tempo suficiente para o conhecer como deve ser. Ambos teriam
preferido um nativo de boas famlias para a filha. Contudo, Helena apaixonara-se perdidamente por ele assim que o vira. Ao primeiro sinal dos sentimentos dele por
ela, Helena fizera as malas para o seguir para onde quer que ele escolhesse ir, como uma sombra adulatria. Claro que Polly tinha conhecimento dos problemas do casal
e culpava inteiramente Ramon pela desintegrao do casamento da filha. Tivera as suas reservas logo desde o incio. Ramon era de um mundo diferente, um vagabundo,
e estava tudo muito bem enquanto vagueassem pelo mundo s os dois, mas chegaria o dia em que Helena haveria de querer uma famlia. Ramon sempre fora egosta. O mundo
girava para ele apenas e ela duvidava que o genro alguma vez mudasse os seus hbitos por algum. E, agora, a relao implodira. Jake e Polly estavam perturbados,
mas no tinham iluses. Helena era ainda jovem, tinha apenas trinta anos e tempo suficiente para encontrar um homem simptico e amvel que olhasse e cuidasse dela
como merecia. Ramon fora um erro infeliz, mas pertencia agora ao passado.
Polly tratou de imediato de preparar a chegada da filha e dos netos. Passou horas a deliberar se Hal e Federica gostariam de partilhar o quarto ou preferiam ter
cada um o seu prprio espao. A casa era grande. Havia espao suficiente para toda a gente. Por fim, depois de ter debatido a questo com o marido, decidiu dar um
quarto a cada um, cada qual
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com duas camas, para que o pudessem partilhar caso se sentissem sozinhos. Arejou o antigo quarto de Helena, ainda com a colcha e cortinas e as bugigangas que ela
deixara para trs, arrumadas nas prateleiras. Nunca as tirara. No precisara. Para Polly aquele quarto sempre pertencera a Helena.
CAPITULO NOVE
Ramon caminhou pela praia e experimentou pela primeira vez na vida a angstia da perda. Era o final da tarde e estava sozinho. No fora capaz de levar Rasta a passear,
pois sem Federica parecia no fazer grande sentido. Por isso, passara pela pequena priso do co olhando para o outro lado e ignorando os latidos e arfadas animados
do animal. O remorso e a auto-averso consumiam-lhe o corao e, no entanto, no considerava mudar as suas atitudes como Helena lhe pedira que fizesse. Nem sequer
se oferecera para tentar. Espolinhava-se na sua prpria angstia, realada pela natural melancolia do dia que terminava. Voltou os seus olhos abatidos para o mar
e tentou imaginar a nova casa deles em Inglaterra. Recordou-se de Polperro e da primeira vez que vira Helena. Imaginou o local como era na altura.

Sentou-se na areia e apoiou os cotovelos nos joelhos, contemplando o agitado oceano Pacfico que se estendia  sua frente, selvagem e livre. Fora como o mar nessa
altura, indo para onde a corrente da sua imaginao o levasse. Bons tempos em que era jovem e aventureiro e abenoado pela imortalidade. Ou assim pensava. Podia
fazer o que quer que quisesse. Por isso viajara, por vezes dormindo sob as estrelas, outras hospedando-se com estranhos, generosos o suficiente para o acolher. Nascera
num mundo de privilgios e, no entanto, o dinheiro nunca significara muito para si. Desde que pudesse andar de um lado para o outro, era feliz. A princpio escrevera
poemas, que um amigo do seu pai, detentor de uma pequena editora em Santiago, lhe publicara. Fora tremendamente excitante ver o seu trabalho impresso pela primeira
vez, com o seu nome em grandes letras, disposto nas montras das livrarias  vista de toda a gente. Contudo, a fama tambm no lhe interessava muito, era
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mais feliz a vaguear pelo mundo, annimo. Depois escrevera uma colectnea de contos, inspirados pelas suas aventuras e decorados com as suas fantasias. Depois disso,
deixou de ser um desconhecido no Chile; comeou a ser reconhecido. O seu livro foi vendido em livrarias por todo o pas. A sua fotografia foi publicada no El Mercrio
e no Luz Estrela, ao lado dos artigos que escreveu para vrias revistas como a Geo Chile. O seu desejo de ser criativo era insacivel, nada o poderia reter. Ficava
no Chile apenas o tempo suficiente para ver a famlia, mas logo partia, como se temesse que a prpria sombra o pudesse apanhar.
Quando conhecera Helena pela primeira vez estava a escrever um artigo para a National Geographic acerca dos stios histricos da Cornualha. Fora inspirado para escrever
a histria ao conhecer um velho marinheiro que crescera em Saint Ives antes de se alistar na Marinha e acabar, por fim, em Valparaso. O homem tecera um cativante
relato sobre a terra do rei Artur e Ramon dera por si acometido pela nsia de ir conhecer pessoalmente o local. No ficara desapontado. As aldeias e vilas estavam
mergulhadas no passado como se o mundo moderno no as tivesse ainda descoberto. As casas eram caiadas e erigidas nos frteis montes verdes que tombavam abruptamente
para o mar. As baas eram angras solitrias, assombradas pelos fantasmas de contrabandistas e nufragos. As estradas eram pouco mais que veredas estreitas e serpenteantes
com sebes altas, semeadas de cicuta e outras gramneas altas. Ficara encantado, mas se no tivesse sido Helena teria apenas arranhado a superfcie.
Helena Trebeka estava sentada no molhe em Polperro quando Ramon a vira pela primeira vez. Era magra, despreocupada, tinha cabelos longos e ondulados de um louro
to plido que ficou de imediato impressionado com isso. Sentou-se a observ-la, tomando notas mentais para a incluir numa das suas histrias. Imaginou que era a
neta de um contrabandista, uma rapariga de natureza rebelde que fazia exactamente o que queria; no estava muito enganado. Ela reparou que ele a estava a olhar fixamente
e olhou-o de volta numa atitude desafiadora. Sem querer ofend-la, caminhou na direco dela e sentou-se a seu lado, de modo que as pernas de ambos pendiam em conjunto
da extremidade do molhe.
-  muito bonita, como uma sereia - comentou ele, sorrindo-lhe. Ela foi apanhada de surpresa. Os homens ingleses nunca eram to poticos ou ousados, e a maioria
dos homens que conhecia temiam-na.
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- bom, lamento desapont-lo, mas tenho pernas e no barbatanas
- respondeu ela e sorriu de volta, animadamente.
- Pois tem, pelo que vejo. Muito mais prtico, imagino.

- De onde  que ? - perguntou ela. Ele falava com um sotaque pronunciado e o seu cabelo negro e pele morena eram uma novidade para ela, tal como os mocassins de
pele que trazia nos ps.
- Sou do Chile - respondeu Ramon.
- E onde fica isso? - inquiriu ela, nada impressionada.
- Na Amrica do Sul.
- Ah.
- H mais mundo para l de Polperro, sabia? - troou ele.
- Eu sei - respondeu, mordazmente, no querendo que ele pensasse que era provinciana. - O que faz aqui na minha pequena vila? quis saber, incapaz de conter a sua
curiosidade.
- Estou a escrever um artigo sobre a Cornualha para uma revista.
- E gosta?
- Do qu, da Cornualha?
- Sim.
- At agora estou a gostar muito.
- Onde  que j esteve? - perguntou ela a sorrir, pois sabia que ele no deveria ter estado nos locais secretos que no vinham mencionados nos guias de viagens.
Assim, enumerou as vilas que visitara e alguma da respectiva histria que aprendera.
- Sabe, o meu av foi contrabandista - referiu ela, orgulhosamente.
- Contrabandista - riu ele, congratulando-se com os seus perspicazes poderes de percepo.
- Contrabandista - repetiu ela.
- E o que contrabandeava ele?
- Brande e tabaco, esse tipo de coisas. Costumavam acartar as suas cargas at Bodmin Moor, onde as escondiam. E depois vendiam-nas por uma fortuna em Londres.
- A srio?
- Claro. Isso sim, seria o tipo de coisa sobre a qual deveria escrever no seu artigo. Est toda a gente farta do rei Artur. Porque no escrever uma coisa original?
- bom, eu...
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- Podia mostrar-lhe todas as enseadas e baas secretas, e o meu pai poderia contar-lhe todos os pormenores - referiu ela, impulsivamente. Ramon achou que seria uma
ptima ideia. E se a histria do contrabando no funcionasse, teria pelo menos algum tempo para conhecer esta intrigante personagem que lhe fazia um tentador desafio.
No era como as outras raparigas que conhecera. Era sincera e confiante.
- Est bem, gostaria muito - respondeu, surpreendido com a franqueza dela que tanto contrastava com o seu aspecto quase angelical.
Jake e Polly Trebeka ficaram embasbacados quando Helena entrou em casa para o almoo a dizer que fizera um novo amigo, um escritor de algures da Amrica do Sul a
quem iria mostrar todos os locais do contrabando.
- No podes pr-te a combinar coisas assim com estranhos, Helena. No sabes nada sobre ele - admoestou Jake seriamente, engonando com cuidado a porta de madeira
de miniatura da embarcao que estava a fazer.

- Pode muito bem ser um assassino - acrescentou Polly no mesmo tom, como se os assassinos fossem uma coisa comum por aquelas bandas. Retirou uma fumegante lasanha
de legumes do forno e colocou-a sobre a mesa. - Onde raios se meteu o teu irmo? Toby! - gritou. Toby!
- Me, ele no  nenhum assassino - protestou Helena.
- Bem, apenas o descobrirs quando for tarde de mais - gracejou a me com uma gargalhada, limpando as mos ao avental. Polly era uma mulher grande, no gorda, mas
de estrutura larga e forte. Achava que as dietas eram uma coisa frvola e que perder tempo frente ao espelho era uma indulgncia extravagante dos muito vaidosos.
Qual galeo magnificente, fazia o marido parecer um humilde barco  vela que seguia atrs de si. Jake no era propriamente franzino; podia ser pequeno em termos
de estatura, mas era capaz de derrubar qualquer homem que o ofendesse. Pareciam um casal estranho, mas gostavam muito um do outro e concordavam em tudo, tanto por
fora do hbito como por partilharem das mesmas opinies. Jake era dono de uma prspera carpintaria e Polly governava a casa, educava as crianas e tratava dos canteiros
de flores que a enchiam de orgulho todas as Primaveras. Viviam de forma
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confortvel, mas no eram ricos. "Para que raio quero eu muito dinheiro?", costumava dizer Jake. "No posso lev-lo comigo quando morrer, pois no?"
Toby desceu as escadas, o sonoro barulho dos seus ps nos degraus de madeira, fazendo abanar todo o edifcio.
- O que  o almoo, me? -- perguntou, inalando o aroma dos famosos cozinhados da sua me.
- Lasanha de legumes - respondeu ela animada, colocando um jarro de gua na mesa.
- O meu prato preferido - entusiasmou-se ele. Jake sempre dissera que Toby devia ter buracos nas solas dos ps, pois tinha uma extraordinria capacidade para comer
sem nunca engordar. Era esguio e flexvel como uma rvore-da-borracha, com os cabelos negros do pai e o bom humor da me. J no que dizia respeito  comida, o seu
apetite excedia em muito o de ambos em conjunto.
-Jake, no podes terminar isso depois do almoo? - disse Polly, impacientemente. - No percebo por que raios precisamos de outro barco em miniatura - suspirou, olhando
para as filas de barcos em miniatura que se acumulavam nas prateleiras como se a casa fosse uma loja de brinquedos.
- E se eu o trouxesse aqui para vocs o conhecerem? Assim j podiam julgar por vocs mesmos - persistiu Helena.
- Trazer quem aqui a casa? - perguntou Toby, servindo-se de uma generosa poro de lasanha.
- A Helena conheceu um homem em Polperro que quer que ela lhe mostre os antigos locais do contrabando para um artigo que ele est a escrever - elucidou Jake.
?- Ah, sim? - exclamou Toby. - Essa  boa.
- No, ele est mesmo a escrever um artigo - argumentou Helena.
- Ento, j o viste, foi? - inquiriu Toby. Ela fez-lhe uma careta.
-  claro que no, palerma. Ainda no o escreveu.
- Pronto, pronto. J chega, meninos - admoestou Polly como se estivesse a falar com duas crianas. - Diz-lhe que venha para o ch. Dessa forma poderemos ficar a
conhec-lo. - Helena sorriu triunfantemente.

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- Que idade tem ele, Helena? - inquiriu Jake com um ar srio, puxando uma cadeira e juntando-se  famlia  mesa. Espetou o garfo na lasanha.
- Vinte e tal anos - respondeu ela e encolheu os ombros, pois na verdade no sabia. O estrangeiro era barbudo e cabeludo, bem constitudo e seguro de si. Poderia
perfeitamente ter entre vinte e cinco anos e quarenta.
- E viaja sozinho? - voltou o pai  carga, mastigando a comida.
- Polly, esta lasanha est mesmo muito boa - acrescentou quando a mulher se sentou e se serviu do que restava.
- Parece-me que sim - replicou Helena.
- com dezoito anos podes achar-te uma mulher, mas quando eu tinha a tua idade, tinha de ter um pau-de-cabeleira - referiu Polly.
- Como se tu precisasses de um pau-de-cabeleira, me! Eras capaz de partir os dentes ao mais forte dos homens com uma bofetada dessas tuas enormes mos - comentou
Toby, rindo irreverentemente.
Ramon encontrou-se com Helena como combinado junto ao porto. Sentia-se envergonhada por ter de lhe dizer que tinha de o apresentar aos pais antes de obter permisso
para ir onde quer que fosse com ele.
- A minha me acha que  um assassino - explicou ela e suspirou.
- bom, os cuidados nunca so de mais.
- Como  de um pas estranho, pode muito bem ser um canibal, nunca se sabe - gracejou.
- Se fosse canibal, acho que seria bem apetitosa.
Helena sorriu timidamente, mas no desviou o olhar ou corou. Ficou a olh-lo de frente com os seus olhos azuis, avaliando-o.
- Acha mesmo? - respondeu com um ar altivo. Ele acenou que sim com a cabea e sorriu. A arrogncia dela divertia-o, embora tivesse a certeza que ela no era de facto
assim. - bom, o melhor ento  vir conhecer os meus pais. Vivemos mesmo nos arrabaldes de Polperro, portanto poder fazer como eu e ir de bicicleta, ou ento a p.
- Eu trato de arranjar uma bicicleta - decidiu ele. - Assim podemos ir juntos.
Pedalaram monte acima, saindo de Polperro e deixando para trs o indolente porto e as casas caiadas e dispostas pelo sop do monte como
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casas de bonecas. Era um dia cristalino de Vero, as gaivotas pairavam na brisa salgada e as abelhas zumbiam nas flores. Enquanto pedalavam lado a lado, Ramon falou-lhe
do seu livro de contos. Quando lhe disse que era um escritor bem conhecido, ela no acreditou, retorquindo que nunca ouvira falar dele.
- bom, se for ao Chile ouvir falar de mim com frequncia - garantiu ele.
- Ora, porque haveria eu de querer ir ao Chile? - argumentou.
- Porque  um pas lindssimo e uma rapariga como voc devia conhecer o mundo - respondeu ele com sinceridade.
- Um dia verei o mundo. Ainda s tenho dezoito anos.
- Ento, ainda tem muito tempo.

- E muitos locais mais importantes para ver primeiro - disse ela. Ramon soltou uma gargalhada e abanou a cabea. Sentiu-se de repente dominado por uma nsia de a
beijar, mas continuou a pedalar. Haveria tempo suficiente para isso mais tarde.
A casa de Helena era um encantador edifcio branco repleto de clematite que trepava pelas paredes at ao telhado de telhas cinzentas como os tentculos de um polvo
floral. Ramon reparou numa famlia de pombos alinhada junto  chamin, observando-o do seu poleiro altaneiro com olhos negros e brilhantes.
- bom, no  um luxo, mas  a minha casa - disse ela, desmontando da bicicleta e encostando-a  parede. - Vamos l despachar isto - acrescentou, piscando-lhe o olho
com um ar trocista.
Polly Trebeka no era o que Ramon esperara. Tinha o cabelo louro como a filha, embora j com alguns grisalhos, atado num rolo mal feito que lhe deixava algumas madeixas
a pender pelo pescoo. O rosto no apresentava qualquer vestgio de maquilhagem. Parecia o tipo de mulher que nunca se preocupava com cremes, mas ainda assim exibia
uma pele macia e jovem e o sorriso de uma rapariga. Quando foi apresentado ajake Trebeka viu de onde vinham os olhos azul-claros de Helena. Eram quase da cor de
guas-marinhas. No caso de Jake eram mais contrastantes devido  sua compleio morena e cabelos negros. Assemelhava-se a um estranho cigano com os olhos de um falco.
Helena herdara as melhoras caractersticas de ambos e era mais requintada e apurada que qualquer um deles.
Toby tomara especial cuidado para estar presente nesta reunio. Reparara no entusiasmo bem patente nos olhos da irm ao falar desse homem
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e ficara curioso para ver o que haveria nele que o diferenciasse dos restantes jovens de Polperro que se apaixonavam por ela.
- Sente-se, por favor, mister... - disse Jake educadamente, olhando para a filha para que apresentasse este seu novo amigo. Helena, como  claro, no sabia o nome
dele. Toby cruzou o seu olhar com o dela e sorriu de orelha a orelha. Ela dardejou-o com o seu olhar, dando-lhe a entender que se comportasse como um adulto, antes
de se voltar de novo para os pais.
- Campione, Ramon Campione - apresentou-se Ramon e acomodou-se no sof. A sua presena era de alguma forma demasiado grande para a pequena sala de estar. Helena
no se sentiu minimamente desencorajada pela poro de sof que ele ocupou com os seus enormes braos e pernas e sentou-se ao lado dele.
- Eu sou Jake Trebeka e esta  a minha esposa Polly, e Toby, o nosso filho.  um prazer conhec-lo. A minha filha diz-me que  escritor - comeou Jake.
Ramon acenou que sim com a cabea.
- Sim, escrevi dois livros de poesia e alguns contos - explicou no seu forte sotaque espanhol que soava to deslocado naquele lar britnico.
- Mas no est na Cornualha por causa de um livro - referiu Polly, pousando um tabuleiro de ch. Reparou nos longos e brilhantes cabelos de Ramon, que, na sua opinio,
bem precisavam de um bom corte, e o tom de mogno dos seus inteligentes olhos. Era to completamente estrangeiro. Nunca antes falara com um estrangeiro.

- No, senora, estou a escrever um artigo para a National Geographic explicou ele.
Os olhos de Polly esbugalharam-se e olhou para a filha com irritao.
- Porque no nos disseste que este senhor escrevia para a National Geographic, Helena? - perguntou, colocando as suas enormes mos nas ancas redondas. - Adoro essa
revista, e o Toby tambm, no , querido? - animou-se, sentindo-se mais confortvel agora que era capaz de o colocar numa categoria mais familiar.
- Gostamos muito da revista - concordou Jake, impressionado.
- E o artigo  sobre o qu, para alm do contrabando?
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- bom, inicialmente era para ser sobre a terra do rei Artur - comentou Ramon -, mas a Helena sugeriu o tema do contrabando. Contudo, no tive ainda tempo de falar
sobre isso com o meu editor.
- Oh, a terra do rei Artur. Que ideia mgica - entusiasmou-se Polly.
- No, no , me.  pouco original - disse Helena sem rodeios.
- A Helena tem razo. J est muito vista - concordou Toby, piscando o olho  irm.
- Tudo depende da forma como for escrita - argumentou Ramon, os seus brilhantes olhos castanhos sorrindo para Helena.
- bom, eu propus mostrar-lhe os antigos covis dos contrabandistas e tu, pai, podias contar algumas das tuas histrias - sugeriu Helena, sorrindo de volta para Ramon.
- Ser um prazer ajudar - ofereceu-se Jake. - A National Geographicl Uma revista de muito prestgio, sim senhor.  o Ramon que tambm tira as fotografias?
- Fao tudo - respondeu Ramon.
Polly acenou com uma expresso de admirao.
- Esto assim a ver que ele no  nenhum assassino - referiu Helena. Polly dardejou-a com o olhar. Jake riu-se e Toby quase se engasgou com o ch.
- Espero que no - gracejou ele. - No te esqueas de lhe mostrar Crag Creek - acrescentou.
Helena irradiou de alegria.
- Mostrar-lhe-ei tudo - garantiu.
Helena e Ramon passaram os dez dias seguintes pedalando por toda a costa. Ela mostrou-lhe lugares que ele nunca teria encontrado sem a sua ajuda. A jovem preparava
piqueniques, que comiam nas praias, e conversavam com a familiaridade de duas pessoas que se conhecem h muitos anos. Falaram com pessoas em pubs e barcos de pesca,
exploraram grutas e enseadas e nadaram no mar. Ramon quisera beij-la desde o primeiro momento em que experienciara a arrogncia das palavras dela. A sua oportunidade
chegou ao fim de um par de dias, enquanto faziam piqueniques tranquilamente numa praia remota. Helena apenas embrulhara um pedao do bolo de chocolate da me. Ramon
sugeriu que ela o partisse ao meio. Helena recusou-se e enfiou o pedao inteiro na boca, rindo triunfantemente.
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- bom, assim terei de lho tirar  fora - argumentou ele. Helena tentou levantar-se, protestando sem palavras e com as mos, pois tinha a boca demasiado cheia para
falar. Contudo, Ramon foi demasiado rpido. Deitou-se em cima dela e prendeu-a  areia com as mos. Ela lanou-lhe um olhar glido de indignao quando, anteriormente,
os seus olhos haviam sido gentis e acolhedores. Porm, para sua diverso, ela no o podia recusar verbalmente, por isso colocou a sua boca sobre a dela com o seu
ardor latino e beijou-lhe os lbios de chocolate. Depois devorou-lhe a curva do pescoo e a colina da sua clavcula. Por fim, ela engoliu com fora e conseguiu falar.
- Ramon! Que est a fazer? - protestou Helena.
- Cala-te, j ouvi tudo o que quero ouvir de ti, de momento. Agora acalma-te e deixa-me beijar-te. Desde o primeiro momento que te vi em Polperro que o desejo fazer
- disse e voltou a beij-la para a silenciar. Descontraiu-se, como ele lhe dissera, e fechou os olhos, consciente apenas dos lbios quentes dele e de uma sensao
de formigueiro no estmago.
Ramon deixou Polperro ao fim de duas semanas. Despediu-se de Helena no cais onde se haviam conhecido pela primeira vez. Ela era demasiado orgulhosa para mostrar
o seu pesar, por isso limitou-se a sorrir-lhe, como se no se importasse que ele estivesse de partida. S depois chorou nos largos ombros da me.
- Acho que estou apaixonada por ele, me -- soluou. Polly abraou-a e disse-lhe que, se ele a amasse, tambm regressaria por ela. Se no amasse, ento ela no deveria
perder mais tempo com ele.
- Os romances de Vero so coisas maravilhosas por si s, querida, e, por vezes, o melhor mesmo  deixar que permaneam s isso.
Contudo, Ramon no esquecera Helena. Tentara. Escrevera o seu artigo e enviara-o ao seu editor. Depois regressara a casa de seus pais em Cachagua, por onde deambulara
abatido como um adolescente apaixonado, observara o mar com o corao apertado, pensando em Polperro e na sereia que a deixara. Tentou de tudo para a esquecer.
Dormiu com algumas raparigas que engatou, mas isso apenas serviu para fazer crescer o seu desejo por Helena. Escreveu alguns poemas sobre ela e um conto sobre a
filha de um contrabandista da Cornualha. Os seus pais estavam encantados. Nunca antes haviam visto o filho apaixonado e comeavam
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j a preocupar-se com o seu corao empedernido e deambulaes solitrias. Assim, aproveitando o ensejo, Mariana conversara com o filho, aconselhando-o a seguir
os seus sentimentos em vez de os contrariar.
- Eles no vo desaparecer por os ignorares, Ramon - dissera ela. - Desfruta deles e acalenta-os.  para isso que serve o amor.  um privilgio sentires o que sentes.
Algumas pessoas vivem uma vida inteira sem saber o que  o amor verdadeiro.
Assim, Ramon telefonara ao seu editor e pedira-lhe para acrescentar um pequeno pargrafo.
- E o que , ento? - perguntou o editor com curiosidade. Gostara muito do artigo e queria public-lo de imediato. - Espero que no seja muito longo, caso contrrio
no terei espao - acrescentou.
- No, no  longo. Eu dito-to.
- Est bem. Podes comear.

- O lugar mais belo e mgico de todos  a Praia de Helena em Polperro, uma pequena enseada de areias prateadas, banhada por um mar de um azul-plido de tamanha translucidez
que nos seduz para as profundezas dos seus mistrios, at o nosso corao ser aprisionado e a alma escravizada. Parti sabendo que nunca mais seria o mesmo e que
seria dela para sempre. Ser apenas uma questo de tempo at regressar para me entregar a ela de corpo e alma.
- Rica praia, Ramon - comentou o editor, secamente. - No deveria permitir que este pargrafo entrasse, mas uma vez que s tu... Depois acrescentou com um sorriso:
- S espero que nenhum dos teus leitores tente encontrar esta praia, pois ainda ficaro desapontados!
Quando Helena recebeu o exemplar da National Geographic percebeu que fora Ramon quem lha enviara, embora no houvesse sequer um bilhete. Rasgou o envelope e folheou
as pginas com as mos a tremer. Depois, sentou-se  mesa da cozinha e leu o artigo. Chorou ao ver as fotografias tiradas juntos, e a forma potica como ele escrevia
comoveu-a tambm. Ao deparar-se com o pargrafo sobre a "Praia de Helena" tinha os olhos to embaciados pelas lgrimas que mal conseguia l-lo. Pestanejando para
ver melhor, teve de o ler uma segunda vez para o caso de ter interpretado coisas que l no estavam. Depois sorriu, pois sabia que ele a amava e que regressaria
por ela. Valera a pena esperar por ele, afinal.
Ramon estava sentado na praia a pensar em Polperro, a pensar na sua mulher e nos filhos, sentados no desembarcadouro, e o seu corao
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bateu mais forte por eles. Pensou no que sentira primeiro por Helena e no que sentia agora por Estella. Amor, fungou, de que serve? Acaba sempre por azedar no final,
pensou tristemente. Como poderia amar Estella quando no fora capaz de amar a sua mulher como devia ser? Era melhor no amar sequer.
Mais tarde, quando regressou a casa, tomara uma deciso. Partiria imediatamente e esqueceria Estella. Deveria ter feito o mesmo com Helena h muitos anos atrs.
Pelo menos, no iria cometer o mesmo erro duas vezes.
Abrindo os seus mapas, olhou para a ndia e acenou com a cabea. "A ndia  um local to bom como qualquer outro", pensou.
CAPTULO DEZ
Inglaterra
Toby Trebeka dormira em Londres, a fim de estar prximo do aeroporto de Heathrow para a chegada da irm no dia seguinte. Oferecera-se para ir. No gostara da ideia
de ela ter ainda de apanhar um comboio ou um autocarro at  Cornualha, em especial tendo em conta o seu frgil estado de esprito. Os pais tinham-lhe contado que
ela decidira deixar Ramon. Toby ficara triste. Ela fora to feliz ao incio! Mas no era assim com toda a gente? Tinha pena das crianas, divididas, deste modo,
entre duas pessoas, sentindo-se provavelmente culpadas pela incapacidade dos pais de se amarem um ao outro. As separaes afectavam sempre as crianas mais do que
as pessoas pensavam. Ainda assim, achava ele, no se pode viver inteiramente em funo dos filhos. No que ele alguma vez viesse a ter esse problema.

Toby sempre fora diferente dos outros rapazes em Polperro. Apesar de ser de constituio atltica, nunca gostara muito de desporto, excepto da pesca, que os outros
rapazes achavam incrivelmente entediante e anti-social, em especial porque ele devolvia sempre  gua o peixe que apanhava. Recusava-se a comer carne - "qualquer
coisa que tivesse me ou um rosto", explicava ele. Contudo, Toby velejava no pequeno barco do pai em busca de peixe, apesar da troa dos colegas. Costumava ficar
sentado no meio do agitado mar horas seguidas, com apenas as gaivotas por companhia e o som da sua prpria voz a murmurar as ms canes de amor que escutava na
rdio. Era um rapaz bonito, de pele clara e luminosa e olhos sensveis que choravam com facilidade, habitualmente em relao a coisas com que outras pessoas nem
teriam vacilado, como um
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tremeluzente cardume de peixes sob a superfcie do mar ou um caranguejo solitrio correndo em busca de refgio por baixo de uma pedra. S a sua boa disposio e
esprito vivo o haviam impedido de ser maltratado na escola. Isso e o facto de ser muito mais inteligente que os restantes rapazes. Conquistara o respeito deles
por meio do humor e pela sua prontido em rir de si mesmo. Coleccionava insectos, que guardava em grandes recipientes de vidro recheados com todas as comodidades
que eles pudessem necessitar, desde folhagem a comida, e passava horas a cuidar deles e a estud-los. Lia livros sobre rvores e animais e tinha uma assinatura da
National Geographic. Sabia que era diferente. A me dissera-lhe para fazer das suas diferenas uma "caracterstica". Assim, no tentara gostar de futebol ou de rguebi,
no tentara gostar de fumar e de estar sentado dentro de pubs a discutir raparigas. Nem tentara sequer gostar de raparigas - bom, pelo menos da forma como os outros
rapazes esperavam que ele gostasse delas.
Por volta dos quinze anos, sendo o nico rapaz da turma que nunca beijara uma rapariga, encostou a pequena Joanna Black  parede e beijou-a frente a toda a gente
para provar que era capaz de o fazer. Detestara-se pelo que fizera. No apenas porque magoara Joanna Black e a fizera fugir para a sala de aulas a chorar com a indignao
de uma mulher estropiada da sua virgindade, mas tambm porque no gostara. No lhe parecera certo, no achara que combinasse consigo. Os rapazes deram-lhe pancadinhas
nas costas com admirao. Joanna Black era uma das raparigas mais bonitas da escola. Contudo, o acesso de orgulho que sentira fora rapidamente substitudo por uma
humilhante vergonha que lhe ensombrava a conscincia. Joanna Black nunca mais lhe voltou a falar. Anos mais tarde, quando se cruzava com ela na mercearia, por exemplo,
ela empinava o nariz e saa sem sequer olhar para ele. Toby tentara pedir-lhe desculpa, mas parecia-lhe disparatado pedir desculpa por uma coisa que acontecera h
tanto tempo.
Nos anos sessenta, durante a adolescncia, Toby tinha mais "namoradas" que qualquer outro rapaz em Polperro. As raparigas adoravam-no. Toby era engraado, gostava
de mexericos e intrigas, tratava as raparigas com respeito e nunca ficava nervoso perto delas ou demasiado envergonhado para dizer o que pensava. Era cativante com
aqueles seus olhos to lcidos que lhes asseguravam que as compreendia melhor do
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que outros rapazes. O seu sorriso largo era honesto e o seu rosto amvel e abordvel. Todas o amavam e, no entanto, ele nunca as amava da forma que elas desejavam
que o fizesse.

O mar era um escape para Toby quando queria evitar os rapazes no pub a discutir raparigas e at onde j tinham ido com elas. Velejava at s brumas salgadas onde
podia ser ele mesmo, onde no tinha de se adaptar a nada. Recordava-se do conselho que a me lhe dera, mas no conseguia transformar a sua homossexualidade numa
caracterstica sem ofender a vila inteira. Soubera que era homossexual desde tenra idade, porm, a homossexualidade era veementemente proscrita pela protegida sociedade
em que viviam, e Polperro era demasiado pequena para servir de refgio. Assim, em 1967, aos dezoito anos, decidiu abandonar Polperro e procurar trabalho em Londres.
Os pais no haviam entendido por que motivo precisava de partir para Londres para trabalhar; empregos no faltavam por ali para um jovem inteligente como Toby. O
pai queria que ele trabalhasse consigo a fazer janelas e portas, mas Toby era incapaz de lhe explicar que se contorcia s de pensar em cortar magnficas rvores
em pequenas partes. No era capaz de explicar, por isso no explicou. Fez as suas malas e partiu. A me ficou devastada, o pai zangado. "Suamos sangue para os criar
e depois estes infelizes mal-agradecidos vo-se embora sem sequer um obrigado!", vociferara ele. Por essa altura, j Helena viajava pelo mundo com Ramon. Jake e
Polly deram por si mais sozinhos do que quando haviam casado, pois sabiam o que era sentir a casa cheia com as gargalhadas dos filhos. Agora, tudo o que lhes restava
eram os ecos, mais audveis do que o silncio fora na poca anterior ao nascimento dos filhos.
Toby demorara anos a encontrar um emprego. No porque no tivesse capacidades para isso - deixara a escola aos dezoito anos com boas notas -, mas porque no conseguia
encontrar nada que gostasse de fazer. Tal como explicara aos pais: "Se tenho de trabalhar durante o resto da minha vida,  melhor que seja em alguma coisa que eu
goste mesmo, ou ento no vale a pena viver." Os pais no podiam deixar de concordar com ele, razo pela qual estavam espantados com a sua deciso de deixar Polperro.
No havia barcos de pesca em Londres ou mar aberto onde se pudesse perder. Toby tentara trabalhar na City, mas a experincia durara apenas trs semanas. Justificou
a sua partida apressada com um sorriso alegre, declarando apenas que no fora talhado para aquilo. Tentou um pouco de tudo, desde as vendas, ao marketing e ao desenho
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de cozinhas, mas rapidamente ficava desanimado e por trs do sorriso que mostrava aos amigos,  medida que cada novo falhano o derrotava, estava a assustada alma
de um homem confuso e alienado. No se enquadrava em Londres ou na City ou nos escritrios de Mayfair. E no pertencia tambm ao mundo dos casais com filhos. Sabia
onde ficava o seu mundo, mas mais valia que fosse no fundo do arco-ris, pois sentia demasiado receio de o encontrar. Tinha saudades de casa, do mar e da segurana
daquele barco de pesca oculto pelas impenetrveis nvoas ocenicas. Ento, uma noite, conheceu num bar um rapaz louro chamado Julian Fable que mudou a sua vida para
sempre. Ambos beberam mais do que a sua conta, Toby para afogar as suas mgoas, Julian para lhe dar coragem. Quando saram do bar, Julian virou-se para Toby e, segurando
o seu desanimado rosto entre as mos, beijou-o. De repente, Toby sentiu uma enorme libertao, como se a sombra que fora tivesse sido, por fim, coberta por uma pele
sob a qual se sentia confortvel. Finalmente, em 1973, aos vinte e quatro anos, regressou a Polperro com Julian, completo e feliz. Compraram uma cabana nos arredores
de Polperro, onde Julian construiu uma cmara escura para as suas fotografias, e Toby comprou um barco, que baptizou de Helena, dando incio ao seu prprio negcio,
realizando viagens para turistas ao longo da costa; por fim assentou. Encontrara-se a si mesmo.
Durante os primeiros anos ningum achou minimamente estranho que Toby Trebeka estivesse a viver com outro homem. Mas depois as pessoas comearam a reparar que nenhum
deles saa com raparigas, os rumores e os mexericos comearam a crescer como as neblinas marinhas at se tornarem avassaladores e impossveis de ignorar. Toby sempre
tratara alegremente da sua vida, nunca interferindo com a de ningum. Entristecia-o bastante que tivesse de se explicar a quem quer que fosse. Mas no lhe deixaram
outra escolha. Chegou uma noite a casa dos pais para jantar. Estes acharam estranho que ele se convidasse para jantar a meio da semana e um sentimento de mal-estar
invadiu a casa. Jake e Polly haviam ambos suspeitado que ele era homossexual, mas desde que a questo no fosse discutida ou alardeada  frente deles, faziam os
possveis por ignor-la, por fazer de conta que no existia. Um pouco como quem oculta uma ndoa na carpete com uma planta envasada, viviam satisfeitos sem prestar
ateno ao caso, apesar dos amigos e vizinhos falarem sobre isso nas costas deles.
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- Como vo as coisas? - perguntou Jake, cautelosamente, enquanto Polly guardava o que sobrara da sopa de legumes.
- Vo bem, pai, obrigada - respondeu Toby, engolindo um trago de vinho para ganhar coragem.
- Ento, est tudo bem - disse Polly ao lado do fogo, um meio sorriso traindo a ansiedade que sentia.
- Me, pai, sou homossexual - declarou Toby de chofre. Teve a mesma abordagem directa que a irm, mas ainda assim conseguiu apanhar ambos os pais de surpresa. Suspirou
audivelmente e deixou o vinho fazer o seu efeito. Jake bebeu o seu brande de um s gole. Polly guardou o recipiente da sopa com vigor. Durante um momento ningum
falou. Deixados a ss com os seus pensamentos, o silncio isolava-os uns dos outros. S o corao de Toby batia como que impondervel no seu peito, mais leve do
que nunca.
- Ento o Julian  o teu...
- Namorado, pai. O Julian  o meu amante, o meu amigo. No estou  espera que compreendam, apenas que aceitem que esta  a forma como escolhi viver. No quero que
as pessoas mexeriquem sobre mim nas vossas costas. Vocs tm o direito de saber - respondeu, olhando para o pai olhos nos olhos.
- Sempre vos ensinei a serem independentes - comeou Polly, aproximando-se da mesa.
- A fazer das nossas diferenas uma caracterstica - acrescentou Toby, retorcidamente.
- A fazerem das vossas diferenas uma caracterstica - repetiu ela, soltando uma risada. - bom, estou orgulhosa de ti.  precisa muita coragem para remar contra
a mar.
- Acho que toda a minha vida remei contra a mar - gracejou Toby com um sorriso triste.
- Pois muito bem, eu remarei contigo, Toby, querido - declarou Polly, inclinando-se para o beijar.
Colocou os braos em redor da larga anca da me.

- Isso significa muito para mim, me - disse ele com a voz embargada.
- Eu sei, filho - respondeu ela, dando-lhe palmadinhas nas costas. - Eu sei.
Jake aceitou o facto como o filho lhe pedira, mas nunca mais falou sobre Julian, quis voltar a v-lo ou receb-lo em sua casa. Toby ficou
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mortificado por, de repente, uma parede se ter erguido entre eles. O pai gostara de Julian anteriormente, mas agora, por puro preconceito, encarava-o como uma ameaa
e decidira contrariar o seu juzo inicial e virar-se contra ele. No obstante, Polperro era uma pequena vila e no podiam pura e simplesmente evitar-se. Quando se
encontraram, por fim, numa nevoenta manh de domingo no cais, enquanto Julian amarrava a embarcao de Toby, o Helena, e Jake passava por ele a caminho do seu prprio
barco, acenaram educadamente um ao outro com a cabea, mas nunca foram para alm disso. Jake reconhecia assim a existncia dele sem se aventurar para alm do que
as suas boas maneiras lhe ditavam. Toby era pragmtico. Pelo menos contara-lhes, no havia segredos que o pudessem comprometer. O nico caminho a seguir era em frente.
Federica e Hal chegaram ao aeroporto de Heathrow desorientados e exaustos. O voo fora longo, com escalas em Buenos Aires, Rio de Janeiro, Dakar e por fim Heathrow.
O seu mundo ficara reduzido ao acanhado interior da aeronave durante o que lhes parecera uma eternidade. Tinham feito jogos com os lpis e os papis com que as hospedeiras
os haviam presenteado e dormido o mximo que puderam, usando a me como almofada e cobertor. Contudo, tinham passado horas insones, pontuadas por paragens frustrantes,
e, uma vez passada a novidade de voar, ambos haviam derramado lgrimas de cansao. Helena tentara mant-los distrados e at pedira a Federica que lhe contasse a
histria da sua caixa outra vez, apenas para preencher mais alguns minutos de tdio com alguma coisa.
Por fim, o rosto comprido e sorridente de Toby ganhou contornos,  medida que lhes acenava freneticamente ao v-los emergir da zona da alfndega. Nem Hal nem Federica
o reconheceram. Porm, Helena correu para os braos dele, os soluos fazendo-lhe estremecer o peito  medida que libertava a tenso de ter de ser forte pelos filhos.
Alegrou-se ao sentir o corpo do irmo, um abrao familiar e o aroma da pele dele. Estava em casa. O pesadelo terminara.
- Sou o tio Toby - apresentou-se ele, inclinando-se e apertando a mo de Hal, que desapareceu de imediato nos seus enormes dedos. Hal agarrou-se s pernas da me
e olhou para o estranho homem com um ar suspeito. Federica estendeu a mo e disse "ol", educadamente, mas sem sorrir.
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- s ainda mais bonita do que a tua me descreveu - elogiou ele, pegando na mo da sobrinha e apertando-a. Depois, reparando na caixa, acrescentou: - E o que  isso
que trazes a?
Federica segurou-a possessivamente.
- Foi o pap que ma deu.  uma caixa mgica - respondeu.
- Aposto que sim. Ainda bem, pois vais mesmo precisar de uma caixa mgica em Polperro - replicou ele com um riso abafado.
- Porqu?

- Porque l h grutas mgicas e enseadas misteriosas e praias assombradas - redarguiu ele. Reparou ento nos cansados olhos dos sobrinhos que tremeluziram momentaneamente
de curiosidade.
- A srio? - perguntou ela e os seus lbios esboaram um pequeno sorriso.
- A srio. Fico muito satisfeito que tenhas trazido a tua caixa acrescentou, e depois levantou-se. - Deves estar exausta, Helena. Vamos j para o carro, as crianas
podem dormir no banco de trs.
Toby empurrou o carrinho cheio de malas e Helena conduziu os filhos pela mo. Quando chegaram ao carro, Toby carregou a bagageira com as malas e depois acomodou
os midos no banco traseiro, que preparara com almofadas e cobertores. Era uma viagem longa de sete horas at Polperro.
- Nem acredito que preparaste tudo isto para as crianas - agradeceu Helena. - Vo dormir ali como reis.
-  uma viagem longa e cansativa. Pobres crianas, parecem abaladas e desorientadas - disse Toby, fechando a porta. Federica fechou os olhos e encostou a cabea
 almofada. No teve tempo de reflectir sobre a sua situao, pois o sono venceu-a, entorpecendo-lhe os sentidos como uma droga.
- Oh, Toby. Nem imaginas pelo que passei. Deixei o Ramon e parti o corao dos meus filhos, e tudo porque j no conseguia aguentar mais, no conseguia lidar mais
com aquela situao - declarou Helena, irrompendo em lgrimas.
- No te censures, Helena, a vida  assim mesmo. Eles ho-de ultrapassar este mau momento. No te preocupes. J aconteceu a milhares de crianas antes deles e sobreviveram
- argumentou, afagando-lhe o brao. - Agora entra no carro antes que te constipes. Suponho que no te tenhas lembrado de trazer casacos - disse, olhando para ela
a tremer na sua camisa de algodo e calas finas.
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Ela abanou a cabea tristemente.
-  claro que no, no Chile estamos no pino do Vero - explicou, pensando de repente em Ramon e interrogando-se como estaria ele.
- Quando os midos adormecerem logo me contas tudo - sugeriu ele, subindo para o carro.
Helena viu a nuvem cinzenta e baixa que encobria o cu como um manto e, contudo, no a fez sentir-se deprimida como o mau tempo costumava faz-la sentir-se. Ao invs
disso, sentiu uma mitigante sensao de segurana e confiana. Tudo lhe parecia to familiar e reconfortante! Enquanto seguiam em direco  auto-estrada, olhou
para as rvores nuas com os seus ramos duros do frio e para as esguias gralhas negras que debicavam os campos de Inverno. Era assim que se recordava do seu pas
e sorriu interiormente.
-  bom ter-te de volta, Helena - disse Toby, olhando de relance pelo espelho retrovisor para ver se os sobrinhos estavam a dormir. Pobres midos, esto exaustos.
Olha. - Helena virou a cabea para trs. Hal e Federica estavam a dormir enroscados um no outro como dois cachorrinhos. Pensou em Ramon e interrogou-se se sentiria
a falta deles ou se, simplesmente, apagara as memrias que tinha deles e avanara com a sua vida. Mais pases, mais livros, nada de compromissos. Suspirou.

- H tanto tempo que no falamos. Como est o Julian? - perguntou, olhando para a estrada  frente deles e tentando ignorar a fadiga.
- O Julian est ptimo. Passa muito tempo em Londres em trabalho. Tem sido muito requisitado e est a tornar-se bastante bem-sucedido.  ele que me vai sustentar
na velhice - gracejou.
- Sorte a tua!
- Nem tanto. O pai continua na mesma.
- Isso no me surpreende.  um homem machista. E orgulhoso disso. Provavelmente culpa-se a si mesmo - referiu ela.
- Deve achar que isso mina a sua masculinidade.
- Um dia, ele mudar de opinio, no esperes milagres. H coisas bem mais importantes com as quais nos devemos aborrecer. No mataste ningum.
- No, ainda no. - Sorriu. - Mas j passaram dois anos desde que lhe disse e, desde ento, no fala com o Julian. Quando o Julian chegou a Polperro no se furtou
a receb-lo na famlia como meu amigo.
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Estava encantado com ele.  preciso ser-se muito tacanho para votar uma pessoa ao ostracismo por causa da sua sexualidade, que, de qualquer maneira,  uma questo
privada! Em especial tendo em conta que o pai gostou muito do Julian enquanto pessoa.
- Isso magoa-te, no ? - disse Helena, reparando nas mos do irmo a agarrarem o volante com mais fora.
- Sim, apenas porque sempre fomos muito prximos. J no  a mesma coisa. Vais ver.
- Ele limita-se a fazer de conta que o Julian no existe?
- Sim.
- E como  que o Julian se sente em relao a isso? - inquiriu Helena, tentando interessar-se pelo assunto, embora no conseguisse deixar de pensar nos seus prprios
problemas.
- Ele  to despreocupado que nem liga. Anda demasiado concentrado na sua fotografia para se dar ao trabalho de se preocupar se o pai gosta ou no dele. Seja como
for, tem trinta e nove anos, j no  a primeira vez que passa por isto e isso no o perturba. Eu preocupo-me por mim,  s.
- O pai provavelmente acha que foste desencaminhado por um velho pervertido. - Observou os lbios de Toby contorcerem-se num sorriso relutante.
- No se  velho aos trinta e nove, Helena.
-  sete anos mais velho que tu. Para o pai tu ainda s uma criana.
- Pois, mas esta criana sabe o que quer.
- Muito bem, ento. s urtigas com o pai. Que se lixe! O que importa  que sejas feliz. Tens de pensar em ti mesmo e no viver a tua vida para outras pessoas - afirmou,
pensando na sua prpria situao e nos seus desolados filhos que dormiam inocentemente atrs de si.
- Temos ambos de pensar em ns mesmos, Helena. Mais ningum o ir fazer por ns - respondeu Toby, seriamente, e depois ficou em silncio e contemplou o longo caminho
que se estendia  frente dos dois.

Helena e Toby haviam sempre partilhado todos os seus segredos. Embora fosse dois anos mais novo que a irm, sempre fora mais maduro do que os outros rapazes da sua
idade.  o resultado de guardar segredos, estes desgastam-nos e tornam-nos furtivos, pensou Helena. Soubera que o irmo era homossexual muito antes de este ter decidido
contar aos
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pais. Sempre soubera que ele no se interessava por raparigas, que era mais feliz com os seus livros sobre larvas e escaravelhos do que a frequentar discotecas.
No era que as mulheres o assustassem, nada disso. Adorava a irm, admirava a me e tinha montes de amigas. Contudo, Toby apenas queria a amizade delas; a ideia
de contacto fsico era-lhe to alheia como o futebol. Quando a amiga de Helena, Annabel Hazel, se apaixonara por ele, chorando desesperadas lgrimas de amor no
correspondido no ombro dela, Helena comeara a interrogar-se se Toby no seria homossexual. Nunca namorava com ningum. Dificilmente casaria com um dos seus desafortunados
escaravelhos. Helena andava habitualmente demasiado perturbada com os seus prprios desejos para ter tempo de reparar nos dos outros, contudo a sexualidade de Toby
intrigava-a e fazia-a sair do seu prprio casulo. Observou-o atentamente. Passou-se no Vero de 1972, quando Toby voou at ao Chile para passar algumas semanas com
a irm j alegremente estabelecida na sua vida de casada com Ramon.
Helena ficara preocupada ao ver que Toby estava a ficar gordo de infelicidade e retesado de ansiedade. Reprimia os seus sentimentos e continha os seus esforos.
Estava desempregado e infeliz e o seu habitual sorriso alegre mal se via. Passearam pela praia e conversaram como nunca o haviam feito. Toby falou da sua dificuldade
em encontrar um emprego em Londres, que os fumos dos carros o punham maldisposto e que o rudo da cidade o enervava.
-J no me sinto eu - explicou ele.
- bom, no  sentindo-te lastimoso que vais arranjar um namorado - disse Helena sem rodeios. Toby olhou-a espantado, o seu rosto ora branco ora encarnado e os olhos
espelhando terror. - No h problema nenhum em ser-se homossexual, sabes? - prosseguiu ela e sorriu para ele numa expresso compreensiva. - Continuas a ser o meu
querido Toby. - Toby sentou-se na areia, assentou as mos na cabea e chorou como no o fazia desde que o seu co, Jessie, fora atropelado naquela hedionda manh
de Inverno, h quinze anos. Helena sentou-se ao lado dele e colocou os braos em seu redor. - Ests gordo porque no ests feliz e no ests feliz porque ests confuso.
Sempre estiveste. Foi por isso que foste para Londres, porque no podias lidar com o teu segredo em Polperro. No te censuro. - Riu. - Aquela vila  demasiado pequena
para ti. Mas sabes,  a que pertences e  a que sers feliz.
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- Eu sei - fungou ele. - Quero ir para casa. Odeio Londres. Mas... - suspirou profundamente como se o peso do seu segredo estivesse a ser libertado por meio da sua
expirao. - Quero ser amado como qualquer outra pessoa.
- E sers. H montes de pessoas homossexuais por toda a cidade de Londres, por todo o mundo. Apenas tens de ter a coragem para as encontrar. - Toby virou-se e olhou
para a irm. Os seus olhos azuis brilhantes assemelhavam-se a um cu lmpido aps uma chuvada.
- Como  que sabias? - perguntou ele.

- Porque te conheo. Porque gosto de ti. H muito tempo que sei. Desde que rejeitaste Annabel Hazel. Comecei a pensar nisso nessa altura. Nunca namoraste ningum,
sempre te interessaste mais por aqueles desgraados insectos. Achei que havia qualquer coisa de estranho nisso. Mais ningum estranhou, porque sempre foras excntrico.
Mas ningum era to prximo de ti quanto eu era.
- Ainda s - disse ele e sorriu com uma gratido que lhe marejou os olhos de lgrimas.
- Portanto... - prosseguiu ela num tom alegre - se o objectivo  arranjar-te um namorado, temos de te pr com melhor aspecto. Ests uma baleia! - Toby riu envergonhadamente.
- A dieta comea hoje e vais ficar mais de um ms. O Ramon e eu s iremos em viagem outra vez em Maro e no vou mandar-te de volta para Londres at estares pronto,
estamos entendidos? - Ele acenou que sim. - O amor  a melhor coisa do mundo. Quero que tenhas o tipo de amor que eu tenho acrescentou Helena.
- Pela primeira vez desde sempre sinto que  possvel - respondeu Toby, pegando na mo da irm e apertando-lha. De repente sentia-se mais leve e mais positivo. 
medida que caminhavam de regresso a Cerro Castillo onde Ramon e Helena tinham uma bonita casa com vista para o mar, Toby sentiu-se como se estivesse a ver o mundo
pela primeira vez em muitos anos. Queria levar um barco at ao meio do mar e deixar-se banhar pelo sol, embalado suavemente pelas ondas, contemplando o horizonte
que, de repente, lhe estendia tantas promessas que o seu desejo era correr para ele.
Toby olhou para o lado para Helena que adormecera encostada ao cinto de segurana, os seus inquietos olhos fechados contra o tumulto
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do ms que passara, sonhando com tempos melhores, sem dvida. A sua respirao era lenta e profunda como, se mesmo a dormir, reconhecesse o ambiente familiar da
sua terra natal. "A vida tem de facto os seus altos e baixos", pensou ele, "pelo menos, depois de um baixo vem um alto." Olhou de relance para as crianas pelo espelho
e reparou no calmo agitar dos corpos deles  medida que abandonavam o conforto dos seus mundos secretos e abriam os olhos para uma paisagem desconhecida. Desejou
que fosse Primavera, pois assim o pas no teria um aspecto to desabrigado.
Federica sentou-se e contemplou pela janela os campos que passavam, manchados de branco por uma fina camada de geada.
- J estamos quase l? - perguntou.
- Ainda falta um pouco, Fede - respondeu ele num tom jovial. Fala-me da tua caixa mgica - pediu, observando-a a abri-la e fech-la distraidamente.
Ela suspirou e ficou com um ar triste.
- Est bem - concordou, recordando o abrao protector do pai e estremecendo interiormente porque, com essa memria, abrira a porta a outra mais desagradvel: a da
conversa que escutara em Cachagua. Contudo, ao comear a contar-lhe a histria da princesa inca, a cor regressou s suas mas do rosto e a sua disposio melhorou.
Quando pararam para almoar num peculiar pub de aldeia, j no se sentia triste, mas antes intrigada. Intrigada por tudo o que era novo para si.
CAPITULO ONZE

Quando fizeram a curva para a estreita estrada que serpenteava para baixo at  casa onde Toby e Helena haviam crescido, Helena sentiu o corao bater com mais fora.
Desceu o vidro para sentir os aromas da sua infncia, porm era Janeiro e o ar estava glido, por isso no lhe cheirou a nada. Tal no diminuiu o seu entusiasmo.
Ao atravessarem os portes e avanarem para a gravilha, a casa assomou-se como um amigo constante e fiel, exactamente como sempre fora, bela, apesar do Inverno que
deixava as suas paredes nuas e expostas.
Ao escutar o carro, Jake e Polly, que tinham passado a hora anterior a andar de um lado para o outro em nsias, correram porta fora para receber os exaustos viajantes.
Polly reparou de imediato que a filha estava magra, mas ficou surpreendida com o bom aspecto dos netos. Federica correu para os braos dela e abraou-a com entusiasmo.
- Tens um quarto s para ti, Fede, e at preparei biscoitos de chocolate para o ch, pois lembrei-me do quanto tu gostaste quando os fiz no Chile - afirmou Polly,
abraando a magra menina que se agarrava  sua cintura como um macaco rfo. Hal ficou agarrado s pernas da me a pedir que lhe pegasse ao colo.
- Hal, querido, s demasiado grande para andares ao colo. Tens quatro anos e no s nada pequeno, a propsito - gracejou Helena, beijando o pai com emoo. - Meu
Deus,  to bom estar em casa. J me sinto melhor.
- V, saiam do frio. Est mais quente na cozinha, entremos e conversemos l - sugeriu Polly, guiando Federica com as suas enormes mos.
- Conduziste bem, Toby - elogiou Jake, dando uma palmada nas costas do filho. - Foi muito bom da tua parte ires busc-los.
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- Sem problema, pai - respondeu, grato pelo elogio do pai. No recebia muitos ultimamente.
Polly tratou de pr a mesa com um bule lascado, que Toby deixara cair certa vez, e uma desirmanada coleco de canecas que foi acumulando ao longo dos anos. Carregou
ento um tabuleiro de bolos, biscoitos de chocolate e sanduches de Marmit. Ao contrrio de outras crianas chilenas, Hal e Federica tinham crescido habituados
a comer aquela pasta, que Polly enviava regularmente para Vina em conjunto com os produtos de maquilhagem Mary Quant sem os quais Helena no passava. Polly olhou
para a filha com preocupao. Era ainda uma mulher bonita, mas o seu esplendor desvanecera-se como uma flor seca. O abandono, a negligncia drenara-lhe a vitalidade
e deixara-a desidratada. Polly desejava torcer o pescoo a Ramon, mas teve o cuidado de esperar at se encontrar a ss com Helena para falar acerca do seu errante
marido. As crianas aqueceram-se frente ao fogo, devorando o lanche como gafanhotos esfomeados. Acomodaram-se rapidamente e Hal venceu a timidez ao ver o bolo de
chocolate.

-  to bom estar em casa novamente.  mesmo como nos velhos tempos. Nada mudou - afirmou Helena, observando o quarto com uma rpida vista de olhos, ao mesmo tempo
que acendia um cigarro e inalava o fumo lentamente, saboreando o primeiro mpeto da nicotina. A me pouco ou nada envelhecera nos ltimos anos. Era uma mulher gil
de sessenta anos, rolia e de pele macia, que parecia demasiado suave para enrugar, e tinha os olhos brilhantes de algum abenoado com uma constituio forte e
uma sade de ferro. No fora o seu cabelo grisalho, que prendia numa banana, e as roupas matronais que usava, no pareceria ter mais de cinquenta anos. O cabelo
do pai adquirira j o tom da prata, o que lhe suavizava as feies duras e o fazia parecer menos o trigueiro contrabandista a que se assemelhara quando o cabelo
era ainda negro. Continuava a ser um homem de poucas palavras, mas nada lhe escapava  ateno. E quando falava toda a gente o escutava.
-  ptimo ter-te de volta - declarou Polly, as suas bochechas rosadas ainda mais encarniadas pela emoo de ver a filha e os netos outra vez.
1. Pasta de barrar de grande consumo em Inglaterra e fabricada a partir de extracto de levedura. Tem uma consistncia viscosa, cor castanho-escura e sabor bastante
acentuado. (N. da T.)
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- Tenho os amigos perfeitos para a Federica e para o Hal. Lembras-te dos Appleby? Helena olhou para Toby.
- O qu, aquela famlia tresloucada que vive em Pickthistle Manor? - respondeu, sorrindo para o irmo, pois quando eram crianas tentavam sempre meter conversa com
o velho Nuno Trevelyan de cada vez que o viam por ser o excntrico mais divertido de Polperro. Teria sessenta e poucos anos na altura e caminhava em bicos dos ps
com as costas muito direitas, acenando a quem passava com um trejeito do pescoo que fazia lembrar a cabea de uma tartaruga. O homem nascera na Cornualha, porm,
uma vez que passara grande parte da sua juventude em Itlia a estudar arte, falava com um pseudo-sotaque italiano e mudara o nome de Nigel para Nuno. Vivia em Pickthisde
Manor com a filha Ingrid, uma vida observadora de aves, e o marido desta, Inigo, e os seus cinco bravios filhos.
- Ora, mas eles no so loucos, querida. Originais, talvez, mas no doidos - replicou Polly.
- Originais! - repetiu Jake com uma gargalhada, fazendo um sorriso retorcido que revelou um canino bem afiado. - Eu habitualmente conto com a vossa me para dizer
as coisas como elas so - gracejou.
- A Ingrid e o Inigo tm cinco filhos - prosseguiu Polly ignorando o marido. - Ora deixa c ver, deve haver um ou dois compatveis com a Federica e o Hal. - Semicerrou
os seus olhos azul-claros enquanto pensava.
- bom - interrompeu Toby -, o Sam deve ter quinze anos, portanto no serve - referiu, recordando-se do arrogante rapaz que raramente falava com quem quer que fosse
e que andava sempre com o nariz enfiado num dicionrio biogrfico.
- Meu Deus, claro que no. Refiro-me  Molly e  Hester - disse Polly.
- Ah, sim. A Molly deve ter cerca de nove anos e a Hester uns sete - confirmou Toby. - Umas companheiras de brincadeiras perfeitas. Andam ambas na escola local,
por isso poder funcionar bem.
- Isso seria bom para a Fede - afirmou Helena, olhando para os filhos que riam agora alegremente a brincar com os presentes que Ramon lhes dera.
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- O Lucien e o Joey so mais novinhos, mais ou menos da idade do Hal - acrescentou Polly. - Acho que devamos convid-los para um lanche.

- Recordo-me da Ingrid - disse Helena com uma gargalhada. To apaixonada por animais quanto tu, Toby. Se houvesse uma criatura ferida num raio de oito quilmetros,
ela encontrava-a, enfiava-a numa caixa e tratava dela at estar boa de novo.
- E se os animais no estivessem feridos, ela fazia de conta que estavam, aquelas caixas dela eram um autntico Ritz - brincou Toby. Lembras-te daqueles ourios-cacheiros
cheios de pulgas que ela mantinha na copa?
- E o ganso que era to mau que no puderam usar a cozinha durante uma semana at a perna dele estar curada. Tu tambm no podes falar muito, com todos aqueles insectos
instalados em incubadoras de cinco estrelas - acrescentou Helena, sorrindo para o irmo.
- Ela ainda passa grande parte do dia na falsia a pintar gaivotas mencionou Polly. - Pinta maravilhosamente. - Suspirou de admirao. - E tudo s custas daquelas
queridas crianas que vivem como ciganos.
- Ciganos assaz distintos, Polly - observou Jake.
- Sim, ciganos distintos, mas andam sempre  solta. A Ingrid  incapaz de tomar decises, e o Inigo passa o dia inteiro fechado no escritrio a escrever ou a vaguear
pela casa a resmungar acerca de tudo e de nada. O melhor mesmo  ficar-se longe dele,  o que eu acho. Ainda assim, so crianas adorveis, muito embora no conheam
o sentido da palavra disciplina.
- Achas que so o tipo certo de crianas para as minhas? - inquiriu Helena, ansiosamente, sacudindo a cinza do cigarro para o cinzeiro.
-  claro que so. A Federica precisa de um pouco de liberdade argumentou Polly, recordando-se de que Federica no podia sair do jardim sem a superviso da empregada
ou da me. A polcia patrulhava as ruas e os militares controlavam o recolher obrigatrio. Vina dei Mar era um local tranquilo, mas um subrbio no era local para
educar crianas.
- O ar do campo vai fazer maravilhas por eles - acrescentou, alegrando-se com a ideia de os ver a brincar na praia e a correr pelos campos com os seus novos amigos.
Federica era ainda uma criana, embora parecesse
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uma senhorinha num corpo de criana. Polly achava que j ia sendo mais do que tempo de ela aproveitar a infncia, ou pelo menos os poucos anos que lhe restavam dela.
Quando Federica estava j acomodada na sua cama, deitou-se de lado e contemplou a caixa da borboleta que colocara na mesa-de-cabeceira. Estava to escuro que pedira
 me para manter a porta para o patamar aberta para que a luz pudesse entrar e diluir a noite que parecia to avassaladora neste pas desconhecido. Olhou para a
sua caixa e retirou dela coragem, um pequeno pedao de casa numa terra estranha, um pequeno pedao do seu pai ao qual se agarrar at que ele chegasse para a amar
convenientemente.

Helena permitira que Hal dormisse consigo naquela primeira noite. No se apercebeu disso na altura, mas precisava dele tanto quanto ele necessitava dela; partilharia,
por isso, a cama com a me durante os seis meses que se seguiram, at que Polly interveio, por fim, e sugeriu com tacto que talvez no fosse muito saudvel uma criana
estar assim to dependente da me. Porm, aquela primeira noite fora importante para ambos. Helena agarrara-se ao corpo quente do menino na esperana de o reconfortar
e mitigar a culpa que sentia por ter arrancado os filhos ao pai e  casa que sempre haviam conhecido. Sabia que os filhos eram novos o suficiente para lidarem com
o trauma do desenraizamento, sabia que acabariam por fazer amigos e um dia quase esqueceriam que tinham vivido no Chile. Seguramente que para Hal o Chile se empalideceria
numa memria vaga, ao passo que para Federica seria mais difcil. Pensou em Molly e Hester Appleby e a sua esperana centrou-se nelas. Resolveu apresent-las o mais
depressa possvel. Federica no tivera muitos amigos no Chile, era por natureza uma solitria, provavelmente por ter passado trs anos como filha nica. Fechou as
pesadas plpebras e permitiu que o sono a inundasse, afogando todos os dissabores do passado e deixando-a sonhar com a maravilhosa vida nova que agora se abria para
os trs. Porm, de quando em vez, a vontade imponente de Ramon invadir-lhe-ia os pensamentos e reclam-la-ia mais uma vez, sendo ela impotente para o combater.
- Pobre Helena - suspirou Polly, puxando os cobertores por cima dos seus generosos seios. - No entanto, fez a coisa certa. Detestava a ideia de a ver l longe no
Chile sem ningum que cuidasse dela. Agora tem-nos a ns, ns trataremos dela.
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- No permitas que ela te faa andar de um lado para o outro por ela, Polly. J sabes como ela  - admoestou Jake, metendo-se na cama.
- Ela precisa de ns.
- Sim, claro, mas vai com calma, ou acabars escrava dela como antigamente - lembrou ele, rebolando-se para o lado e apagando a luz.
- Ela agora est diferente. Passou por um mau bocado e precisa do nosso apoio - insistiu.
- Depois no digas que no te avisei - murmurou Jake antes de bocejar, indicando que estava demasiado cansado para continuar a conversar.
Molly e Hester Appleby ficaram intrigadas com a escanzelada e vacilante menina que tinham  sua frente. A me delas tinha convidado a me desta para o lanche, dizendo-lhes
que Fede acabara de chegar a Inglaterra e no tinha amigos. A funo delas era fazerem-na sentir-se bem-vinda. Ao melhor estilo de Ingrid, juntou as crianas e disse-lhes
que se pisgassem dali e fossem brincar enquanto ela conversava com a me da menina.
- Fede  um nome estranho - referiu Molly, semicerrando os seus olhos verdes numa expresso de desconfiana.
-  uma forma mais curta para Federica - respondeu esta numa
voz rouca.
- Isso tambm  estranho - disse Molly.
- O meu pai  do Chile - explicou e depois reparou nos rostos das duas midas a olhar para si sem expresso. - Fica na Amrica do Sul - acrescentou. Ambas conheciam
a Amrica do Sul do mapa que a ama pintara na parede do quarto e acenaram que sim com a cabea.
- O teu pai  preto? - inquiriu Hester.
- No - respondeu Federica, chocada. - Mas tem o cabelo preto
- adiantou, sorrindo ao pensar nele.
- O nosso pai tem perodos negros - disse Molly e soltou uma gargalhada. - Se quiseres, ns mostramos-te as redondezas.

Federica acenou que sim com a cabea.
Emprestaram-lhe ento um par de botas Wellington e um casaco que lhe ficava grande de mais e seguiu-as at ao jardim de Inverno. A casa delas era uma grande casa
senhorial com janelas altas de guilhotina e um enorme terrao que dava acesso ao relvado por meio de uma majestosa
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escadaria de pedra. O cho era spero e brilhava com uma geada branca que Federica nunca vira antes. Vira neve, porque o pai os levara a esquiar algumas vezes na
estncia andina de La Parva, mas nunca vira geada. Atravessaram o relvado em direco ao lago que as esperava, raso e gelado, ao fundo do jardim.
- Vamos patinar - sugeriu Molly, avanando cuidadosamente para o lago. Federica seguiu-a, recuando ao dar os primeiros passos vacilantes sobre a escorregadia superfcie.
- Cuidado para no cares - avisou Molly.
Federica no queria ir para o gelo. Temia que se partisse, mas observou com desnimo ambas as raparigas a patinar at ao meio do lago e sabia que, se queria que
elas fossem suas amigas, teria de as seguir. Relutantemente, avanou para a reluzente superfcie do lago sem cair. Aliviada por lhe parecer slido e seguro o suficiente,
patinou hirtamente atrs delas.
- Fora, Fede! - gritou Molly, sorrindo para ela. - Muito bem!
- Aposto que nunca fizeste isto no Chile - disse Hester. Tinha razo. Federica acenou que sim com a cabea.
- Isto  to divertido! Gostava muito de patinar como deve ser com patins verdadeiros - disse Molly. - Quem me dera que o pap me comprasse uns patins. Assim podia
fazer piruetas. - Exemplificou uma pirueta vacilante. Hester tentou imit-la, mas caiu de costas. As irms riram-se e Federica riu tambm, sentindo o primeiro frmito
de camaradagem. Praticou ento umas quantas voltas, de que resultou tambm a sua queda no gelo.
- Assim - instruiu Molly, dando passos largos e elevando uma perna no ar. Hester e Federica seguiram-lhe o exemplo, rindo dos respectivos esforos em vo.
- Olhem, est ali o Sam! - gritou Hester, acenando para o irmo que descia o relvado em direco a elas.
- Saiam do gelo! - vociferou ele. - No  seguro.
- Desmancha-prazeres - disse Molly numa voz sussurrada. - V l - argumentou, patinando na direco dele.
De repente, escutou-se um barulho seco de fractura, como o gemido despertador de um monstro das profundezas. Molly riu a bandeiras despregadas, Hester gritou e Federica,
um pouco afastada delas, comeou a correr na sua tentativa de sair do gelo. No sabia que no se devia correr sobre o gelo. O gemido tornou-se mais forte e mais
ameaador. Correu
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mais depressa, mas os seus ps comearam a derrapar. Subitamente, escorregaram debaixo dela e aterrou de peito, ficando sem flego, batendo com o queixo contra a
superfcie com um rudo aterrador. Quando tentou levantar-se, viu sangue no gelo e gritou de medo. Ao colocar-se de joelhos, mal conseguindo respirar devido  queda,
o gelo cedeu e ela deslizou para as guas geladas do lago. O pnico apoderou-se dela pela garganta, tornando o seu grito nada mais que um murmrio pattico. Tentou
agarrar-se ao gelo que a rodeava, mas este desfazia-se nas suas mos como a cobertura de um bolo. O casaco que vestira era demasiado grande e restringia-lhe os movimentos.
Tentou pontapear com os ps, mas no sentia mais nada a no ser o frio. Comeou ento a afundar-se e guinchou de terror  medida que a gua lhe chegava ao pescoo.
- Est tudo bem - disse uma voz calma. Abriu as plpebras dos seus olhos raiados de sangue e viu o rosto plido de Sam Appleby, olhando para si deitado no gelo em
redor dela. Tinha-a presa pelos braos. - Est tudo bem. Eu tenho-te bem segura - afirmou ele, olhando-a nos olhos para lhe dar confiana. - vou puxar-te para cima,
por isso quando eu disser "agora" tu comeas a dar aos ps - instruiu ele.
- No os consigo sentir - soluou ela.
- Consegues, sim. AGORA! - Federica comeou a pontapear furiosamente ao mesmo tempo que Sam a puxava aos poucos para fora daquele buraco negro. O gelo rangeu ominosamente
outra vez, mas Sam continuou a puxar e Federica a pontapear como se a sua vida disso dependesse. - Muito bem - no parava ele de dizer para a encorajar. Por fim,
estava deitada sobre o gelo como uma foca encharcada, arfando e lamuriando-se.
- Escuta bem, agora vamos a deslizar, est bem? No vamos caminhar, entendes? - Ela acenou que sim, os seus dentes batendo tanto de medo como de frio. Sam colocou
um brao em redor dela e em conjunto serpentearam em direco  relva. Pareceu demorar uma eternidade at chegarem a solo firme. Uma vez a, Sam no perdeu tempo
a erguer Federica nos seus braos, estugando o passo relvado acima at casa com Molly e Hester atrs de si como um par de gansos esbaforidos.
As raparigas correram  sala de estar para contar  me e a Helena o sucedido, ao passo que Sam trepou as escadas a gritar por Bea, a ama das crianas, que estava
no quarto de brincadeiras com Lucien, Joey
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e Hal. Quando ela viu a chorosa criana nos braos de Sam, arquejou e conduziu-os ao quarto de Molly.
- Que aconteceu? - perguntou, enquanto Sam deitava Federica sobre a cama.
- Foi a Molly, mais uma vez! Raio de rapariga! - exclamou ele zangado. - A menina podia ter morrido. Despe-lhe estas roupas de imediato antes que ela apanhe uma
pneumonia - instruiu antes de abandonar o quarto. Helena e Ingrid correram escadas acima e entraram no quarto onde Federica, nua e a tremer, caiu nos braos da me
e largou a chorar.
- Pensaste que ias morrer? - inquiriu Molly mais tarde, quando Federica se aquecia frente  lareira da sala de estar vestida com roupas de Hester, assando marshmallows
no lume.
- Sim, pensei mesmo.
- Foste to corajosa, a rastejar assim por cima do gelo - comentou Hester com admirao. - Foi a primeira vez que patinaste no gelo?
- Sim, e acho que no o voltarei a fazer to cedo - respondeu Federica e riu-se.
Molly estendeu-lhe outro marshmallow.
- So bons, no so? Bem que os mereces. Espero que me desculpes - disse ela e sorriu acanhadamente, prendendo o cabelo ruivo por trs da orelha.

- No faz mal. No podias saber que o gelo se ia partir - fez notar Federica num tom amvel.
- Foi uma sorte o Sam estar l - referiu Hester.
- Os irmos mais velhos servem para algumas coisas - gracejou Molly. - Mas convenhamos que ele foi um heri - concedeu.
- Foi muito corajoso. Salvou-me a vida - disse Federica, mastigando o pegajoso marshmallow e sentindo o corao bater mais forte ao pensar em Sam a carreg-la para
casa. - Que idade tem ele?
- Quinze - respondeu Molly. - Eu tenho nove e a Hester tem sete como tu. A mam teve dois abortos entre o Sam e eu, caso contrrio seramos sete.
- Eu gostava que fssemos sete - disse Hester.
- bom, agora somos seis - afirmou Molly, sorrindo e piscando o olho a Federica.
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- Ah, sim, pois somos - concordou Hester, alegremente. - Ento, o melhor  mostrar-te a casa - acrescentou olhando para a irm em busca de aprovao.
Molly acenou com a cabea. ? ?
- Pega numa fatia de bolo e eu apresento-te ao Marmaduke.
- Quem  o Marmaduke?
- A doninha que a me salvou a semana passada. Vive no armrio no sto porque s vezes larga um cheiro to mau que tem de ter um piso s para ela.
Helena ficou a ver as garotas a entrarem na sala de estar e sentiu uma tremenda onda de gratido, no apenas em relao a Sam, que salvara a vida de Federica, mas
tambm em relao s irms deste por terem simpatizado e aceitado a filha to rapidamente.
- As tuas meninas so muito amveis - disse para Ingrid, sentada a fumar por uma elegante boquilha lils e vestindo o mais extraordinrio casaco em patchivork que
Helena jamais vira. Assemelhava-se a um quilt. O cabelo pendia-lhe solto pelos ombros em caracis ruivos e em redor do pescoo trazia um monculo que levava ao olho
de vez em quando para ver melhor. Helena nunca antes reparara, mas Ingrid tinha um olho verde e o outro azul.
- A Molly  muito parecida com o Sam. Ambos acham que so melhor que toda a gente, por serem espertos - comentou Ingrid. A Hester  um amor, mas no prima pela inteligncia.
 uma boa pintora como eu.
- Tenho para com o Sam uma enorme dvida de gratido. Se ele no tivesse estado l... At tremo ao pensar no que poderia ter acontecido.
- Oh, teria morrido com certeza - disse Ingrid, estendendo o isqueiro aceso para acender o cigarro de Helena. - A Molly tem sempre de ir longe de mais. - Suspirou.
- Lamento o que aconteceu entre ti e o Ramon.
- Tambm eu - respondeu Helena, inalando a nicotina com a mo trmula.
- Demorar algum tempo, mas recuperar-te-s - afirmou Ingrid, reparando no cigarro a tremer na mo de Helena. - Sabes, ainda me lembro de quando fugiste daqui com
o Ramon. Eras to jovem! Eu devo
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ter uns bons dez anos mais do que tu. Recordo-me de achar a situao muito, muito romntica. Ele era moreno e estrangeiro e tu plida e inglesa. Havia qualquer coisa
de maravilhosamente extico nisso. Preocupei-me por ti, l longe, do outro lado do mundo. No  bem como ir viver para Leicester, convenhamos. - Soltou uma gargalhada,
revelando os seus dentes brancos e tortos. Quando outrora Inigo a cortejara, havia-lhe dito que ela se assemelhava a um belo retrato pendurado torto na parede. Ela
gostava das coisas imperfeitas, no havia nada mais enfadonho que a perfeio.
- bom, foi de facto extico e maravilhoso na altura. Digamos que depois azedou.  triste pelas crianas, mas tenho de admitir que j me sinto diferente - declarou
Helena.
- As crianas necessitam de estabilidade. Um s progenitor  capaz de lhes proporcionar isso. A srio, dois  uma extravagncia - respondeu Ingrid, brincando com
um dos espessos caracis que saltitava em redor do seu pescoo. - Criei os meus sozinha, quase. Os filhos do Inigo so os seus livros. S desejava que as pessoas
os comprassem. Porm, so assustadoramente entediantes. No consigo passar da primeira pgina. A filosofia nunca foi coisa que me interessasse. Prefiro coisas palpveis.
- Como os animais? - sugeriu Helena.
- Por exemplo.
Nesse instante, o velho Nuno entrou na sala caminhando sobre as pontas dos ps.
- Ah, duas belssimas donzelas para cumprimentar - disse num cerrado sotaque italiano e executou uma vnia teatral.
- Pai, lembras-te da Helena Trebeka, no lembras? - perguntou Ingrid.
- Mas com certeza que sim. Helena de Tria no era mais formosa. "Doce Helena, torne-me imortal com um beijo!"  um prazer v-la disse ele, curvando-se de novo.
Ingrid franziu a testa. - Marlowe - explicou ele, arqueando as espessas sobrancelhas para a filha num trejeito de reprovao. - O jovem Samuel saberia esta.
- A Helena deixou o Chile para vir viver novamente para c adiantou, ignorando-o.
- Demasiado frio no Chile, imagino.
- Pelo menos no que diz respeito a matrias do corao - gracejou Ingrid. - Queres um ch, pai?
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- Desejava uma coisa bem mais forte que o ch, cara. Ignorem-me, faam de conta que no estou aqui - sugeriu, dando a volta ao sof em direco ao armrio das bebidas.
- No s propriamente fcil de ignorar.
- Ouvi dizer que o jovem Samuel ir ser condecorado por valentia.  agora Sir Samuel Appleby e outogar-lhe-ei a Ordem do Patim para que nunca nos esqueamos da sua
coraggio.
- Estou-lhe muito grata - disse Helena, desejando que Toby estivesse ali para se rir com ela do excntrico de Polperro.
- Acho que ele conquistou o corao da formosa donzela, como nas histrias do passado - comentou ele, arqueando as sobrancelhas sugestivamente.
- bom, isso no me surpreenderia - disse Helena. - Tambm eu estou apaixonada por ele.
-J se conquistaram coraes por feitos bem menos valorosos que este - acrescentou Nuno, pegando no seu copo e vagueando para fora da sala.
- Chegou, bebeu, comentou e partiu - suspirou Ingrid, sacudindo a cinza para um prato de porcelana de Herend.

- E arranjou casamento para a minha filha. Eu diria que j foi um dia muito produtivo, no achas? - Ambas riram e serviram-se de mais ch.
Quando chegou a altura de Federica partir com a me e Hal, desejou poder ficar para sempre. Molly e Hester haviam-na apresentado a Marmaduke, que soltou um cheiro
to ftido que tiveram de correr escada abaixo com os narizes tapados e s risadinhas. Conhecera tambm a raposinha, que vivia no compartimento por baixo das escadas,
e a gralha que se empoleirara nas costas da cadeira da cozinha de Ingrid e bebia ch como o resto da famlia. Um porco estranho, que Federica achara mais parecido
com uma vaca miniatura, vagueava e farejava por toda a casa como se fosse o co da famlia e respondia ao nome de Pebbles. Comia at de uma tigela para ces, na
copa, em conjunto com Pushkin, o co de montanha suo que conseguia varrer tudo o que estivesse em cima da mesa com uma abanadela da sua cauda de ponta branca.
Federica ficara encantada.
Contudo, aos seis anos de idade, Federica estava apaixonada pelo galante e destemido heri que a salvara de uma sepultura gelada no fundo
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do lago. Quando ele surgiu no corredor para verificar se ela estava bem, ela fora subitamente acometida por uma timidez que lhe embotara as palavras.
- Pareces bem melhor - sorriu ele, percorrendo com o olhar a encolhida garota que corava para si em jeito de agradecimento. - Tinhas os lbios azuis. Os meus, por
vezes, tambm ficam azuis porque eu coloco a ponta errada da caneta de tinta permanente na boca - acrescentou com uma gargalhada.
- No tenho palavras para te agradecer, Sam - disse Helena. Sam era alto, quase um metro e oitenta, e olhava de cima para ela.
- O prazer foi meu. Eu diria sempre s ordens, mas para ser honesto estava um bocadinho de frio, por isso preferiria no voltar a mergulhar, pelo menos durante uns
tempos - respondeu ele e voltou a rir.
Helena encaminhou Federica e Hal para o carro. Federica trepou para o banco de trs e ficou a ver Sam acenar adeus nos degraus com as irms, que largaram a correr
e seguiram o carro at  estrada.
- Pessoas encantadoras, no so? - fez notar Helena.
- Eu gostei muito deles - concordou Federica. - Podemos regressar em breve?
- Irs para a mesma escola que a Molly e a Hester frequentam, Fede, por isso poders v-las todos os dias.
- Ainda bem - respondeu ela e ficou a olhar sonhadoramente pela janela do carro.
CAPITULO DOZE
Cachagua

Tinham-se passado quatro meses, quatro dias e quatro horas desde a ltima vez que Estella beijara Ramon Campione no seu pequeno e arejado quarto em Cachagua. Esperara
que ele regressasse, tal como prometera, mas no tivera notcias dele, nem sequer uma carta. E contudo, esperava, como ele lhe pedira que fizesse, como ela lhe confiara
que faria. Estava agora sentada na praia, a suave luz outonal escoando-se no entardecer, inundando o horizonte de uma luminosidade mbar que lhe enchia o corao
de melancolia. Colocou a mo na barriga e sentiu a criana que crescia no seu interior; o filho de Ramon. Sorriu tristemente para si mesma ao recordar-se daqueles
momentos de ternura em que haviam sido apenas um, livres das distines sociais que os separavam. "O amor no tem fronteiras", pensou ela optimisticamente, e depois
interrogou-se se ele no mudara de ideias. Se ele se dera conta de que o relacionamento de ambos no passara de um romance de Vero, to irreal quanto as histrias
que ele escrevia. Ela encontrara os livros dele nas estantes dos pais e levara-os para o seu quarto, onde os lera um a um. Eram mgicos, surreais e cativantes. Poticas
histrias de amor, amizade e aventura passadas nas exticas paisagens de pases de que ela nunca ouvira falar. Reconhecera a voz dele em cada palavra, como se estivesse
ali bem perto, sussurrando-lhe ao ouvido, amando-a. Ansiava pelo regresso dele. Ansiava por contar-lhe acerca da vida que haviam gerado juntos. Deus dera-lhes um
filho e Deus no cometia erros.
O futuro de Estella era incerto. Durante os ltimos meses fora capaz de ocultar o seu segredo. Conseguira, at, esconder os enjoos que a haviam
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acordado todas as manhs e feito correr para a casa de banho com a blis a trepar pela garganta. Contudo, tal no a incomodara, chegara at a sentir algum prazer
nisso, pois tudo o que vinha de Ramon era uma ddiva, por isso ela estimava-o. No entanto, a sua barriga comeava a crescer e reparara que se cansava com mais facilidade,
o que a tornava mais lenta a completar as suas tarefas. A Senora Mariana j a observava de testa franzida. Na verdade, Estella suspeitava que ela, provavelmente,
j se apercebera do que se passava. A Senora Mariana tinha uma intuio muito apurada para este tipo de coisas. Era s uma questo de aguentar mais algumas semanas,
depois Don Ignacio e a Senora Mariana regressariam  sua casa em Santiago at ao Vero seguinte. Os prximos seis meses estariam pelo menos a salvo. Se eles descobrissem
o seu estado antes de partirem, temia perder o emprego e ter de regressar para casa dos pais em Zapallar, desonrada. Eles ficariam mortificados, pois nenhum homem
iria querer casar com ela naquele estado. Que homem poderia querer o filho de outro? A me sempre lhe dissera que qualquer homem que se prezasse desejaria desposar
uma virgem. Estava seguramente perdida. Porm, por mais sombrio que o seu futuro se avizinhasse, continuava a acreditar que Ramon regressaria. Ele no s o prometera
como o prometera fervorosamente, como se no pudesse viver sem ela, e ela concordara em esperar porque o amava e acreditava que ele a amava e necessitava dela tambm.
"Sim", pensou, "eu sei que ele vir por mim."
Deixou a praia em direco a casa e recordou-se da ocasio em que o observara, oculta pelas sombras, enquanto ele caminhava na direco dela. Desejara-o na altura
e desejava-o agora. No entanto, no sonhava em fazer amor com ele, mas em deitar-se ao lado dele, em sentir os protectores braos dele em redor de si, a sua orgulhosa
mo na sua barriga. Sonhava com ele como pai do seu filho. Quando entrou em casa, a Senora Mariana esperava-a no vestbulo.

- Precisamos de ter uma conversa, Estella - disse ela, conduzindo-a  sala de estar. Estella sabia que fora descoberta e a testa encheu-se-lhe de gotculas de transpirao.
Estava tudo terminado, sem dvida, pensou, e sentiu o corao apertar-se. - Aproveitei a oportunidade de falar contigo hoje, uma vez que o meu marido no est em
casa. Uma conversa de mulher para mulher - afirmou Mariana, esboando um sorriso amvel para a trmula criada sentada na beira do sof.
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- Si, Senora Mariana - respondeu ela, obedientemente.
- Ests grvida, no ests? - inquiriu com os seus olhos cinzentos apontados  barriga inchada da criada. Reparou que Estella baixou os olhos com vergonha e numa
grossa lgrima que lhe correu pelo formoso rosto. - No estou zangada contigo, Estella. - Esta abanou a cabea em desespero. - Seguramente que este rapaz com quem
namoras casar contigo.
- No sei, Senora Mariana. Ele foi-se embora.
- E no voltar? - perguntou calmamente, constatando a bvia angstia da rapariga e sentindo empatia por ela.
- Ele prometeu que sim. E eu acredito nele.
- bom,  tudo o que podemos fazer, no ? Se tu acreditas nele, ento eu acredito tambm - declarou e sorriu para a encorajar. - Temos de encontrar algum para te
substituir quando fores ter o teu beb. Dom Ignacio e eu regressaremos a Santiago daqui a alguns dias e s regressaremos em Outubro. Ser mais ou menos quando ters
a tua criana, suponho. Por favor, no chores, querida, tudo se arranja. Se ele prometeu que regressava, tenho a certeza que o far. s demasiado bela para seres
abandonada nestas condies - acrescentou, acariciando a mo trmula de Estella.
- Tinhas razo, Nacho, ela est grvida - disse Mariana mais tarde quando o marido regressou para o jantar.
Ignacio esbugalhou os olhos e acenou com a cabea.
- Ento, eu estava certo.
- Infelizmente, sim - confirmou Mariana com um profundo suspiro. - Que havemos de fazer?
- Quem  o pai?
- Ela no disse.
- Perguntaste?
- bom, tentei - respondeu, encolhendo os ombros.
- O que importa  saber se ele casa com ela.
-  claro que no casa, e at j tratou de se pr ao fresco! disse ela num tom irado, cruzando os braos frente ao peito. - No  justo.
-  assim que a coisa funciona no mundo deles - aventou Ignacio, classificando a classe a que Estella pertencia como um grupo de selvagens incultos.
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- Mas no deveria ser. Ela  to bonita e encantadora, que tipo de homem lhe faria aquilo e depois fugiria?
- Acontece a toda a hora no mundo deles. No h honra entre ladres.
- com franqueza, Nacho, no so todos assim.
- No? - desafiou ele. - Aposto contigo em como so. No mundo deles as mulheres so vtimas.  assim que as coisas so. E ela no  diferente. Ter o beb dela,
regressar  sua famlia em Zapallar e far de alguma forma pela vida.
- Nacho! - exclamou Mariana, horrorizada. - No ests a pensar despedi-la, pois no?

- Que queres que eu faa? - argumentou, encolhendo os ombros.
- Ela pode trabalhar para ns e tomar conta do seu beb - sugeriu calmamente.
- No somos uma instituio de caridade - replicou com firmeza. Mariana reparou que as orelhas do marido comeavam a ficar encarnadas, habitualmente sinal de que
estava prestes a perder a pacincia.
- Recuso-me a acreditar que ela perca o seu ganha-po bem como o noivo. No podemos ser to cruis, Nacho. Mi amor, no falemos mais sobre isto. Temos cinco ou seis
meses para pensar neste assunto.
Ele acenou com a cabea e um ar carrancudo em sinal de assentimento e ficou a v-la sair para o terrao. "O problema com as pessoas", pensou para si mesmo, " no
assumirem a responsabilidade pelas suas aces. O Ramon  to deficiente neste aspecto quanto o namorado de Estella", concluiu, "que s envergonha a sua prpria
classe."
Ramon dormira com vrias mulheres desde que deixara o Chile e, ainda assim, no conseguia apagar a doce recordao de Estella que lhe assombrava a mente e se recusava
a conceder-lhe paz. Para alm disso, sentia-se culpado. Dissera-lhe que esperasse por si e sabia que ela o faria. A coisa certa a fazer seria escrever-lhe uma carta
e acabar-lhe com o sofrimento, no entanto, no era capaz de o fazer. No queria perd-la. Queria manter a porta aberta para o caso de acordar um dia com o desejo
de voltar para ela. Por vezes, acordava com uma torturante saudade que lhe atormentava as virilhas bem como a conscincia, mas conseguia, de cada vez, convencer-se
a si mesmo de que no podia am-la
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da forma que ela queria ser amada, da maneira que todas as mulheres queriam ser amadas. Exactamente como Helena. No podia estar sempre presente, nem por ela, nem
por ningum.

Ramon seguia no comboio que atravessava o rido deserto ocidental indiano a caminho de Bikaner. O sol incendiava a cobertura do comboio, provocando um abrasador
calor dentro das carruagens que tresandavam a transpirao e ao intoxicante aroma das especiarias. O compartimento estava apinhado de rostos morenos de homens de
turbante cor de aafro e de fcsia, os seus filhos de olhos escuros observando-o com uma inocente curiosidade e dando risadinhas por trs de mos sujas. Sabiam
que ele era estrangeiro, apesar da sua tnica tecida em casa e das sandlias. Quando entrara no comboio em Jodhpur reparara nas mulheres a comporem os seus vus
frente aos aquilinos rostos com um movimento quase etreo dos seus dedos compridos e cobertos de jias. Os seus olhos tmidos baixaram-se de imediato por trs dos
vus, quais aves exticas no meio da neblina. Ao fim de algum tempo, esqueceram-se de que ele ali estava, observando-as com o olhar voraz de um contador de histrias,
e comearam a cavaquear entre si numa lngua que ele desconhecia. Adorava as mulheres indianas. Ficava encantado pela sua delicada feminilidade e virtude, pela forma
graciosa como se moviam por trs dos seus reluzentes saris, flores resplandecentes contra um deserto to seco. No cortejava estas mulheres, eram modelos de virtude,
mas achava o misterioso teatro do mundo delas um espectculo demasiado cativante para desviar os olhos delas. Sentia que se fizesse um movimento um pouco mais brusco,
elas levantariam voo e iriam empoleirar-se entre as folhas verdes de uma das figueiras que sobreviviam miraculosamente em terrenos to estreis.
A poeira entrava pelas janelas como fumo e depositava-se onde quer que pudesse. Um indiano ossudo e idoso sentou-se de pernas cruzadas a um canto sob um turbante
escarlate e descarregou a sua marmita, dispondo a aromtica refeio e utenslios em redor de si com o ritual de um sacerdote. Ocupara dois lugares, apesar dos fatigados
viajantes que se apinhavam nos corredores por falta de lugares. Uma criana observou o homem a dispor a comida, babando-se de fome e esperanosa de que, se olhasse
durante tempo suficiente, o homem lhe oferecesse um pouco.
De repente o comboio deteve-se com um enorme chiar de traves. Ramon espreitou pela janela por entre as barras horizontais. A 138
sonolncia em que o compartimento seguia foi quebrada por um tagarelar confuso  medida que os passageiros abandonavam o comboio para ver porque parara. Ramon ficou
a v-los descer das composies como formigas. Em breve, o calor tornou-se demasiado intenso para permanecer dentro do comboio sem ser frito vivo e tambm ele se
juntou aos restantes nativos para, afinal, sufocar no meio do p e sob o escaldante sol. Ao descer reparou numa bonita mulher europeia a deslocar-se atravs da multido
com a deselegncia de uma mula a avanar por entre uma manada de elegantes sambares. "Tal e qual Helena", pensou para si mesmo e sups que ela deveria ser britnica.
Avanava a passos largos e impacientemente em direco  turba que se acumulara em redor dos carris. Tinha a testa franzida de irritao, mas ainda assim conseguia
manter um ar de altivez mais em consonncia com a poca da soberania britnica. Vestia um par de calas brancas e botas de montar pelo joelho, revelando umas pernas
longas e um traseiro bem modelado. Ramon sorriu para si mesmo e dirigiu-se a ela.
- Quer um pouco de gua? - perguntou em ingls. Ela pestanejou, olhando-o por baixo do chapu que se assemelhava a um capacete colonial.
- Obrigada - suspirou ela, aceitando a garrafa das mos dele. Depois de sorver um bom trago irrompeu em queixas.
- Que raios aconteceu? O comboio j partiu atrasado e agora tambm chegaremos mais tarde. Nada corre como se apregoa neste pas.
Ramon riu.
- Estamos na ndia - declarou, observando-a.
Ela semicerrou os seus olhos azul-claros e voltou a examin-lo. Podia ser indiano, mas o seu sotaque contradizia-o.
- Angela Tomlinson - apresentou-se ela, estendendo a mo e olhando-o com firmeza.
- Ramon Campione - respondeu ele, apertando a mo dela.
- Espanhol?
- Chileno.
- Mais extico. Lamento, mas sou de Inglaterra - afirmou ela, sorrindo. - No  l muito extico.
- S para os Britnicos  que no  - contraps. Ela riu-se e limpou o rosto sardento com uma mo firme. - Eu acho a Inglaterra muito extica.

- bom, deve ser o nico. Foi ento uma sorte encontr-lo! - gracejou ela.
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- Suponho que haja um animal na linha, ou uma pessoa - avanou Ramon, semicerrando os olhos contra o sol, embora no conseguisse ver para alm da multido de indianos
que clamava para ver com os prprios olhos o que bloqueava a linha.
- Que desagradvel. Ser que ainda demorar muito? - inquiriu ela, torcendo o nariz num gesto de averso.
- Porqu tanta pressa?
-J devia estar em Bikaner. Negcios. Sou entediantemente pontual. Abomino fazer os outros esperar.
- E em que tipo de negcios est envolvida?
- Hotis. Sou consultora. Estamos a construir um novo hotel. Imagino que aquele em que vou ficar seja bem menos deslumbrante.
- Mas infinitamente mais encantador - contraps ele, imaginando o tipo de monstruosidade que a companhia para a qual ela trabalhava estaria a edificar.
Ela esboou um sorriso namoriscador.
- E o que o leva a si a Bikaner?
- O sabor da corrente - respondeu ele. Ela olhou-o impressionada.
- S isso?
- S isso.
Ficaram a conversar durante mais um bocado, durante o qual uma vaca morta foi arrastada para fora da linha e deixada na areia para ser debicada pelas moscas e pelos
pssaros. Lentamente, os fatigados passageiros encaminharam-se de volta ao comboio e ao abrasador calor das carruagens. Ramon seguiu Angela at  sua carruagem de
primeira classe. O comboio estremeceu e ps-se de novo em movimento. A primeira classe no era assim to diferente da apinhada carruagem em que ele viajara at ali,
o aroma a especiarias e as baforadas de p invadiam  mesma o compartimento, igualmente superlotado de indianos a cavaquear e escaldante. Angela sentou-se junto
 janela, permitindo que o vento a refrescasse. Fechou os olhos e apreciou a deslocao do ar. De uma forma estranha, Angela lembrava a Ramon Helena e deu por si
a interrogar-se se ela e os filhos estariam bem. Estava to longe que era difcil imagin-los em Inglaterra, a fixarem-se em Polperro, a esquecerem que ele alguma
vez existira. Contudo, Angela possua a mesma deselegncia de Helena, a mesma franqueza que apenas os Britnicos pareciam ter. Deu por si, apesar dos seus esforos,
a sentir a falta dela.
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Angela chegara demasiado atrasada  sua reunio.
- Meu Deus, serei enforcada, esviscerada e esquartejada - queixou-se ela, consultando o relgio atabalhoadamente.
- No ir conseguir mudar o tempo tentando manipul-lo - declarou Ramon, orientando-a para longe da multido e para dentro de um txi, com um engelhado homem ao
volante de um automvel decorado com ouropel, carregando ao ombro um pequeno macaco cinzento que brincava com o balouante conjunto de deuses de plstico que pendia
do espelho retrovisor.
- Eu sei, mas  que no  nada meu costume chegar atrasada - lamuriou-se.

- Escute, estamos na ndia. Eles sabero que o comboio chegou atrasado, nada anda a horas neste pas. Podero fazer a reunio amanh. Uma das muitas razes por que
nunca consegui trabalhar para ningum foi o facto de no suportar ter algum a controlar a forma como disponho do meu tempo - explicou Ramon.
- Sorte a sua - exclamou ela.
- Porque no trabalha por conta prpria? - sugeriu ele.
- Sou demasiado preguiosa e irresponsvel.
- Por vezes  divertido ser irresponsvel.
- Pois - suspirou ela e surpreendeu-o a olh-la intensamente. Suponho que agora vai convidar-me para uma bebida?
- Se quiser.
- Acho que preciso de uma.
- ptimo.
- Vamos at ao meu "infinitamente mais encantador" hotel - props ela, rindo.
- Boa ideia. No tinha ainda pensado na questo do alojamento.
- Segue apenas ao sabor da corrente...
- Exactamente.
- bom, meu querido, a corrente trouxe-o at s minhas costas declarou ela, dando-lhe a mo. - Sorte a minha.
Fazer amor com Angela apenas levou Ramon a recordar-se ainda mais da sua mulher e de Estella. O sotaque ingls dela trazia-lhe penosamente  memria os ltimos dias
com Helena, o que, por sua vez, o fazia pensar
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nos filhos. Contudo, o aroma do corpo dela e o sabor da sua pele apenas o encorajava a sentir a falta de Estella, em virtude do facto de ela ser infinitamente mais
doce. Foi uma desiluso. Mais valia que fosse um cavalo, pois ela cavalgou-o furiosamente com a energia de um jquei profissional. Depois de saciada, tombara para
o lado e adormecera como um homem. Ramon olhou para ela, para a sua pele plida e manchada e cabelo enredado e percebeu que no podia passar mais um minuto na cama
dela. Levantou-se, vestiu-se e partiu sem deixar sequer um bilhete de despedida.
Saiu para o abafado ar nocturno. A aurora estava j a verter os seus tons dourados para os interstcios do cu, e os macacos pulavam pelos telhados, perseguindo-se
uns aos outros pelas sombras. Sentiu uma certa melancolia. O sexo menos bom deixava-o sempre rabugento e ansiava pelo amor potico de Estella. Sentado sob o vasto
e deserto cu, tirou da mochila o papel e esferogrfica que tirara do quarto de Angela e comeou a escrever a Federica. Escreveu com a inteno de que a carta fosse
lida por Helena. Tinha saudades dela, o que era estranho, uma vez que esse sentimento se cobrira de p durante muitos anos devido  falta de uso. Nunca antes sentira
saudades dela. Contudo, sentia falta da ideia dela. Ela j no estava presente para si. Sentia que j no podia "dar as caras" como costumava fazer. Tinha saudades
do adorvel rosto de Federica. Tinha at saudades de Hal, com o qual nunca se ligara muito profundamente. O seu acampamento-base desaparecera. Agora no tinha um
lar ao qual pudesse regressar. Nem sequer em sonhos.

Escreveu uma histria para Federica acerca de uma misteriosa rapariga que o seguia nas suas viagens. "Deve ser um anjo", explicava ele, "pois o cabelo dela  comprido
e ondulante e da cor das nuvens ao nascer do Sol.  muito bela no s por fora, mas tambm por dentro, que  a beleza mais importante e a mais rara. Via-a pela primeira
vez num sonho. O meu anseio por ela foi to grande que, quando acordei, ela estava sentada aos ps da minha cama, observando-me com os seus olhos plidos e luminosos,
cheios de afecto. Desde ento tem-me acompanhado para todo o lado. Desde o topo das montanhas dos Himalaias, onde os iaques vagueiam pelos cumes nevosos, at aos
enormes lagos de Caxemira onde aves exticas de grande envergadura se banqueteiam de peixes-voadores, apanhando-os no ar e transportando-os para o cu. Ela desfruta
de todas as maravilhas do mundo tal como eu. Faz-me muito
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feliz. Apercebi-me, porm, aps muitos dias e noites a viajar na sua companhia, que ela no  real, apenas imaginria. S tomei conscincia disso depois de ter tentado
tocar-lhe e de os meus braos a terem atravessado, como se fosse um fantasma. Contudo, ela no  um fantasma, pois sei que, na verdade, ela vive em Polperro com
a me e o irmo Hal. Por isso, no voltei a tentar tocar-lhe, limito-me a contempl-la e a sorrir. Ela retribui o sorriso e isso para mim  o feito mais miraculoso
de todos."
CAPTULO TREZE
Polperro
- E como tem corrido a escola a Federica ultimamente? Melhor?
- perguntou Ingrid, inclinada sobre o cavalete a pintar um retrato de Sam a ler no relvado. - Raios! - praguejou. - Sou muito melhor a pintar pssaros.
- Tem corrido bem - respondeu Molly, distraidamente, concentrada na grinalda de malmequeres que estava a fazer.
- Fico contente. No deve ser fcil mudar para um pas diferente e ter de voltar a fazer novos amigos.
- A princpio era muito calada, mas a Hester diz que agora parece mais contente. Ela  mais amiga da Hester - explicou Molly que era um par de anos mais velha e
se aborrecia com as brincadeiras infantis delas.
- O perodo lectivo de Vero tambm  muito mais divertido aventou Ingrid, sentando-se no seu banco e trocando o pincel pelo cigarro que ardia na elegante boquilha
lils na mesa a seu lado. - Sam, querido, no te mexas nem um milmetro - instruiu, levando o monculo ao olho e examinando a sua obra em pormenor.
- Me, no me mexi na ltima hora, porque haveria de querer mexer-me agora? - rezingou Sam, deitado de barriga para baixo, a ler Bel-Ami, de Maupassant e pouco satisfeito
por ser interrompido. Ingrid sorriu-lhe por debaixo da larga aba do seu chapu.
-  apenas uma precauo, meu querido, no quero arruinar o meu quadro.
- E est bom?
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- Bastante. Mas estaria melhor se fosses uma gaivota ou um falco.
- Lamento - respondeu ele, e os cantos da sua petulante boca curvaram-se num esboo de sorriso.
- A Federica gosta do Sam - declarou Molly, pousando a sua grinalda de flores e acariciando Pushkin, deitado a seu lado a arquejar com o calor.
- Tem muito bom gosto - comentou Ingrid, levantando os olhos do cavalete e sorrindo para o filho com orgulho.

- O que pensas disso, Sam?
- No penso, Molly - respondeu o irmo, irritado.
- Pareces pensar sobre tudo o resto - argumentou ela.
- Talvez, mas no penso em Federica Campione.
- Querido, ela  um doce de menina - interrompeu Ingrid.
- Exactamente. Uma menina - disse Sam. - Se gostasse de algum, seria de uma mulher, no de uma menina.
Nesse momento, Hester surgiu no relvado aos pulinhos seguida de Pebbles, o porco vietnamita, e embalando nos braos o ourio-cacheiro.
- Acho que o Pebbles j est melhor - anunciou ela. - J consegue andar.
- Ainda bem. Deste-lhe de comer? - perguntou Ingrid, tirando por instantes os olhos do trabalho.
- Sim. Bebeu o leite todo. Mas continua coberto de pulgas. O Nuno diz que no o devias ter trazido para dentro de casa, que no pra de se coar desde que o trouxeste.
- O teu av  muito impressionvel. Se no lhe tivesses falado das pulgas ele no se andaria a coar.
- A Fede vem c lanchar - disse Hester.
- ptimo.
- A me j a deixa andar de bicicleta.
- E j no era sem tempo. A Helena  um pouco superprotectora, mas tambm - comentou Ingrid num tom pensativo com o pincel na mo -, depois de tudo aquilo por que
aquela pobre criana passou, no  de admirar.
- Tudo aquilo o qu? - inquiriu Hester, inocentemente.
- Ento, teve de abandonar a sua casa e comear uma vida nova num local muito diferente - explicou Ingrid.
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- No v o pai desde que deixou o Chile - acrescentou Molly, colhendo outra margarida do relvado. - Acho que nem sequer uma carta recebeu dele. Aposto que  uma
pessoa horrvel.
- No podes chamar horrvel a uma pessoa sem a conheceres, Molly. E, seja como for, no me parece que ele seja intencionalmente horrvel, apenas egosta e irresponsvel.
- Pobre Fede - suspirou ester. - Fala do pai a toda a hora.
- Aposto que ele nunca pensa nela ou na me dela. Eles divorciaram-se? - perguntou Molly sem emoo.
- Meu Deus, no! - respondeu a me, lambendo a ponta do pincel. - Esto apenas separados. Tenho a certeza que no final voltaro a ficar juntos. Imagino que tenha
sido difcil para a Helena viver l to longe. No  bem como a Inglaterra, sabem?
- A Helena provavelmente apaixonar-se- por outra pessoa aventou Molly, apreciando a ideia de um escndalo.
- Tens andado a ler demasiados romances, querida gracejou Ingrid, abanando a cabea para a filha com a mesma indulgncia que permitira que todos os seus filhos,
toda a vida, se tivessem comportado exactamente como queriam.
- Hester,  ou no  verdade que a Federica gosta do Sam? - quis saber Molly.
- Pra com isso, Molly - reclamou o irmo, sem tirar os olhos do livro. - Me, se elas no se calam com aquilo eu vou ler para o pomar.
Ingrid suspirou.
- Meninas!
- Sim,  verdade. Desde que ele a salvou do gelo respondeu
Hester, incapaz de resistir  irm mais velha.

- Meninas, o Sam est a tentar ler. Tenho a certeza que se sente muito lisonjeado por Federica ter uma paixoneta por ele, mas convenhamos, o vosso irmo tem quinze
anos e tem coisas muito mais importantes em que pensar do que nos amores de uma criana de seis anos.
- Ele devia era ficar grato por algum se interessar por ele
acrescentou Molly, que gostava de ter sempre a ltima palavra. Sam ignorou-a e virou a pgina.
- Que sol glorioso! - exclamou Nuno, avanando pelo relvado.
- " medida que a noite se retira destes germinantes e doces prados e florescentes galhos de Maio" - declamou, contemplando a tranquila cena  sua frente.
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- Robert Bridges, Nightingales - decifrou Sam, virando outra pgina do seu livro.
- Nem mais, meu querido rapaz - confirmou Nuno, acenando aprovadoramente com uma lenta inclinao da cabea como se estivesse em palco.
- Deve estar a pensar em Itlia, av, pois o tempo neste pas  habitualmente mau seja em que ms for - referiu Molly de mau humor.
- Oh, meu Deus! A Molly mal-humorada  como uma grande nuvola a obscurecer o Sol. No posso tolerar o queixume de uma criana caprichosa. - Nuno fungou e Molly revirou
os olhos e fez uma careta para Hester. - No penses que no vejo a comunicao silenciosa entre ti e a tua cmplice - acrescentou ele, dardejando-as com o olhar
numa ira fingida. - Sero ambas fuziladas ao nascer do dia. Muito bem, Ingrid, vejamos a tua opera darte. - Inclinou-se sobre o ombro da filha e observou a tela
com grande pomposidade. - No est mal. Os nossos mestres italianos talvez no celebrassem a tua proeza com uma taa de Chateau Lafitte no cu, mas tambm no ficariam
horrorizados - comentou lentamente com o mau sotaque italiano que cultivara ao longo de tantos anos que era agora incapaz de falar de outra forma. - No restam dvidas
de que  o Sam, minha querida, mas que extremidade  a cabea dele e que extremidade so os ps?
- Oh, por amor de Deus, pai, v coar-se para outro lado - reclamou Ingrid, inalando o fumo do seu cigarro num gesto de desprezo.
- Em relao a esse assunto bem menos agradvel, devo acrescentar que animais com pulgas no so uma coisa muito higinica para ter dentro de casa. Estou a ficar
louco de tanto me coar e no h banhos que me aliviem. O porco tem de se ir embora.
- Hester, ters de libertar o Prickles - suspirou Ingrid.
- Que nome to imaginativo para um animal de estimao - comentou Nuno, reprovadoramente, endireitando-se. - com um nome assim  que no ser com certeza digno de
ser convidado a entrar em casa.
Federica estava a tornar-se uma visita regular da extravagante manso dos Appleby. Pelo menos o nome dela era italiano, por isso foi de imediato adoptada por Nuno
que comentou que um nome daqueles lhe garantia no s grande formosura e encanto, mas tambm um toque de
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travessura que, acrescentou autoritariamente, era to vital como umas gotas de molho Tabasco no melhor spaghetti napoli.

Hester estava encantada por ter encontrado uma nova amiga. Andara sempre a reboque da irm mais velha, Molly, que mandava nela, pelo privilgio de ser mais velha
e mais esperta, e depois a desprezava quando encontrava melhor companhia na escola. Federica fazia Hester sentir-se importante. Pedalava avidamente rua acima para
a ver, quase todos os dias, e permitia com gratido que ela tomasse a liderana. Entregavam-se a brincadeiras infantis sem a inibio que se instalava quando Molly
estava por perto. Desciam as falsias at s baas e enseadas escondidas onde encontravam grutas para se esconderem e partilharem segredos. O mar era diferente aqui
em Inglaterra. Era escuro e turvo, recheado de algas e cheirava fortemente a sal e a ozono. Porm, Hester ensinou Federica a gostar dele, a construir castelos na
espessa areia e a encontrar camares e caranguejos nas inmeras poas que se formavam nas rochas quando a mar vazava. Construram uma jangada para o lago, transformavam
paus em canas de pesca e assavam marshmallows nas fogueiras que apenas lhes permitiam fazer quando supervisionadas por um adulto.  medida que o Inverno deu lugar
 Primavera e os dias cresciam e aqueciam, a amizade delas floresceu com as macieiras.
Sam tinha alguns testes para fazer na escola. No se esforava muito. No precisava. Era, de longe, o rapaz mais inteligente da escola e encarava os restantes colegas
como lentos ou, pura e simplesmente, estpidos. Raramente lia os livros que o currculo ditava, preferindo os romances dos autores franceses do sculo dezanove,
como Zola, Dumas e Balzac, que o av lhe dava. Conseguia ainda assim ser o melhor em todas as turmas, mesmo na matemtica, disciplina em que no se considerava muito
bom. com cabelo louro da cor da areia, olhos grandes e cinzentos e um sorriso cativante, era carismtico e arrogante. Sabia que era diferente de todas as restantes
pessoas.
com que ento, Federica tinha uma paixoneta por si. Sorrira para si mesmo, divertido, e depois esquecera o assunto. A maioria das raparigas suspirava por ele. O
que os restantes rapazes no compreendiam era que as raparigas apreciavam rapazes que se distinguiam. Fosse no desporto ou na sala de aula, no importava. As raparigas
queriam rapazes que fossem dominantes e confiantes. Rapazes que brilhassem.
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Sam brilhava. No gostava de futebol ou de rguebi - detestava actividades de grupo. Era bom no tnis, mas nunca jogava a pares. Os pares entediavam-no. Gostava
de correr de um lado para o outro e ficar to exausto quanto possvel. Tambm das raparigas se enfastiava com facilidade. No era rude. Na verdade, quando gostava
de uma rapariga era romntico, telefonando-lhe e escrevendo-lhe. As suas intenes eram sempre boas. Contudo,  semelhana de um livro novo, uma vez lido passava
ao prximo.

A me dissera-lhe que este seu comportamento era muito natural num jovem da sua idade. "Paga o teu tributo  mocidade, querido", dizia-lhe ela. "Um dia, quando fores
mais velho e menos livre ficars satisfeito que o tenhas feito." Nuno dizia que as mulheres no mereciam que ele perdesse o seu tempo com elas e por isso dava-lhe
mais livros para ler. "Oh, o amor das mulheres!  sabido que  algo encantador e terrvel", dizia ele, ao que Sam respondia respeitosamente: "Byron, Donjuan." O
pai, na rara ocasio em que emergia dos seus livros de filosofia, aconselhava-o a fazer mira s mulheres mais maduras, uma vez que nada havia de menos atraente do
que um homem que no compreendesse as complexidades do corpo feminino; uma mulher mais velha ensinar-lhe-ia a arte do amor.
Assim, Sam estava determinado em encontrar uma mulher mais velha. As raparigas que conhecia eram demasiado jovens para esperar algo mais que um beijo. No havia
mal nenhum num beijo, at certo ponto. Atingira agora esse ponto. O ponto em que as suas partes ntimas clamavam com um desejo que comeava a distra-lo do trabalho
escolar e a dispersar a sua mente da muito querida literatura francesa do sculo dezanove. Dava por si a pensar em sexo nos momentos mais inoportunos, como num carro
ou num comboio, habitualmente quando no estava sozinho para se entregar s suas fantasias privadas. Se no encontrasse uma mulher em breve, perderia o juzo com
a frustrao.
Federica passara a manh com o tio Toby e o seu amigo Julian no barco deles, o Helena. O mar estava to calmo quanto um lago, permitindo que velejassem milhas com
a ajuda de um vento firme mas quente, de sul, que fazia a embarcao cortar a superfcie da gua como a barbatana de um tubaro. Federica gostava muito do tio. Este
levara-a at  sua cabana e mostrara-lhe a sua coleco de insectos. Explicara-lhe como as
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formigas construam as suas termiteiras e que trabalhavam arduamente como um pequeno exrcito de soldados muito disciplinados, carregando pedaos de comida, por
vezes com o dobro do seu tamanho, para dentro dos ninhos. Tinham-se escondido em arbustos  noite para observarem as raposas e os texugos, e ele construra-lhe uma
casa na rvore do jardim dos avs para que ela pudesse ver os coelhos entrarem na horta e roerem as couves de Polly. Em Abril, quando haviam encontrado uma cria
de melro abandonada, provavelmente cada do ninho, tinham corrido de imediato a casa dos Appleby para que Ingrid cuidasse dela. Tio e sobrinha visitavam a avezinha
todos os dias para se assegurarem dos seus progressos. Federica sentira-se demasiado envergonhada para ir sozinha, em especial porque receava dar por si sozinha
com Sam e no saber o que dizer. Ele no estava nem um pouco interessado nela. Porque haveria de estar? Ela era uma criana. Porm, Federica no conseguia parar
de pensar nele. A ave fora prontamente apelidada de Blackie, outro nome pouco original do qual Nuno se podia queixar, e no havia nada que a fizesse pr-se a voar
dali para fora. "A vida  demasiado boa!", comentara Nuno ao ver Blackie empoleirar-se numa chvena de caf na sala de estar e debicar migalhas de po da mo de
Hester. Depois disso, Hester insistira para que Federica a visitasse todos os dias. A princpio, mostrara-se relutante, mas, em pouco tempo, o seu desejo de se integrar
ultrapassou o seu embarao e deu por si a pedalar estrada acima, diariamente, para ir lanchar com Hester.

Hester apoiara Federica durante o primeiro perodo lectivo como uma ama superprotectora. Tendo sido ela mesma uma criana tmida, os professores haviam ficado surpreendidos
com o quanto ela ganhara em termos de confiana num perodo. Graas a Hester, que a inclua em tudo, Federica fizera amigos pela primeira vez na vida. No Chile sempre
preferira estar sozinha. Fora feliz assim. Agora, as coisas eram diferentes. Precisava de Hester e, para sua alegria, Hester necessitava dela tambm. Contudo, nada
poderia substituir o seu pai, nem mesmo o tio Toby.
Quando Federica regressou a casa do passeio de barco encontrou a me a chorar no sof da sala de estar.
- Mam, que aconteceu? - perguntou ela, o seu corao enchendo-se de medo de que alguma coisa de mal tivesse acontecido a Hal ou aos avs.
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-  uma carta do teu pai - fungou Helena, estendendo  filha a folha de papel. - Desculpa t-la aberto, querida. Pensei que fosse para mim.
Mentiu. No fora capaz de resistir. No tivera notcias de Ramon desde que haviam deixado o Chile, em Janeiro. Ao reconhecer a caligrafia dele, no perdera um momento,
rasgando o envelope num sbito acesso de fria de saudade. Fora enviada da ndia, em papel de hotel, e demorara um ms a chegar at ali. Ramon escrevera uma histria
to encantadora para Federica que as lgrimas lhe haviam brotado dos olhos at se derramarem pelo rosto numa torrente de cime e ressentimento.
- Detesto o Ramon por aquilo em que me obrigou a tornar - explicou  me,  noite, depois de Federica se ter ido deitar. - Tenho cimes da minha prpria filha porque
ele lhe escreveu a ela e no a mim. Ama-a. Ama-a daquela sua forma irresponsvel e incorrigvel. E depois fico ofendida com ele por a maltratar. Por ter escrito
esta carta que apenas dar ainda mais esperana a Federica. Ele no regressar. Acabou, para todos ns. Para a Federica tambm. Mas esta carta apenas tornar as
coisas pior. Ele est a dar-lhe esperanas que mais tarde no se concretizaro. Sempre foi assim, impulsivo. Subitamente acometido por remorsos ou saudades ou sabe
Deus o qu, d-lhe para escrever esta epstola de amor, mas aposto que por esta altura j lhe passou.  isso que me aborrece. O Ramon  to profundamente irresponsvel!
Se ao menos tivesse tido a decncia de lhe dizer que o esquecesse, ela no estaria constantemente  beira de ter o corao despedaado por um pai egosta. No suporto
o que ele lhe faz. Nem sequer escreveu uma mensagem para mim, nem sequer umas poucas palavras no final. E nada tambm para o Hal.  como se nem sequer existisse.
Mas ele tambm  pai do Hal!
Federica leu a carta com o corao inchado como um balo, inflando-lhe o peito de entusiasmo. Seguramente que a carta quereria dizer que ele viria em breve visit-los,
pensou ela, mordendo o lbio para conter o impulso de gritar de alegria. Depois correu para o escritrio do av para ver num mapa onde ficava a ndia. No era muito
distante de Inglaterra. Nada longe, deduziu, rodando o globo para encontrar o Chile. O Chile ficava na outra ponta do mundo. Mas a ndia ficava perto. Perto o suficiente
para ele fazer uma paragem em Inglaterra e visit-los no regresso
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a Santiago. Leu a carta vrias vezes antes de a colocar na caixa da borboleta que tinha sobre a mesa-de-cabeceira. Enquanto escutava o suave tinir dos minsculos
sinos, foi reconfortada pela certeza de que o pai a amava e estava a pensar nela. Aquela carta compensou os quatro meses de silncio, durante os quais quase perdera
a esperana de que o pai ainda se lembrasse dela.

- Hoje recebi uma carta do meu pai - contou Federica a Hester, quando estavam ambas sentadas na jangada no meio do lago. - Vir visitar-nos em breve.
- Ainda bem. E que dizia ele?
- Escreveu-me uma histria. Ele escreve histrias maravilhosas declarou com as faces ruborizadas de orgulho.
-  esse o trabalho dele?
- Sim. Escreve livros. Uma vez escreveu sobre Polperro para a National Geographic. Foi assim que conheceu a minha me.
- A srio? Que romntico.
-  verdade. Escreveu uma mensagem secreta no artigo que apenas ela compreenderia. Foi ento que a minha me percebeu que ele a amava.
- A Molly diz que os teus pais esto divorciados - disse Hester de repente antes mesmo de ter tempo de se conter. Federica arquejou de indignao e o resto do rosto
ruborizou-se tambm.
- Divorciados? No, isso no  verdade. Quem  que lhe disse isso? - inquiriu meio chorosa.
- Imagino que o tenha inventado - respondeu Hester para remendar o dano.
- bom, isso  mentira. No esto nada divorciados. O pap vir visitar-nos dentro de pouco tempo. Diz-lhe isso. Se estivessem divorciados, o pap no me escreveria
uma carta to bonita, pois no?
-  claro que no. A Molly inventa muita coisa - desculpou-se Hester, desejando no ter mencionado tal coisa, uma vez que o rosto de Federica estava agora ainda
mais plido que o costume e martirizado. Ficaram um longo momento sentadas em silncio, Hester consumida de remorso e Federica de incerteza.
- Se te contar um segredo, prometes guard-lo para sempre? - inquiriu Federica, pestanejando tristemente para a amiga.
- Para sempre. Podes confiar em mim. Sabes que podes - garantiu Hester, ansiando por recompens-la.
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- No contes nada disto a ningum. A ningum mesmo.
- No contarei, prometo.
- Nem  Molly.
- Em especial  Molly - afirmou Hester.
- Estvamos em Cachagua, em casa dos meus avs, e eu escutei os meus pais a discutirem - comeou hesitantemente.
- Sobre o qu?
- A minha me estava a acusar o meu pai de no gostar de ns, de no se preocupar connosco, que era por isso que passava tanto tempo noutros pases. No te contei
antes, mas o meu pai viajava muito. Quase nunca o vamos. Aparecia de repente sem mais nem menos ao fim de alguns meses. Por vezes, ao fim de um ms, por vezes mais.
Nunca dizia quando regressaria a casa, limitava-se a aparecer. A me disse que o casamento deles no passava de uma folha de papel e que, uma vez que assim era,
lhe dava total liberdade. Que ele no precisava mais de regressar a casa. - O queixo de Federica tremia de desespero.
- Mas ele escreveu-te esta carta - argumentou Hester, aproximando-se da amiga e colocando-lhe o brao em redor dos ombros para a confortar.
- Eu sei. Ele no a teria escrito se no estivesse a pensar em regressar, no era?

-  claro. Se no quisesse voltar a ver-te, nem sequer te teria escrito, pois no?
Federica abanou a cabea.
- Pois no - concordou ela.
-- Ests a ver? No h motivo para estares triste. Na verdade, tens  razes para estares contente. Ele vir visitar-te em breve. Talvez muito em breve.
- Se eles estivessem divorciados, eu saberia, no achas?
- Sim. Os teus pais ter-te-iam dito.
- A mam disse que viveramos em Inglaterra e o pap viria visitar-nos como sempre fez.
- Ento,  essa a verdade - admitiu Hester. Federica secou as lgrimas com um leno que tirou do bolso. A nica pessoa que Hester conhecia que trazia um leno no
bolso era Nuno. - Sabes, a minha me diz que as pessoas muitas vezes dizem coisas que no sentem verdadeiramente quando discutem - acrescentou. - O meu pai diz coisas
terrveis,
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mas ns no lhes damos muita importncia porque quando ele est zangado  uma pessoa diferente. Eu acho que os teus pais eram pessoas diferentes quando discutiram.
Duvido que estivessem a falar a srio.
- Eu tambm - concordou Federica, sentindo-se bem melhor.
- Porque no pedimos ao Sam que nos faa uma fogueira para podermos assar uns marshmallows? - sugeriu Hester, alegremente.
Federica pestanejou para a amiga com gratido e depois centrou os seus pensamentos em Sam. Esqueceu de imediato o pai e a conversa que escutara em Cachagua. Remando
furiosamente, atravessaram o lago em direco aos juncos.
Sam no ficou satisfeito por lhe interromperem a leitura. Encontraram-no deitado no sof da sala de estar, a comer um pacote de batatas fritas e a escutar David
Bowie. Disse-lhes que fossem pedir a outra pessoa.
- Mas no h mais ningum, Sam - suplicou Hester.
- Ento e a Bea?
-J te esqueceste que  sbado? - respondeu ela.
- Pois, mas ela est c que eu j a ouvi - argumentou Sam, tirando outra mancheia de batatas.
- Est bem, mas se ela disser que no, ento tu acendes-nos a fogueira?
- Tudo a seu tempo. Vai procur-la - instruiu ele.
Hester caminhou para o vestbulo e gritou por Bea. Federica seguiu-a acanhadamente, no querendo ser deixada sozinha com Sam. Enquanto Hester chamava Bea, Federica
observou Sam pela frincha da porta. Era to bonito que desejou ter tambm quinze anos, para que ele reparasse em si.
Quando Bea desceu as escadas a correr, no parecia a mesma ama mal-arranjada que ajudara Federica a despir-se naquele dia de Inverno em que cara ao lago gelado.
Estava vestida para sair com um vestido preto muito justo e sapatos de saltos altos afilados e uma farta cabeleira de caracis louros que saltitavam  medida que
ela andava. Tinha o rosto pintado como o de uma boneca, pestanas espessas e pretas e batom encarnado brilhante.
- Que queres, Hester? - perguntou, inclinando-se sobre o corrimo. - Estou prestes a sair.
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- Queramos que nos acendesses uma fogueira - disse Hester.

- Pois, mas assim vestida  que no o poderei fazer, pois no? respondeu ela e sorriu.
- O Sam no quer faz-lo.
- Porque no?
- Porque est a ler.
- Por amor de Deus, passou o dia todo a ler. Onde est ele?
- Na sala de estar - disse Hester, enquanto Bea passava por elas para ir falar com Sam.
Sam suspirou e levantou os olhos do livro com impacincia. Ao ver Bea inclinar-se junto a si com as suas longas e nuas pernas enfiadas em sapatos de salto alto pretos,
pousou o livro e sentou-se, espantado.
- Sam, no poderias afastar-te do teu livro por cinco minutos e acender uma fogueira s midas? - sugeriu ela, mas Sam no estava a escut-la. Estava a observar
os lbios vermelhos da ama e a imaginar o que poderiam fazer por si.
- Como? - gaguejou, abanando a cabea para fazer desaparecer a imagem que evocara.
- Eu perguntei se no podias acender uma fogueira s midas! repetiu Bea, impacientemente.
- Sim, claro - respondeu, todo prestvel.
Bea endireitou-se. "No foi difcil", pensou para si mesma, surpreendida. De uma forma geral, era impossvel pr Sam a fazer o que quer que fosse que ele no quisesse
fazer.
- Obrigada, Sam - agradeceu ela, puxando constrangidamente o vestido pelas coxas abaixo ao mesmo tempo que os olhos de Sam trepavam por elas acima.
- De nada, Bea - respondeu ele, recobrando a compostura. Ests muito bonita, vais sair?
- vou at ao pub com umas amigas - disse Bea.
- bom, vais ofusc-las a todas, sem dvida - comentou ele.
- Obrigada.
- Espero que vs acompanhada. No deve haver homem que consiga manter as mos afastadas de ti com um vestido assim - aventou ele, sorrindo-lhe. Bea corou.
- Ora, Sam - murmurou ela, puxando o vestido para baixo, de novo. -  demasiado curto?
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- Demasiado curto no, Bea. Na verdade,  demasiado comprido
- respondeu, imaginando como ela ficaria sem vestido.
- s muito jovem para fazeres comentrios desses. - Bea riu-se e abandonou a sala com passos hesitantes. - J est, meninas. O Sam acende-vos o fogo.
Sam escutou-a e riu para si mesmo. Ela  que lhe acendera o fogo a ele.
CAPITULO CATORZE
Era j tarde quando Bea avanou pelas sombras para o seu quarto. No queria acordar as crianas ao acender a luz do patamar, por isso deixou-se guiar pelo luar.
Bebera demasiado vinho e namoriscara para alm da conta com os desconhecidos no pub. No importava, os fins-de-semana eram para se divertir. Afinal de contas, durante
o resto da semana estava presa ali  casa, e todas as raparigas gostavam de se divertir de vez em quando. Fechou a porta com cuidado e descalou os sapatos, pontapeando-os
para longe.

- Au! - ouviu-se uma voz no canto depois do voo de um dos sapatos. Bea arquejou e estacou, to hirta quanto um co que farejou perigo. com a mo a tremer, tacteou
a parede em busca do interruptor. No acendas a luz - prosseguiu a voz, agora to prxima que conseguia sentir o flego dele no pescoo.
- Sam! - exclamou ela, aliviada. - Que ests aqui a fazer?
- Tive um pesadelo - disse, e ela detectou um sorriso de esguelha no rosto dele.
- Volta para a cama - gaguejou ela, tentando recuperar a sobriedade. Sam acariciou-lhe o pescoo com um dedo. Bea sacudiu-o. - Por amor de Deus, Sam. Que ests a
fazer?
- No faas de conta que no sabes - sussurrou ele.
- s uma criana - protestou ela.
- Ento, ensina-me.
- No posso - disse ela e riu-se do absurdo da conversa.
- Porque no?
- Porque depois serei despedida.
- No sers nada.
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- Isso  que serei. .
- Quem  que vai contar?
- No sei se s de confiana - respondeu ela, recatadamente.
- Ento, no  por no quereres? - argumentou ele e beijou-a na macia pele entre o pescoo e o ombro. Bea estremeceu com um prazer que desejou ter mais fora para
contrariar.
- s apenas um rapaz - voltou a repetir com pouca convico. Ele pegou-lhe na mo e colocou-a nas suas calas.
-  este o comportamento de um rapaz? - perguntou ele.
Bea sentiu a prova slida do desejo dele e voltou a soltar uma risadinha, mais por estar nervosa do que divertida.
- Suponho que no- riu ela.
- Estou pronto para ti - murmurou Sam ao ouvido dela.
Bea no conseguia deixar de achar a situao cmica. Suprimiu, contudo, a sua vontade de rir.
- Aposto que nem sabes o que fazer com isso - gracejou, apertando-o suavemente com a mo.
- Gostava ento que me ensinasses - disse ele. De repente, Bea sentiu-se como uma sedutora e gostou da sensao de poder que isso lhe conferia. O vinho tornara-a
irreflectida e embotara-lhe o raciocnio de tal forma que o amanh lhe parecia a uma eternidade de distncia e aquela noite um limbo mgico no qual tudo era possvel.
Virou-se e permitiu que ele a beijasse.  medida que a hmida boca dele se colava  sua, esqueceu que ele era um rapaz de quinze anos, filho dos seus empregadores.
Sam beijava como um homem. S quando aterraram sobre a cama  que ela regressou sobressaltada  realidade. Ele era vigoroso e energtico, mas ignorava o complexo
labirinto do corpo feminino. Aps o beijo inicial, ela tirara-lhe a desajeitada mo do seu seio e resolveu ensinar-lhe a fazer amor como um homem.
Na manh seguinte, Bea deu graas aos cus por ser domingo, pois assim poderia passar a manh na cama. Antes de Sam ter regressado ao seu quarto, de madrugada, vangloriara-se
de que seria capaz de continuar naquilo a noite toda e, provavelmente, o resto do dia seguinte. Bea acreditara nele. Sam aprendia depressa e, tal como qualquer criana
com um brinquedo novo, ficara relutante em larg-lo e ir para a cama. Sorriu para si mesma naquele agradvel estado de semiconscincia e recordou-se
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com orgulho do seu ansioso aluno que por volta das cinco da manh tinha j dominado a arte de um toque suave, de um beijo lento, mas no ainda a da coibio. Isso
viria, pensou para si mesma, com a maturidade. Depois entrou em pnico ao recordar-se que ele tinha apenas quinze anos e mergulhou ainda mais nos lenis.
Foi acordada pouco tempo depois por um sensual lamber dos espaos entre os dedos dos ps. Contorceu-se no sono  medida que uma sensao de calor lhe subia pelas
pernas at  barriga. Quando a sensao de uma boca hmida na coxa se tornou demasiado intensa para ser imaginria, conseguiu abrir os olhos e espreitou para debaixo
dos lenis.
- Sam. Agora no - protestou ela e virou-se. Contudo, ele persistiu.
- No consegues mandar-me embora, sei que adoras isto. No consegues resistir-me - argumentou o rapaz, passando-lhe a mo pela perna nua.
- Ai, no? - respondeu ela, puxando a almofada por cima da cabea. Porm, Sam tinha razo. Estava desarmada. Ele conhecia os seus locais mais vulnerveis e sabia
como estimul-los. Bea nada podia fazer contra as respostas do seu corpo, apesar da sua mente exigir mais sono. Permitiu que ele a colocasse de costas e fingiu relutncia
enquanto ele praticava as lies da noite anterior.
Sam no pensava noutra coisa a no ser em sexo. Seduzir Bea tivera o efeito contrrio ao que pressupusera. Ao invs de mitigar a sua luxria apenas a intensificara.
Era agora menos capaz de se concentrar nos seus estudos do que anteriormente e passava a maior parte do dia a olhar pela janela da sala de aula, imaginando o que
iria fazer com Bea quando a voltasse a ver. O facto de ser ilcita tornava a coisa ainda mais irresistvel. Gostava de se sentar  mesa do pequeno-almoo tendo-se
esgueirado do quarto dela h apenas alguns minutos, falando-lhe com a sua habitual indiferena, desfrutando do facto de ningum saber das suas
aventuras nocturnas.
Possua-a onde quer que fosse sempre que se viam sozinhos. Por trs da casa da piscina, no celeiro, sob as macieiras no pomar, na praia ou nas grutas escondidas
que ainda ecoavam com os urgentes sussurros de contrabandistas h muito falecidos. Bea trabalhava arduamente durante o dia, tomando conta de Lucien ejoey, que precisavam
de superviso
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constante e entretenimento, e depois entregava-se ao irmo mais velho durante a noite. Estava exausta, mas no podia recus-lo. Ele dava-lhe um prazer indescritvel.
Sam no se gabou das suas proezas na escola. No precisava de o fazer. Mudara, e os outros rapazes aperceberam-se disso e admiravam-no. Ingrid era demasiado distrada
para reparar na sua fatigada ama ou na expresso de satisfao no rosto do seu filho mais velho. Inigo raramente abandonava o seu escritrio, e as garotas andavam
ocupadas com as suas brincadeiras infantis para prestar ateno  ama dos seus irmozinhos. Consideravam-se demasiado crescidas para terem uma ama.
- Vem at ao pomar comigo - sugeriu Sam, passando o dedo pela parte interna do antebrao de Bea.
- No posso. Tenho de ficar atenta aos midos caso precisem de mim - respondeu ela, encolhendo o brao.

- Nunca antes precisaram de ti. Esto a dormir - referiu ele, cheirando o suor no corpo dela e sentindo a mesma sensao do costume nas virilhas.
- No  seguro. Podemos ser descobertos.
- No sejas palerma. A me est na falsia a pintar, o pai no escritrio, onde est sempre. As midas esto em casa da Federica e o Nuno, bom, no importa onde est
- gracejou.
- No quero que isto fique fora de controlo - disse ela, tentando soar sensata. - s apenas um rapazinho.
- Mas tu transformaste-me num homem - contraps ele.
- No o deveria ter feito.
- bom, mas agora nada me pode deter. Desejo-te.
- Tu desejas qualquer coisa que use saia e eu sou a que tens mais  mo e disponvel - respondeu ela.
- Isso no  verdade, Bea. Eu gosto de ti. A srio que sim - garantiu ele, tentando atra-la ao pomar.
- com certeza.
- Gosto. Repara - disse ele, pegando-lhe na mo e levando-a  braguilha das calas.
Bea suspirou e sorriu afectuosamente para Sam.
- Um relacionamento no  s isso - explicou, abanando a cabea e retirando a mo.
- No finjas que no o queres. Ensinaste-o a satisfazer-te. Agora ele no se cansa de ti. Isso no te faz sentir desejada?
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- Sim - concedeu ela. - Mas tenho constantemente de recordar a mim mesma que s tens quinze anos.
- Quase dezasseis, na realidade.
- No importa. Por vezes, s to adulto que podias ser qualquer um dos meus amigos. Mas no s.
- E isso importa? - perguntou Sam. Bea queria dizer-lhe que se estava a apaixonar por ele, que ficava acordada  noite a ponderar na diferena de dez anos que os
separava e a tentar perceber de que forma um relacionamento verdadeiro poderia funcionar. No entanto, sabia que ele apenas a queria pelo sexo e que no a amava.
No estava sequer apaixonado por si. Cresceria e sairia pelo mundo a quebrar coraes, pensou ela, melancolicamente. Contemplou os frvolos olhos cinzentos dele,
que tinham ainda de se aprofundar com as experincias da vida, e para a franja ruiva que lhe tombava sobre a testa despreocupada. O sorriso dele era travesso como
o de um mido, mas o seu olhar era soberbo, como se soubesse que era mais inteligente e mais belo que qualquer outra pessoa.
Suspirou e acariciou-lhe o rosto com a mo.
- Mais vale desfrutar de ti enquanto posso - cedeu ela, sorrindo. Ele devolveu-lhe o sorriso com uma piscadela de olhos e puxou-a escadas abaixo, at ao pomar.
Era o final da tarde. O aroma a feno pairava no ar fresco  medida que o orvalho depositava os seus diamantes na relva acabada de cortar e nos canteiros adjacentes.
O cu empalidecia ao mesmo tempo que o Sol era empurrado para longe por uma impaciente Lua. O distante rugir do oceano e o crocitar das gaivotas desvaneceram-se
quando Sam abriu os portes para o pomar murado e puxou Bea para os seus braos para a beijar. Ela no teve tempo para saborear a melancolia do crepsculo ou a fragrncia
a mas maduras, pois Sam colou-se de imediato a ela, a sua boca no pescoo dela e nos ombros e depois nos seios, que libertou do suti com um movimento rpido dos
dedos.

Lambeu-lhe os seios. Eram grandes e macios como os marshmallows que Molly e Hester estavam sempre a assar em fogueiras. Plidos, cor-de-rosa e petulantes, eram sempre
entusiastas, sempre sensveis. Sabia como contorn-los com a lngua. Ela gostava que ele o fizesse com calma. Mal gostava de sentir o que quer que fosse, excepto
uma rpida sensao de formigueiro que, segundo ela, a punha louca. Bea era grande
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e curvilnea, feminina da ponta dos ps  ponta dos cabelos, e ele gostava de explorar uma e outra vez aqueles locais femininos que nunca paravam de o fascinar.
Abriu-lhe as calas para descobrir que estava alerta e impaciente como sempre. Tombando de joelhos, tomou-o na boca com o entusiasmo de uma mulher desesperada por
fazer o que quer que fosse para manter o seu homem. Foi nesse momento que Nuno avanou da outra extremidade do pomar sobre os bicos dos ps. Nem Sam nem Bea repararam
nele, pois os seus passos eram leves e o seu divertimento tal que no queria perturbar a sensual cena que se desenrolava  sua frente.
Sam estava de p, pestanejando de prazer, a boca aberta, o queixo cado. Nuno achou que ele estava bastante belo, como um jovem de tempos mticos, um jovem Adnis
ou Hrcules. Virou a cara discretamente para o canteiro de rosas enquanto o neto atingia o moment critique, no queria arruinar o prazer do rapaz. Sentia-se muito
orgulhoso que o neto tivesse descoberto os prazeres da carne. "E j no era sem tempo", pensou. "Deve ter sido a Nana de Zola que lhe despertou a sensualidade".
Sam emitiu um gemido e depois um longo e satisfeito suspiro. Bea soltou uma risadinha e ps-se de p. Depois, Nuno virou-se e tossiu audivelmente.
- "A nica forma de nos vermos livres da tentao  ceder-lhe" citou e depois ergueu as espessas sobrancelhas para Sam.
- Oscar Wilde - disse Sam.
- Molto bene, caro. Agora que cederam, talvez fosse melhor que Miss Osborne regressasse  sua ocupao.

Bea acenou que sim, meio entorpecida, e correu pelo porto sem sequer olhar para trs. Tinha o rosto to ruborizado que ardia. Estava mortificada. Queria morrer
de vergonha. Porm, Nuno estava assaz divertido.
- Vem comigo, jovem Samuel. Acho que tenho de adaptar a tua lista de leituras - referiu, saindo pelo porto que Bea deixara a balanar e a chiar nas dobradias.
Uma vez na biblioteca, Nuno colocou-se frente s empoeiradas estantes, passando a mo pelas lombadas dos seus queridos livros.
- Os livros concedem-me um enorme prazer, Samuel. A minha admirao pelas mulheres ficou estilhaada quando descobri que no eram to perfeitas quanto as vetustas
esculturas gregas que estudei em criana.
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- Porqu? - inquiriu Sam, lanando-se para o sof de pele do av.
- S fiz amor com a tua av uma vez.
- A srio? Ento, devias ser bastante frtil, Nuno - gracejou.
- Era, de facto, graas  sorte ou a Deus. No, meu querido rapaz, quando descobri que as mulheres tinham plos pbicos, tombaram do celestial pedestal no qual to
inocentemente eu as colocara.
Sam riu-se.
- Tudo por causa de plos pbicos? No podes ter acreditado piamente que as mulheres eram tal e qual aquelas esculturas? - quis saber, espantado.
O av retirou das prateleiras um par de livros e acariciou-lhes ternamente as capas.
- Acreditava mesmo, Samuel. Nunca foram bem a mesma coisa depois daquilo.
- Pobre av.
- Ela era-me muito dedicada. Devotada. Hs-de aprender que os prazeres da carne, o entrelaar de virilhas e partes ntimas, a estimulao dos genitais - disse ele,
apertando as mos para realar as suas palavras - mais no so do que iluses, meu rapaz. Falso amor. Perdes-te neles momentaneamente, depois desvanecem-se e comeas
a ansiar pelo prximo prazer fugaz. Podes persegui-lo toda a tua vida, mas nunca poders agarr-lo. No, meu querido, o amor  algo mais profundo. Era assim que
a tua av me amava. No como um animal, mas como um ser divino. Sim, um ser divino. Ecco - disse, estendendo os livros a Sam.
O neto pegou neles e observou-os com desconfiana.
- Memrias de Casanova e O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde - leu em voz alta.
- com o primeiro aprenders as alegrias da carne e o segundo ensinar-te- a no abusar delas - explicou Nuno, sabiamente.
- Obrigado - disse Sam, levantando-se do sof.
- O prazer sexual pode ser uma arma tanto quanto uma varinha de condo, jovem Samuel. Usa-o com sapincia.
- No vais contar nada  me, pois no? - perguntou Sam, j  porta, arrastando os ps.
- No me diz respeito, meu querido neto, mas talvez no fosse m ideia praticares os teus prazeres para uma altura em que corras menos riscos de seres surpreendido.
- E devolveu a sua ateno aos livros.
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- "O amor deixa de ser um prazer quando deixa de ser secreto" devolveu-lhe Sam, sorrindo presumidamente.

- Aphra Behn, The Lovers Watch - respondeu Nuno num tom pomposo, sem se virar. - Continua a ser um segredo para o resto dos membros desta famlia, meu querido. Desfruta
dele - acrescentou e fez um sorriso orgulhoso porque ensinara o neto a apreciar literatura.
Helena estava  janela do seu quarto a observar Federica a brincar no jardim com Hester e Molly. Estava satisfeita por Federica se ter adaptado sem problemas ao
seu novo lar. O primeiro perodo lectivo na escola fora um grande sucesso. Hester tomara Federica sob a sua proteco e fizera-a sentir-se parte da sua famlia,
que era do que Federica precisava, uma famlia grande e ruidosa que a fizesse pensar menos no pai ausente. Quando a escola terminara, haviam passado muitas tardes
na praia, construindo castelos de areia, fazendo piqueniques na falsia, explorando grutas e escutando as antigas histrias de contrabando de Jake. O tio Toby levara-a
a passear no seu barco com Julian e ensinara-a a pescar e a devolver novamente o peixe  gua. Toby detestava magoar qualquer criatura viva. Federica desenvolvera
uma paixoneta por Sam Appleby, o que no surpreendia Helena nem um pouco, uma vez que Sam era um jovem muito bonito. Pelo menos, isso fazia com que no pensasse
tanto no pai. Nesse aspecto estava tudo bem, pensou. Mas e ela mesma?
Helena estava presa  casa, cuidando de Hal. Ficara mortificada ao ler a carta que Ramon enviara a Federica. Descobrira que tinha saudades dele, apesar de todos
os seus esforos para o esquecer, e deu por si mais do que uma vez a lembrar aquele estranho momento em Vina quando os impulsos de ambos haviam subjugado a razo
e tinham feito amor apaixonadamente. Recordara-se, depois, de o ter descoberto na cama com Estella e sentira aquela nauseante raiva de novo, como se tivesse sido
no dia anterior. Esperara conseguir deixar todas as suas recordaes de Ramon no Chile, em conjunto com todos os disparates sentimentais reunidos durante os primeiros
anos felizes que haviam partilhado. No entanto, era mais difcil esquec-lo do que previra. Ele permanecia nos seus pensamentos para a atormentar. Por muito que
tentasse ver-se livre dele, era torturada por imagens suas. Interrogava-se por onde andaria, se pensaria nela, se apareceria um destes dias para lhe dizer que cometera
um erro,
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que lutaria por ela, afinal de contas, que faria um esforo por mudar. Como poderia am-la e no lutar por ela? No conseguia entend-lo.
E depois havia as crianas. No conseguia compreender que algum pudesse amar os filhos e, porm, interessar-se e preocupar-se to pouco com eles. Ramon escrevera
uma vez, mas no viera visit-los. Corria agora o ms de Agosto. Ouvia muitas vezes Federica a escutar a sua caixa da borboleta, a quilmetros de distncia, no mundo
das histrias do seu pai, como se isso a aproximasse dele. Foi de repente acometida pela possibilidade de alguma coisa de mal lhe ter acontecido. No considerara
tal coisa como uma razo para o seu prolongado silncio, pois andara demasiado ocupada a culp-lo por negligenci-los. Vencida pela culpa e pelo remorso, afastou-se
da janela, acendeu um cigarro e marcou o nmero da casa dos sogros em Santiago.

- Hoa - atendeu a empregada num tom distante. Helena tentou ignorar a demora na comunicao e pediu para falar com Mariana. Esperou com o corao apertado enquanto
Mariana veio ao telefone.
- Sou eu, a Helena - disse, tentando soar bem-disposta.
- Helena. Que bom ouvi-la - respondeu Mariana, o tom de voz traindo de imediato o seu ressentimento. Pensara tanta vez nos netos, interrogando-se como estariam e
se seriam felizes na sua nova casa. Custara-lhe muito que no lhe tivessem escrito. Esperara por cartas deles com uma impacincia e desapontamento crescentes. Porm,
no queria revelar os seus sentimentos a Helena, no fosse dar-se o caso de ela desligar o telefone e os afastar da vida deles para sempre.
- No tive notcias do Ramon desde que deixei o Chile. Ele est bem? - quis saber Helena de imediato, mas conseguiu perceber pelo tom de voz da sogra que nada de
dramtico acontecera.
- Ele no lhe telefonou? - perguntou Mariana, surpreendida.
- No. Escreveu  Fede - respondeu num tom dbil, esforando-se por no se emocionar. Supostamente j no deveria importar-se com nada que dissesse respeito ao marido.
- E mais nada?
- Mais nada.
- bom, ele j regressou ao Chile. Comprou um apartamento aqui em Santiago. Em Maro vai sair um livro novo dele que tem recebido muita ateno.
- Estou a ver.
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- Como esto os midos?
- Esto muito bem e felizes aqui.  claro que sentem a vossa falta. Gostam imenso de si e do Nacho. E eu tambm - afirmou, inalando o fumo do cigarro que segurava
com a mo a tremer. De repente sentiu uma torturante saudade que a apanhou totalmente de surpresa.
- E a Helena,  feliz? - quis saber Mariana, pressentindo a angstia da nora pela sua voz.
Helena fez uma pausa. Queria dizer que era feliz, mas no sabia ao certo se o era ou no. Sabia apenas que, por uma estranha razo, sentia saudades de Ramon e precisava
de ter notcias dele.
- Sim - respondeu, por fim, impassivelmente.
- Fico contente - disse Mariana, nada convencida.
- Tem demorado apenas algum tempo a habituar-me a viver aqui outra vez - explicou. - Sinto-me sozinha - acrescentou para seu grande espanto, e depois interrogou-se
de onde teria vindo tal afirmao.
- Acabar por se instalar e acomodar. No  coisa de pouca monta comear de novo num pas diferente. Por vezes, achamos que ao afastarmo-nos as coisas melhoram,
at descobrirmos que os problemas nos seguem para onde quer que vamos.
- Pois  - concordou Helena, de imediato. De repente deu-se conta de que Mariana tinha razo. Os seus problemas tinham-na seguido para Polperro.
Continuava a sentir-se sozinha, insatisfeita. Acreditara que regressar a casa mudaria tudo, que seria capaz de voltar  sua infncia, a esse perodo idlico antes
da responsabilidade e a domesticidade a terem mudado.

- Muitas vezes no sabemos o que temos at o termos perdido acrescentou Mariana, solenemente. - Que devo dizer a Ramon? - Continuava  espera que eles fossem razoveis
e se apercebessem de que valia a pena lutar pelo que tinham.
- Diga-lhe que os filhos tm saudades dele. Diga-lhe que telefone ou escreva ou, melhor ainda, venha visit-los - disse, incapaz de impedir que o azedume que sentia
no perpassasse para as suas palavras. Diga-lhe que no os abandone porque eles precisam dele.
- E voc, mi amor?
- De mim, nada. S liguei por causa das crianas - respondeu.
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- Bueno. Eu digo-lhe, ento. Por favor d beijinhos nossos aos midos; temos tantas saudades deles. Talvez pudessem escrever. Adoraramos ter notcias deles.
-  claro. Peo imensa desculpa. Tenho andado com a cabea no ar - explicou Helena, sentindo-se culpada e anotou mentalmente dizer aos filhos que fizessem desenhos
da nova casa para enviarem aos avs.
Quando Helena desligou o telefone, afundou-se num cadeiro e ficou a observar as sombras a avanarem pelo quarto e at  sua cabea, onde cresceram, semeando a dvida
na sua mente. Fora, acaso, demasiado precipitada? Atormentava-se com recordaes do Chile. Tendo desprezado o pas, ansiava agora por ele. Pensou nas amigas, no
sol, na praia, no aroma das laranjeiras do jardim, do som das crianas a brincar na rua, no ladrar do co da Senora Baraca. Recordou-se dos dias em que Ramon regressava
a casa para os seus braos abertos, carregando-a directamente para o quarto, onde permaneciam durante horas a descobrir-se um ao outro novamente, aps longas semanas
de separao. Haviam sido tempos felizes. Ele conseguira at satisfaz-la quando ela o odiava. Tal era o poder da sua personalidade, da sua ndole. Fora corroda
pela amargura porque no fora capaz de a possuir, de a domar. Aqui estava agora, do outro lado do mundo, ainda a desejar possu-lo. No se atrevia a perguntar a
si mesma se trouxera os filhos para Inglaterra para o obrigar a reagir, uma vez que ele no reagira da forma que ela esperara. Ramon deixara-a partir. E agora?
Quando apagou a luz da mesa-de-cabeceira de Federica, contou-lhe que falara com a abuelita, que lhe mandara muitos beijos e que queria que ela lhe pintasse um retrato
da sua nova casa. A princpio, Federica ficara contente. Fechou os olhos e imaginou o que iria desenhar e a carta que iria escrever. Mas depois sentiu o corao
apertar-se de saudades. Recordou-se do rosto amvel da av, da casa de Vero em Cachagua de que tanto gostava, do mar azul-cristalino e da areia suave to diferentes
do mar e da areia em Inglaterra. Lembrou-se do av com o seu panam, do passeio de cavalo na praia de Papudo e de Rasta. Depois ocorreu-lhe a promessa que a me
fizera de lhe arranjar um cachorro e comeou a chorar. No por no ter um cachorro, mas porque a promessa fora feita para a distrair da discusso que escutara. "Agora
nunca mais ters de regressar a casa." As palavras da me ecoaram na sua cabea at esta lhe
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comear a doer. Por fim, quando no foi mais capaz de suportar a tristeza, abriu a caixa da borboleta e permitiu que a sua mente vagueasse at ao mundo secreto das
histrias do pai. A dor comeou a abrandar  medida que pairava sobre as montanhas andinas, perseguia lees em frica e voava bem acima das plancies argentinas
num balo de ar quente. Ao ser vencida pelo sono sentiu o sol no rosto e o calor no corpo e deixou-se aconchegar pelo amor do pai.
CAPTULO QUINZE
Santiago, Chile
Quando Mariana disse a Ramon que falara com Helena, este sentiu uma pontada de culpa. Escrevera apenas uma vez e no telefonara, muito embora pudesse bem suportar
o custo da chamada. Sabia que o devia ter feito. A nica explicao que podia apresentar era o facto de ter andado ocupado a viajar. Demasiado ocupado a terminar
o seu livro. Na verdade, perdera-se deliberadamente na ndia. Arrendara uma cabana na praia e escrevera o seu romance. Tentara esquecer Helena e as crianas. Tentara
esquecer Estella. Fora bem-sucedido no caso da primeira, pois a situao no era muito diferente do passado. Estava habituado a estar sozinho nas suas viagens, por
isso nesse aspecto nada mudara. Contudo, Estella era um assunto bem diferente. Sentia a falta dela a todo o momento.
Apesar da aparente negligncia, a sua conscincia estava bem alerta para a infelicidade que poderia estar a causar-lhe. Pedira-lhe que esperasse e no tinha dvidas
de que ela estava obedientemente  sua espera, na cozinha, a cortar legumes, a vaguear pela casa, deixando atrs de si o seu doce aroma a rosas conforme desempenhava
as suas tarefas. No quisera telefonar-lhe ou escrever-lhe, pois no sabia o que dizer. No podia dizer o que ela desejava ouvir, pois sabia que nunca mais poderia
assumir um compromisso com algum. Magoara Helena e os filhos e no queria fazer o mesmo a Estella. Talvez regressasse no Vero e voltasse a fazer amor com ela.
Quando considerava a possibilidade de Estella se apaixonar por outro homem, o cime crescia-lhe no estmago como um demnio 169
incontrolvel, tomava o controlo da sua mente e atormentava-o ao ponto de quase o fazer emalar os poucos pertences e regressar a Cachagua para a reclamar. Mas depois,
a parte racional acalmava-o. Ela amava-o e uma mulher apaixonada era to fiel quanto um co. Assim, passava noites insatisfatrias a amar estranhas, imaginando que
eram Estella, j no possudo pelo demnio, mas ansiando por regressar no Vero para a encontrar de novo.
Quando regressou ao Chile no final de Agosto foi directamente para Santiago, mudando-se para o seu novo apartamento no bairro de Las Condes. Porm, no sentiu que
estava a regressar a casa. Na verdade, ansiava por Vina e pela sua famlia. Sentia-se despojado sem elas. De repente, depois de ter passado meses sozinho na ndia,
j no se sentia bem consigo mesmo. No estava habituado a uma existncia solitria no Chile e no se sentia confortvel. Assim, mudou-se parcialmente para a manso
colonial dos pais, na Avenida el Bosque. A me ficara deliciada por poder t-lo junto a si e assumiu o lado domstico da vida dele como uma esposa extremosa. O pai
mostrou-se menos entusiasmado.
- Ele tem esposa, mulher. No tem idade para precisar da me rosnou uma noite ao regressar a casa e ver a sala de estar toda desarrumada e atravancada com o equipamento
de fotografia de Ramon, pilhas de fotografias e outros pertences.

- Nacho, mi amor, o Ramon est a atravessar um perodo doloroso. Sente-se s quando est sozinho - protestou ela, seguindo-o at ao escritrio.
- Ento, porque  que no pede  Helena para voltar?  muito simples. Mas se estiveres sempre disponvel para ele, a  que no far qualquer esforo.
- Ele no sabe o que quer - argumentou Mariana com um tom cheio de compaixo.
- Quer a faca e o queijo, Mariana. No sei onde  que errmos, mas por alguma razo ele  incapaz de se comprometer, de se empenhar com o que quer que seja. - Abanou
a cabea desapontadamente. - No queria que a Helena o deixasse, mas no estava preparado para mudar os seus hbitos por ela e pedir-lhe que ficasse. O que ele gostaria
 que tudo continuasse a correr sem alteraes como o tempo num relgio antigo. No a censuro por o ter deixado, embora suspeite que ela esperava conseguir for-lo
a agir.
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- Como assim? - perguntou Mariana interessada, sentando-se no gasto cadeiro que Ignacio usava para ler  noite, aps o jantar.
- Acho que esperava que, ao deix-lo, ele se sentisse forado a mudar para a reter. Eu tambm esperei que ele fizesse o esforo. Mas Ramon  um indolente. Permitiu
que ela partisse e depois desapareceu durante meses para fazer de conta que no acontecera. Foi por isso que veio viver connosco, porque tem saudades deles, agora
que regressou ao Chile.
- No teria acreditado em ti se no tivesse recebido aquele estranho telefonema. Acho que a Helena tambm tem saudades dele. - Recordou o constrangido tom de Helena
que encarava agora como um grito mudo de ajuda.
- Aposto que sim.
- Achas que ela lamenta ter-se ido embora?
- A galinha da vizinha...
- Talvez no fosse to melhor quanto ela pensara.
- Talvez no.
- Temos de for-lo a questionar o que fez. Alguma coisa tem de sacudi-lo e inculcar-lhe algum juzo. Ele ainda no se apercebeu da seriedade de toda a situao.
No pode tratar as pessoas desta forma. Algum tem de lhe ensinar o valor da vida.
- Tens razo - concordou Mariana, baixando os olhos. - Que queres que eu faa, Nacho? Que lhe vire as costas?
- Isso seria a melhor coisa. O Ramon no ir sentir a falta da mulher se andares sempre de volta dele e a tratar-lhe de tudo. - Ignacio reparou na expresso de desnimo
nos olhos cinzentos da mulher. Suspirou e abanou de novo a cabea. - No vou insistir que o faas. Como poderia? s me dele.
- Apenas quero o melhor para ele - explicou ela e esboou um tnue sorriso.
- Ento diz-lhe que no pode viver connosco. Mariana riu amargamente.
- Oh, no, Nacho, eu no vou dizer-lho. A ideia  tua, por isso diz-lho tu. - E abandonou o escritrio.
Ramon chegou a tempo para o jantar. Ignacio revirou os olhos para a mulher, dando conta da sua exasperao pela presena cada vez mais constante
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do filho em casa deles. Mariana fez de conta que no vira e serviu ao filho um copo de usque com gelo.

- Aqui tens, Ramon, tiveste um dia ocupado? - perguntou num tom amvel. Porm, Ignacio falou antes de Ramon ter tempo para responder.
- J decidiste o que vais fazer em relao  Helena, filho? - Ignacio estava sentado num cadeiro frente a Ramon, que conseguia ocupar a maior parte do sof com
os seus compridos braos e pernas. Ramon bebericou o seu usque como que a ganhar tempo. Desde a infncia que era incapaz de evitar as perguntas do pai e ainda se
sentia ridiculamente vacilante de cada vez que respondia a elas, como um obediente aluno.
- Acho que a minha prxima viagem ser a Inglaterra, pai - respondeu, tentando no revelar muita coisa.
- Quando  que vais? - persistiu Ignacio.
- No sei ainda, talvez daqui a uns meses - disse vagamente.
- Uns meses? Por que motivos no podes ir mais cedo?
- O Ramon est muito ocupado com o seu trabalho - interrompeu Mariana em defesa do filho.
- No te perguntei nada, mulher - ripostou Ignacio num tom firme. - O Ramon tem idade suficiente para responder sozinho. Por amor de Deus, tens quarenta anos.
- Quarenta e um - corrigiu Ramon e sorriu para a me.
- Precisamente. J s um homem. J devias ter assentado por esta altura em vez de andares a vaguear pelo globo como um cigano.
Ramon queria dizer ao pai que se metesse na sua vida, mas depois lembrou-se que vivia em casa deles, por isso os pais tinham o direito de conhecer os seus planos.
- Gostava de passar algum tempo em Cachagua, dar incio a alguns projectos. O tempo j comea a ficar melhor...
- Podes ir l para casa - referiu Ignacio. -  tua sempre que precisares dela - acrescentou, evitando a expresso confusa que o rosto de Mariana espelhava.
- Mas no h ningum para cuidar dele - protestou Mariana ainda a franzir a testa.
- E a Estella? - perguntou Ramon de imediato. Conteve-se para evitar revelar demasiado. Conhecia bem o pai, o suficiente para saber que a mnima alterao no tom
da sua voz seria notada e analisada.
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- Oh, coitada da Estella - suspirou Mariana, deixando afundar os ombros. - Aquela pobre rapariga era um doce de menina. Ningum cuidava da casa como ela. No sei
o que faremos sem ela. - Olhou para Ignacio com um ar acusador. Os olhos de Ramon precipitaram-se da me para o pai, consciente de que o corao lhe cara aos ps,
deixando apenas uma imensa ansiedade no seu lugar.
- Tinha de ser feito, mulher. Ela no pode tomar conta de ns e de um beb ao mesmo tempo - respondeu ele, defendendo-se das acusaes dela. - Ela est grvida,
Ramon.
- Grvida? - repetiu Ramon.
- Grvida - disse Mariana. - Pobre rapariga. Sabes, aquele jovem com quem ela namorava o Vero passado em Cachagua? - Ramon acenou que sim com a cabea. - V l
tu que o desmiolado a engravidou e depois desapareceu.

- Acontece a toda a hora, Mariana - argumentou Ignacio, penosamente. - Mas eu gostava dela. No merecia ser tratada assim. Era uma boa rapariga, no uma dessas mulheres
de virtude duvidvel que costumam rondar o porto em Valparaso. Ela foi demasiado confiante. Apertava o pescoo a esse rapaz se tivesse oportunidade.
- Ento, onde est ela agora? - quis saber Ramon, sentindo-se nauseado e com vertigens. Bebeu o usque de um s trago e engoliu com dificuldade.
- O teu pai mandou-a de volta para Zapallar - explicou Mariana.
- Eu disse que ela podia regressar quando tivesse o beb. Talvez a me dela possa tomar conta da criana durante o dia enquanto ela trabalha - aventou Ignacio com
uma pacincia forada.
- Eu sei, mas ela estava to perturbada! Sabes, Ramon, acreditava que ele regressaria. Ele disse-lhe que sim e ela acreditou nele. Eu no queria desapont-la, por
isso concordei com ela. Mas tanto quanto sei at agora nem sinal dele. Dios mio, que indignidade. - Voltou a suspirar.
- Disse-te o nome do tal rapaz? - perguntou Ramon, cuidadosamente.
- No, recusava-se a dizer. Devia sentir-se demasiado envergonhada, sem dvida.
- J chega, mulher, tenho a cabea a andar  roda - protestou Ignacio com irritao. - Ramon pode ir l para casa quando quiser. Se precisar de uma empregada, que
procure uma.
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- Temporria,  claro. A Estella poder regressar e eu gostaria de manter a vaga aberta para ela - admoestou Mariana, ansiosamente.
- Por mim tudo bem - disse Ignacio. - Quando queres ir?
- Amanh de manh - respondeu Ramon, automaticamente. A sua mente andava  roda como o mecanismo interno de um relgio. - vou s lavar as mos para irmos jantar.
- Quando se olhou ao espelho reparou que as suas feies estavam totalmente destitudas de cor, o que lhe dava um aspecto lvido e doente. Esfregou as mas do rosto
para encorajar o sangue a fluir, mas era intil, o choque da notcia estava bem patente em toda a sua cara.
- Porque lhe ests a emprestar a casa? - perguntou Mariana ao marido, enquanto Ramon estava na casa de banho. - Achei que lhe ias dizer que no podia continuar a
viver connosco.
- Porque algum tempo sozinho na casa de Vero talvez o faa recordar-se e pensar na mulher e nos filhos. Talvez recupere a sensatez por l. No sei. Estou apenas
a aproveitar a oportunidade, mulher, mas talvez o mar e o sol o faam recordar-se dos bons tempos que partilhou com Helena, antes de tudo se desmoronar.
Mariana colocou afectuosamente a mo no ombro do marido e sorriu para o tranquilizar.
- Ns sofremos quase mais do que ele - afirmou, lembrando-se com tristeza de Federica e de Hal.
- De certeza que sofremos mais do que ele. Esse  o problema, ele nem sequer sofre - disse Ignacio.
- Silncio. J o ouo voltar.
Quando Ramon regressou  sala de estar, os pais estavam j a levantar-se e a encaminhar-se lentamente para a sala de jantar. Mariana olhou para ele e sorriu atenciosamente.
Ignacio foi menos diplomata.
- Ests bem, filho, pareces to plido?
- No, estou ptimo - respondeu Ramon.

- Escuta, eu compreendo que no tem sido um perodo fcil para ti. Acho apenas que tens andado a evitar o assunto.
- No tenho, pai, penso em Helena e nos midos a toda a hora mentiu.
- Ento, porque no vais at l v-los? De que tens medo?
- No tenho medo de nada. A Helena precisa de algum tempo consigo mesma - respondeu.
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- Por amor de Deus, filho, esse  o problema, ela esteve sozinha durante demasiado tempo - interrompeu Ignacio um pouco irritado.
- Precisa de tempo para se estabelecer em Polperro. A ltima coisa de que precisa  de mim a aborrec-la outra vez.
- Ento, escreve aos midos, telefona-lhes de tempos a tempos, s um pai, Ramon. No fujas  tua responsabilidade.
- No deixo de pensar na pequena Federica e no quanto ela te ama, mi amor. O teu pai tem razo. No podes negligenci-los - reiterou Mariana, tocando no antebrao
do filho e acariciando-lho ternamente.
Quando Ramon partiu na manh seguinte para Cachagua, Helena, Federica e Hal no poderiam estar mais longe do seu pensamento. S conseguia pensar em Estella. Passara
uma noite terrvel, combatendo os demnios da culpa e do remorso que lhe rodeavam a cama, beliscando-o e sacudindo-o, tornando o sono uma impossibilidade. Pelejara-os,
tentando concentrar-se no novo livro que ia escrever, contudo, Estella no parava de lhe vir ao pensamento, emergindo como um boto de rosa num lago, recusando-se
a ir ao fundo.
A princpio, tentara convencer-se de que a criana no era sua, mas tal era apenas uma iluso. No havia como negar que a criana era sua, no podia ser de mais
ningum, no s porque o calendrio apontava que fora concebida no Vero, mas tambm porque conhecia Estella. No era o tipo de mulher que dormisse com uns e outros.
Isso, por si s, f-lo estremecer. Seduzira-a e depois abandonara-a. Como se isso no fosse j mau o suficiente, abandonara-a grvida. At mesmo ele sentia repulsa
pela sua conduta. Ansiava pela manh, mas de cada vez que olhara para o relgio apenas tinham passado alguns minutos desde a ltima vez que o fizera. Teria partido
de Santiago naquele instante, no fora o recolher obrigatrio que proibia qualquer pessoa de sair de casa entre as duas e as seis da manh. Por fim, quando a aurora
rompera o cu nocturno e a luz se escoara pelas venezianas, pegara na mochila, metera-se no carro e pusera-se a caminho. Eram seis da manh.
S quando se vislumbrou a si mesmo no espelho retrovisor  que se apercebeu de que no fizera a barba ou lavara o rosto. Parecia um vagabundo de cabelo preto emaranhado,
uma sombra escura no rosto e olhos fatigados e raiados de sangue. Normalmente teria parado pelo caminho para tomar um caf ou um refrigerante de limo, teria refrescado
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o rosto e penteado o cabelo, mas no tinha tempo. No queria deixar Estella sozinha nem mais um minuto. Pisou com mais fora o pedal do acelerador, levando o carro
at ao limite, mas sem se arriscar a ser apanhado pela polcia por conduzir em excesso de velocidade. Quando chegou por fim a Zapallar, estacionou o carro s pressas
e caminhou sob o brilhante sol matutino.

No sabia onde procurar. No sabia sequer o apelido de Estella para poder procurar a sua famlia e, de qualquer maneira, no queria que toda a aldeia ficasse a saber.
Seria seguramente reconhecido por algum. Avanou at  praia na esperana de que ela talvez estivesse ali, de que talvez se cruzasse com ela na rua a caminho de
ir comprar po.Porm, no havia sinal de ningum. Uma Primavera antecipada comeava a instilar nas rvores e arbustos circundantes uma nova vitalidade e o ar estava
seguramente mais quente. Ramon quase esperava sentir o perfume a rosas de Estella e segui-lo at a encontrar. Mas esse era o tipo de noo romntica que talvez tivesse
introduzido num dos seus romances, I no era a vida real. Depois de caminhar para cima e para baixo pela praia
durante um bocado, deu-se conta de que teria mesmo de pedir direces a algum. Teria de descrev-la e arriscar que toda a aldeia ficasse a saber. No havia outra
alternativa. Estava desesperado.
Quando viu um idoso sentado num banco a contemplar o mar, reprimiu o seu embarao e abordou-o.
- bom dia, senor. Procuro uma jovem chamada Estella. Est grvida, tem o cabelo preto e comprido, at  cintura,  mais ou menos desta altura - explicou, indicando
a altura dela com a mo. O homem observou-o friamente atravs dos seus pequenos olhos negros e hmidos e pestanejou com calma. Segurava-se a uma bengala de madeira
nodosa com uma mo curtida pelo tempo e segurava as gengivas com os finos lbios, pois no tinha dentes para mostrar. - Ela vive com os pais, deve ter cerca de vinte
anos. Costumava trabalhar em Cachagua.  uma rapariga muito bela - continuou e depois suspirou, desapontado. Reconheceria esta descrio se a conhecesse - acrescentou,
virando-lhe as costas. O homem continuou a segurar as gengivas sem pronunciar uma nica palavra. Depois, qualquer coisa fez Ramon referir que ela cheirava a rosas
e, de repente, a vitalidade retornou ao idoso e este comeou a murmurar qualquer coisa sobre o aroma lhe fazer lembrar o funeral da sua me.
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- Enterraram-na numa sepultura cheia de ptalas - contou ele, melancolicamente. - Diziam que a acalmaria para o caso de acordar e no saber onde estava. - Virou
a cabea e olhou para Ramon, de p sob a sombra de um eucalipto. - A sua Estella vive no cimo da rua, a cerca de meio quilmetro, na colina virada para o mar. No
ter problemas em reconhecer a casa, pois  amarela - explicou, acenando com a cabea para si mesmo. - Ainda sinto o perfume delas sempre que vou ao cemitrio. Um
dia vou l e nunca mais volto.
- Um dia iremos todos at l e nunca mais regressaremos - replicou Ramon para espanto do homem. No lhe ocorrera que o jovem pudesse ainda ali estar. Esperou que
Ramon encetasse caminho antes de continuar com a sua solitria conversa acerca dos mortos.
Ramon subiu a colina com passos apressados. Era ainda cedo. Uma tnue nvoa enfarruscava a extremidade onde o mar se juntava ao cu, de modo que ambos se fundiam
num nico horizonte azul tremeluzente. Enquanto olhava em seu redor em busca da casa amarela, recordou-se dos indolentes dias no Vero passado em que amara Estella
sem culpa, sem remorso e sem este terrvel receio de priso, de armadilha.

Quando viu a casa, estacou no caminho de areia a olhar para ela. Parecia tranquila e estava resguardada pelas despontantes rvores que comeavam a revelar o verde
quase fosforecente das suas novas folhas. A casa era um pequeno bangal com duas ou trs divises. Estava bem mantida e exibia um pequeno jardim que parecia tambm
bem cuidado. Escutou um co a ladrar  distncia e a voz em staccato de uma me a repreender o filho que pareceu sacudir a indolente aldeia. Continuou a contemplar
a casa, mas nada se mexeu. Por fim, a impacincia levou-o at  porta, onde se deteve ansiosamente antes de bater. Escutou movimento do lado de dentro. Por um momento
receou que se tivesse enganado na casa, mas depois sentiu o forte aroma a rosas e soube, sem margem para dvidas, que ela estava ali e o corao inchou-lhe no peito.
Quando Estella abriu a porta e viu Ramon agigantando-se  sua frente como um lobo, bloqueando a luz, ficou branca antes de o sangue ser bombeado urgentemente em
redor das artrias num esforo para a reanimar. Teria gritado, mas no encontrou a voz. Perdera-se em conjunto com o raciocnio. Pestanejou e voltou a pestanejar.
Quando teve a certeza de que era de facto Ramon quem tinha  sua frente, e no uma apario
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inspirada pelas ervas que a me lhe dera para a gravidez, lanou os braos em redor do pescoo dele e permitiu que ele a levantasse do cho e a carregasse para dentro
de casa.
Deitou-a gentilmente na sua pequena cama e contemplou o seu belo rosto que irradiava de felicidade.
- Eu sabia que regressarias - suspirou ela, acariciando-lhe a cara barbada. Apreciando os seus formosos traos fisionmicos, Ramon sentiu-se de repente confuso e
interrogou-se sobre o que lhe passara pela cabea para a deixar. O que diabo se apoderara de si para a temer? Ao beijar-lhe os ansiosos lbios acreditou que nunca
mais a deixaria. Inalou o seu singular perfume e saboreou o sal na sua pele. Depois colocou uma mo sob a camisa de noite branca e sobre o inchao da sua barriga
nua.
-  o meu filho - declarou e teve a certeza de sentir um movimento no interior da barriga. Estella esboou um sorriso que apenas as futuras mes conhecem: terno
e orgulhoso e ferozmente protector.
- Se for um menino, chamar-lhe-emos Ramon - disse ela.
- E se for menina, Estellita - respondeu e enterrou a cara no pescoo dela.
- Ento, no ests zangado? - perguntou ela, olhando-o timidamente.
- No, estou muito feliz - disse com sinceridade, surpreendido pela sua prpria reaco. - Desculpa ter...
- No peas desculpa, meu amor - pediu ela, colocando-lhe o indicador sobre os lbios para o silenciar. - Regressaste como eu sabia que regressarias e estou feliz.
Ramon beijou-lhe o dedo e depois a palma da mo, o brao e por fim os seios inchados e pesados.
- Quero ver-te nua - declarou, subitamente dominado pela sensualidade das suas abundantes curvas. Desabotoou-lhe a camisa de dormir, puxou-lha por cima da cabea
e sentou-se a admir-la.

Estella recostou-se com orgulho  frente dele, observando os olhos dele  medida que percorriam as voluptuosas linhas do seu novo corpo. Assemelhava-se a uma brilhante
e rolia foca. A sua pele era acetinada e macia e brilhava com uma maturidade que a iluminava de dentro. Queria perder-se nela mas no se atrevia a faz-lo por recear
mago-la a ela ou ao beb. Por isso, beijou-lhe os ombros e os seios, a barriga e as pernas at aos ps.
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- Quero levar-te para longe daqui, Estella - declarou, beijando-lhe os lbios mais uma vez.
- No quero deixar Zapallar, Ramon. Pelo menos at o beb nascer.
- Ento, pelo menos vem viver comigo em Cachagua. Depois poderemos pensar no que fazer.
- E os teus pais? - perguntou com um estremecimento.
- S viro em Outubro. Ser apenas tu e eu.
Estella no precisou de ser convencida, j considerara todas as possibilidades ao longo dos ltimos seis meses. Era o que ela queria.
- S tu e eu - repetiu ela, sorrindo de felicidade.
CAPITULO DEZASSEIS
Estella ficara mais forte no decorrer dos ltimos seis meses, desde que fora despedida por Dom Ignacio. Regressara a casa dos pais em Zapallar e falara-lhes sobre
o homem que lhe roubara o corao e deixara uma parte de si a crescer dentro do seu ventre. A me vertera copiosas lgrimas. O pai esmurrara a parede, deixando um
enorme buraco no estuque, que a permaneceu durante vrios meses, pois no tinham dinheiro ou tempo para reparaes. O pai jurara que, se alguma vez colocasse a
vista em cima do patife, lhe cortaria pessoalmente o pnis com uma faca de trinchar. "Se no sabe us-lo com sensatez, no deveria sequer ter um", vociferara ele,
esfregando a magoada mo. Estella tentara convenc-los de que o pai do seu filho regressaria. Disse-lhes que ele prometera voltar e ela acreditava nele. No entanto,
os pais limitaram-se a contempl-la com os sbios olhos de quem j viu quase tudo durante o difcil curso da sua longa vida e abanaram a cabea em desespero.
Pablo e Maria Rega eram quase demasiado idosos para terem uma filha de vinte e dois anos. Tinham casado cedo e tentado ter um filho durante muitos anos. Porm, depois
de o frgil ventre de Maria ter rejeitado sete bebs, perderam toda a esperana de alguma vez virem a ter uma famlia. Mais lgrimas, mais murros at se resignarem
por fim, demasiado abatidos para lutar mais. Pablo entregara-se ao seu trabalho, cuidando do cemitrio que dava para o mar, falando com os desconhecidos desafortunados,
enterrados sob os seus ps, sobre o seu desejo e desgosto. "Eles no me podem ajudar", dizia  mulher, "mas so bons ouvintes". Maria continuou a trabalhar na casa
senhorial de Dom Carlos Olivos e da sua esposa, a Senora Pilar, limpando e cozinhando desde madrugada at ao anoitecer. Sempre se servira de comida do frigorfico
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da casa, mas quando, por fim, se resignara ao facto de que simplesmente no nascera para dar  luz filhos seus, comera para mitigar a dor e para preencher as horas
que teria passado a pensar na ninhada que nunca teria. Quando era jovem, as pessoas da aldeia costumavam chamar-lhe "esparguete", pois era to magra e frgil quanto
uma tira de massa. Porm, quando comeava a comer no conseguia parar. O desgosto agarrara-se-lhe ao corpo sob a forma de espessos rolos de gordura, at ter ficado
to gorda que mal conseguia subir a enorme escadaria da casa de Dom Carlos sem arquejar ruidosamente e se agarrar ao corrimo para se apoiar e como alavanca. Pablo
gostava mais dela assim. Trepava para cima dela e perdia-se nas ondulantes plancies do seu corpo. Havia mais para amar.
Ento, uma manh, acabara Maria de chegar ao cimo da escadaria, aps uma rdua subida durante a qual tivera de parar degrau sim, degrau no para recuperar o flego,
quando perdeu os sentidos e caiu ao cho, sendo descoberta pela amante de Dom Carlos, Serenidad, que saa furtivamente do quarto deste em bicos dos ps. Serenidad
teria preferido ignorar a mulher estatelada no soalho de madeira como um boi arfante, mas a sua conscincia acabou por levar a melhor sobre a repulsa e chamou o
amante, abanando Maria com o molho de notas que Dom Carlos lhe dera para pagar as dvidas. Dom Carlos ficou to embaraado por ter sido descoberto com a sua amante
que enviou Maria de imediato para o hospital privado em Valparaso, onde foi informada por um amvel mdico que estava em trabalho de parto. O motorista de Dom Carlos
conduziu Pablo a Valparaso para se juntar  mulher. Deram as mos enquanto Maria fazia fora, mas ela no sentiu qualquer dor ou desconforto. O beb deslizou para
fora do seu corpo como uma foca recm-nascida, com pele morena sedosa, cabelos negros brilhantes e o nmero correcto de dedos nos ps e nas mos. Maria e Pablo estavam
demasiado espantados com o milagre que lhes sucedera para chorarem. Observaram a sua filha como se fosse a primeira criana a nascer em todo o mundo. "Chamar-lhe-emos
Estella", afirmou Maria com reverncia, "pois  uma estrela que o cu nos emprestou."
Maria perdeu peso. Tal no aconteceu gradualmente, mas no curto espao de um ms. Nunca mais voltou a ser o "esparguete" da sua juventude, mas Pablo gostava dela
assim. Agora tinha duas pessoas para amar.
Pablo sempre tivera dificuldades em comunicar, mesmo com a mulher. Por isso, falava com os seus mortos subterrneos - uma assistncia
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cada vez maior - com uma fluncia que se lhe escapava quando falava com os vivos. Dava palmadinhas na sua lpide favorita, a que marcava a sepultura de Osvaldo Garcia
Segundo, que morrera em 1896 de um nico tiro na cabea disparado pelo homem cuja esposa planeara fugir com ele. A mulher suicidara-se depois, com a mesma arma.
Contudo, o marido recusara-se a enterr-la perto do amante e lanara o corpo ao mar. Pablo interrogava-se se Osvaldo Garcia Segundo a conseguia ver de onde estava,
ali no cimo do penhasco. Esperava que sim. Aquela histria sempre o tocara. Desabafava agora as suas preocupaes em relao  filha e ao homem que no s lhe roubara
o corao, mas tambm o futuro, numa curta e intil aventura amorosa, pois achava que Osvaldo o compreenderia.
- Agora  que nunca casar - comentou, tamborilando a lpide.

- Naquele estado, quem  que a querer?  muito bonita,  certo, mas a barriga afast-los- a todos. Quem  que quer o filho de outro homem? Ela acredita que este
jovem voltar, mas tu sabes que a vida no se passa assim. No fao ideia de quem  que lhe tem metido estas ideias romnticas na cabea, mas no traro nada de
bom. Escuta bem o que te digo. Nada de bom mesmo. No sei o que fazer. A Maria inundou a casa com as suas lgrimas e eu enfiei o punho na parede. Que ser de ns?
- suspirou, recordando-se da sua menina quando era criana e das alegrias que lhes dava. - Damos-lhes tudo o que temos, os nossos pertences, os nossos ganhos, o
nosso amor, os nossos sonhos e o que recebemos em troca? Nada, a no ser ingratido - continuou, contemplando o mar.
- Ingratido.
Estella ficara mais forte. Cedera temporariamente ao desespero depois de ser dispensada do seu trabalho, mas depois recompusera-se ao concentrar-se nas duas coisas
mais importantes da sua vida - Ramon e o beb. Embora ainda acreditasse que ele voltaria para a buscar, teve a fora de vontade de colocar o seu emprego para trs
das costas e pensar apenas no futuro. No dera ouvidos aos queixumes dos pais. Esperara, como Dom Ramon lhe pedira que fizesse, e enquanto esperava tomara em considerao
os seus sonhos, como um farmacutico a pesar medicamentos. Dom Ramon regressaria, sobre isso no tinha dvidas, mas o que seria de si? Ele era ainda casado. Estella
no queria ir viver para a cidade; no tinha qualquer desejo de levar uma vida de sumptuosidade. Tambm no tinha qualquer desejo de ver o mundo. No queria 182
prend-lo a uma vida que no se coadunaria com ele. Queria apenas respirar o mesmo ar que ele, fazer amor ao som do distante troar do oceano e criar o filho de ambos
com amor. Ansiara pelo regresso dele para que lhe pudesse dizer que nada mais queria dele a no ser isso.
Tomara conhecimento das reservas e limitaes dele por intermdio das conversas que escutara entre Dom Ignacio e a Senora Mariana quando falavam sobre o seu "irresponsvel"
filho. A Senora Mariana mostrara-se indulgente, explicando ao marido que Ramon era um livre-esprito, um ser abenoado com uma criatividade irreprimvel. Isso explicava
porque no era capaz de permanecer muito tempo no mesmo lugar, porque era incapaz de ser um bom marido e pai para a sua esposa e filhos. As orelhas de Dom Ignacio
haviam enrubescido e lanara o punho contra a mesa, declarando incisivamente que j ia sendo tempo de Ramon crescer e parar de se comportar como uma criana mimada,
petulante e egosta. "O mundo continuar a girar sem ele o colocar em movimento com as apressadas solas dos seus sapatos, mulher", bramira ele, "mas a Helena e os
nossos netos ficaro bem pior sem ele." Estella jurara no ser como Helena. Conceder-lhe-ia a liberdade que ele tanto ansiava em troca do amor dele.

Estella abandonou Zapallar com Ramon, deixando um bilhete aos pais a dizer-lhes que o pai do seu filho regressara como sempre afirmara. Ramon no demonstrara qualquer
desejo de os conhecer e Estella no insistira; temia que o pai pudesse cumprir a ameaa que fizera. Assim, regressaram  casa de Vero em Cachagua, onde as memrias
da aventura amorosa ecoavam pelas paredes para os recordar de como fora na altura, quando haviam feito amor s escondidas, reclamando a noite para eles mesmos, desfrutando
um do outro sem pensarem sequer no futuro. Agora que tinham um futuro, era preciso que se arrancassem ao presente e decidissem o que iriam fazer com ele.
Deram um passeio pela praia. O Sol pusera-se, deixando a costa fria e jactante. Deram as mos e entregaram-se a reminiscncias do Vero anterior.
- Vi-te nadar naquela noite em que no conseguias dormir - confessou Estella, sorrindo. - Tambm no conseguia dormir, por isso fiquei a ver-te oculta nas sombras.
- A srio?
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- Sim, vi-te caminhar nu praia acima. Desejava-te tanto que nem sabia o que fazer comigo mesma - contou com a voz embargada.
- Que vais fazer contigo agora? - perguntou ele e a voz traiu a incerteza que sentia.
Estella suspirou.
- Passei os ltimos seis meses a preparar discursos para ti. Planeei o que diria quando voltasses, mas ainda no te disse o que imaginei observou ela, olhando para
os ps descalos a enterrarem-se na fina areia.
- Acho que sei o que me queres dizer - contraps Ramon, apertando-lhe a mo.
- Acho que no sabes.
- Todas as mulheres querem as mesmas coisas - argumentou, como se fosse uma acusao.
- Ento, o que  que todas as mulheres querem?
- Querem segurana. Querem casar, ter filhos e segurana - respondeu tristemente.
- No te enganas. Foi o que sempre quis para mim. Mas depois conheci-te e vi que no s como os outros homens. Portanto, no  isso que eu quero.
- E que queres tu? - inquiriu, surpreendido.
Estella parou de andar e colocou-se frente a ele, olhando-o fixamente por entre a penumbra. Enfiou as mos no bolso do casaco de l e arrastou os ps em preparao
para o discurso que praticara.
- Quero o teu amor e a tua proteco - comeou ela. - Quero-o para mim e para o nosso filho. Quero que ele conhea o pai e que cresa com o amor dele e orientao.
Mas no quero acorrentar-te a uma casa. Viaja pelo mundo e escreve as tuas histrias, mas promete que regressas para ns de vez em quando. Guardarei os teus beijos
no meu corao, mas assim que se comearem a esgotar ters de voltar para o encher de novo. No quero nunca que fique vazio. - Sorriu-lhe como se o compreendesse
melhor do que ele se compreendia a si mesmo.
Ramon no sabia o que dizer. Esperara que Estella lhe pedisse que ficasse com ela, como Helena pedira quando Federica nasceu. Porm, Estella olhava para ele com
confiana e percebeu que ela falava a srio.
Puxando-a para os seus braos, beijou-lhe as tmporas e as mas do rosto, inalando o seu odor a rosas e sentindo-se mais prximo dela do que
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alguma vez sentira. Procurou na boca do estmago aquela familiar sensao de claustrofobia, mas no a encontrou em parte alguma. Estella estava preparada para o
amar o suficiente a ponto de lhe conceder a liberdade de que ele necessitava. Contudo, nenhum deles se preparara para a ira de Pablo Rega.
Pablo e Maria haviam regressado a casa ao entardecer e descoberto o bilhete de Estella em cima da mesa da cozinha.
Ele voltou para me vir buscar como vos garanti que faria, Por-favor, no fiquem zangados. Regressarei em breve.
Pablo teria enfiado novamente o punho na parede no fora a sua mulher ter-se colocado entre ele e o buraco que deixara na parede da ltima vez, suplicando-lhe que
se acalmasse e pensasse racionalmente.
-  uma bno que ele a tenha vindo buscar - insistiu ela, apertando as mos em angstia. - Mais ningum a quereria.
- E parece-te que ser uma pessoa muito respeitvel? - argumentou furiosamente. - Nem sequer se dignou em pedir a mo dela em casamento.
- Casamento? - gaguejou Maria.
- Claro. No pode plantar a semente dele no ventre dela e furtar-se a despos-la.
- Talvez tenha sido por isso que no quis conhecer-nos. Talvez no tenha quaisquer intenes de casar com ela.
- H-de casar com ela. Por Deus, h-de casar com ela ou condeno-o ao Inferno!
- Onde vais? - gritou Maria, ficando impotente ao ver o marido sair de casa a passos largos.
- vou encontr-los - respondeu, subindo para a sua ferrugenta camioneta e desaparecendo colina abaixo.
Pablo Rega no sabia por onde havia de comear a procurar, sabia apenas que tinha de procurar ou enlouqueceria de raiva. Conduziu ao longo da costa em direco a
Cachagua. O Sol comeava a mergulhar no horizonte, fazendo com que a ondulao no mar brilhasse com uma luminosidade quente e roscea. Pensou na filha e no milagre
do seu nascimento
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No iria permitir que um rufia irresponsvel arruinasse tudo agora. No, depois de terem suado sangue para a criarem. Ao aproximar-se de Cachagua, decidiu perguntar
por ela na casa dos seus anteriores patres, Dom Ignacio e Senora Campione. No fazia ideia de onde a poderia encontrar, e a casa deles pareceu-lhe um bom lugar
para comear a sua busca.
Conduziu pelo caminho de areia at  vila que repousava calmamente sob a luz de fim de tarde, aparentemente deserta, no fora o rafeiro de trs pernas que farejava
o cho com avidez. Quando viu um carro estacionado frente  casa de Dom Ignacio, o corao saltou-lhe no peito pelo menos havia algum em casa. Se Estella precisasse
de ajuda, fosse de que tipo fosse, sem dvida que recorreria  Senora Mariana, de quem muito gostava. Olhou para o seu reflexo no espelho, lambeu a mo e alisou
o seu fino cabelo num esforo para parecer respeitvel. Depois saltou da carrinha e sacudiu a camisa e as calas. Abotoou os botes at ao peito, deixando alguns
abertos para expor o medalho em prata da Virgem Maria, que trazia sempre ao pescoo para lhe dar sorte e para o proteger contra a ocasional alma maligna que o amaldioasse
no cemitrio. Depois respirou fundo, lembrando-se de encolher a barriga e endireitar os ombros, e avanou em direco  porta da frente.

Hesitou um momento antes de tocar  campainha. As altas accias elevavam-se acima dele como sentinelas. A casa era to grande quanto uma fortaleza. De repente, sentiu-se
atrapalhado e envergonhado por ter ido at l. Para alm disso, no saberia o que dizer. Os vivos deixavam-no mudo. Preparava-se para dar meia volta e partir quando
escutou vozes vindas do outro lado da casa. Estacou e ps-se  escuta. No restavam dvidas de que o riso era o de Estella. Tinha um riso muito peculiar, como o
borbulhar de um rio alegre. Pablo adorava aquele riso mais do que qualquer outro som na Terra e sentiu uma sufocante fria apertar-lhe de novo a garganta. Cerrou
os punhos e os dentes como um touro prestes a ser toureado pelo toureiro. Tocou  campainha.
O riso cessou de imediato, dissolvendo-se em sussurros urgentes e no leve som de passos. Pablo tocou de novo  campainha. Depois esperou completamente imvel, como
que a conservar toda a sua energia para a luta. Aps uma longa pausa a porta foi aberta por Dom Ramon Campione.
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- Posso ajud-lo? - perguntou educadamente. Pablo procurou as palavras certas, mas nunca fora muito bom a exprimir-se por slabas para pessoas vivas, por isso limitou-se
a puxar o brao atrs e a empurrar o punho contra o orgulhoso queixo do seu adversrio, fazendo o enorme homem cambalear para dentro de casa, onde se estatelou no
cho e lanou um olhar de indignao e espanto a Pablo Rega.
- Hijo de puta!- exclamou Ramon, tirando a mo da ferida e constatando que tinha sangue. - Porque raios foi isso? - Mas sabia.
- Pap - gritou Estella. - Que foste fazer? - arquejou horrorizada ao ver Ramon cambalear para se pr de p, o lbio pingando sangue.
- Como se atreve a roubar a minha menina? - gaguejou Pablo, furiosamente, de punho em riste para lhe bater outra vez.
- Ele no me roubou, pap, eu vim de livre vontade. No leram o meu bilhete? - interrompeu ela com exasperao, colocando-se bravamente entre o pai e o amante. -
J chega, pap - ordenou. - J fizeste o suficiente!
- Case com ela, senor - Pablo apontou um dedo ameaador a Ramon, que olhava para o pequeno e atarracado homem com impacincia.
- Coloca-se o pequeno problema de eu j ser casado - retorquiu Ramon num tom irreverente.
A cara de Pablo tornou-se rubra e os seus lbios comearam a tremer.
- Ento, o que vo fazer? - perguntou numa voz rouca, abanando a cabea de incredulidade.
- Pap, por favor entra para que possamos discutir isto com calma - disse Estella, agarrando o pai pelo brao e conduzindo-o para dentro de casa. Ramon ficou a v-los
atravessar o vestbulo e a sala de estar
e a sarem para o terrao. Reparou como a confiana dela crescera em conjunto com o beb e admirou-a por isso. Recordava-se ainda da tmida rapariguinha que seduzira
e sorriu apesar do queixo latejante.
Pablo afundou-se numa cadeira e olhou a filha com uma resignao sorumbtica. Estella sentou-se frente a ele, colocando as mos sobre a sua avultada barriga. Ramon
deixou-se ficar na soleira da porta com os braos cruzados. Deixou que Estella conduzisse a conversa; no tinha
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qualquer desejo de adular o idoso. No que dizia respeito a Ramon, a sua ligao amorosa com Estella no tinha nada a ver com mais ningum a no ser eles os dois.
- Pap, eu amo o Ramon. Ele  o pai do meu filho e quero estar com ele. O casamento no me interessa. O Ramon comprar-nos- uma casa em Cachagua e assegurar-se-
de que ficaremos bem.  isto que eu quero - declarou ela, calmamente.
- A tua av daria voltas na campa - murmurou Pablo, contemplando a filha com olhos lacrimejantes.
- Ento, ter de dar voltas, meu pai - respondeu Estella num tom resoluto.
- Ests a cometer adultrio. Deus castigar-te- - argumentou ele, tocando por instinto no seu medalho de prata da Virgem Maria. Castigar-vos- a ambos.
- Deus compreender - disse Ramon, que detestava a forma como a Igreja mantinha toda a gente na linha enchendo o corao das pessoas de medo.
- O senhor  um homem ateu, Dom Ramon.
- Longe disso, senor, sou um crente. Apenas no acredito cegamente nos disparates que me so ditos por mortais fracos, que se auto-apelidam de sacerdotes e afirmam
estar em constante dilogo com Deus. No so mais piedosos do que eu.
- Paizinho, o Ramon  um bom homem.
- Tem  sorte em no ser um homem morto - replicou Pablo, levantando-se da cadeira. - Muito bem, vive em pecado, se  isso que queres. J no te conheo.
- Pai, por favor! - suplicou Estella, lacrimosamente, lanando os braos em redor do pescoo dele. - Por favor, no me vires as costas.
- Enquanto estiveres com este homem ateu e egosta, no quero ver-te - declarou num tom pesaroso. Estella seguiu o pai at  carrinha. Tentou convenc-lo a dar uma
oportunidade a Ramon, mas Pablo recusou-se a escut-la. - Depois de tudo o que fizemos por ti... - acrescentou ainda antes de rodar a chave na ignio.
- Pap, por favor, no te vs embora assim - soluava ela. Porm, ele acelerou caminho acima sem sequer olhar uma ltima vez para a filha pelo espelho retrovisor.
Estella deu  luz um menino no mesmo hospital de Valparaso onde ela mesma nascera h vinte e dois anos. Ramon ficou orgulhoso como
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qualquer pai e segurou a minscula criatura nas suas enormes mos, declarando que se chamaria Ramon. Encostou os lbios  pintalgada testa do beb e beijou o filho.
- Ramon Campione - afirmou, e sorriu para Estella. - No precisamos de nenhum casamento quando temos Ramoncito para nos unir.
Estella sentia terrivelmente a falta da me. O parto fora doloroso sem as suas ervas e palavras reconfortantes. Ansiava por entrar em contacto com ela, mas temia
que a rejeitasse. As duras palavras do pai haviam provocado uma profunda ferida que a deixara a sentir-se isolada e mais dependente de Ramon do que nunca. Um ms
depois do nascimento, mudaram-se para uma bonita casa que Ramon comprara mesmo nos arrabaldes de Zapallar, para que ela pudesse estar perto dos pais e dos amigos
com os quais crescera. Garantira-lhe que, a seu tempo, o pai acabaria por ser razovel e perdoar-lhe.

- O tempo tudo cura - declarara ele, sabiamente. - At o meu pai talvez um dia me perdoe por ter deixado a Helena partir.
No final de Outubro, Ignacio e Mariana tinham-se mudado para a casa de Cachagua para a passarem o Vero. Mariana contratara uma nova empregada chamada Gertrude,
uma mulher azeda e com uma certa idade que no tinha nada de agradvel para dizer acerca de ningum e que se queixava constantemente sobre o seu estado de sade.
Ignacio gostava dela porque Gertrude era to desagradvel que ele no tinha de fazer sequer o esforo de ser simptico com ela. Na verdade, ela reagia melhor  ndole
embirrenta de Dom Ignacio do que reagia a Mariana, que tentava modific-la com palavras gentis e sorrisos. Certa vez, quando Mariana mencionara insensatamente Estella,
Gertrude achara por bem inform-la que corria o rumor de que Estella dera  luz um macaco em resultado directo de ter engravidado fora do casamento. " o que acontece
a quem desobedece aos mandamentos de Deus", declarara a criada com leviandade.
Nunca ocorrera a Ignacio e Mariana que o seu filho pudesse ser o pai.
- Sinto falta da Estella - confessou Mariana ao marido.
- Pois - respondeu este, dispondo as peas de um gigantesco quebra-cabeas em cima da mesa de jogo na sala de estar.
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- Como  que a Gertrude consegue ser to cruel! com franqueza, um macaco! - suspirou num tom de impacincia. - Onde  que estas pessoas vo ouvir disparates deste
gnero?
-  folclore, mulher - respondeu Ignacio, compondo os culos.
- Sim, mas qualquer ser humano inteligente deve perceber que tal nunca poderia ser.
- Acreditas em Deus, no acreditas?
- Sim.
- Mas no tens provas.
- Nacho!
-  apenas um exemplo, mulher.
- A um nvel completamente diferente.
- Como queiras - cedeu ele na esperana de que ela o deixasse em paz para se concentrar no seu quebra-cabeas.
- Sabes, estava capaz de descobrir onde Estella mora e ir visit-la. S para me certificar de que est bem.
- Como quieras, mujer - repetiu impacientemente. Mariana abanou a cabea e deixou-o entregue ao passatempo. "As insignificncias a que a minha mulher d ateno
nunca cessam de me espantar", pensou ele depois desta ter sado, e sentou-se para dar incio  sua tarefa.
Ramon observou o filho a dormir no seu bero. O beb no se mexia, nem sequer se contraa. Mais uma vez entrou em pnico, temendo que o filho pudesse estar morto.
Curvou-se sobre o bero para lhe escutar a respirao. Como no escutou nada, aproximou o rosto do beb para sentir a respirao deste na sua face.
- Mi amor, ests outra vez preocupado? O Ramoncito est vivo e de sade - sussurrou Estella, colocando a roupa lavada na cmoda.
- Queria ter a certeza. - Sorriu envergonhadamente para ela.
-J te tinhas esquecido de como era - gracejou ela, beijando-lhe o rosto.
- Sim,  verdade.
- Vai v-los - disse ela de repente.

- O qu?
- Vai visitar os teus filhos, Ramon.
- Porqu?
- Porque eles precisam de ti.
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- No posso.
- Claro que podes. Se me deixasses e comeasses uma famlia com outra mulher, eu gostaria de pensar que continuarias a ser um bom pai para o Ramoncito.
- No vou deixar-te, Estella - afirmou ele num tom firme.
- No foi isso que quis dizer. Aquelas crianas precisam que sejas pai delas. O que quer que tenha corrido mal entre ti e a Helena no tem nada a ver com elas. Se
no fores, os midos culpar-se-o a eles mesmos. De certeza que tm saudades tuas e sentem a tua falta. Olho para o Ramoncito e vejo como  vulnervel e inocente.
Precisa de ns os dois.
- Um dia irei - respondeu com indiferena.
Estella era a primeira mulher com quem alguma vez estivera que no lhe pedia que ficasse. Ficou surpreendido que ela tivesse sugerido que fosse visitar os filhos.
Comeou de sbito a preocupar-se que estivesse a ficar farta dele. Era vinte anos mais nova que ele. Talvez ansiasse por um homem da idade dela. Depois tranquilizou-se
com a ideia de que Estella no poderia querer outra pessoa. Ele era o pai do seu filho. Estella prometera-lhe tambm que nunca se queixaria se ele partisse, desde
que regressasse de tempos a tempos. A ironia era que agora no queria ir a lado nenhum. Podia escrever ali em casa, fazer longos passeios pela costa, nadar no mar,
fazer amor durante a tarde e apreciar o crescimento do seu filho todos os dias. Apercebeu-se de que os poemas lhe surgiam mais fcil e naturalmente. No precisava
de encontrar as palavras em locais longnquos, estavam mesmo ali na casa junto  praia. Estella lia-os e quando os compreendia chorava. Nunca lhe perguntou quando
planeava partir e nunca mais voltou a sugerir que o fizesse. Contudo, as palavras dela haviam plantado uma semente na sua conscincia, e essa semente germinara.
Ramon sabia que ela tinha razo. Sabia que devia ir ver os filhos. Mas adiava sempre para amanh e o amanh ficava a muito tempo de distncia.
CAPITULO DEZASSETE
Polperro
Federica pedalou at ao posto dos correios com Hester para enviar a carta e o desenho que fizera para a av. O desenho contemplava a sua nova casa e as novas amigas,
Molly e Hester. Inclura tambm Sam, desenhando-o maior que todos os restantes, mesmo maior que a me e os avs. Hester admirara-o.
- Devias ser pintora como a minha me - elogiara ela. - S que a minha me no consegue desenhar pessoas, acabam todas a parecer-se com aves.
- Oh, eu acho que ela  muito boa.

- bom, quando ficares a conhecer a minha me melhor no ters muitos problemas em dizer o que realmente pensas - gracejara Hester. Federica tinha tambm uma carta
para enviar para o pai. No dissera nada  me e como no sabia a morada nova do pai, metera a carta no envelope endereado  av. Sabia que a aboelita se encarregaria
de lha fazer chegar. Na carta dizia ao pai que tinha saudades dele e que pensava nele todos os dias ao acordar e todas as noites antes de adormecer, pois essas eram
as alturas que reservava para a sua caixa da borboleta. Disse-lhe que ele tinha razo, que a caixa era mgica, pois quando a abria a sua mente voava de imediato
para locais distantes onde podia viajar sobre as nuvens, pescar peixes cor-de-rosa em rios argnteos e comer fruta deliciosa, diferente de qualquer fruta que alguma
vez vira. Depois pedia-lhe que viesse visit-los, pois estava a crescer depressa e se no viesse em breve no a reconheceria. Certa de que o pai viria, sem dvida,
fechara o envelope formulando um desejo.
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Federica passara quase o Vero todo com os Appleby, deixando a me concentrar a sua ateno em Hal. Polly cozinhava, limpava e tomava conta de Helena como se esta
fosse outra vez uma criana. Tudo o que ela lhe pedia era uma ordem. Jake limitava-se a revirar os olhos ao ver a mulher correr de um lado para o outro atrs da
filha, como se os ltimos dez anos no se tivessem passado. Polly insistia que estava apenas a fazer o que qualquer outra me faria pela filha. Jake no podia discordar;
no sabia o que as outras mes fariam, mas bastava-lhe olhar para Helena a correr atrs de Hal para saber que havia, pelo menos, alguma verdade nas desculpas da
sua mulher.
Hal nunca fazia nada de mal, pelo menos aos olhos da me. Tinha o cabelo brilhante do pai e olhos escuros e penetrantes nos quais Helena mergulhava e desaparecia
durante horas. Nesses momentos havia muito pouco que qualquer pessoa pudesse fazer para chamar a ateno dela. Helena ria-se das mnimas coisas que ele dizia, jogava
fosse qual fosse o jogo que ele sugerisse e elogiava-o mesmo quando ele no fizera nada que merecesse ser elogiado. Aos quatro anos de idade, Helena achava que o
filho era a criana mais inteligente e mais encantadora que alguma vez vira. Que estava muito avanado para a sua idade. Recusava-se, no entanto, a reconhecer os
seus estados de esprito, que oscilavam entre a completa ternura  fria cega e averso, sem qualquer razo aparente. Quando Hal inchava de raiva nem sequer Helena
conseguia fazer o que quer que fosse. Encontrava sempre desculpas para estes acessos, e se algum os mencionasse, virava-se ao acusador de garras estendidas. Federica
sabia instintivamente quando devia deixar a me e Hal sozinhos na companhia um do outro. A me no a amava menos, compreendia isso, Hal apenas precisava mais da
me do que ela. Afinal de contas, Hal no tinha amigos como Molly e Hester. Lucien e Joey incluam-no sempre nos seus lanches, mas Hal no era membro honorrio da
famlia Appleby como ela. Era demasiado pequeno.
Federica queria passar o Natal com Hester, mas Helena insistiu que ficasse em casa com a sua prpria famlia. "No s uma Appleby, s uma Campione", argumentara
ela para grande desapontamento de Federica, pois a cada dia comeava a sentir-se mais como uma Appleby. Ingrid comeou a decorar a manso em Outubro. Em vez de fitas,
fez grinaldas de flores de papel crepe, que pendurou pelos corrimes e em redor das
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cornijas no vestbulo e na sala de estar. A rvore foi enfeitada com grandes ovos de ganso, que ela pintou de cores festivas, e iluminada com um cordo de luzes
natalcias convencionais. No topo colocou um ninho onde Blackie se pudesse instalar. Para espanto de Federica, Blackie ficou deliciado com a sua nova cama. Nenhum
dos Appleby havia ficado nem um pouco surpreendido, pois no que dizia respeito a animais Ingrid tinha o toque de So Francisco. Porm, o mais surpreendente de tudo
era Nuno. Pelos vistos, no Natal, o Christmas puddin era feito por Nuno. Era uma ocasio cerimonial levada muito a srio. Toda a cozinha tinha de ser desimpedida
durante um dia inteiro. Mais ningum,  excepo de Sam, podia entrar, por isso a restante famlia tinha de almoar no pub enquanto Nuno flutuava pela cozinha num
estado de arrebatamento. At mesmo Inigo era arrancado aos seus livros de filosofia e aos seus humores sombrios e forado a juntar-se  diverso no The Bear and
Ball. Nuno achava-se um cozinheiro fenomenal.
- No tem tanto a ver com a quantidade certa dos ingredientes, meu rapaz, mas com a forma como a panela  mexida - explicou a Sam.
- No percebo qual o objectivo de cozinhar - respondeu Sam. Perde-se demasiado tempo na preparao e apenas um instante a consumir.
- "O beijo no dura. A culinria sim!" - citou Nuno no seu forado sotaque italiano.
- Essa escapa-me - admitiu Sam com irritao, depois de ter pensado nela por um momento.
Nuno esbugalhou os seus brilhantes olhos e tamborilou a bancada com a colher de pau.
- V, meu rapaz, pensa.
- Lamento, Nuno. No sei - cedeu, derrotado.
- Meredith Middleton.
-  claro! "O discurso  o troco do silncio" - suspirou Sam, abanando a cabea. - Essa era fcil.
- So sempre as fceis que nos traem, Samuel. E como sempre somos trados no final.
1. Sobremesa tradicionalmente servida no dia de Natal em Inglaterra e cujos ingredientes podem incluir, entre outras coisas, dependendo das receitas, frutos secos,
nozes, especiarias, banha, melao, sumo de fruta ou brande. (N. da T.)
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Para Federica, o Natal com os avs ia ser muito aborrecido em comparao com o dos Appleby. Polly e Helena decoraram a casa com flmulas tradicionais e a rvore
com fitas e ornamentos brilhantes. Federica teria ajudado, caso no tivesse preferido ajudar Hester a fazer presentes para todos os animais. Jake achava que o Natal
era demasiado sobrevalorizado e comeou a construir outro barco em miniatura, deixando cola e lascas de madeira por toda a casa para grande mortificao de Polly.
Helena achava as excurses dirias da filha at  casa dos Appleby excessivas e decidiu que Hal e Federica iriam fazer desenhos para presentear os avs e colocou-os
a trabalhar sentados  mesa da cozinha. "Quero os desenhos mais bonitos que conseguirem fazer e se isso no demorar pelo menos uma semana,  bvio que no esto
a faz-los da melhor maneira", dissera Helena, dirigindo os seus comentrios  filha. Federica ficou desanimada. Entregou-se  tarefa com pouco entusiasmo interrogando-se
a cada instante sobre o que Hester estaria a fazer na Pisthistle Manor.

Toby dissera aos pais que iria passar o Natal com a famlia de Julian em Shropshire. Ficaram magoados. No menos que no Natal anterior ou no Natal anterior a esse.
Porm, o intuito de Toby era que ficassem mesmo desgostosos. Enquanto o pai se recusasse a receber Julian ali em casa, f-lo-ia sofrer ausentando-se tambm.
Helena ficou furiosa e confrontou o pai acerca disso. "Ele  meu irmo e recuso-me a ficar de braos cruzados a ver-te trat-lo dessa forma. Ele no  nenhum leproso,
sabes? Est apenas apaixonado por um rapaz. Qual  o problema?", argumentara ela, iradamente. Porm, Jake no queria discutir com a filha. No era capaz de falar
sobre a homossexualidade do filho com ningum, nem sequer com a mulher. Sentia-se demasiado envergonhado. Helena no desistiu. Falava sobre Julian a cada oportunidade
que lhe surgia. "Fui a casa do Toby hoje com o Hal. O Julian  to querido com ele. Deixei-o com ele enquanto eu e o Toby fomos dar um passeio. No poderia ter ficado
em melhores mos. Era capaz de lhe confiar a minha vida", dizia, mas Jake ignorava-a, ou deixava a diviso onde a conversa estava a decorrer, ou mergulhava ainda
''mais o nariz nas entranhas dos seus barcos. Porm, Helena estava determinada a no permitir que a famlia fosse desmembrada devido a um preconceito
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antiquado, irracional e ridculo. No sabia bem como iria faz-lo, mas estava confiante de que, com o tempo, conseguiria rectificar a situao. Entretanto, sentia-se
entristecida. O Natal no seria a mesma coisa sem Toby.
Quando o Natal chegou, uma espessa camada de neve transformara Polperro num reino de gelo. O cu estava plido e chocho, o sol nada mais que uma bruma resplandecente
que pendia baixo, a oriente. As rvores pareciam ter hibernado, deixando apenas as suas cascas geladas para se defenderem do penetrante vento, apesar de nos seus
ramos nus algumas gralhas e um ou outro pisco enfrentarem o frio e procurarem abrigo a. Federica e Hal estavam encantados com a neve. Acordaram cedo e colaram os
narizes aos vidros gelados para se maravilharem com o jardim branco que se estendia silenciosamente sob a emergente luz da aurora. Tinham ficado to entusiasmados
com a neve que nenhum deles reparara nas meias recheadas de presentes que estavam aos ps das suas camas.
Trepando para a cama de Helena, Hal e Federica rasgaram excitadamente o embrulho de cada presente.
- Como foi que o Pai Natal nos encontrou em Inglaterra? - perguntou Federica  me, guinchando de alegria ao ver um novo estojo de pintura.
- O Pai Natal  muito esperto - respondeu ela, observando a forma como Federica dobrava cada pedao de papel de embrulho num ordenado monte, ao passo que Hal mandava
o seu para o cho para algum apanhar depois.
- Espero que tenha encontrado o pap em Santiago - referiu Federica, recordando-se que ambos os pais costumavam tambm receber meias com presentes. - Gostava que
ele estivesse aqui - disse ela num tom triste, virando um dos presentes ao contrrio com cuidado. Queria que a visse abrir os seus presentes, embora soubesse que
nenhum presente alguma vez suplantaria a caixa da borboleta que ele lhe dera. Onde est a tua meia, mam? - inquiriu Federica reparando que Helena no tinha nada
para abrir.

- O Pai Natal deixou-a  porta do nosso quarto por engano - respondeu Polly, entrando no quarto em camisa de dormir e chinelos e com o seu comprido cabelo grisalho
solto pelos ombros. Estendeu a meia  filha.
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- Obrigada, me. - Sorriu para ela, abrindo espao para que se juntasse a eles na cama. Polly sentou-se e acariciou o rosto da filha com a sua enorme mo.
- No me agradeas a mim, agradece ao Pai Natal - corrigiu e piscou o olho.
Federica tomou o seu pequeno-almoo em silncio. Adorara os seus presentes, em especial o Snoopy que vinha com diferentes fatiotas para que pudesse mudar de roupa
de acordo com a ocasio. A av colocara pequenos presentes no lugar de cada um  mesa do pequeno-almoo, e o av acendera as luzes da rvore dando  casa um aspecto
festivo. Adorava a neve e ansiava por correr l para fora para brincar com ela. Porm, nada poderia compensar a ausncia do pai. Tentou no pensar nele, no era
suposto ficar triste no dia de Natal e no queria estragar o dia  me, ficando de mau humor, contudo, apesar dos sorrisos que ia esboando, tinha tantas saudades
do pai que s lhe apetecia chorar.
Helena reparou nos olhinhos brilhantes da filha e percebeu de imediato o que se passava.
- Porque  que tu e o Hal no terminam o pequeno-almoo e vo l para fora brincar? Podem fazer um boneco de neve se quiserem sugeriu amavelmente, esperando que
a neve a pudesse distrair. Mas nada teria esse efeito.
Federica no queria ir  igreja, muito embora soubesse que os Apple by l estariam. No lhe apetecia. No lhe apetecia ver as restantes crianas com os respectivos
pais, olhando para si e interrogando-se porque no tinha um tambm. Queria esconder-se. Porm, a me no o permitiu e argumentou que ela devia ir  igreja agradecer
a Deus por todas as coisas maravilhosas que Ele lhe dera ao longo do ano e por ter dado ao mundo o Menino Jesus. A caminho da igreja pensou no que a me dissera.
Deus dera-lhe bastantes coisas maravilhosas, como Hester, por exemplo, e tambm gostava de Polperro. No entanto, no conseguia deixar de se sentir desiludida. Se
Deus podia dar-lhe Hester, porque no podia dar-lhe o pai de volta? Resolveu perguntar-Lhe isso nas suas oraes.
Dizia-se que a igreja era to antiga que vinha enumerada no Doomsday Book. Toby levara Federica at l pouco tempo depois de terem
1. Registo escrito do grande levantamento topogrfico de Inglaterra completado em 1086 e executado a mando do rei Guilherme I de Inglaterra. (N. da T.)
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chegado a Polperro para lhe mostrar a sepultura de Old Hatty Browne, a bruxa acusada de feitiaria e queimada pelos aldees em 1508. Toby acrescentara sombriamente
que em noites muito lmpidas ela era muitas vezes avistada no ptio a recolher ervas para as suas poes, que depois dava aos mortos. Federica ficara encantada e
quisera saber mais, por isso tinham ficado a conversar at ao entardecer sentados entre os narcisos.

A igreja em si era pequena e graciosa, de telhado inclinado e prtico vacilante, rodeada por sepulturas nevadas e um pequeno muro de tijolo para manter os ces do
lado de fora. Por alguma razo inexplicvel, no havia nada que mais gostassem do que levantar a perna para as lpides. Nuno explicara que tal se devia ao pungente
odor dos falecidos que tornava a terra irresistvel para os ces, mas Inigo lamentava tal falta de respeito e dizia que eles gostavam de "mijar nos mortos porque
no podiam mijar nos vivos". A nave e o coro apenas tinham capacidade para sentar cerca de cinquenta pessoas, mas devido ao diferente carisma do reverendo Boyble,
raramente havia um lugar vazio na igreja. Helena educara os filhos segundo os preceitos da f catlica porque Ramon era catlico, mas agora que estava de volta a
Inglaterra e sozinha, regressara  f protestante na qual crescera. Dava-lhe uma maior sensao de pertena.
Toda a gente se aperaltara com os seus melhores casacos e chapus. Federica enfiara-se num antigo casaco de tweed que pertencera  me e que Polly mantivera bem
guardado numa grande caixa branca, embrulhado em papel de seda. No gostava muito dele por ser spero e por lhe ficar um pouco pequeno, porm Helena achara que ela
ficava muito elegante com ele e recusou-se a permitir que o despisse. Em consequncia, passou o servio religioso todo a dar puxes na gola do casaco. A igreja cheirava
a pinheiro e a perfume misturado com o aroma a cera das velas. Mrs. Hammond tocava o rgo com alguma insegurana e impreciso, o seu rosto enrugado pressionado
contra a partitura porque era demasiado orgulhosa para admitir que precisava de culos. Um murmrio percorreu a congregao quando a famlia Appleby entrou e tomou
o seu lugar nos bancos da frente. Nuno encabeava o cortejo caminhando sobre os bicos dos ps, com o seu nariz de tartaruga no ar e uma expresso devota no rosto.
"Meninas, no so um par de pinguins piedosos. Dem as mos  frente do corpo como se fossem virgens vestais", sibilou para Molly e Hester cujos ombros se curvaram
e estremeceram, ao
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mesmo tempo que se esforavam por suprimir risadinhas. Hester cruzou o olhar com o de Federica ao passar e piscou-lhe o olho. Federica forou um pequeno sorriso
em resposta, mas no tinha vontade de sorrir. Ingrid passou majestosamente numa espcie de turbante de veludo e vestido comprido de veludo verde que chegava ao cho
e arrastava atrs de si como se fosse uma noiva. Cumprimentou toda a gente com um aceno gracioso da sua nobre cabea, mas no viu o rosto de ningum porque os seus
olhos se haviam toldado com a beleza da msica. Inigo arrastava-se atrs num casaco acolchoado castanho, j coado, e chapu de feltro puxado para cima do seu rosto
mal-humorado seguido por Sam, j entediado, Bea numa saia curta, Lucien ejoey.
Depois de os Appleby se terem acomodado nos seus lugares, o reverendo Boyble saltitou para o centro da nave como um sapo folgazo. Os seus bolbosos olhos castanhos
varreram alegremente os rostos atentos da sua congregao e esboou um sorriso muito largo e cativante.

- Bem-vindos - cumprimentou, transbordando de entusiasmo, numa voz surpreendentemente aguda e delicada. - Sejam todos bem-vindos. Hoje  um dia especial porque 
o aniversrio de Jesus. - Sam bocejou, abrindo a boca como um hipoptamo. O reverendo Boyble reparou nisso e gracejou. - Vejo que alguns de vs prefeririam estar
na cama nesta gloriosa manh, ou talvez estejam cansados de abrir tantos presentes. Estou-vos grato por terem feito o esforo de vir. - Sam sentou-se muito direito
e tentou impedir que o seu rosto corasse concentrando-se no crucifixo pendurado por cima do altar. - Esforo, mmmmm... - murmurou o reverendo pensativamente, esfregando
os polegares na capa do seu livro de oraes. - O esforo  algo virtuoso.  fcil permitirmos que a preguia nos conduza pelo caminho do mal. Interrogo-me se todos
vs conheceis a histria dos dois sapos na tigela de leite. - Contemplou os rostos dos paroquianos que o olhavam expectantes. - Estavam presos e no conseguiam sair.
Teria sido muito fcil para o sapo maior pisar o sapo mais fraco, assegurando assim um trampolim para sair dali. Porm, o sapo mais forte no escolheu a opo mais
simples. Ao invs disso, continuou a espernear e a espernear em conjunto com o sapo mais fraco num esforo hercleo para se lanar por cima da tigela. bom, os seus
esforos foram recompensados. Espernearam e pontapearam com tanta fora e durante tanto tempo que o leite se transformou em manteiga, permitindo assim que saltassem
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para fora da tigela sem qualquer problema. Isso  esforo, minha boa gente. E acarreta as suas prprias recompensas. - Um rumor surdo de admirao e aquiescncia
alastrou pela congregao. - Hoje  o aniversrio de Jesus, por isso celebremo-lo com o primeiro cntico de Natal da folha referente ao servio religioso de hoje,
Away in a Manger.
Federica conhecia alguns cnticos de Natal porque haviam cantado alguns na escola no Chile, embora a letra fosse em espanhol. Passara-se uma eternidade desde a ltima
vez que falara em espanhol, pensou tristemente, e tentou acompanhar o cntico em voz baixa da forma como lhe fora ensinado em Vina. De repente, toda a saudade e
anseio que sofrera em silncio durante tanto tempo rebelou-se contra a sua fraquejante fora de vontade e abriu caminho at  sua garganta, fazendo-lhe os olhos
encherem-se de lgrimas e o queixo tremer. No seu pensamento, viu cenas do seu passado desenrolarem-se  sua frente como uma viso de um mundo perdido. O seu corao
estacou ao ver o rosto moreno do pai emergir em toda a sua magnificncia, e por muito que tentasse conter as lgrimas estas rolaram-lhe pelas faces abaixo porque
procurara amor nos olhos dele, mas apenas encontrara indiferena. De repente sentiu-se desesperadamente vazia e triste. Todas as horas desperdiadas a acreditar
que ele viria visit-los. Que ingnua fora! O pai esquecera-se obviamente deles, pois era Natal e ele nunca antes deixara de estar presente no Natal. Sabia agora
que ele nunca mais viria e ficou ainda mais desanimada do que alguma vez estivera. Helena colocou-lhe a mo no ombro, pressentindo a angstia da filha. Tambm ela
sentia falta do Chile e, estranhamente, de Ramon. Contudo, estava mais habituada a esconder a sua melancolia e cantou com mais empenho.
Durante o sermo o reverendo Boyble falou sobre o significado do Natal com grande entusiasmo.

- O Natal  uma altura de amor e perdo - pregou. Federica escutou estas palavras mas no sentia qualquer amor ou indulgncia, apenas uma ferida dolorosa que se
recusava a sarar.  medida que a dimenso total da rejeio do pai se apoderava do seu entendimento, a sua viso toldou-se at as velas brilharem como pequenos sis
e o reverendo Boyble ficar reduzido a um borro escuro, a sua voz pouco mais que um tnue sussurro  distncia. Sentia calor e picadas na pele enquanto encetava
um ltimo esforo por suprimir um soluo, porm, o seu peito era pequeno de mais para suportar uma tirada to violenta. Levantou-se
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abruptamente e avanou, sem ver, pela frente dos avs, que olharam um para o outro espantados, correu nave abaixo, empurrando a pesada porta de carvalho, e saiu
para a rua onde pde por fim extravasar os seus sentimentos e gritar para o ar gelado.
Segurando o estmago, inclinou-se e chorou devido  injustia do mundo. Detestava o Natal e detestava Inglaterra. De repente sentiu uma mo pesada nas costas. Parou
de chorar e endireitou-se. Limpando o rosto com a luva, rodou a cabea e deparou-se com os olhos escuros do pai a olhar para os seus com amor e remorso. Engoliu
em seco e pestanejou.
- Pap? - pronunciou, recuperando o flego com surpresa.
- Fede. Desculpa. - Puxou-a a pontapear e a gritar para os seus braos.
- Odeio-te, odeio-te! - soluava ela enquanto o pai a segurava num forte abrao, enterrando a sua cabea no pescoo dela, sussurrando palavras de ternura e encorajamento.
Ao sentir-se envolvida pelo familiar odor do corpo dele, Federica fechou os olhos e parou de se debater, cedendo  segurana dos braos do pai, conquistada pelo
seu amor por ele. Por fim, ele agachou-se e segurou-a pelos estreitos ombros.
- Senti a tua falta - afirmou de forma enftica. Desejava ter sentido a falta dela h bem mais tempo. - Recebi a tua carta - acrescentou, sorrindo para ela com uma
expresso acanhada.
- Foi por isso que vieste?
- No. Eu viria de qualquer maneira ver-vos. Tenho apenas andado demasiado ocupado. Mas a tua carta fez-me compreender que no podia esperar mais.
- Fico contente que aqui estejas - disse ela e sorriu timidamente.
- Ah, assim est melhor. - Limpou-lhe o rosto com os polegares.
- Tens tanta coisa para me contar! Tens vivido uma aventura. Quero que me contes tudo. Gostas de Inglaterra?
- Mais ou menos. Tenho uma grande amiga chamada Hester fungou ela, animando-se.
- Ento, e o co que a me te ia comprar? - perguntou ele.
- Ainda no comprou. Ramon arqueou as sobrancelhas.
- Queres um como presente de Natal?
- No, obrigada. s tu o meu presente de Natal e no poderia pedir nada melhor.
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Ramon tinha j esquecido o quanto amava a filha. Fora demasiado fcil de esquecer. Mas agora, ao abra-la de novo, o seu corao palpitava de ternura.

De repente a porta da igreja abriu-se com um gemido grave e Helena emergiu. Ao ver Federica nos braos de um estranho preparou-se para protestar, mas reconheceu
de imediato os ombros e as costas largas e sentiu a cabea andar  roda de incerteza. Quando ele se voltou para ela, Helena ficou a olh-lo, pestanejando de boca
aberta, sem saber o que dizer e combatendo o impulso de o esbofetear e repreender por no ter vindo mais cedo.
- Helena - disse Ramon, sorrindo para ela.
Helena no conseguia tirar os olhos dele, o seu rosto plido contra a luz azulada de Inverno, os lbios tremendo, tentando encontrar palavras.
- Ramon - respondeu, confusa. Depois acrescentou desajeitadamente: - Que fazes aqui?
- Como no estava ningum em casa, presumi que estivessem na igreja - respondeu ele num tom casual, como se fosse uma visita habitual.
- Sim, estamos na igreja - retorquiu num tom severo, recuperando a capacidade de raciocnio. - Estamos na igreja. Agora se no te importasses de largar a Fede, gostaramos
de assistir ao resto do servio religioso - disse no mesmo tom, agarrando Federica pelo brao.
- Eu no quero deix-lo - sibilou Federica, agarrando-se  mo dele.
- Fede, o pai ainda aqui estar quando sairmos.
- Eu no quero deix-lo - repetiu Federica antes de se desfazer de novo em lgrimas.
- Parece que terei de me juntar a vocs - aventou Ramon com um sorriso, apertando a mo da filha.
Helena franziu os lbios e soltou um longo suspiro.
- No h muito espao - argumentou, no querendo incitar a curiosidade da congregao ao regressar nave acima com Ramon.
- Hei-de encontrar um buraquinho - contraps ele, encolhendo os enormes ombros.
- Como queiras - concedeu Helena, abrindo a porta com relutncia.
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Ramon seguiu-a para o interior da igreja que parecia mais pequena dada a total dimenso do seu porte e carisma.  medida que avanavam pelo corredor, Helena sentiu
inmeros pares de olhos curiosos, desejosos de saber quem era o estranho e moreno estrangeiro. Contudo, Federica deu-lhe a mo de forma orgulhosa para que ningum
duvidasse que era o seu pai.

Os olhos de Jake e Polly esbugalharam-se de surpresa quando Helena lhes pediu que se apertassem mais um pouco para dar espao a Ramon. Ficaram sentados a olh-lo
fixamente com a boca aberta como peixes em terra seca. Por sorte, o reverendo Boyble estava ainda alegremente a proferir o seu sermo sobre o significado do Natal,
por isso no tiveram oportunidade de lhe fazer perguntas ou dar voz  sua surpresa. Federica sorria de orelha a orelha para o pai e segurava a sua enorme e quente
mo no meio das suas para impedir que ele se fosse embora. Hal apertou-se mais contra a me, pressentindo a inquietao dela e sentindo receio, embora no compreendesse
porqu. Helena desejava agora no se ter mostrado to hostil, mas ficara em choque, que esperara ele? Bem que podia t-la avisado. Uma carta ou um telefonema teria
sido de bom-tom. Ficou de cabea pendida a olhar para o seu livro de oraes, tentando retirar alguma paz das palavras escritas nas suas pginas, tudo menos olhar
para ele. Debatia-se entre o seu orgulho, que ansiava por que ele a visse feliz e bem estabelecida e lamentasse t-la deixado partir, e o seu corao, que sofria
com o peso das suas memrias e ainda suspirava por ele. Ramon recostou-se e observou os rostos desconhecidos em seu redor. Depois fixou o seu olhar na filha, cujo
rosto hmido das lgrimas reluzia de amor e orgulho. Estava feliz por ter decidido vir.
CAPTULO DEZOITO
Uma vez terminada a missa, a igreja transformou-se numa festa paroquial  medida que as pessoas desejavam umas s outras um feliz Natal. Ramon apertou a mo a Jake
e beijou Polly no rosto como se os tivesse visto na semana anterior. Segurou Hal, relutante e a contorcer-se, nos braos e deu-lhe um beijo antes de o devolver a
Helena.
- Admiras-te que ele no te reconhea? - inquiriu ela. Ramon baixou os olhos e abanou a cabea.
- Lamento. No foi minha inteno deixar passar tanto tempo respondeu, envergonhado.
- Nunca  - retorquiu ela, amargamente.
Federica pegou-lhe pela mo e conduziu-o pelo meio da multido de estranhos para conhecer os Appleby.
- Este  o meu pai - apresentou-o com orgulho a Ingrid, que estendeu a mo com graciosidade.
-  um enorme prazer conhec-lo. A Fede falou-nos imenso de si
- cumprimentou ela com um sorriso largo.
- Deve ser a me da Hester - referiu Ramon. O rosto de Ingrid espelhou o seu espanto.
- Sim, sou de facto - confirmou, interrogando-se como fora que ele descobrira.
- A Fede tem muita sorte em ter a Hester por melhor amiga acrescentou ele. Federica apertou-lhe a mo porque o pai nada sabia acerca de Hester a no ser o que ela
lhe contara l fora.
Ingrid colocou o monculo no olho para o observar em mais pormenor. Era devastadoramente garboso, com os olhos remotos e misteriosos de um lobo. Achou tambm o sotaque
dele muito encantador; o dele era genuno, o de Nuno no.
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- Venha comigo, gostaria de o apresentar ao resto da famlia - declarou ela, apontando para o pai e o marido a conversarem um com o outro porque achavam a tagarelice
ps-missa superficial e entediante. Ambos ansiavam por regressar a casa e aos seus livros e afazeres. - Pai, Inigo,  com muito prazer que vos apresento Ramon Campione
anunciou ela com um generoso sorriso. - No  a coisa mais encantadora que Polperro alguma vez viu?
Ramon riu para esconder o seu desconforto, mas o sorriso de Federica cresceu a ponto de lhe engolir todo o rosto.
- com franqueza, querida, no devias julgar as pessoas pela aparncia. Peo desculpas pela minha mulher - disse Inigo, apertando firmemente a mo a Ramon.
- "S as pessoas fteis no julgam pelas aparncias" - comentou Nuno, cumprimentando Ramon com uma pequena vnia.
- Ah, vejo que  um admirador de Oscar Wilde - respondeu Ramon, fazendo uma vnia.
Os olhos de Nuno confirmaram a sua aprovao.
- Tambm o senhor. Tenho-o agora ainda em mais estima. Quando nos dar o prazer de um almoo? Gostaria muito de lhe mostrar a minha biblioteca - afirmou Nuno, virando-se
para a filha e erguendo uma sobrancelha. - Percebi logo que a jovem Federica era oriunda de uma famlia culta.

- Ramon  um escritor famoso - referiu Ingrid, que sabia tudo sobre ele por intermdio de Helena. -  muito conceituado no Chile.
- Soube que tomou a minha filha sob a sua proteco - disse Ramon. - Estou-lhe muito grato.
Ingrid deu umas pancadinhas na cabea de Federica como se esta fosse um co muito bem comportado.
- O prazer  meu. As minhas filhas adoram-na. O meu pai tem razo, Ramon, tem de vir almoar connosco. Quanto tempo est a pensar ficar? - inquiriu, esperando que
ficasse por um longo perodo. No havia nada que mais gostasse do que de pessoas exticas.
- No sei ainda.
- Sublime! Adoro um homem que encara um dia de cada vez. A melhor forma de viver a vida. Dura mais dessa forma - disse ela a rir-se. Depois inclinou-se para ele
e sussurrou: - Convidmos o vigrio para almoar connosco hoje, por isso talvez seja melhor regressarmos
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a Pickthistle Manor. No se esquea do nosso almoo, sim - voltou a lembrar. - Amanh?
- com certeza. Ser um prazer - respondeu com uma corts inclinao da cabea.
- ptimo. Fica ento para amanh. Traga a Helena e os midos.  sempre uma alegria ver a sua mulher.
Helena ficou furiosa.
- Queres andar a pavonear-nos como se fssemos uma famlia? vociferou. - Como te atreves a aparecer aqui e a tomar conta de tudo?
- No estou a tomar conta de nada. Vim ver os meus filhos. No era isso que querias?
- Chegas aqui sem uma nica desculpa por no teres escrito, no teres telefonado, no estares aqui quando os teus filhos precisam de ti.
- Estou aqui agora - respondeu Ramon.
- Ests aqui agora, mas amanh j estars longe. J tinha desistido de ti. Era mais fcil desistir. Agora ests de volta e eu j no sei mais onde estou - queixou-se
e cruzou os braos no peito num gesto de obstinao.
Ramon encolheu os ombros e suspirou. No valia simplesmente a pena discutir com ela. Observou as suas feies rgidas, a linha de amargura nos seus lbios, a pele
retesada, os olhos glidos e ento recordou-se porque abrira mo dela.
- Que mais posso eu dizer? Lamento - arriscou numa tentativa de alterar a expresso dela.
Os lbios de Helena crisparam-se enquanto ponderava a sua prxima manobra.
- No quero que a Fede nos oia outra vez a discutir - declarou. - Vamos dar um passeio e falar disto calmamente.

Avanaram pela vereda acima, atravessando um porto de madeira coberto de musgo, e caminharam pelos campos e bosques. Helena acendeu um cigarro e soprou o fumo para
o ar glido, onde ficou a pairar como nevoeiro. Ramon ficou desanimado por constatar que Helena no mudara nem um pouco ao longo dos meses em que haviam estado separados.
Continuava to infeliz como sempre. Nem sequer se dera ao trabalho de lavar o cabelo para ir  missa. Estava desapontado. Foi acometido por uma estranha sensao
de dj vu em conjunto com aquelas estranhas contraces na barriga que o avisavam que estava na hora de partir.
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- Ento, quanto tempo pretendes ficar? - perguntou ela enquanto caminhavam pelo campo, as botas a triturar a neve que comeava a derreter,
- Ainda no sei - respondeu Ramon, debatendo-se contra o impulso de regressar, to depressa quanto possvel, ao sereno e descomplicado lar que Estella construra
para ele.
- Nada mudou, pois no? - suspirou Helena. - bom, eu digo-te quanto tempo ficars. Uma semana, talvez dez dias, depois comearemos a entediar-te e tu partirs de
novo.
- Tu e as crianas nunca me aborreceram - declarou Ramon, seriamente.
- No? - retorquiu ela num tom irnico. - Pois, mas era mesmo o que parecia.
- Olha, Helena. Peo desculpa por no ter telefonado. Queria fazer-vos uma surpresa - explicou ele, colocando a sua larga mo no ombro dela. Helena sacudiu-lha.
- A Fede ficou contente por me ver acrescentou e esboou um pequeno e melanclico sorriso.
-  claro que ficou. Mas no foste tu quem c esteve nos ltimos onze meses a limpar-lhe as lgrimas. No passou um dia em que ela no tenha pensado que talvez,
apenas talvez, hoje fosse o dia em que o pap regressaria. Que tipo de infncia  esta, Ramon? Se ao menos escrevesses regularmente, te mantivesses em contacto,
a fizesses saber dos teus planos, ento, talvez ela no vivesse num mundo to incerto. Isso torna-a muito insegura, sabes, e eu sofro com ela. - A voz de Helena
apenas espelhava amargura.
- Tentarei - concedeu ele.
- E o Hal? - prosseguiu ela. -  como se no existisse. Escreves  Fede, mas nem uma linha para ele. Ele tambm  teu filho e precisa de ti tanto quanto a Federica.
Mais at, porque nunca conheceu o teu afecto como ela.
- Tens razo - disse Ramon. - Tens razo em relao a tudo. No vim at c para discutir contigo.
Helena pestanejou, surpreendida, e manteve os olhos fixos nas rvores cobertas de neve  frente deles. No previra que ele fosse to condescendente.
Avanaram pelo carreiro at chegarem  falsia que descia na vertical rumo ao mar. Helena conduziu-o rumo a um pequeno banco de ferro
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onde ela vinha muitas vezes sentar-se e contemplar o oceano. A, a vista que se estendia  sua frente e at aos confins do infinito levava a sua alma de volta aos
doces dias do seu passado, antes de o azedume se ter instalado para o desgastar. Examinava agora o cu glacial e as nuvens geladas com o homem cujo amor fora outrora
to intenso quanto o Sol. Uma vez mais, o horizonte arrancou o seu estado de esprito para fora das sombras da sua infelicidade e recordou-a de como as coisas eram
nessa altura. Sentiu o corao descongelar no meio de tal esplendor, no meio de memrias to vvidas. Procurou no bolso do casaco o mao de cigarros e o isqueiro.
Acendeu um com a mo a tremer. Sentia a presena dominadora de Ramon e o desejo de chorar. Como fora que tudo correra to terrivelmente mal?
- E como esto os teus pais? - perguntou Helena ao fim de um tempo, levando a mo s tmporas para as massajar.

- Esto bem. Esto em Cachagua.
- Tenho saudades de Cachagua - disse ela muito baixo, quase como se estivesse a falar para si mesma. No olhava para ele, limitando-se a contemplar as suas memrias.
- Tenho saudades do calor, do mar, dos odores. Nunca pensei que viesse a ter saudades, mas tenho.
-  o problema de gostar de dois pases, queremos sempre estar naquele em que no estamos. Ficamos com escolhas a mais - explicou ele. - Por vezes,  melhor no
ter escolha.
- Ento, a tua vida deve ser mesmo muito complicada, uma vez que tens o mundo inteiro por onde escolher - argumentou, soltando uma gargalhada ressentida.
- Tu tens dois, por vezes,  mais complicado.
- Oh, eu sou muito feliz aqui. Muito, muito feliz - afirmou, mas Ramon no ficou convencido, nem ela.
- Ests com uma das tuas dores de cabea? - perguntou ele, reparando que Helena estava a massajar as tmporas.
- Sim, mas estou bem, vm e vo - respondeu ela sem querer dar muita importncia ao assunto.
- Chega aqui - disse ele, deslocando-a de forma a que ficasse de costas para si. Ela tentou objectar, mas ele silenciou-a com a sua assertividade, colocou as mos
na cabea dela e comeou a massaj-la.
- A srio, Ramon. Estou bem - argumentou ela sem grande convico, uma vez que o toque dele a fazia estremecer de nostalgia.
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- No ests bem. Mas eu vou pr-te bem - contraps ele, rindo-se. Helena melindrou-se com a boa disposio de Ramon e interrogou-se se tudo era sempre assim to
simples para ele.
A sensao dos dedos largos de Ramon no seu escalpe era demasiado agradvel para resistir, por isso deixou de se debater e recostou-se contra ele, inspirando longa
e profundamente. Enquanto relaxava a cabea, as mos dele desceram at aos ombros, deslocando-se por baixo do casaco e da camisola at  pele.
- Conta-me, como  que as crianas tm passado? - perguntou Ramon, e ela falou-lhe sobre o entusiasmo de Federica com os Appleby, a sua paixoneta por Sam e os seus
progressos na escola.
- Ela adora os Appleby - contou. - Nunca teve muitos amigos na escola em Vina, mas eles tornaram-se uma espcie de segunda famlia. Fez maravilhas pela confiana
dela.
- Isso  bom.
- Oh,  maravilhoso. A princpio, a Inglaterra assustou-a. Era to fria e cinzenta, nada como os cus azuis do Chile. Foi bom, ainda assim, que nos tenhamos mudado
para junto do mar, pois, pelo menos, sempre era uma paisagem mais familiar.
Depois comeou a falar-lhe de Hal e os seus ombros relaxaram-se e a garganta descontraiu-se at comear a rir sem amargura ou ressentimento.
- Pelo menos so felizes aqui - concluiu Ramon.
- Parecem ser. - Fechou os olhos para desfrutar melhor da voluptuosa sensao dos dedos dele a enviarem sangue de volta aos seus msculos ressequidos.
- Mas e tu?
- Oh, Ramon. Eu estou bem.
- Estou a perguntar-te como amigo, no como teu marido.

- Ainda s meu marido - disse ela, guturalmente, e sorriu, recordando uma era perdida quando a felicidade partilhada havia eclipsado a iminente infelicidade que
os submergiria.
- Est bem, ento estou a perguntar-te como teu marido.
- No sei - respondeu ela, abanando a cabea.
- Que fazes durante o dia?
- Tomo conta do Hal.
- Que fazes por e para ti?
- Por mim?
209
- Por ti - repetiu ele.
Helena pensou nisso por um momento. No sabia o que fazia por si mesma. Por vezes, acompanhava Federica at casa dos Appleby para o ch ou levava Hal at  praia.
Visitava Toby e Julian, conversava com a me. No entanto, no conseguia lembrar-se de nada que fizesse puramente para seu bel-prazer.
- No sei, Ramon. No me estou a lembrar de nada - disse ela, tristemente, e sentiu a garganta contrair-se de novo de emoo. - As crianas do-me um prazer enorme.
-  claro que do. Mas isso  domesticidade. Refiro-me a uma satisfao. Um prazer egosta que no partilhes com ningum.
Helena ponderou sobre a pergunta dele. Ramon era um mestre da auto-satisfao e ela do sacrifcio. Fora por isso que tudo correra to mal.
- Toda a gente precisa de tempo para si mesmo - prosseguiu ele. - Um longo banho de espuma, uma ida ao cabeleireiro, no sei o que te faz feliz...
- bom, devo ter perdido o contacto comigo mesma - suspirou ela -, pois tambm no sei.
- Talvez devesses comear a pensar em ti mesma. Dou-te dinheiro suficiente? - perguntou.
- Ds-me mais do que dinheiro suficiente.
- Ento, vai gast-lo, por amor de Deus. No sei o que vocs, raparigas, fazem, mas compra um vestido novo, vai a um salo de beleza, diverte-te. No te acorrentes
aos midos e  casa, no s uma empregada domstica. Se precisas de uma ama, contrata uma. Se precisas de uma casa s para ti, compra uma. No tem problema, mas
o teu rosto  um espelho de infelicidade e isso no  muito atraente.
Helena estava abismada. No se recordava da ltima vez que haviam conversado de forma to franca. No se lembrava da ltima vez que ele se preocupara com ela e com
a sua felicidade. Sentiu um n no estmago ao recordar como fora quando eram amigos. Haviam conversado sem parar, sobre tudo e nada, rido das mais pequenas coisas
e comunicado sem palavras. Interrogou-se sobre quando  que as conversas deles haviam secado e porqu. No se atrevia a virar-se porque sabia que se olhasse para
os olhos dele voltaria a sentir a mesma incerteza, por isso manteve os olhos fechados num esforo de prolongar o momento.
210
- Trouxe as crianas para Inglaterra por mim, mas ironicamente so elas que desfrutam da estada. No eu. Interrogo-me, no sei, questiono-me... - hesitou.
- O qu? - perguntou ele.
- Interrogo-me, oh, meu Deus, Ramon, nem consigo diz-lo.
- Diz. Sentir-te-s bem melhor se o fizeres.
- Ser que cometi um erro?

Ramon parou de lhe massajar os ombros. Ela endireitou-se e virou-se para ele. Ramon mirou-a com os seus olhos pretos e impenetrveis e ela sentiu-se tensa de novo,
de inibio e vergonha.
- Ters cometido um erro? - perguntou ele, seriamente, pensando em Estella e esperando que Helena no fosse de repente mudar de ideias.
- No sei se cometi um erro ao deixar o Chile. Tenho saudades. Talvez no seja mais que nostalgia - acrescentou ela, tentando explicar-se.
- Talvez - concordou ele com prudncia.
- No sei.
- Acho que precisas de dar mais uma oportunidade a Polperro sugeriu Ramon. - Precisas de te entregar ao local como a Fede fez.
-  muito mais fcil para as crianas. Podem simplesmente seguir em frente e no cismar.
- Escuta - disse ele. - A escolha foi tua, Helena. Eu nunca te pedi que te viesses embora. No queria que o fizesses. Mas compreendi porque o fizeste e apoio a tua
deciso. Acho que ests a deparar-te aqui com os mesmos problemas que enfrentaste no Chile. s uma me sozinha que dedicou a sua vida aos filhos. Penso que, se dedicares
algum do teu tempo a ti mesma, os teus sentimentos podero mudar. s jovem, s bonita. - Ela corou e desviou a cara. - Tens de encontrar um passatempo, alguma coisa
que te faa sair de ti mesma e de casa.
- Talvez tenhas razo - concordou ela, sentindo-se mais feliz. Sabes, h anos que no conversvamos assim.
- Eu sei. Estvamos demasiado ocupados a sentir ressentimento um pelo outro. Agora sabemos em que p estamos.
Helena olhou para o perfil de Ramon enquanto este contemplava o mar. Depois baixou os olhos.
- Sim - confirmou tristemente. - Sabemos.
211
Federica estava to feliz por ter o pai de volta que nem conseguia dormir. Os pais dormiam em quartos separados, mas ela no se importava. Estava grata por o pai
estar simplesmente ali. Jake e Polly aceitaram a sbita chegada de Ramon ao verem que Ramon e Helena se entendiam e davam muito melhor do que tinham pensado. No
houve discusses, birras, amuos, comentrios desagradveis nem lgrimas. Helena lavou o cabelo, maquilhou-se e at comprou roupa nova na cidade. Desapareciam todos
os dias em famlia: faziam passeios pela praia com as crianas, exploravam castelos em runas e grutas escondidas. Na verdade, faziam todas as coisas que haviam
feito quando se conheceram pela primeira vez. A nica diferena  que no se beijavam e no riam tanto. Porm, Helena estava menos ressentida e Ramon mais atento
s necessidades dela. J no se sentia entorpecida por dentro, recuperando a sua vivacidade. A sua indiferena fora, afinal de contas, nada mais do que uma rebelio
dos sentidos, uma estagnao do corao.  medida que a sua raiva se ia dissolvendo, Helena descobrira que se preocupava, que se interessava. Enquanto reconstituam
os caminhos percorridos durante a fase de namoro, ela comeou a reencontrar o homem pelo qual se apaixonara por trs daqueles densos olhos, e a sua alma voltou a
inflamar-se por ele.

Ingrid ficou encantada com o moreno estrangeiro que surgira de repente em Polperro. Viera almoar no dia a seguir ao dia de Natal com Helena e as crianas e entretivera-a
com as histrias que contava no seu forte sotaque. Desejou saber falar espanhol, pois assim compraria cada livro que ele escrevera. Contudo, Ramon encantara-a, ainda
assim, com histrias inventadas na altura e outras acerca das suas aventuras, que coloria com a sua frtil imaginao at conseguir cativar a ateno de toda a gente
 mesa, at do pomposo Sam, que, habitualmente, se entediava com os homens pelos quais a me se "entusiasmava" de repente.
As semanas que se seguiram foram pontuadas por convites da famlia Appleby. Helena sentia-se inchar de orgulho de cada vez que Ramon deslumbrava toda a gente com
a sua presena e singularidade. A atmosfera ficava carregada de uma rara energia sempre que ele estava presente e ningum a sentia mais do que a sua mulher.
212
- No entendo por que motivo est a meio mundo de distncia deste jovem to encantador - referiu Nuno a Helena certo dia, ao almoo.
- Oh, Nuno, no  assim to simples. No  voc que tem de viver com ele - gracejou ela.
- Mais ningum me quer a no ser a Ingrid, por isso no  uma opo - respondeu ele, olhando-a altivamente com os seus inteligentes olhos azuis. - Por vezes, s
nos damos conta do que perdemos quando j  tarde de mais. Espero, minha querida, que no seja vtima do mesmo destino.
- Ele est aqui pelas crianas, no por mim - explicou, mas olhou para o outro lado da mesa, para o rosto animado de Ramon, e desejou que ele tivesse vindo por si.
Desejou que ele fosse capaz de enterrar o seu orgulho e lhe pedisse que regressasse com ele. Desejou que ele fosse capaz de mudar por si. Mas logo tais desejos foram
gorados, pois conhecia a verdadeira natureza do homem sentado  sua frente. Ramon era como o vento e sempre seria - nunca saberia para onde iria soprar a seguir.
- O Ramon  o mesmo de sempre, Nuno, quando se est com ele sentimos que no h ningum no mundo mais especial para ele do que ns. Basta pensarmos na Federica,
por exemplo. - Olharam ambos para a menina que bebia cada palavra que o pai dizia. Tudo o que ela fazia era em benefcio dele: o riso dela, as graolas, as histrias,
os sorrisos. Venerava-o. - A Federica acredita que o pai a ama mais do que a qualquer pessoa no mundo. Neste momento isso  verdade. E acredito sinceramente nisso.
Est cheio de remorsos por no ter vindo mais cedo, por nunca ter telefonado ou escrito. Est mortificado. Arrasado de culpa. Mas em breve partir e voltaremos a
no ter notcias dele durante meses, talvez anos.  que com o Ramon  longe da vista, longe do corao, infelizmente.
- O amor  compreender as falhas de algum e amar a pessoa apesar delas - afirmou Nuno num tom filosfico.
- Isso  uma citao? - brincou ela.
- No.  da minha prpria lavra, mas qui no muito original, lamento. No obstante,  verdade.
- O Ramon e eu passmos anos a tentar entender-nos um ao outro, at que deixmos de tentar.
213

- Nunca  tarde de mais para voltar a tentar.
- No sei. Acho que nunca nos compreendemos um ao outro.
- "Ser notvel  ser mal compreendido" - citou Nuno. - Ralph Waldo Emerson. Um homem muito inteligente.
- Vejo que sim.
- Tambm disse outra coisa muito perspicaz, minha querida.
- E o que foi?
Nuno inclinou-se para Helena e sussurrou-lhe ao ouvido:
- "Estamos sempre a prepararmo-nos para viver, mas nunca a viver".
Helena pensou sobre isso durante todo o almoo e ao longo da tarde. De facto, por alguma razo, era incapaz de pensar noutra coisa.
- Fede? -- chamou Hal, escovando os dentes sobre o lavatrio.
- Sim?
- Achas que o pap vai c ficar?
Federica pendurou a toalha molhada dele sobre o irradiador.
- No sei - respondeu, preferindo no verbalizar o que desejava para no dar esperanas ao irmo.
- Talvez nos leve de volta para Vina - acrescentou, cuspindo para o ralo.
- No me parece que nos leve para Vina, Hal - argumentou cuidadosamente.
- Porque no?
- Porque agora vivemos aqui.
- Preferia viver em Vina - disse ele num tom decidido.
- Mas tu adoras estar aqui com a av e o av - insistiu Federica.
- Tenho saudades do abuelito. - Fez uma cara triste.
- Tambm eu, Hal.
- O av no me carrega aos ombros ou me faz andar  roda pelos braos - queixou-se.
- Eu sei.
- Ou me leva a andar de cavalo.
- O av  uma pessoa muito ocupada.
- Quero voltar para Vina. Acho que o abuelito tem saudades minhas.
214
- Tenho a certeza que sim. De certeza que tm ambos - declarou ela num tom melanclico. - Est na hora de ir para a cama, Hal. Queres que te leia uma histria?
- Onde est a mam? - inquiriu, saindo da casa de banho de ps descalos.
- Em casa do Joey e do Lucien.
- Est sempre l.
- Eu sei. Ela gosta dos Appleby.
- Eu no.
- Gostas, sim.
- No, no gosto.
- Brincas sempre com o Joey.
- No gosto do Joey.
Federica suspirou antecipando uma birra.
- V l. Eu leio-te uma histria - tentou ela persuadi-lo alegremente.
- Quero que a mam me leia uma histria - insistiu ele. - No durmo at ela chegar.
- E se for a av?

- Quero a mam - choramingou ele e cruzou teimosamente os braos junto ao peito.
- Est bem - cedeu ela. - Mete-te na cama e espera at a me voltar. Ela j no deve demorar. - Porm, Federica sabia que quando ela regressasse j estariam ambos
a dormir profundamente.
Era j tarde quando Federica escutou os pneus de um carro a pisarem a gravilha da entrada. A luz atravessou o quarto por um momento antes de o mergulhar, de novo,
na escurido, ao mesmo tempo que o motor era desligado. Escutou as vozes dos pais  medida que fugiam do frio para dentro de casa. Estavam a rir, mas no conseguiu
perceber o que diziam. H muito tempo que no escutava a me a rir de forma to feliz. Sentou-se na cama e aguou o ouvido em busca de alguma indicao de que o
pai pudesse ficar, mas apenas ouviu vozes abafadas que nada revelaram, a no ser uma crescente amizade entre eles.
- Diverti-me muito esta noite -- disse Helena, subindo as escadas. Federica encolheu-se na escurido, observando a me a entrar no seu campo de viso pela frincha
da porta.
215
- Eu tambm - concordou Ramon, seguindo atrs dela. Helena hesitou  porta do quarto de Federica.
- Fico contente que gostes dos Appleby - referiu em voz baixa para no acordar os filhos.
- O Nuno  muito original - ironizou ele. - Tal como Inigo.
- s a nica pessoa que conheo que consegue entender o Inigo. Ele mal conversa com quem quer que seja, est sempre fechado no seu escritrio. Deve ser exasperante
para a Ingrid.
- Eu tenho de admitir que o acho fascinante.
- No consigo imaginar acerca do qu  que vocs conversam.
- Sobre tudo.
- A srio?
- Ele  um homem erudito e sagaz. E s preciso passar para alm daquela desiluso.
- Desiluso? - inquiriu Helena, franzindo a testa.
- Ele no tem a capacidade que o Nuno tem de se mostrar superior ao mundo.
- Como a Ingrid.
- Exacto. Passa os dias a reflectir sobre a vida e a repisar os seus aspectos negativos. Se olharmos com ateno, podemos encontrar o mal em qualquer coisa. O truque
 no procur-lo.
- No sei do que ests a falar - disse ela, duvidosamente, e soltou uma gargalhada para esconder a sua ignorncia. - Obrigada pelo esforo que tens feito em relao
ao Hal nestes ltimos dias.
- Ele  um rapazinho adorvel - respondeu Ramon.
- Pois , mas nunca o conheceste.  importante para ele sentir o teu afecto. Eu sei que a Federica  mais interessante para ti.  mais velha e demonstra mais os
seus afectos. Mas o Hal tambm te ama, apenas no o compreende.
- Foi bom para mim v-los. - Acenou com a cabea como que a confirm-lo e bocejou.
- Tambm foi bom para ns - disse ela e olhou para ele fixamente. Ramon cruzou o seu olhar com o dela e sorriu pesarosamente.
- Pois foi - concordou ele num tom de voz to baixo que Federica mal o escutou.
- Estou contente que tenhas vindo.
- Eu tambm.

Permaneceram ambos ali um pouco acanhados at Ramon comear a avanar pelo corredor.
216
- Boa noite, Helena.
- Dorme bem, Ramon. - Ficou a v-lo entrar no quarto e depois tambm ela desapareceu no interior do seu.
Federica sentiu um estremecimento de antecipao que lhe causou pele de galinha, como se estivesse frio. Contudo, sentia-se bem quente e entusiasmada. Fechou os
olhos com fora e fez figas para que o que acabara de testemunhar fosse o incio de uma nova aventura amorosa entre os pais. Ficou ento com a certeza de que o pai
ficaria.
Helena deitou-se na cama e pensou em Ramon. Pensou depois no que Nuno dissera. "Estamos sempre a prepararmo-nos para viver, mas nunca a viver". Repetiu-o uma e outra
vez na sua cabea, meditando sobre o que significava e de que forma se aplicava a si. Nuno estava absolutamente certo. Ramon estava a viver. No se preocupava com
preparativos, limitava-se a viver o mais que podia, ao passo que ela estava sempre a preparar-se para viver. Ramon era como uma enorme ave. Para ele no havia fronteiras,
voava apenas para onde queria, quando queria. Ela invejava a espontaneidade dele, mas no apreciava nem um pouco a sua falta de responsabilidade. No respondia a
ningum, nem sequer aos rogos dos seus filhos, e muito menos s splicas da sua esposa. No obstante, estava seguramente a viver. Ralph Waldo Emerson teria aprovado
e simpatizado com Ramon.
Estava como era habitual deitada sozinha, porm, esta noite, a sua solido parecia-lhe mais carregada e desconfortvel que at ento. Olhou para a escurido e recordou-se
daqueles primeiros tempos com Ramon em que se aninhara nos seus tranquilizadores braos e dormira sem dvidas que lhe atormentassem o espirito. Sentia a presena
dele na casa, pois esta era to densa quanto o fumo e quente como o fogo. Era incapaz de ignor-la e no queria combat-la mais. Recordou-se de Ralph Waldo Emerson
e saiu da cama.
Vestiu o roupo, abriu a porta do quarto e esgueirou-se corredor abaixo em direco ao quarto de Ramon. No hesitou  porta como fizera naquela terrvel noite, em
Janeiro, abrindo-a com cuidado e avanando para a escurido.
- Ramon - sussurrou. Ele agitou-se por baixo dos lenis. - Ramon - repetiu. Ele voltou a agitar-se. Apalpou a extremidade da cama e abanou-o. - Ramon.
217
Ele acordou por fim.
- Helena? - murmurou. - Ests bem?
- Tenho frio - respondeu, porque no se lembrou de nada melhor para dizer. O seu corpo tremia da cabea aos ps devido  impetuosidade que subitamente se apoderara
dela. - Posso juntar-me a ti?
Ramon desviou-se para lhe dar espao. Ela meteu-se na cama ao lado dele e puxou os cobertores por cima dos ombros.
- Que queres, Helena? - perguntou Ramon. No entanto, ela ignorou o tom impaciente na voz dele e persistiu.
- Quero que fiques -- confessou.
Ele suspirou e puxou-a contra o seu corpo quente, envolvendo-a com os seus enormes braos e respirando para o seu cabelo.
- No posso.
- Porque no?

- Porque o meu lugar  no Chile.
- No podes ficar ento mais tempo? Podes escrever aqui. No tens de estar no Chile. O que o teu trabalho tem de melhor  poderes lev-lo para qualquer lado.
Ramon voltou a suspirar.
- No consigo mudar - argumentou terminantemente. -- Porque no, Ramon? Porque no queres?
- Porque no posso.
- Mas voltmos a ser amigos. H anos que no desfrutvamos assim da companhia um do outro. Estamos a conhecer-nos mutuamente outra vez. No, deixa-me acabar - disse
ela, quando ele tentou interromp-la. - Eu achava que j no queria saber de ti, que j no te amava. Sentia uma profunda indiferena e isso assustava-me. Pensava
que nada restara da nossa relao. Por isso regressei a casa. Achei que era a nica opo. Mas estava errada. Vejo isso agora e rezo para que no seja tarde de mais.
Ns podemos fazer com que funcione, acredito seriamente que sim.
- Mas acabaremos por enfrentar os mesmos problemas com que sempre nos deparmos. No importa onde estamos, os nossos problemas seguir-nos-o.
- Eu preciso de ti - argumentou ela e depois engoliu, pois escutou o desespero na sua voz e isso assustou-a.
- Tu no precisas de mim, Helena. Precisas de uma vida.
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- Mas tu no querias que eu me viesse embora! Ests a dizer agora que no me queres de volta?
- No estou a dizer nada. Estou apenas a dizer que ambos precisamos deste tempo afastados.
- Ento, no me queres mesmo - concluiu ela com resignao, envergonhada por se ter declarado de forma to descuidada.
- Eu quero-te, Helena - contraps ele e beijou-lhe a testa. - Faria amor contigo agora de bom grado. Sempre gostei de ti.
- Ento, porque no fazes?
- Porque no vou ficar.
- Porque j no me desejas? - disse ela, derrotada.
- Porque os buracos no nosso casamento continuam a existir, Helena.
- Os buracos foram feitos por mim. Estava confusa. Sentia-me magoada, deprimida.
- Tinhas razo. Estavas deprimida. Nada mudou. No mudou nem um pouco.
- Na altura disseste que me amavas - argumentou ela com a voz embargada.
- E amo, mas no da forma que tu queres ser amada. Tu queres um homem que te possa amar todos os dias. Eu partirei dentro de pouco tempo e tu ficars sozinha e a
sentir-te deprimida. No posso evit-lo.
- Ento no h mesmo nenhuma possibilidade?
- De qu?
- De tentarmos mais uma vez - disse ela, e a sua voz foi diminuindo de intensidade por se sentir humilhada.

Ramon acariciou-lhe o cabelo e ficou a olhar para a escurido. Pensou em Estella e na forma confiante como esta o amava. Havia qualquer coisa de muito dependente
e necessitado em Helena, por isso sentiu de novo a familiar sensao de claustrofobia que o sufocava. Ainda a amava. Porm, no podia mud-la, e enquanto ela o envolvesse
com o seu amor carente, ele no a podia amar da forma como ansiava ser amada. Escutou o vento da mudana a soprar  sua janela e soube que estava na altura de partir.
Na manh seguinte, Ramon desceu para o pequeno-almoo com as malas aviadas.
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- Vais-te embora? - perguntou Helena com alguma tenso. A dor de cabea regressara e sentia-se muito envergonhada. Desejava poder voltar atrs no tempo e mudar a
noite anterior. Mal conseguia olh-lo nos olhos. Quando o fez, viu-os, uma vez mais, negros e impenetrveis. Fora longe de mais e arruinara tudo.
- Vou-me embora - respondeu e sentou-se ao lado de Federica.
- Vais-te embora? - gaguejou ela. - Agora? - O pai respondeu-lhe com um aceno de cabea e um ar triste. Teria ela sonhado a noite anterior que os vira a conversar
no patamar com tamanho afecto um pelo outro? Tivera a certeza de que estavam novamente a apaixonar-se. Como  que tudo se desmoronara numa s noite? No compreendia.
- No fiques triste, mi amor. - Acariciou-lhe o rosto desamparado. - Quero que me escrevas e que me contes como tens passado e o que fazes. No deixes de fora nenhum
pormenor. - Limpou-lhe uma lgrima do rosto com o polegar. - S boa menina e no chores, pois muito em breve voltarei para te ver.
Contudo, Federica no se conseguiu conter e, em pranto, lanou os braos em redor do pescoo do pai.
- No quero que te vs embora - soluou. - Por favor, no vs.
- No posso ficar aqui para sempre, mi amor. Eu volto, prometo tranquilizou-a. - No te esqueas de me escrever - acrescentou e beijou-lhe a face molhada.
Quando pegou em Hal, o filho contorceu-se e gritou pela me. Helena acalmou-o com palavras dceis e pegou-lhe ao colo. O garoto agarrou-se a ela como um macaco assustado.
Ramon no voltou a tentar pegar-lhe. No havia nada mais a dizer. Beijou o rosto inflexvel de Helena e partiu, deixando um sentimento de vazio no corao deles
e uma terrvel sensao de perda.
Helena interrogou-se quando  que ele regressaria, mas pressentia que seria apenas dali a muitos anos.
Federica correu escadas acima e bateu com a porta do quarto. Lanou-se para cima do seu edredo do Snoopy e chorou. Como podia o pai partir assim s pressas sem
sequer avisar? Investira todas as suas esperanas nele. Tinha a certeza que ele ficaria. Para alm disso, gostara de estar em Polperro. Tinham-se divertido. Gostara
dos Appleby, mas mais importante ainda, parecera ter voltado a gostar da me. Tinham at voltado
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'a ser amigos. O que correra mal? Depois de se fartar de chorar, puxou a caixa da borboleta para os joelhos e abriu-a. Contemplou os tremeluzentes cristais e observou
a borboleta a abrir as asas, mudando de encarnado para azul como que por empatia. NOS tons hipnotizantes das vetustas pedras escondeu-se da sua infelicidade e do
sbito sentimento de rejeio que se apoderara do seu corao com garras bem afiadas. Lentamente, perdeu-se nas suas memrias, que pareciam ressoar em cada minscula
gema. Viu os avs no terrao em Cachagua e Rasta a correr pela praia de Caleta Abarca. Viu a casa onde costumava viver e depois o mar aberto, sentiu o aroma a lavanda
e o sol no rosto. Estonteada com a sbita invaso de tantas recordaes, fechou os olhos e deixou-se ser levada pelo amor ao pai.
CAPITULO DEZANOVE
Cachagua
Foi pouco antes do Natal que Mariana fez, por fim, o esforo de visitar Estella. Uma visita natalcia de boa vontade. Levar-lhe-ia um fio de prata que comprara em
Santiago. Afinal de contas, no fora ideia sua despedi-la. Na verdade, Mariana fizera tudo ao seu alcance para persuadir Ignacio a mant-la. Gostara dela, pois fora
a primeira empregada que alguma vez tivera que cumpria as suas tarefas sem que lhe fosse pedido e que fizera uso da sua iniciativa para agradar. Estella era demasiado
inteligente para que os seus talentos se reduzissem a cozinhar e a limpar, mas ela parecia gostar do que fazia.
Mariana vira-se forada a pedir  irascvel Gertrude que descobrisse onde  que Estella vivia agora. Fora incapaz de descobrir o seu paradeiro sozinha, em especial
porque os rumores davam agora conta de que Estella j no morava com os pais. Gertrude fora rpida em salient-lo. Acrescentara com satisfao que, segundo o seu
primo, que vivia na mesma aldeia que Pablo e Maria Rega, nem eles sabiam onde ficava a casa da filha.
Assim, Mariana conduzira sozinha at casa de Estella seguindo as direces que Gertrude lhe dera. A empregada oferecera-se para a acompanhar, mas Mariana declinara
graciosamente a oferta. Dificilmente conseguia passar mais do que cinco minutos na companhia da empregada na sua prpria casa, quanto mais no interior claustrofbico
de um automvel. S de pensar nisso, estremecia de averso. Gertrude era no apenas insolente como tinha uma estranha tendncia para cheirar fortemente a anis. Mariana
era antiquada e apreciava que os parmetros entre
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patro e empregado estivessem bem definidos. Gertrude chocava contra esses parmetros sem pensar e acabava sempre por ser ofensiva. Ignacio lidava com ela com mo
firme, gritando-lhe que se "colocasse no seu lugar", ao que Gertrude respondia com um olhar carrancudo, mas tambm com um reconfirmado sentimento de dever e empenho
no trabalho.
Quando Mariana viu pela primeira vez a casa de Estella junto  praia, ficou de imediato impressionada com a sua dimenso e qualidade e curiosa por saber como  que
uma mulher na posio dela podia sustentar um tal luxo. A casa estava construda na margem, de frente para o mar, e desfrutava do previlgio de ser a nica num raio
de vrias centenas de metros. Estava pintada de branco, tinha uma varanda coberta e grandes venezianas verdes para manter o interior fresco durante o Vero. O telhado
era de colmo e as paredes suportavam uma espessa selva de dentelria azul-marinho que trepara at  varanda de onde pendia e se agitava ao vento como borboletas.
Mariana nunca suspeitara que o amante de Estella fosse rico. Partira do pressuposto de que era oriundo do mesmo meio que ela. Estivera errada.

A porta estava aberta; escutou Estella a cantar no interior e os alegres gorgolejos de um beb. Mariana recordou-se do malvolo comentrio de Gertrude acerca do
macaco e sorriu com satisfao. Aquele no era seguramente o barulho de um macaco. Hesitou um momento antes de chamar por Estella, pois reparou em vestgios da presena
de um homem. Viu uma camisa de homem pendurada nas costas de uma cadeira na varanda e um par de mocassins junto  porta. "bom", pensou, "se ele est em casa, aproveito
para o conhecer tambm." Por isso chamou por Estella e ficou  espera.
Estella reconheceu a voz de imediato e ficou presa ao cho, aturdida de pnico. Ramon estava em Inglaterra, mas havia coisas dele espalhadas por toda a casa. No
breve momento entre o chamamento de Mariana e a dbil resposta de Estella, esta tentou lembrar-se onde, pela casa, havia pertences de Ramon que pudesse tra-lo.
Por fim, deitou Ramoncito no seu bero e avanou corredor acima at  porta, onde Mariana se encontrava j pronta a entrar e desejosa de dar uma vista de olhos pela
casa.
- Senora Mariana, que surpresa - disse Estella num tom firme, tentando esconder o tremor na sua voz. - Vamos l para fora, est muito calor aqui dentro - sugeriu,
encaminhando a antiga patroa para
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a varanda. Mariana ficou desiludida. Queria ver a casa. Porm, a sua educao impediu-a de solicitar uma visita.
- Peo desculpa por ter vindo sem avisar. Ests sozinha? - inquiriu. Estella reparou no olhar de Mariana ao par de sapatos junto  porta.
- Sim, estou sozinha - respondeu. - Sente-se, por favor, fique  vontade. - Gesticulou para a cadeira que tinha a camisa pendurada nas costas. Foi a correr tirar
a camisa e colocou-a do lado de dentro da porta, em conjunto com os sapatos. Mariana reparou em tudo e interrogou-se por que motivo estava ela to comprometida.
Depois ocorreu-lhe de repente que talvez o homem com quem partilhava a casa no fosse o pai do beb.
- Vejo que s muito feliz - referiu Mariana com tacto. - Tens uma casa muito bonita.
- Obrigada, Senora Mariana.
Mariana apercebeu-se do grande nervosismo de Estella e concluiu que era muito natural, tendo em conta que Ignacio lhe pedira que abandonasse as suas funes de forma
to cruel.
- Lamento muito em relao ao teu emprego - disse Mariana, tentando desesperadamente pr a rapariga  vontade. - O Ignacio, por vezes, consegue ser muito insensvel.
No  por mal, ele  mesmo assim. Contudo, nem toda a gente o entende como eu. Ests a ser bem cuidada? - Era uma pergunta um pouco grosseira, mas Mariana no conseguiu
resistir. Estella retesou-se e baixou os olhos como se tivesse vergonha de olhar para Mariana directamente.
- Estou muito satisfeita - respondeu apenas.
- Agora tens um beb. Um rapaz? - Estella acenou que sim com a cabea e sorriu de orelha a orelha. -  bvio que deve ser o menino dos teus olhos. Adorei cada um
dos meus oito filhos e netos - suspirou. - Os netos fazem-nos ser pais outra vez. - Depois pensou por um momento em Federica e Hal e os seus olhos turvaram-se. -
Como se chama o menino? - perguntou, esquecendo deliberadamente a sua melancolia.
As faces de Estella coraram de culpa. Podia dizer a verdade e levantar suspeitas ou mentir. Olhou para Mariana e decidiu que mentir era sem dvida a nica opo.

- Ainda no decidi - respondeu, olhando a antiga patroa nos olhos num esforo para no parecer duvidosa.
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Mariana ficou surpreendida.
- Ainda no decidiste?
- No.
- bom, alguma coisa lhe deves chamar!
- Chamo-lhe Angelito. Meu pequeno anjo - disse sem demora. Mariana sorriu.
- Angel.  um bonito nome - referiu, mas a sua intuio disse-lhe que havia ali qualquer coisa que no estava bem.
- Fico contente que as coisas te tenham corrido bem. No Vero passado fiquei muito preocupada.
- Eu tambm.
- Mas vejo que tens uma bonita casa, um menino e... - hesitou, mas colocou de lado as suas reservas e prosseguiu sem inibies - um homem que cuide de ti. - Reparou
que Estella corou de novo e no embarao que os seus olhos espelhavam. - No te preocupes, minha querida, no estou a intrometer-me - assegurou-lhe de imediato, pensando
em Gertrude e desejando no ter chegado to longe. - No preciso de saber quem ele , fico apenas feliz de saber que ests feliz. Gosto muito de ti, Estella, e fiquei
muito aflita por te ver sofrer. s uma boa menina e no merecias ser tratada com tamanha insensibilidade. Deve haver muitas raparigas que meream esse tipo de tratamento,
mas tu no, ests muito acima delas. Queria dizer-te que, se alguma vez precisares de alguma coisa, me venhas procurar. Tentarei sempre ajudar-te da melhor forma
que puder. Uma carta de referncia, talvez, ou um conselho. Estou disponvel para conversar contigo, se alguma vez precisares de algum que no seja da famlia.
Um estranho. Ser um prazer ajudar-te.
Viu o rosto de Estella descontrair-se e as suas cores voltarem a escoar-se  medida que o embarao dava lugar  gratido.
-  muito amvel, Senora Mariana. Uma rapariga como eu tem muita sorte em ter uma protectora como a senhora. Sinto-me muito honrada e agradeo-lhe do fundo do corao
- respondeu, interrogando-se como se sentiria Mariana se soubesse que os sapatos do lado de dentro da porta eram de Ramon, tal como a camisa. Estella duvidava que
lhe oferecesse assim a sua proteco se soubesse que o seu filho estava a cometer adultrio com uma humilde empregada domstica.
Mariana levantou-se para partir. Engoliu a sua curiosidade e conteve-se de pedir para ver o interior da casa. No entanto, antes de sair, achou que no seria despropositado
pedir uma coisa:
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- Estella, gostaria muito de conhecer o Angelito - disse. Estella ficou plida.
- O Angelito - repetiu.
- Sim. Se no for um incmodo muito grande. Ele  obviamente um beb amoroso pois ainda nem sequer chorou.
-  um beb maravilhoso. Mas talvez esteja a dormir - aventou Estella, tentando arranjar desculpas.
- Ento, talvez pudesse espreit-lo. Prometo no o acordar - resistiu.
Estella no tinha escolha. Se Mariana entrasse em casa sem dvida que reconheceria os pertences do filho.

- Deixe estar, eu vou busc-lo e trago-o aqui fora - respondeu rapidamente, retirando-se para dentro de casa. Mariana achou o comportamento dela assaz estranho.
Se o filho fosse de facto um macaco, teria reagido da mesma forma. Por um breve momento, Mariana interrogou-se se no haveria por acaso alguma coisa de errado com
a criana. Se a criana fosse deformada ou deficiente, no era nada correcto da sua parte insistir em v-la. Porm, antes que tivesse tempo de dizer a Estella que
no valia a pena trazer o menino, esta apareceu na varanda com um beb envolto num lenol. Mariana ficou com pele de galinha e preparou-se para o pior.
Estella esperava que Mariana no reconhecesse o seu filho nos olhos amendoados de Ramoncito e no sorriso lnguido. Contudo, quando viu o beb a pestanejar graciosamente
para si, o rosto de Mariana abriu-se como uma flor e no conteve um largo e genuno sorriso que exprimia a sua satisfao.
-  um beb lindssimo, Estella. Posso pegar-lhe? - perguntou entusiasmada, pressionando as mos contra as faces maravilhada. Adorvel, do mais adorvel que j vi
- suspirou, aceitando o beb dos braos da me e segurando-o contra o peito. Estella sorriu tambm, aliviada por a av no ter reconhecido o neto, e pde respirar
outra vez.
Mariana recostou-se na cadeira enquanto o beb sorria para a av. Estella trouxe um tabuleiro de limonada gelada e as duas mulheres sentaram-se  sombra e falaram
sobre o beb.
-  to parecido contigo, Estella. E um beb to bonito. Que pestanas to compridas e olhos escuros. H-de partir coraes por todo o Chile. No , Angelito? - gracejou,
embalando-o com carinho.
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-  um beb muito calmo. Raramente chora - disse Estella com orgulho.
- Aposto que tambm come muito bem.
- Sim. Est a crescer muito depressa.
- Bem vejo.
- Adoro ser me. Agora sinto que tenho um propsito na vida. Sinto que sou necessria - contou Estella.
- A maternidade  uma coisa maravilhosa. Muda a nossa vida para sempre. De repente h um pequeno ser que precisa mais de ns que qualquer outra pessoa no mundo.
E  sangue do nosso sangue,  parte do nosso corpo. Imagina um tal lao, como  forte e duradouro.  parte de ns e mesmo quando cresce e nos deixa, continua a estar
ligado a ns, porque o fizemos, o demos  luz e o amamentmos.
- Tem toda a razo - concordou Estella e contou a Mariana como se sentia enquanto ele crescia dentro de si.
As duas mulheres comearam a falar como iguais sobre os deveres de uma me, as alegrias e as tristezas que eram os dois lados do privilgio de ser me.
- Sentimos as dores deles e as alegrias. No podemos evit-lo.  o nosso destino - disse Mariana, recordando-se de Ramon e no descalabro do seu casamento. - Mas
eles so indivduos, tornam-se independentes e tm de fazer as suas prprias escolhas. Podemos apenas aconselh-los e estar l para eles quando as coisas correm
mal. Porm, no mudaria nada disso nem por um segundo. A maternidade  o mais maravilhoso dom da vida e sinto-me muito afortunada por ter nascido mulher - concluiu
e sorriu para Estella.
- Eu tambm - concordou esta, sorrindo de volta.

Quando Mariana se levantou, por fim, para se ir embora, o Sol ia alto no cu. Olhou para o relgio e deu-se conta de que j ali estava h cerca de uma hora e meia.
- Meu Deus, as horas que j so! - exclamou, entregando a criana de volta  me. - O Angelito j deve estar com fome.
- Ele tem sempre fome. Acho que vai ser um rapago - disse, beijando-lhe a testa com ternura.
- Obrigada por mo teres deixado ver - afirmou Mariana, agradecida. - Ele  realmente um amor.
- Foi um prazer - respondeu Estella. - Muito obrigada por ter vindo.
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Mariana no se encontrava a mais de dez passos da casa, reflectindo sobre o amoroso beb, quando levou a mo ao bolso e sentiu o colar de prata que comprara para
Estella. Suspirou de frustrao pelo seu esquecimento e voltou para trs. Estella desaparecera j no interior da casa, deixando apenas as flores da dentelria a
estremecer nas paredes da casa com a fresca brisa marinha. Mariana deteve-se mais uma vez na soleira da porta sem saber se haveria de bater ou entrar. Sorriu ao
escutar a voz alegre de Estella a brincar com o filho.
- Ramoncito, meu pequeno anjo. Ramoncito - entoava enquanto o beb guinchava e gorgolejava de volta.
O sorriso desfez-se-lhe lentamente. Susteve a respirao ao mesmo tempo que o corao lhe caa aos ps, fixando-a ao cho quando tudo o que ela queria era fugir
o mais depressa possvel. Quando Estella repetiu o nome do filho, no restaram dvidas a Mariana de que escutara bem e chegara  concluso certa. com grande esforo,
deu meia-volta, to rpida e silenciosa quanto pde, e avanou para o carro com a cabea a latejar com a sbita e espordica apario de milhares de imagens desagradveis.
Uma vez no interior do carro, ficou sentada atrs do volante com o corao a bater descontrolado no seu peito esbaforido, como se tivesse acabado de presenciar um
homicdio. com a mo a tremer, rodou a chave na ignio. S quando chegou  estrada principal  que comeou a respirar outra vez. O pai do filho de Estella no era
outro seno o seu prprio filho, Ramon. No restavam dvidas em relao a isso. Tudo fazia sentido. O seu crebro recuperou o raciocnio lgico e comeou a ver com
nitidez os acontecimentos do Vero anterior. O amante de Estella era Ramon. Seduzira-a, engravidara-a e depois deixara-a. Aquele tipo de comportamento irresponsvel
e insensvel no estava limitado s classes mais baixas, como Ignacio afirmara, abrangendo tambm o sangue do seu sangue.
Mariana sentia-se repugnada pela ideia de adultrio. Estavam claramente a viver juntos; Estella no tinha meios para sustentar uma casa como aquela. Agora compreendia
a relutncia da rapariga em mostrar-lhe o beb e todo o seu embarao. Os pertences de Ramon deviam estar espalhados por toda a casa. Mariana pensou em Helena e nos
filhos dela e sentiu-se de repente consumida por remorso e ressentimento. Quando os seus velhos olhos se toldaram de infelicidade, foi forada
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a parar o carro na beira da estrada e a ceder s lgrimas. No conseguia entender Ramon. Contudo, amava-o e tentou desesperadamente justificar as suas aces. Culpou
Helena por empurrar Ramon para os braos de Estella, e Estella por ser demasiado bela e irresistvel. No entanto, os seus argumentos perderam a fora  luz do seu
raciocnio, que lhe dizia que Ramon era culpado. Era vtima do seu prprio egosmo. Sacrificava de forma deliberada tudo o que amava por uma liberdade oca, que havia
de o deixar inevitavelmente sozinho e consumido de remorso. Deixaria Estella tambm.
Quando Mariana chegou a casa tinha j decidido no contar nada a Ignacio. Decidira tambm manter um olho em Estella. A infeliz no o sabia ainda, mas iria precisar
de apoio.
Mariana conhecia o filho melhor que ningum.
PARTE II
CAPITULO VINTE
Polperro, Primavera de 1989
Federica pedalou monte acima, o seu flego vacilante e escasso ao mesmo tempo que soluava e pedalava, quase incapaz de ver a estrada devido s lgrimas. O quente
sol de Maio instigara as rvores e arbustos a desabrochar e a florescer, os neves de Abril agora terminados de uma vez por todas. Porm, Federica no estava interessada
na beleza da natureza. Nem sequer reparou nos exrcitos de campainhas espalhadas pelos bosques ou no doce aroma a fertilidade  medida que o solo acordava do seu
longo sono de Inverno. Sentia-se como se algum lhe tivesse arrancado o corao do peito, o tivesse maltratado e depois voltado a colocar descuidadamente no lugar.
O caminho, vereda acima, at Pickthistle Manor pareceu-lhe mais comprido que o habitual. Tinha o rosto vermelho e suado do esforo e os olhos inchados como duas
mas assadas. Ao entrar pelos portes foi recebida por Trotsky, o assaz arrogante e grande co dinamarqus, que Inigo dera a Ingrid para a consolar aps a morte
do seu co preferido, Pushkin. Trotsky era castanho-amarelado com plo aveludado e o focinho inteligente de um estudioso de Cambridge, os olhos rodeados por crculos
negros que davam a impresso de que usava pequenos culos de armaes redondas, para grande divertimento de toda a gente. Da o nome Trotsky, que ele honrava com
grande orgulho e dignidade. Federica fez-lhe uma festa e prosseguiu. O animal pressentiu a aflio dela e seguiu-a com passadas largas e vagarosas.
Largou a bicicleta na gravilha e correu para dentro a gritar por Hester. Susteve a respirao e ficou  espera de uma resposta, mas no obteve
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nenhuma. Apenas o som da msica clssica de Inigo se escapava por baixo da porta do seu escritrio e pairava pela casa. No queria interromper Inigo, que estava
obviamente a trabalhar, por isso foi avanando de diviso em diviso na esperana de encontrar as raparigas. Ficou mortificada ao descobrir que a casa estava deserta
 excepo de Sam, sentado  mesa da cozinha a comer uma enorme sanduche de manteiga de amendoim e a ler o jornal de sbado. Quando a viu acanhada  porta, pousou
o jornal e perguntou-lhe o que se passava.
- Estou  procura da Hester - explicou em voz baixa, limpando o rosto com as mos e esperando que ele no reparasse que estava a chorar. Respirou fundo e forou
um sorriso.
Porm, Sam no se deixou enganar.

- As midas foram s compras com a minha me e os rapazes esto a fazer um piquenique na praia - respondeu ele e sorriu compreensivamente.
- Ah - disse Federica, sem saber que outra coisa dizer. Sempre se sentira sufocada quando se via sozinha com Sam. Ele era bonito de mais para contemplar, inteligente
de mais para se ter uma conversa com ele e demasiado crescido para estar interessado em si. Assim, comeou a recuar pela porta, murmurando que procuraria Hester
mais tarde.
- Porque no comes uma sanduche de manteiga de amendoim? perguntou, erguendo o frasco. - So muito boas. A minha me chama a este tipo de coisa "comida para conforto"
e tens ar de quem precisa de um pouco disso.
- No, a srio, no tenho fome - gaguejou ela, embaraada com a sua prpria incompetncia.
- Eu sei. Mas ests triste - argumentou Sam e sorriu mais uma vez. - Pelo menos come um bocadinho para te sentires melhor. - Tirou um par de fatias de po e comeou
a preparar uma sanduche para ela. Federica no teve escolha. Avanou para a mesa e sentou-se na cadeira que ele puxara para ela. - No consigo resistir a uma mulher
em lgrimas - confessou. Federica soltou uma gargalhada ao mesmo tempo que as lgrimas lhe toldavam a viso mais uma vez. A um ms de completar treze anos, dificilmente
poderia ser considerada uma mulher, nem sequer com muita imaginao. Baixou os olhos e deu uma dentada tmida na sanduche.
- Sabes - prosseguiu Sam -, as lgrimas das mulheres so a sua arma secreta. Sei que h mais gente que partilha desta opinio. A maioria
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dos homens amolece ao ver uma mulher chorar ou ento no sabem como lidar com elas, por isso ficam vulnerveis a todo o tipo de manipulao. Fazem de tudo para colocar
um sorriso nos lbios da mulher. Que posso eu fazer para te colocar um sorriso no rosto?
- No h nada que possas fazer. Eu fico bem - respondeu ela, sem tirar os olhos da sanduche, tudo menos olhar para Sam.
- bom, no h nada pior do que ficar dentro de portas a amuar num dia soalheiro como este. Porque no me fazes companhia num passeio? As campainhas animar-te-o
e quando regressarmos as raparigas provavelmente, j estaro de volta. Que achas?
- Deves ter coisas melhores para fazer - disse ela, no querendo ser aborrecida.
- Agora parecias o burro Ceyore. Tenta ser mais como o Pooh ou o Tigre. Na verdade - disse ele, sorrindo-lhe -, assemelhas-te mais ao Piglet.
- Isso  um elogio?
- com certeza. O Piglet  um sujeito fantstico. Ento, que tal um passeio pelo bosque dos cem acres?

Federica raramente via Sam. Depois de terminar os estudos, viajara durante um ano antes de ir estudar para Cambridge. As frias mais longas eram, de uma forma geral,
passadas a viajar, os fins-de-semana em Londres, em festas. Quando vinha a casa apenas ficava um par de dias, trancado na biblioteca de Nuno ou em discusses acaloradas
com o pai. Federica pedalaria caminho acima, o seu corao num estado de palpitante expectativa, desejando que o Dois Cavalos verde e branco de Sam estivesse estacionado
 porta, uma clara indicao de que estava em casa. Quando o espao na gravilha estava vazio, mantinha ainda assim os ouvidos atentos, na esperana de que talvez
durante a sua visita ele pudesse aparecer e surpreend-los a todos. Mas isso quase nunca acontecia.
Ao longo dos sete anos anteriores, a paixoneta de Federica por Sam no esmorecera nem suavizara. Na verdade, crescera em intensidade, inflamada pelo facto de raramente
o ver. Sabia que ele era demasiado crescido, sabia que nunca olharia para ela sem ser como a amiga da sua irm mais nova, mas ainda assim fantasiava acerca dele.
Molly e Hester sabiam da sua paixoneta. Toda a famlia sabia e todos a consideravam encantadora, at mesmo Sam, cujo ego no era imune aos 234
enrubescimentos de uma menina de doze anos. Contudo, ningum falava disso  frente de Federica. Ela era tmida e mal preparada para o tipo de humor da famlia.
Estava quente. As campainhas inundavam o cho como um rio violeta, afogando a desintegrante folhagem de Inverno sob a sua glria, tremeluzindo ao sabor da brisa
e anunciando o regresso da Primavera. Sam despiu a camisola, atando-a em redor da cintura, e caminhou em mangas de camisa com os punhos abertos a agitarem-se contra
as mos. Trotsky caminhava a trote atrs deles, farejando os arbustos e levantando a perna em todo o lado, pois o aroma a Primavera excitava-o.
- Adoro esta poca do ano. Os aromas so incomparveis, as rvores comeam a florescer. Olha s para aquele verde, quase irreal, no ? - comentou, puxando um rebento
de uma rvore e cheirando-o.
-  lindo - concordou ela, seguindo pelo trilho que avanava pelo meio das rvores.
- Ainda me lembro de quando c chegaste pela primeira vez afirmou ele.
- Eu tambm. Quase morri no lago.
- No foi um incio muito auspicioso - gracejou Sam.
- Mas foi melhorando - respondeu ela. Melhorara de facto, mas agora tudo se desmoronara.
- Tens saudades do Chile? - perguntou, abrandando o passo para que ela o seguisse, uma vez que o caminho ali alargava a ponto de permitir que avanassem lado a lado.
- Tenho saudades do meu pai - confessou ela, engolindo um soluo. - O Chile agora pouco mais  que uma memria esbatida. Se pensar no Chile penso no meu pai.
Sam esboou um sorriso compreensivo. Sabia muito bem que ela nunca falava do pai. Nuno condenara-o como cruel, Inigo apelidara-o de irresponsvel. Apenas Ingrid
ficava do lado de Ramon e acreditava que havia mais qualquer coisa por detrs da superficial realidade de um pai que abandonara a famlia.
Quando Ramon deixara Polperro h sete anos, toda a gente ficara electrizada pela sua sbita visita. Federica falara com orgulho sobre ele a cada oportunidade, esperando
obviamente que o pai regressasse de vez em quando para a ver, talvez um dia para ficar de vez. Escrevera-lhe.
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Longas cartas na sua caligrafia infantil, assinadas com amor e seladas com esperana. Ele escrevera-lhe poemas e um romance que dedicara " minha filha" sobre uma
menina chamada Topahuai que vivia no Peru, mas que nenhum dos Appleby compreendera,  excepo de Nuno que tinha uns conhecimentos bsicos de espanhol devido  sua
facilidade para falar italiano. Depois, as cartas haviam comeado a chegar com menor frequncia at pararem quase por completo. No houve qualquer visita surpresa,
nenhum telefonema. Federica guardava as cartas dele na caixa da borboleta, que escondia debaixo da cama. Sem saber porqu, comeara a envolver Ramon em segredo.
Parou de falar sobre ele. No mostrava a ningum a sua caixa da borboleta. Protegia possessivamente a memria dele nos recantos silenciosos da sua mente, onde ela,
e apenas ela, o podia visitar. A nica pessoa a quem franqueava a entrada nestes recantos era a Hester. E Hester guardava todos os segredos de Federica. Conseguia
at guard-los de Molly que tentara extra-los da irm por meio tanto da manipulao quanto da fora. Porm, Hester nunca cedera e orgulhava-se muito da sua lealdade
para com Federica.
 medida que os anos foram passando, a vergonha de Federica cresceu. Todas as restantes crianas tinham um pai. Os colegas de escola interrogavam-se por que motivo
Federica no tinha e sussurravam sobre isso por trs das suas costas. Bem fundo no seu subconsciente no conseguia deixar de se perguntar se fizera alguma coisa
de errado, j que o pai no a amava. Se a amasse haveria de a querer ver. Se a amasse sentiria saudades dela como ela sentia dele. Recordava-se das palavras dele
acerca da Senora Baraca, pois lembrava-se de tudo que ele alguma vez lhe dissera. "Por vezes,  melhor seguir em frente do que ficarmos presos ao passado. Devemos
tirar lies do passado e depois seguir em frente." Ele escolhera manter-se longe, preferiria que eles seguissem em frente?
- Gostei muito do teu pai - referiu Sam com cuidado. Reparou nos lbios dela a contorcerem-se de tristeza e nos olhos a marejarem-se de lgrimas e deteve-se. - Desculpa,
no devia ter falado sobre ele. Deve ser muito doloroso para ti - desculpou-se tocando-lhe no brao.
- Sinto a falta dele,  s isso - fungou ela.
-  claro - concordou Sam, empurrando os culos pela cana do nariz acima, um gesto que fazia com frequncia quando se sentia embaraado.
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- Por vezes, isso no me incomoda, mas outras, de repente, por razo nenhuma, penso nele e fico triste.
-  natural.
- Eu sei. O facto de a minha me ter um namoro a srio ser tambm natural? - perguntou com uma grossa lgrima a oscilar no lbio superior antes de tombar sobre
as campainhas.
Sam estacou e puxou instintivamente a criana em lgrimas para os seus braos.
- Ah, ento as lgrimas h pouco eram por causa disto - concluiu ele, abraando-a. Ela acenou que sim, mas tinha a garganta demasiado apertada para falar. -  uma
coisa que acabaria sempre por acontecer, Fede. Olha, vamos sentar-nos e conversar sobre isso - sugeriu, dando-lhe umas palmadinhas nas costas antes de a libertar.
Sentaram-se ao sol entre as campainhas, Federica de pernas cruzadas e Sam com as suas compridas pernas esticadas  sua frente e encostado ao tronco de uma rvore.
Federica no podia acreditar que ainda h um momento estivera nos braos dele. Para seu embarao, as lgrimas cessaram de imediato e pestanejou para ele com as faces
coradas.
- Ela j teve namorados antes, mas o Arthur quer casar com ela revelou Federica em desespero.
- Como  esse Arthur?

-  boa pessoa, suponho. No  muito interessante. Na verdade, acho-o bastante aborrecido.  um bocado gordo e no tem cabelo, mas ri de todas as piadas da minha
me e est sempre a dizer-lhe que ela  maravilhosa.
- Qual  a profisso dele?
-  comerciante de vinhos. Um velho comerciante de vinhos. Deve ter pelo menos uns cinquenta anos. A minha me afirma que ele  muito esperto e que tem um emprego
muito bom.  de confiana, responsvel e simptico. Sim,  essa a palavra, simptico. Simptico, simptico, simptico.
- Mas no  o teu pai - concluiu Sam.
- No - resmungou ela -, no  o meu pai e nunca ser.
- Pensava que os teus pais ainda estavam casados.
- E esto.
- Ento, a tua me teria de conseguir o divrcio para casar com este entediante Arthur - fez notar.
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- Sim, teria.
- bom, isso  coisa para demorar uma eternidade.
- Pois .
- A tua me concordou em casar com ele?
- No, ainda no. S os ouvi falar sobre isso.
- O que  que a tua me disse quando ele a pediu em casamento?
- Bem, o Arthur disse: "s uma flor delicada a precisar de proteco" - disse Federica num tom sussurrante. Sam riu-se da imitao dela. Os cantos dos lbios de
Federica curvaram-se num pequeno sorriso.
- Depois a minha me respondeu-lhe: "Quem me dera ser to bela como uma flor", ao que o Arthur respondeu, "com a ateno necessria, desabrochars numa. Casa comigo,
Helena." - Federica fez uma careta, pestanejando para conter lgrimas que agora pareciam deslocadas no meio das suas humorsticas imitaes. - Quase vomitei. A minha
me pode ser muita coisa, mas uma flor  que seguramente no . Que pensaria o meu pai?
Sam ria por entre dentes. Nunca antes se dera ao trabalho de conversar com Federica, sempre a achara assaz aborrecida e calada, mas estava agora a ver uma faceta
dela que no imaginara que existisse. No censurava nem um pouco as suas irms por gostarem tanto dela.
-  bvio que ela est a desfrutar das atenes de um homem amvel. No conheces a dinmica do relacionamento dos teus pais. Como o teu pai estava sempre longe,
a tua me devia sentir-se negligenciada. Este Arthur f-la claramente sentir-se atraente. E ela aprecia a ateno que lhe  dedicada - explicou Sam, acreditando
que resumira toda a situao num par de frases. Tirou os culos da cara e comeou a limp-los  camisa.
- Mas se ela se casar com ele teremos de nos mudar de Polperro
- fez notar Federica em pnico.
- Ah, pois, isso j  um problema - concordou ele. O rosto de Federica voltou a ensombrar-se.
- No suportava ter de me mudar. Adoro viver aqui - disse Federica num tom triste.
- A Molly e a Hester com certeza que tambm no haveriam de querer que te mudasses.
- Que hei-de eu fazer?
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- No podes fazer nada. Mas se eu fosse a ti - aventou ele, majestosamente - falava com a tua me e perguntava-lhe o que  que ela pretende fazer.
- Mas eu no posso confessar que estava a escutar s escondidas.
- E porque no? Eu fao isso a toda a hora. No h nada de errado em escutar atrs das portas. Se as pessoas no querem ser escutadas, devem assegurar-se de que
ningum as consegue ouvir. A culpa foi dele. Esse tal Arthur  no s entediante como tambm obviamente burro deduziu. Sam tinha pouca tolerncia para pessoas estpidas.
- Suponho que poderia falar com ela.
-  claro que sim.
- Mas ela s vezes parece que s est interessada em falar sobre o Hal. Acho que no faria a mnima diferena.
- Oh, meu Deus - disse Sam, acenando com a cabea. - Algumas mes adoram os filhos em detrimento dos restantes membros da famlia.
- Na tua famlia isso no acontece.
- No. A minha me sempre foi demasiado area para adorar qualquer um de ns em demasia. Ela nunca est verdadeiramente neste planeta, sabes? Parece sempre ficar
muito surpreendida ao dar-se conta de que teve qualquer um de ns. Acho que se algum lhe dissesse que fora a cegonha que nos trouxera, ela acreditava. No tem qualquer
memria de dar  luz. Somos uma constante fonte de admirao para ela.
- A tua famlia  a mais simptica que alguma vez conheci. Quem me dera que a minha fosse como a vossa - confessou melancolicamente.
- Os nossos problemas parecem sempre muito maiores que os dos outros porque nunca vemos para l do verniz das famlias das outras pessoas. Acredita no que te digo,
todas as famlias escondem fantasmas nos armrios. Tenho a certeza que ficarias bem surpreendida com alguns dos nossos - referiu ele e soltou uma gargalhada.
Porm, Federica no acreditou nele. Duvidava que eles soubessem sequer como era um fantasma.
- Suponho que seja muito natural que a minha me queira casar de novo - continuou Federica, colhendo uma campainha e rodando-a entre os dedos.
- Toda a gente precisa de algum - disse Sam.
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- O meu pai, no. No precisa rigorosamente de ningum.
- Nunca falas sobre o teu pai.  por te envergonhares dele? Federica no teria normalmente respondido a uma pergunta to pessoal, mas sentia-se segura com Sam.

- Sim - respondeu, quebrando a campainha em pequenos pedaos. - Gostava que fssemos uma famlia normal como a de toda a gente. Como a tua. Quando era mais pequena,
l no Chile, o meu pai costumava levar-me at  praia ou at Vina para comermos sanduches de palta. amos passar as frias a casa dos meus avs em Cachagua. Eram
tempos maravilhosos. Embora ele no viesse a casa muita vez, quando vinha era como se estivssemos no cu e quando ele partia eu sabia sempre que voltaria. As roupas
dele estavam nos roupeiros, os livros na sala de estar. Havia vestgios da presena dele por todo o lado. Agora no h nada.  como se tivesse morrido... Pior, porque
se estivesse morto toda a gente faria um esforo por record-lo. S que ningum fala dele. Sabes, em Vina toda a gente conhecia Ramon Campione. Ele era muito conhecido
no Chile. Era um escritor famoso, um poeta e toda a gente achava que era muito inteligente e dotado. Eu tinha tanto orgulho dele! Aqui nunca ningum ouviu falar
dele. Se no fosse pelas suas cartas, at eu me interrogaria se no inventara tudo.
- Oh, Fede - suspirou Sam. - Lamento muito. Deve ser horrvel para ti. Como nunca mostras os teus sentimentos ou falas sobre ele, partimos do pressuposto de que
estava tudo bem contigo. Mas como poderia estar?  monstruoso da parte dele abandonar-te assim.
- Ser mesmo assim to fcil esquecer?
- Ele esquece porque, provavelmente, fica cheio de remorsos e de culpa quando recorda. Nesse sentido, a opo mais fcil  de facto essa, esquecer por completo,
evitar.
- Sempre o coloquei num pedestal - exclamou Federica, forando um tnue sorriso.
- Ningum  infalvel, Fede. Nem sequer Ramon.
- Mas sete anos  mais do que descuido - argumentou ela.
- J passou mesmo assim tanto tempo? - inquiriu Sam, sentindo um grande pesar por ela. Federica recordava-lhe um dos animais feridos da sua me.
- Sim. Ele costumava escrever com muita frequncia, mas agora h cerca de seis meses que no recebo nenhuma carta dele. Eu ainda lhe escrevo,
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mas no tanto quanto costumava. Tenho medo de o vir a esquecer. No queria que ele aparecesse um dia e eu no o reconhecesse. A voz dela foi ficando mais tnue 
medida que a garganta se apertava. Esbugalhou muito os olhos numa tentativa de conter as lgrimas. Devia estar zangada com ele, mas no estou. S quero que venha
para casa.
- No podias falar com a tua me acerca disto? - perguntou Sam, arrastando-se para o lado dela para lhe poder pr um brao em redor dos ombros.
- Podia, s que a minha me  muito frgil. Ela odeia o meu pai, por isso no posso mencionar o nome dele em casa. O Hal nem sequer se recorda dele. O Arthur tornou-se
mais um pai para o Hal do que o meu pai alguma vez foi. Mas nunca ser um pai para mim, nunca soluou ela e as lgrimas rebelaram-se por fim e correram-lhe pelas
faces.
Sam tentou confort-la apertando-lhe os ombros e dando-lhe o melhor conselho que lhe ocorria.
- Fala com a tua me. No h coisa mais incmoda que a dvida. No sabes se ela disse que sim a esse aborrecido do Arthur e no sabes o que isso significa para ti,
caso tenha aceite o pedido dele. Tens de descobri-lo.  possvel que ela no tenha quaisquer tenes de sair de Polperro.
Federica acenou com a cabea e fungou.
- Eu pergunto-lhe.
- ptimo. Depois contas-me o que ela te disse?
- Conto.
- Podes vir ter comigo para conversarmos sempre que quiseres, est bem? - ofereceu ele. - A Hester  boa menina e  tua amiga, mas por vezes  melhor falar com um
adulto. Em especial quando no podes falar com a tua me. Toda a gente precisa de algum com quem falar.
- E com quem  que tu falas?

- com o Nuno ou com o meu pai. Principalmente com o Nuno, suponho.
- Ele no  um bocadinho luntico? - perguntou Federica. Sam sorriu-lhe.
- Excntrico, mas no doido. Na verdade,  o homem mais inteligente que alguma vez conheci. Ensinou-me mais do que eu teria aprendido na escola.  demasiado sbio
para seu prprio bem.
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- Quem me dera ser sbia.
- Sers um dia. No entanto, ningum te poder ensinar a sabedoria. Podem apenas passar-te conhecimentos e aconselhar-te para que no cometas os mesmos erros que
eles. De uma forma geral,  preciso viver para adquirir sabedoria. "Diz-se que o sofrimento nos torna sbios", Lorde Alfred Tennyson.
- Ento eu devo ser j bastante sbia - disse ela num tom irnico e sorriu para ele com autocomiserao.
- No coloques a tua felicidade nas mos de outra pessoa.
- Que queres dizer com isso?
- No dependas das outras pessoas para te fazerem feliz, nesse caso sers sempre infeliz. As pessoas desiludir-te-o inevitavelmente afirmou ele. - E agora para
alegrar, que dizes a regressarmos? Aposto que a Hester j deve ter chegado com um guarda-roupa completamente novo para te mostrar - gracejou, levantando-se do cho.
-J te sentes melhor?
Federica acenou que sim com a cabea.
- Obrigada - agradeceu cheia de gratido. Sam reparara, por fim, em si. Sentiu uma agradvel leveza, apesar do peso que tinha no corao.
Sam deu-lhe umas palmadinhas entre os ombros.
- Vamos. E isso tambm te inclui, Trotsky - declarou para o co, que dormira o tempo todo enquanto eles conversavam. Ps-se de p e espreguiou-se antes de encetar
o mesmo caminho que haviam percorrido por entre as campainhas. O chilrear dos pssaros enchia as rvores, ocasionalmente pontuado pelos assobios de um faiso. A
luz do Sol banhava os bosques com uma resplandecente nvoa e Federica sentia-se como se estivesse a atravessar um paraso terrestre. Observou Sam, alto e muito direito,
a liderar o caminho, e soube que nunca poderia abandonar Polperro porque os Appleby eram a sua famlia e no podia simplesmente ficar longe deles.
CAPTULO VINTE E UM
Quando Helena vira Ramon partir, h sete anos, percebeu que o afastara. Admitira ter-se arrependido, expondo-se de novo a ser magoada, mais uma vez, pela indiferena
de Ramon. Pensara que ele mudara, mas sabia no fundo do seu corao que ele nunca, mas nunca, mudaria. Sempre fora demasiado egosta para pensar em mais algum que
no ele. Assim, Helena engolira a sua humilhao e deixara-o partir, resolvendo para si mesma continuar com a sua vida em Polperro, apesar dele.

Helena talvez tivesse acreditado que se depurara da presena do marido, mas, sem que se desse conta, as palavras dele haviam penetrado o seu subconsciente, onde
tinham criado razes e crescido. Comeou a arranjar espao na sua vida para si mesma e para as suas necessidades. Contava mais com a me para a ajudar com Hal -
Federica no precisava que olhassem por ela, era responsvel e auto-suficiente, olhava por si mesma e at pela me. Por isso, Helena no se preocupava com Federica,
preocupava-se com Hal.
Hal era dependente e carente e to egocntrico quanto a sua me. Era muito dado a caprichos de temperamento, estando contente num minuto e melanclico no seguinte,
chafurdando numa poa da sua prpria insatisfao. Polly estava satisfeitssima por ser precisa mais uma vez e lanou-se ao papel de me e av com grande prazer.
Jake limitou-se a enterrar o seu nariz ainda mais nas miniaturas de barcos, tentando ignorar a restante famlia que se agitava numa mal contida nsia para satisfazer
as exigncias da sua filha e neto.
Assim, Helena seguira em frente. Comeou a aceitar convites para sair. Chegou at a dormir com alguns dos homens com os quais saa, e quase se conseguiu convencer
de que gostava disso. Contudo, nenhum
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deles fazia amor consigo como Ramon e por muito que soubesse que j no era realmente casada, sendo livre para sair com quem quisesse, a seguir no conseguia evitar
sentir-se culpada e infiel. S depois de conhecer Arthur Cooke  que tudo isso mudou.
Polly percebeu que Arthur devia ser diferente dos outros, pois reparou que Helena ia arranjar o cabelo, pintava as unhas, comprou um guarda-roupa novo e comeou
a orgulhar-se da sua aparncia. Um porte mais gracioso apoderou-se do seu andar, os ombros para trs e a cabea erguida como sempre fizera quando era adolescente.
De repente comeou a parecer mais a idade que tinha, trinta e sete anos, ao invs da idosa que deslizara sub-repticiamente para baixo da sua amarga pele.
Arthur Cooke tinha quarenta e nove anos, era divorciado e tinha trs filhos, todos com vinte e poucos anos. Orgulhava-se da sua capacidade de manter uma boa relao
com a mulher, que casara de novo, e com os filhos, que pareciam no ter para com ele qualquer ressentimento pela destruturao da famlia. Quando Helena o conhecera
pela primeira vez, numa entediante festa dada por um dos seus "namorados", achara que ele se parecia com um ovo. Um ovo sorridente. No era alto, no tinha muito
cabelo, no se vestia particularmente bem e no tinha nada em termos fsicos que a atrassem. Contudo, Helena estivera demasiado ocupada a avaliar o que ele no
tinha para reparar no que ele tinha de facto. Descobriu isso mais tarde.
Arthur era amvel, espirituoso, enrgico, animado e generoso. Quando deu por si a falar com ele porque simplesmente no havia ningum melhor com quem falar, reparou
nuns perspicazes olhos castanhos que no deixavam escapar nada, num sorriso que cobria toda a sua jovial face e num riso contagiante. Quando lhe tocou na mo, a
dele era suave e afvel, quando falou, a voz era compreensiva, e quando a escutou, ela deu-se conta de que ele o fazia sem distraces como se ela fosse a mulher
mais fascinante que ele alguma vez conhecera. No final da noite, Helena no conversara com mais ningum e ignorara por completo o homem que a acompanhara. Arthur
convidou-a para uma bebida e ela abandonou o acompanhante sem sequer uma explicao, sabendo que no se preocuparia nem um pouco por no o voltar a ver.
Foram at um bar calmo, com vista para a baa, e sentaram-se numa mesa iluminada por velas, escutando a msica sentimental que acompanhava

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o ritmo soporfero da mar e conversaram durante horas. Quando Arthur a foi deixar a casa sabia tudo sobre Ramon, Federica e Hal. Helena permitira que ele lhe desnudasse
a alma, camada por camada, com a ajuda de vrios copos de vinho at ela ficar nua  frente dele, sozinha e infeliz. Ajudara-a ento a cobri-la de novo com elogios
e palavras de encorajamento e compaixo. Quando Helena acordou na manh seguinte, olhou-se ao espelho e viu uma mulher velha e esgazeada a olh-la de volta, surpreendida.
Nunca antes reparara nela. Chocada, deixou a me a tomar conta dos seus filhos e desapareceu na cidade durante metade do dia para se descartar da esposa de Ramon
e emergir como uma pessoa diferente. Quando Helena regressou com um ar rejuvenescido, a me disse-lhe que um homem, chamado Arthur, tinha telefonado. Ela sorriu
de uma forma que Polly no a via sorrir h muito, muito tempo.
Arthur fazia-a sentir-se bem consigo mesma. Parecia compreend-la, a ela e s suas necessidades. Segurava-lhe a mo quando esta comeava a tremer e ensinou-a a respirar
profundamente desde o fundo do estmago quando se sentia nervosa. Telefonava-lhe a toda a hora por razo nenhuma, apenas para ouvir a voz dela e saber se ela estava
bem. Fazia-a sentir-se protegida. Fazia-a rir com a ausncia de inibio que caracterizara aqueles primeiros anos celestiais com Ramon, livremente e com vontade.
Arthur fazia-lhe sentir que nada importava realmente e, de repente, deu-se conta da razo por que Ingrid estava sempre feliz, porque vivia num mundo despreocupado
e vago que pairava acima das preocupaes das pessoas mais terrenas. Nunca seria como Ingrid, mas era agora capaz, pelo menos, de ver o mundo dela e aspirar a ele.
Por muito que Arthur se insinuasse, Helena estava aterrorizada em levar o relacionamento para uma dimenso fsica. O sexo com Ramon fora algo transcendental. Ningum
poderia competir com aquilo. E Arthur menos ainda. No era um homem fsico. No praticava desporto, tinha p chato e no estava nem um pouco em forma. Adorava boa
comida, bom vinho e boa companhia, mas ela era incapaz de o imaginar na cama e temia que o sexo arruinasse a relao de uma forma que j no tivesse conserto. Por
isso, repelia os avanos dele quando a tentava beijar. Contudo, os sagazes olhos castanhos de Arthur tinham j reparado em tudo. E no era homem dado a hesitaes
e a amuos. Quando tinha alguma coisa para dizer, dizia-a pura e simplesmente.
- Helena - comeou ele, numa tarde de Inverno, enquanto tomavam um copo de vinho frente  ruidosa lareira na sala de estar dele.
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- Sim, Arthur - respondeu ela com nervosismo, temendo que a fosse convidar para passar a noite com ele.
- Tens a mo a tremer outra vez. D-me o teu copo de vinho
disse. Ela estendeu-lho e sorriu com hesitao. - Fecha os olhos - pediu ele, tomando a mo dela na sua. - Agora, respira profundamente, at ao fundo dos teus pulmes.
Isso mesmo. Agora deixa o ar sair. Deixa sair todo o medo e toda a incerteza. Muito bem. Outra vez - instruiu ele, fazendo-a repetir o exerccio trs vezes. - Agora
j te deves sentir melhor - afirmou, mas ela no sentia. - Desta vez quero que feches os olhos e me deixes beijar-te.

- No, Arthur... - protestou ela.
- Tu at queres, mas tens medo. Dormiste com outros homens desde o teu marido, mas nenhum deles conseguiu satisfazer-te. Receias que eu te desiluda. Posso assegurar-te
que isso no acontecer - garantiu. Assim, Helena fechou relutantemente os olhos e fez figas para que o vinho lhe embotasse os sentidos. Sentiu os lbios dele roarem
os seus, mas at poderia ser o calor das chamas que trepidavam na lareira. Um momento mais tarde, sentiu o mesmo novamente, seguido daquele familiar formigueiro
na barriga estimulando a memria do toque de Ramon. Queria abrir os olhos, mas manteve-os firmemente fechados com medo de ver o rosto sincero de Arthur junto ao
seu e perder a coragem. Depois sentiu os lbios dele afundarem-se na sua boca ansiosa. Surpreendentemente, at lhe soube bem. Ento, sentiu a mo dele na nuca, uma
mo firme e reconfortante puxando-a confiantemente em direco a ele,  medida que abria os lbios e a beijava com ternura. Apesar dos seus medos, os sentidos dela
rebelaram-se contra o seu raciocnio e deu-se conta apenas do grito dos seus nervos ao mesmo tempo que estes clamavam por que ele a acariciasse e a amasse.
Arthur levou-a pela mo at ao quarto no andar de cima. A comeou a fazer amor com cada centmetro do seu corpo com o entusiasmo e a ateno de um homem cujo nico
objectivo  dar prazer, pois ao faz-lo da retira o seu prprio prazer. Helena abandonou-se  devoo dele sem se sentir culpada ou no merecedora. Ento, depois
de a convencer da mestria dele, Arthur voltou a fazer amor com ela, desta vez com humor at ambos rebolarem pela cama a rir descontroladamente.
No havia comparao com Ramon, pois era muito diferente. A competncia sexual de Arthur era o seu trunfo. Fora totalmente 246
inesperado. Depois de o descobrir, Helena no se cansava dele. com Arthur ela sentia-se feminina e viva outra vez. J no estava a preparar-se para viver mas a viver,
e a memria amarga de Ramon dulcificou-se um pouco mais ao mesmo tempo que foi sendo empurrada para os recessos da sua mente at j no a perseguir e atormentar.
Arthur ocupava agora o seu presente e no havia simplesmente tempo para olhar para o passado.
At Arthur a pedir em casamento e Ramon ter reaparecido subitamente nos seus pensamentos.
Helena respondeu-lhe que iria pensar nisso, mas que tinha de tomar em considerao os sentimentos dos seus filhos. Sabia que Federica no gostava de Arthur, apesar
das persistentes tentativas que este fazia para se tornar amigo dela. Respondia s perguntas dele por monosslabos e com um olhar carrancudo. Mas o pior era o ar
triste e deprimido nos olhos dela que Helena era incapaz de ignorar. Hal gostava de Arthur. Mas queria a me para si. Desde que concedesse a Hal tempo suficiente
e ateno, ele aceitaria Arthur sem se queixar. Se pusesse em considerao a suaprpria felicidade, sabia que no poderia ficar sem Arthur, porm, estava ainda casada
com Ramon e algo dentro de si continuava relutante em abdicar dele.

Quando Federica foi at ao quarto da me depois de ter regressado de Pickthistie Manor, Helena estava a mudar de roupa. Arthur vinha jantar. Federica estendeu-se
na cama e observou a me a secar o cabelo frente ao espelho. Recordou-se daqueles tempos no Chile em que ela no se preocupava com o cabelo e o amassava e prendia
no cimo da cabea. Agora passava horas em frente ao espelho a tratar dele, domando-o com escovas e pentes. Estava outra vez radiante. E parecia feliz. Federica sabia
que deveria estar feliz tambm, mas no conseguia. Arthur no tornara a me menos egocntrica, na verdade satisfazia-lhe todas as vontades e caprichos, permitindo
que fosse o centro do seu mundo. Helena raramente perguntava alguma coisa em relao a ele. Federica reparava mais nisso quando a me estava ao telefone. "Eu, eu,
eu", pensava Federica sombriamente.
Que tal estou? - perguntou Helena, beliscando as bochechas.
Linda mam - respondeu Federica com sinceridade.
Tenta ser simptica com o Arthur, Fede. Ele esfora-se tanto por ser teu amigo!
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- Ele pode ser meu amigo - disse Federica, o seu corao batendo com adrenalina em antecipao da prxima frase -, mas no meu pai. - Pestanejou surpreendida com
a sua prpria coragem.
Helena virou-se lentamente e olhou a filha nos olhos, o sorriso desvanecendo-se dos seus lbios, substitudo por um ar srio.
- Ouviste a nossa conversa esta tarde? - perguntou.
Federica acenou que sim com a cabea. Recordou-se do que Sam lhe dissera e tentou no fazer um ar culpado.
- No tinhas o direito de escutar a minha conversa - reclamou a me, zangada, esticando o brao para o mao de cigarros.
- No pude evit-lo. Estavam ambos a falar bastante alto. No foi minha inteno escutar - explicou Federica. Helena colocou um cigarro entre os lbios pintados
de cor-de-rosa e acendeu-o. Federica encolheu-se quando a me soprou o fumo para o ar. O cheiro nauseava-a.
- Sendo assim, nem vale a pena ento explicar-te o que ele disse retorquiu a me num tom sarcstico.
- Ele pediu-te em casamento - declarou Federica, mas a sua voz estava agora mais sumida.
Helena atenuou o seu tom.
- Escuta, querida. Ele nunca ser teu pai. Tambm no  isso que ele quer. O Arthur j tem trs filhos. Apenas quer ser teu amigo.
- Quer ser teu marido, mas tu continuas casada com o pap.
- S no papel. O divrcio pode conseguir-se com facilidade - replicou Helena, descuidadamente, e os olhos de Federica toldaram-se de tristeza. Enquanto os pais continuassem
casados havia esperana. O teu pai e eu h muito, muito tempo que no estamos juntos. No esperas com certeza uma reconciliao, pois no, Fede?
O lbio inferior de Federica comeou a tremer. Abanou a cabea, mas no seu ntimo no havia mais nada que quisesse com maior fervor do que uma reconciliao.
- Vais dizer que sim? - quis saber Federica.
- Estou a pensar nisso - disse Helena virando-se novamente para o espelho.
- O que  que o Hal acha disto?
- Quer que eu seja feliz - respondeu ela num tom quase acusador, como se fosse acrescentar "ao contrrio de ti".
- Eu tambm quero que sejas feliz - retorquiu Federica, sentindo-se culpada.

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- Ento, deixa-me fazer o que for melhor para mim. Sacrifiquei tudo por vocs. Tens quase treze anos. Em breve sers uma mulher. No terei direito tambm a ser feliz?
Federica acenou que sim com a cabea.
- Se casares com ele, teremos de deixar Polperro? - perguntou.
- Talvez tenhamos de o fazer - respondeu Helena, apagando o cigarro. - O emprego do Arthur  na cidade.
- Ento, no quero que cases com ele - gritou ela, subitamente dominada pela fora das suas emoes e incapaz de as controlar.
- Olha, Fede... - comeou Helena, impacientemente.
- No. Recuso-me a ir. No vou! - disse de modo exaltado.
- No vamos para longe. Poders continuar a ver os Appleby tanto quanto quiseres.
- Quero ficar aqui com a av e o av - soluou.
- Falaremos sobre isto quando estiveres mais calma - argumentou Helena, pressionando os lbios com uma pacincia forada.
- No irei. No irei - repetiu Federica.
Helena ficou confundida com o acesso da filha. Ela era habitualmente to calma e obsequiosa!
- Pronto, acalma-te, querida - tentou apazigu-la, sentando-se a seu lado e colocando um brao em roda dela. - No dei ainda nenhuma resposta ao Arthur e continuo
casada com o teu pai, por isso no vamos j colocar o carro  frente dos bois. Seca as lgrimas e desce, o Arthur no tarda est a e no quero que te veja transtornada.
Ficaria mortificado, pois  amvel e simptico.
Polly e Jake gostavam muito de Arthur porque este lhes salvara a filha de um buraco negro e a pusera de novo a sorrir. Repararam no rosto choroso de Federica  mesa
e nas respostas curtas que murmurava sempre que ele tentava falar com ela. Compreendiam-na, mas esperavam que a neta acabasse por simpatizar com Arthur, pois a felicidade
de Helena era a sua principal preocupao. Federica sentia-se como se estivesse a ser engolida por uma enorme nuvem cinzenta onde ningum conseguia v-la ou escutar
os seus gritos de socorro.
Nessa noite escreveu uma carta urgente ao pai a contar-lhe que a me pretendia casar com um "homem horrvel e feio chamado Arthur" que iria lev-los para longe de
Polperro, para uma qualquer cidade.
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Acrescentou ainda que se fosse levada para longe de tudo o que amava, se suicidaria. Ao lamber o envelope estava segura de que ele viria to depressa quanto pudesse
para a salvar da desgraa iminente. Depois deitou-se na cama, o quarto iluminado pelo lmpido luar de Primavera, e abriu a caixa da borboleta. Escutou os familiares
guizos e contemplou a borboleta a bater as asas sob a tnue luz que lhe concedia uma beleza estranha e espectral. Pensou no pai e interrogou-se sobre o que estaria
a fazer e se alguma vez pensaria em si. Caindo no feitio da caixa, fechou os olhos e, mais uma vez, juntou-se a ele nas praias do Chile, onde o sol era quente e
a areia como a farinha de Lidia entre os dedos. Concentrou-se nas histrias dele como se a sua vida disso dependesse e, aos poucos, retirou-se para os recessos secretos
da sua mente onde ningum a no ser o pai a podia alcanar.

No dia seguinte, Helena deixou Federica sozinha em casa enquanto ia  igreja com a me e Hal, de onze anos.
- Ela precisa de algum tempo sozinha - explicou Helena  me enquanto subiam a vereda.
- Est a ter dificuldades em aceitar o Arthur, no ? - disse Polly, acariciando a cabea de Hal. - Ao contrrio deste maroto.
Hal olhou para a av e sorriu presunosamente. Se tivesse uma cauda t-la-ia abanado.
- Suponho que seja compreensvel, mas o Ramon e eu no estamos juntos h anos, seria de esperar que ela j se tivesse habituado e conformado com isso - suspirou
Helena.
- bom, cada criana  diferente e ela sempre teve um relacionamento muito prximo com o pai.
- Tem de aceitar as coisas como elas so e seguir em frente. Foi o que eu tive de fazer, e o Hal tambm. Amo o Arthur e no abdicarei dele. Por ningum - insistiu
Helena, melodramaticamente.
- Eu gosto do Arthur - afirmou Hal, sabendo que isso deixaria a me feliz.
- Eu sei que sim, e o Arthur tambm gosta de ti - disse Helena num tom alegre.
- O Arthur no gosta da Fede? - quis saber ele.
- Gosta sim, e esfora-se muito para fazer com que ela goste dele, mas a Fede est a ser muito teimosa. Pobre Arthur.
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- Pobre Arthur - concordou Hal. - Espero que continuemos a v-lo muitas vezes. Ele faz-te feliz, mam, e isso  tudo o que me importa.
Helena ficou enternecida.
- s to amoroso, Hal! Que teria sido de mim sem ti? - disse.
- Teria sido muito difcil - gracejou Hal, afastando o seu espesso cabelo negro dos olhos. - Sem ofensa, o pap foi um verdadeiro imbecil por ter abdicado de ti,
e o Arthur  um homem cheio de sorte.
Helena passou todo o servio religioso a pensar em Arthur e a meditar acerca da proposta dele. No contara nada  me, pois queria ter tempo para pensar no assunto
antes que toda a gente se pusesse a dar a sua opinio. Sentia-se estimada e protegida com Arthur. Ele dissipava-lhe todas as suas preocupaes e receios. Ramon pensara
apenas em si mesmo, as necessidades dela haviam sempre ficado a seguir s suas. com Arthur ela vinha primeiro, em tudo. A vida dele girava agora em torno da felicidade
dela, e ele fazia o que fosse preciso para a ver satisfeita. Quando o reverendo Boyble falou sobre a virtude do altrusmo e de colocarmos os outros antes de ns
mesmos, Helena pensou em Arthur e sorriu de satisfao, como se fosse merecedora de encmios pelas boas qualidades dele. Tentou no pensar em Ramon. No valia a
pena, partira e no iria voltar. Ela fizera a sua escolha. Ele fizera a dele. No a queria de volta. Imaginou o rosto amvel de Arthur e convenceu-se a si mesma
de que no queria Ramon de volta. Mas, ainda assim, tinha dvidas e no final da missa a sua mente no estava mais lcida do que antes. No sabia o que fazer. O divrcio
parecia-lhe uma coisa demasiado definitiva.

Federica encontrou-se com Hester na sua gruta secreta, na falsia que as gaivotas sobrevoavam, onde faziam os seus ninhos e que a mar varria todas as noites, arrastando
consigo os segredos delas. Sentaram-se  sombra da rocha e Federica contou-lhe as novidades acerca de Arthur.
- Se tiver de deixar Polperro, morro - disse Federica, terminantemente.
- No podes deixar Polperro! Isso significaria que irias para uma escola diferente? - perguntou Hester, ansiosa.
- Tudo - suspirou Federica num tom sombrio -, tudo mudar. No sei o que fazer.
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- Tens de recusar-te a ir. Ele no pode obrigar-te. Como poderia? - sugeriu Hester, ingenuamente. - Bate o p e recusa-te a ir.
- No quero viver numa cidade.
- Eu detestaria viver numa cidade.
- No quero viver com o Arthur, ele  enfadonho.  gordo, transpira muito e  enfadonho, no percebo o que  que a minha me v nele. O pap  to bonito!
-- O teu pai  o homem mais bonito que alguma vez conheci. A minha me ficou muito impressionada com ele, sabias? - contou Hester com umas risadinhas.
- A srio?
- Sim, a Molly e eu tambm.
- Vocs tm todas muito bom gosto - elogiou Federica com orgulho. - Sabes, escrevi-lhe uma carta.
- Ai sim?
- Sim. Contei-lhe do Arthur e que a minha me pretende casar com ele. Disse tambm que se eles casassem e me levassem de Polperro, me mataria.
Hester arquejou.
- Oh, meu Deus! Ele vir de certeza.
- Eu tambm acho. Ele tira-nos desta confuso, vais ver. Nunca permitir que uma coisa assim acontea.
Federica regressou a casa para o almoo e viu o carro de Arthur estacionado na gravilha. Fez uma careta e apertou os lbios numa atitude de determinao antes de
entrar em casa para o enfrentar. Arthur estava sentado na sala de estar a conversar com Hal e Jake, enquanto Polly preparava o almoo na cozinha com Helena.
- Ah, Federica - cumprimentou Arthur quando ela entrou na sala. - Mesmo a pessoa que eu procurava. Tenho uma coisa para ti - gracejou ele, amigavelmente, colocando-se
de p. Federica reparou no suor que comeava a formar-se na testa e a escorrer-lhe pela cara abaixo. Viu-o dirigir-se  pequena diviso que Jake reservava para o
armrio das bebidas. Olhou para o av e ergueu uma sobrancelha interrogativamente, mas ele limitou-se a sorrir-lhe em resposta. Arthur reapareceu ento carregando
uma grande caixa de carto que parecia bastante pesada, a julgar pela forma como ele se debatia para a transportar, mas conseguiu sorrir ao coloc-la com cuidado
no cho frente a Federica.
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- O que ? - perguntou ela, sem tirar os olhos da caixa.
- Abre-a - disse Arthur.
- V, Fede - incitou Hal. - Eu sei o que  - acrescentou e sei que vais gostar.
Federica abriu a caixa. Para seu espanto e alegria viu dois olhos brilhantes a contemplarem-na com um ar desolado.

- Um co! - gritou ela. - Um co verdadeiro! - Lanou os braos para dentro da caixa e pegou no pequeno e gorducho cachorro ao colo, cobrindo-lhe o plo branco de
beijos.
- Tens de ler a coleira - disse Hal, juntando-se a ela no sof e fazendo tambm festas ao co.
- Rasta - leu Federica, segurando o disco prateado entre os dedos. Sentiu de repente uma vertigem ao recordar-se do co da Senora Baraca e da promessa que a me
lhe fizera em Cachagua. - Obrigada - disse timidamente, sentindo-se um pouco culpada por ter sido to pouco amvel com Arthur. -  mesmo meu? - perguntou.
-  mesmo teu -- respondeu Arthur, sorrindo com alvio. Cruzou o olhar com Jake e acenou com a cabea. Tinham tido razo, um cachorro resolveria a coisa. Rasta abanou
a pequena cauda com tamanha excitao que quase levantou voo como um helicptero. Porm, Federica mantinha-o bem -seguro nos seus braos, permitindo que ele lhe
lambesse a cara e lhe cheirasse a pele. Pensou em Trotsky e ansiou por apresent-los. Seguramente que se tornariam grandes amigos. Ingrid iria ador-lo, tal como
Sam. Decidiu lev-lo a Pickthistle Manor logo a seguir ao almoo para o exibir.
Helena e Polly escutaram os guinchos de alegria e correram  sala onde se depararam com Hal e Federica deitados no cho com o co.
- Ah, ele  to querido - comentou Polly, piscando o olho a Arthur. - s uma menina cheia de sorte, Fede!
- O cachorro  metade Labrador e metade outra coisa qualquer, mas o Arthur e eu ainda no percebemos ao certo o que essa outra coisa  - referiu Helena. Federica
observou a me a juntar-se a Arthur no sof. Reparou que ele lhe pegou na mo e lha apertou. Obviamente que pensava que a tinha conquistado com este presente, mas
estava enganado. Sorriu tortuosamente para si mesma. O pai estava prestes a regressar e a mudar tudo.
CAPITULO VINTE E DOIS
- Olha para a cmara, querida. Isso mesmo, s linda. Deslumbrante. Isso mesmo, um pouco mais de peito, isso  de mais, de mais. Est melhor, agora olhos na cmara.
Sorri, querida, sorri. Muito bem. - Julian foi disparando uma srie de fotografias da magra jovem reclinada no div como um lustroso felino. Os seus olhos eram verdes
e miravam-no por baixo de pesadas plpebras que lhe roavam o rosto com as suas pestanas compridas e pretas. Era bela, confiante e atraente. Tanto, to jovem. Tinha
apenas dezoito anos.
Julian conhecera Lcia Sarafina num clube londrino e escutara os seus sonhos de se tornar uma cantora famosa.
- Tenho a beleza e o corpo,  apenas uma questo de treinar a voz - afirmara ela num forte sotaque italiano. Julian, que apreciava o aspecto esttico de uma mulher
bonita, convidara-a para a cabana que partilhava com Toby para lhe tirar algumas fotografias publicitrias. Ela concordara de imediato, agarrando a oportunidade
de usar mais um homem deslumbrado e seduzido pela sua beleza. Lcia olhava-o com a perseverana de uma pantera  caa, usando apenas um par de calas de ganga deslavadas
e sandlias, o seu corpo firme e bronzeado. Tinha a certeza de que ele estava pronto para ser convertido ao mundo dos heterossexuais.

Estava um dia hmido. Um aglomerado de nuvens purpreas avanava lentamente pelo horizonte prometendo uma tarde de trovoada e chuva. Porm, enquanto a luz permanecia
neste tnue limbo, suspensa entre o sol e o trovo, Julian continuava a fotograf-la antes que a luz se perdesse na iminente tempestade.
Lcia usava um simples vestido branco com um decote bem pronunciado e bastante curto, expondo as suas trigueiras coxas. A cada pose
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colocava-se de forma expressiva, olhando directamente para a mquina com a autoconfiana de uma modelo profissional.
- Podes relaxar um pouco, tenho de mudar o rolo. Depois, talvez pudssemos tirar algumas debaixo da rvore em flor ou assim - sugeriu ele, virando-se para tirar
um rolo novo da caixa. - Queres beber qualquer coisa? - ofereceu, rasgando o invlucro prateado que envolvia o rolo.
- Acho que no posso ir a lado nenhum vestida desta forma - comentou ela com uma pequena gargalhada.
- Porque no? - inquiriu ele, virando-se de novo. Ela sorriu para ele e arqueou as sobrancelhas de forma sugestiva, lanando o vestido para a relva com um esgar
matreiro.
- E se o teu namorado regressa, ainda apanha um susto - disse, passando a mo pelo corpo nu. Julian ficou surpreendido, mas no chocado. Estava naquela profisso
h tempo suficiente para j ter testemunhado todo o tipo de avanos. Na verdade, estava farto de os repelir. As mulheres bonitas tinham dificuldade em acreditar
que ele no as desejasse, malgrado a sua homossexualidade explcita. Tinham todas a certeza de que o conseguiriam converter e ficavam profundamente ofendidas quando
descobriam que no conseguiam. Julian colocou o filme na mquina e bobinou-o como se no tivesse reparado nela.
- Muito bem, querida - declarou num tom animado -, vamos l colocar-te noutro lugar qualquer. Esse div j est a tornar-se um pouco entediante. - Olhou em redor
do jardim. - Uma cadeira por baixo da rvore florida. Vais parecer uma ninfa da floresta, muito encantadora sugeriu, desaparecendo no interior da casa. Lcia suspirou,
mas no de rendio. Estava profundamente segura em relao aos seus encantos.
Julian colocou a cadeira sob a rvore de rebentos brancos e rosa e deslocou o seu trip e mquina para o local mais apropriado. Lcia avanou nua em direco  rvore
e virou a cadeira para que as costas da mesma ficassem de frente para a mquina, depois sentou-se nela de pernas abertas, repousando a cabea nos braos dobrados
e olhando sem pestanejar para Julian.
- Olha, querida, no me parece que isso seja muito boa ideia. s uma cantora, no uma actriz pornogrfica - comentou ele, focando a imagem.
- Esta  para ti - explicou ela e fez um sorriso gracioso, na esperana de que ele ficasse agradecido.
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No foi bem-sucedida.
- Receio que v para uma pasta e acabe esquecida. Como disseste que se chamava o teu namorado? Faamos a foto para ele - aventou Julian, mudando para a Polaroid.
- Chama-se Torquil.
- Ora, muito bem, esta ser ento para o Torquil - afirmou, substituindo a Polaroid por filme.

- Ele vai ficar muito divertido - disse ela, sentando-se direita e fazendo-lhe uma careta. - Podemos dar-lhe a Polaroid como presente quando me vier buscar mais
tarde.
- Se  isso que queres - respondeu Julian, puxando a foto da mquina e olhando para a imagem. - Muito bem, Lcia. A Playboy mataria por isto. Talvez devesses considerar
uma mudana de carreira, implica um menor esforo e tu pareces ter nascido para isto.
- Oh, no era capaz de posar assim para qualquer pessoa - argumentou ela numa voz empastada e olhando para ele com um olhar sedutor.
- Ningum diria - contraps Julian, disparando de novo. - Agora com um ar voluptuoso, no quero que sorrias. Faz um ar sedutor, zangado mesmo. Est melhor. Isso,
levanta um pouco a cabea, sim, mais um pouco, agora um bocadinho para o lado, menos, isso mesmo, olha para a cmara, f-los brilhar. ptimo. - E fez um rolo inteiro.
- Ora bem, e agora se voltasses a vestir-te e fizssemos mais algumas fotos publicitrias? - sugeriu ele, mudando o rolo.
- Estou farta de posar e de qualquer maneira gosto de andar nua. Tu no?
- Por vezes, mas no quando estou a trabalhar.
- Pois, mas eu no estou a trabalhar agora, estou a brincar.
- bom, nesse caso, vamos tomar um ch. - Comeou a arrumar o equipamento. Olhou para o cu e reparou que a tempestade estava quase por cima deles. - Conseguimos
definitivamente aproveitar a melhor parte do dia - concluiu, dobrando o trip.
- Oh no, a melhor parte do dia ainda est por vir - declarou ela, levantando-se da cadeira e avanando na direco dele.
Julian suspirou desanimadamente.
- Na verdade, Lcia, no est.
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- Isso  que est - declarou como quem no deixa margem para dvidas, detendo-se frente a ele e deslizando a ponta do indicador pelo meio do peito dele. - Cuidas
bem do teu fsico, no cuidas?
Julian agarrou-lhe a mo e afastou-lha do corpo.
- Lcia, sou homossexual. Gosto de rapazes e tu s uma rapariga.  muito simples - explicou ele num tom srio.
- V l. No me digas que no pensas nisso de vez em quando? voltou ela  carga, fazendo um beicinho.
Julian sentiu repulsa.
- No, no penso.
Ela colocou ento uma mo na braguilha das calas dele.
- Sinto que me desejas.
- Ento, tens ainda menos experincia do que eu pensaria, pois estou longe de estar excitado - comentou ele com brutalidade.
Ela teve pelo menos a decncia de corar.
- Tens medo que o Torquil possa aparecer. Posso assegurar-te que isso no acontecer. Ainda  muito cedo. Eu disse-lhe que ficaria por c a tarde toda.
- Vamos entrar e tomar um ch - voltou a sugerir, passando ao lado dela a caminho de casa.
De repente, as nuvens estavam por cima deles e um trovo fez a terra vibrar, encharcando-os a ambos com o aguaceiro que se seguiu. Dando risadinhas, Lcia correu
a abrigar-se dentro de casa, seguida de perto por Julian. Uma vez l dentro, e aproveitando a escurido da sala, agarrou-se a ele, beijando-o e desabotoando-lhe
as calas.

- Peo desculpa, espero no estar a interromper nada - disse Toby, de p, imvel, na soleira da porta. Vira-os fugir da chuva e, embora o seu estmago se tivesse
contrado, sabia que Julian se defendia a toda a hora de raparigas demasiado entusiasmadas, fazia parte do seu trabalho.
Lcia afastou-se de Julian e limpou o rosto molhado com as costas da mo.
- Deves ser o Toby - disse. - Tambm s convertvel? Podamos fazer um trio.
- Lamento, j estou tomado - retorquiu Toby, friamente -, mas vou manter a chaleira ao lume para no te constipares.
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- No tenho nada para vestir. O meu vestido deve estar encharcado - referiu ela, encostando-se  parede e sorrindo para Julian. - Salvo pela chuva, senhor fotgrafo.
- Soltou umas risadinhas.
- Eu empresto-te uma camisa - disse ele com um suspiro. - Toby, eu tomo um caf, forte, se faz favor. Vem comigo, Lcia.
Enquanto Julian estava no andar de cima com Lcia, Toby manteve-se junto  chaleira e tentou reprimir a pontada de cimes que lhe apunhalava o corao, arrastando
com ela a boa disposio com que chegara a casa. Observou o seu reflexo na superfcie argntea da chaleira, mas por muito que detestasse a expresso no seu rosto
pouco conseguiria fazer para se livrar dela.
Nesse momento a porta da frente abriu-se e Federica entrou, afogueada de vir a pedalar e a carregar nos braos um lanudo cachorro branco.
- Meu Deus - exclamou ele. - De quem  ele?
-  meu, tio Toby - gritou ela, pousando-o com cuidado nos ladrilhos da cozinha.
-  adorvel.
- , no ?
- E como se chama?
- Rasta - respondeu Federica. - Porque conheci um co chamado Rasta no Chile. Olha, at tem o nome escrito na coleira.
Toby baixou-se e passou a mo pelo suave plo do cachorro.
- s mesmo amoroso - disse para o animal. - Suponho que vais deix-lo dormir contigo.
- Se a mam permitir.
- Isso  que  capaz de ser mais difcil - referiu, sabendo como Helena conseguia ser austera.
- No me parece. Ela quer que eu goste do seu entediante namorado e foi ele quem me deu o co. Por isso, suponho que me deixar fazer tudo o que eu quiser.
- Ah! - acenou Toby com a cabea, pondo-se de p. - O Arthur.
- Gostas dele?
-  claro que sim - respondeu diplomaticamente.
- Achas que eles se deveriam casar? - inquiriu Federica.
- Sabes de alguma coisa que eu no saiba?
- No, nada.  apenas uma suposio.
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- bom, no acho que a minha irm esteja preparada para casar outra vez - respondeu, tirando umas canecas do armrio e vertendo a gua fervida para o bule.
- Eu acho que est. Esto sempre juntos de mos dadas e aos beijos. Eu acho que ele  muito feio. O meu pai  to bonito!

- A beleza no  tudo, Fede. Ele  uma pessoa amvel e simptica e quer tomar conta da tua me. Penso que isso  muito mais importante que a beleza.
- Eu no gosto dele - declarou Federica, sentando-se no cho e puxando o co para o colo.
-  muito natural. Se ele no estivesse apaixonado pela tua me, provavelmente at gostarias muito dele.
- No quero ir embora de Polperro - disse ela num tom srio.
- E por que carga dgua haverias de ir embora de Polperro?
- Porque se a mam se casar com ele, eu teria de ir viver para a cidade com eles.
- Ah. Pois, mas isso  apenas mais outra suposio.
- Mas eu no irei - insistiu ela.
- Podes viver connosco. Eu nunca sairei de Polperro - disse Toby, casualmente, sem escutar as engrenagens dentro da cabea dela e sem se dar conta da semente que
plantara em terreno to frtil.
- A srio? - perguntou ela, espantada.
- A srio o qu? - devolveu ele, retirando as saquetas de ch do bule.
- Que posso viver contigo se a mam casar com o Arthur?
- Ah, isso. Sim, querida, podes viver comigo e com o Julian. com certeza.
Quando Lcia regressou  cozinha, vestida apenas com uma camisa larga que Julian lhe emprestara, mal reparou na plida criana de rosto luminoso e cabelo louro,
comprido, sentada no cho a brincar com um cachorro. Julian apresentou-as, mas Lcia no estava nem um pouco interessada em crianas e no gostava de ces porque
eram demasiado peludos e deitavam cheiro. Assim, forou um pequeno sorriso ao passar por eles a caminho da fumegante caneca de ch que Toby lhe preparara. Encostou-se
ao fogo para se manter quente e sorveu um pouco de ch.
- Onde est a Polaroid, Jules, quero mostr-la ao Toby - pediu ela entre risadinhas e cruzando as pernas para as manter quentes.
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- No sei onde a deixei - respondeu Julian pouco convicto.
- Claro que sabes. V l, no sejas desmancha-prazeres. Captaste o meu melhor.
- No podemos julgar pelas aparncias, Lcia, e para ser franco j te vi melhor - retorquiu Julian, remexendo no interior do seu saco. Por fim tirou a fotografia
e estendeu-lha. Ela olhou para a imagem e sorriu com orgulho.
- O Torquil vai ador-la. Podias aument-la, Jules? Faz-la bem grande? Assim oferecia-lha no aniversrio - afirmou, mostrando-a a Toby.
Toby sorriu e escondeu a sua repugnncia.
- Lamento, mas o nico tipo de ratas que me interessam so as de quatro patas - comentou incisivamente.
Lcia engoliu o ch para esconder a sua indignao e depois sugeriu mostrar a fotografia  pequena e tmida menina sentada no cho para lhe "ensinar umas quantas
coisas".
Federica olhou para o tio e pestanejou confusa, mas nem Julian nem Toby acharam muita piada  graola de Lcia e s faziam figas para que o namorado dela viesse
depressa busc-la.
Quando Torquil chegou por fim, o motor do seu Ponche fazendo os pombos e as andorinhas esvoaar em pnico, avanou a passo largo e confiante para dentro de casa
sem sequer bater.

- Ah, a ests tu, Lcia - disse ao encontr-los na cozinha. Ignorou Julian e Toby, passando por eles com um esgar de superioridade e olhando para a namorada de
cima a baixo, desconfiadamente. - Onde esto as tuas roupas? - perguntou. Ela estendeu-lhe a fotografia e viu as faces dele mudarem aos poucos de cor at ficarem
encarnadas de fria.
- Que raio  isto? Pensei que vinhas fazer fotografias publicitrias, no pornogrficas! - indignou-se ele, afastando o cabelo escuro do seu bem-parecido rosto.
- Esta foi especial, tirada para ti - explicou ela, beijando-o.
- Se o fotgrafo no fosse maricas, matava-te - respondeu ele sem sorrir.
- Oh,  maricas. Bastante maricas - afirmou ela. - No s, Julian?
Julian conteve-se. Queria ambos fora de sua casa de imediato.
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- Mando-te as fotografias assim que as revelar. Vai demorar alguns dias - disse, ignorando ambos. Eram duas das pessoas mais presumidas que alguma vez conhecera.
- Muito bem, vamos ento andando. Temos de estar em Londres por volta das sete para a estreia de Crasy Hearts, e tu, minha querida, demoras horas a ficar pronta.
- Isso depende muito do que ela decidir vestir, suponho - comentou Toby, sorrindo para Julian.
- Vamos - repetiu Torquil, ignorando deliberadamente Toby e empurrando Lcia para fora da cozinha.
Federica ficou a v-los partir. O rapaz era muito bonito, achou ela, e interrogou-se por que razo homens como ele se apaixonavam por raparigas maldosas como Lcia.
Nem sequer se dera ao trabalho de fazer uma festa a Rasta.
- Eu depois devolvo-te a camisa, no me esquecerei - gritou Lcia do vestbulo.
- No te preocupes - gritou Julian em resposta, aliviado por j estarem de sada. - Podes ficar com ela.
Mais uma vez, o motor ps cada ave e cada animal a correr em busca de refgio. Depois de o carro desaparecer, o silncio era quase audvel. Julian e Toby suspiraram
de alvio.
- Ainda bem que j se foram - afirmou Julian, colocando os braos em redor de Toby e abraando-o. - No era o que parecia acrescentou em tom apologtico.
- Eu sei - disse Toby. - Eu conheo-te.
- Ainda bem. - Respirou fundo e repousou a cabea no ombro de Toby. - Onde est o meu caf forte?
- No preferirias um usque?
- Tens razo. Muito melhor. Preciso de uma semana de folga depois disto. Que pessoas to horrveis! Espero que no procriem.
- No deviam ser autorizadas a faz-lo.
- A tragdia  que at so - disse Julian.
- A nossa  no sermos - riu Toby, dando umas palmadinhas nas costas do amigo.
- Quando eu vier morar para aqui posso trazer o Rasta? - quis saber Federica, ainda sentada quieta no cho.
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Toby e Julian viraram-se ambos para olhar para ela.
- Meu Deus, esqueci-me que estavas a - afirmou Toby num tom de surpresa.

-  claro que podes trazer o Kasta - respondeu-lhe Julian, e depois olhou para Toby. - Quando  que ela se vai mudar para c?
CAPTULO VINTE E TRS
Precisamente quando Helena pensava que nunca seria capaz de se decidir se casava ou no com Arthur, recebeu um telefonema que decidiu o seu futuro por si.
- Helena,  o Ramon, estou em Londres.
O estmago de Helena virou-se ao ouvir a voz dele, uma voz que guardava no seu mago demasiadas recordaes. Gaguejou sem saber o que dizer, querendo estar furiosa,
mas no tendo tido tempo de se inflamar.
- Helena? - repetiu ele para o silncio.
- Que queres? - perguntou num tom frio, tentando ganhar tempo.
- Quero ver os meus filhos - respondeu.
- No podes - retorquiu simplesmente, esticando o brao para os cigarros, recordando-se do conselho de Arthur para que respirasse fundo quando se enervasse, mas
era a nica coisa que conseguia fazer para respirar sequer. No ia permitir que ele reanimasse a angstia de Federica; estava agora a comear a esquec-lo.
- Helena, no podes impedir-me de ver os meus prprios filhos argumentou ele. - Recebi uma carta da Fede. Ela precisa de mim.
- Como de um buraco na cabea, Ramon - respondeu-lhe Helena num tom sarcstico, colocando o cigarro na boca e acendendo-o vacilantemente.
- Ests zangada.
-  claro que estou zangada, Ramon. H sete anos que no te pomos a vista em cima - reclamou, soprando o fumo. - Raios partam, Ramon! Quem achas que s?
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- Acalma-te - pediu ele e depois inspirou profundamente. O tom dele era irritante.
- Por amor de Deus. Como pai s um intil. Estou surpreendida que a Fede no te tenha esquecido. Bem que o devia ter feito. O meu irmo  mais pai para ela do que
tu alguma vez foste. No podes chegar aqui ao fim de sete anos e esperar que te recebamos de braos abertos. Escolheste virar as costas e partir e optaste por no
regressar. Se te arrependeste da tua deciso, pior para ti.
- Ento, quem  o Arthur? - perguntou Ramon. Helena deu uma longa passa no cigarro.
- O meu noivo - respondeu presunosamente.
- Era o que a Fede receava.
- Ah, foi por isso ento que vieste? O cavaleiro andante da Fede, que piada.
- vou para a quer queiras, quer no - afirmou ele.
- Como queiras, mas no te deixo chegar perto dos midos.
- Se queres privar os teus prprios filhos do pai  contigo, mas eu vou para a seja como for. - E desligou o telefone.

Ramon colocou a mala na bagageira do Mercedes preto e pediu ao condutor que o levasse a Polperro. Depois recostou-se no banco de trs e matutou. Fora fcil de mais
ir deixando de pensar neles. Como os anos haviam passado sem que ele reparasse na inexorvel passagem do tempo! Fora demasiado feliz com Estella e Ramoncito para
lanar os seus pensamentos para o outro lado do oceano. Helena e os midos haviam sido como pedras incomodativas no seu sapato. Estava sempre consciente de que estavam
l, mas nunca se predispusera a fazer alguma coisa em relao a eles.
Estella amava-o incondicionalmente como a uma criana, ternamente como uma me e altruisticamente como uma amiga. com ela no sentia a necessidade de se afastar
a toda a hora, pelo contrrio, viajava por perodos mais curtos, ansiando pelo dia em que iria envolv-la de novo nos seus braos. Por vezes, quando estava longe,
sozinho com os seus pensamentos, acordava com o aroma a rosas no nariz e acreditava que ela viera para mitigar a crescente monotonia das suas deambulaes solitrias.
Outras vezes escutava o sussurrar do mar ou o gorgolejar de um riacho e tinha de se deter por um momento para recordar a voz doce de
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Estella e a sua alegria. Uma vez que as feies dceis de Estella suplantavam as de Helena, Federica e Hal, deu por si a esquecer que eles alguma vez tinham existido.
Como era fcil esquecer!
Mariana escrevia aos netos com uma regularidade imposta precisamente para no os esquecer. Helena enviava-lhe fotografias quando se lembrava e Mariana ampliava-as,
emoldurava-as e contemplava-as com determinao, receando que, se no se lembrasse de olhar para elas pelo menos uma vez por dia, pudesse acordar uma manh e descobrisse
que h anos que no pensava neles. Na sua mente, eram ainda as pequenas crianas que haviam sido naquele ltimo Vero em Cachagua, apesar das fotografias que retratavam
o seu crescimento e afastamento. Os outros netos visitavam-na regularmente. Tinha agora vinte e quatro, o que tornava ainda mais difcil recordar os dois que ela
mais amara.
Mariana no contara a Ignacio a sua visita a casa de Estella. Sabia que as orelhas dele ficariam gneas de fria. Ficaria no apenas zangado como tambm desapontado,
e ela no sabia se o corao dele seria capaz de conter o excesso de emoo sem rebentar. Porm, foi incapaz de esquecer o neto. Passava longas tardes a vaguear
para cima e para baixo na praia, contemplando o mar e interrogando-se sobre o que fazer. Tinha a certeza que Estella murcharia de negligncia, que Ramon passaria
cada vez mais tempo a viajar, deixando o filho a crescer sem pai tal como Federica e Hal. Quando regressara a Cachagua na manh em que visitara Estella, estava to
furiosa com Ramon pela falta de considerao do filho que mandara Gertrude para casa e passara o resto do dia a dar furiosamente lustre ao cho e a toda a moblia
da casa. Depois de terminar, deixara-se cair na cama e acordara no dia seguinte, por volta da hora do almoo, para grande surpresa de Ignacio, e sua tambm, pois
ele fora incapaz de a acordar. Seguiram-se ansiosos fins de tarde na praia em que mordeu todas as unhas at ao sabugo e perdeu tanto peso que teve de comprar um
guarda-roupa novo quando regressou a Santiago. Ignacio achava que ela padecia de saudades de Helena e das crianas e fez o seu melhor para a consolar. Contudo, ela
no podia ser consolada.

Finalmente, em meados de Janeiro regressara a casa de Estella, plida e sorumbtica, sem saber ao certo o que iria dizer, apenas que tinha de dizer alguma coisa.
Estella reparou de imediato na angstia de Mariana e irrompeu em lgrimas na varanda.
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-  o Ramon? - perguntou com a voz estrangulada, cambaleando em direco a ela, os olhos marejando-se de desespero. - Ele est bem?
Mariana ficou to enternecida com as lgrimas de Estella que a abraou.
- O Ramon est ptimo, Estella.  contigo e com o meu neto que estou preocupada - afirmou, libertando-a.
Estella olhou fixamente para ela com os olhos hmidos.
- Peo desculpa - murmurou. - Esqueci-me.
- Eu j sabia - respondeu Mariana num tom amvel. ?-  melhor entrar, ento.
Mariana j no estava curiosa em relao  casa ou surpreendida com o seu tamanho. Reconheceu a mquina de escrever de Ramon em cima da secretria e as pginas de
um manuscrito empilhadas ordenadamente ao lado da mquina. Ramon nunca fora arrumado, nem Helena, mas Estella mantinha a casa to imaculada quanto mantivera a de
Mariana. Estella indicou-lhe o caminho at  sala de estar, que era luminosa e espaosa, com venezianas em tons de pastel descidas at meio das portas de correr
para manter a diviso fresca. Admirou a elegncia do gosto de Estella. O cho estava coberto com tapetes indianos urdidos  mo, enchera a sala de vasos de gernios
e rosas, e a estante era uma biblioteca de escritores, filsofos e bigrafos europeus. Mariana reparou que Ramon tirara as mais requintadas fotografias de Estella
e do filho e colocara-as em molduras prateadas por todo o lado. Por onde quer que pousasse a vista podia seguir as viagens do filho em redor do mundo - um balangand
brasileiro em prata para instigar a fertilidade, um cone grego de So Francisco de um monge no monte Athos, e uma lana africana oriunda de uma tribo que ele conhecera
nas profundezas da selva africana. Em conjunto, Ramon e Estella haviam construdo um lar bastante acolhedor.
Estella sentou-se frente a Mariana e olhou-a com olhos cristalinos.
- No estou aqui para te repreender, Estella - disse, seguindo o seu instinto, apalpando o caminho. - Preocupo-me contigo,  tudo.
- Como  que descobriu? - inquiriu Estella com coragem.
- No Natal quando te vim visitar, fui-me embora e esqueci-me de te dar o presente que trouxera para ti, por isso voltei atrs.
- Ah - respondeu Estella, acenando sorumbaticamente com a cabea.
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- Escutei-te chamar Ramoncito ao teu filho e logo tudo se encaixou e comeou a fazer sentido.
- Pois.
Mariana levantou-se e avanou at onde Estella estava sentada, desconfortavelmente, na beira do sof. Sentou-se ao lado dela e olhou-a com um ar de compreenso.

- Tambm sou mulher, sei o que  amar um homem. Amo o Ignacio. Ele  um homem difcil, no mnimo. Mas eu amo-o, apesar do seu temperamento por vezes custoso. Conheo
o Ramon bem o suficiente para perceber que foi ele que te seduziu. No te censuro. Lamento apenas. Testemunhei a derrocada do casamento dele. A Helena no conseguiu
lidar com as constantes viagens dele. Tu consegues?
O rosto de Estella resplandeceu e esboou o sorriso de uma mulher satisfeita com o seu destino.
- Amo o Ramon. E ele ama-me.  tudo o que eu peo. No quero prend-lo em casa. Apenas quero o amor dele. Sou feliz, Senora Mariana. Mais feliz do que alguma vez
fui.
- Acredito em ti - disse, tocando no brao da jovem. - Mas, e o que  que os teus pais pensam disto? Ele ainda  casado com a Helena.
O sorriso primaveril desfez-se nos lbios de Estella e o seu rosto adquiriu uma tristeza outonal.
- Renegaram-me - declarou sem rodeios, como se tivesse edificado uma barreira interior de indiferena para se impedir de sofrer.
- Lamento muito - respondeu Mariana. - Se houver alguma coisa que eu possa fazer.
- No, no - disse Estella. - No h nada que algum possa fazer.
- Eles j viram o menino?
- No.
- Se calhar, se o vissem...
- Recusam-se a aproximar-se sequer aqui de casa.
- Eles sabem quem  o pai?
- Sabem, mas isso no altera nada. O meu pai quer que o Ramon case comigo...
- Entendo.
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- Eu sou feliz assim. Eles deveriam ficar felizes por eu estar feliz, mas para eles eu s vim trazer desonra  famlia - relatou e os seus olhos tremeluziram contra
a sua vontade.
- Porque no lhes apresentas o Ramoncito? Os coraes deles amolecero, garanto-te. Ele  to adorvel.  um verdadeiro anjinho. Posso v-lo outra vez?
Estella acompanhou Mariana at ao pequeno quarto onde Ramoncito estava calmamente a dormir protegido pela fresca sombra. Acariciou-lhe o rosto suave e sentiu a emoo
acumular-se na garganta e nos olhos, que comearam a marejar-se de lgrimas.
- Vai visit-los e leva o Ramoncito - disse Mariana.
- Digo ao Ramon que veio at c?
- No - respondeu Mariana num tom firme. - Ser um segredo s nosso. Ele encarregar-se- de me contar tudo na devida altura. Mas se houver qualquer coisa que eu
possa alguma vez fazer por ti, por favor no hesites em telefonar-me. Sabes onde me encontrar. No te roubo mais tempo.
Estella tocou na mo de Mariana e sorriu.
- Quero que venha mais vezes. Quero que o Ramoncito conhea a av - declarou e os seus lbios tremeram.
Mariana ficou demasiado enternecida para responder. Acenou firmemente com a cabea, engoliu com fora e pestanejou para conter a emoo.

No final da tarde do dia seguinte, Estella preparou-se para a mais difcil tarefa da sua vida. Envolveu Ramoncito num xaile de l, emalou comida e roupa suficiente
para uma semana e colocou-o nos degraus da porta de casa dos pais com um bilhete que dizia simplesmente "Preciso do vosso amor". Depois, virou costas e afastou-se.
Ao chegar  curva da estrada quase se arrependeu e voltou atrs a correr para o reclamar, porm recordou-se das palavras de Mariana e prosseguiu estrada abaixo com
o corao apertado, mas uma mente endurecida pela determinao. Aps duas terrveis horas, durante as quais a ansiedade lhe arranhou a conscincia como um corvo
a tentar esgadanhar uma sada, no aguentou mais e fez o caminho de volta a correr at  casa dos pais, na colina.
Ramoncito j no estava nos degraus. Aterrorizada que tivesse sido levado por um co vadio ou um ladro, aproximou-se da janela da casa,
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sustando a respirao para no denunciar a sua presena. A princpio, ao olhar pelo vidro mais no viu que uma diviso vazia. Depois, quando um enorme soluo comeava
a sufoc-la, Maria entrou na diviso com o beb so e salvo nos seus slidos braos. Sorria de orelha a orelha e lgrimas de felicidade corriam-lhe pelo rosto abaixo
como riachos.
Pablo Rega sentou-se na relva na companhia do amigo Osvaldo Garcia Segundo e comeou a conversar com ele, como sempre fazia, num tom potico e de candura.
- O meu velho corao amaciou, Osvaldo. Si, senor,  verdade. A Maria regressou a casa e encontrou o filho bastardo de Estella nos degraus da porta. Ela acabara
de o deixar ali. Sem mais nem menos. Trazia um bilhete. Como se ns pudssemos ficar com alguma dvida em relao a quem o beb pertencia - gracejou Pablo e abanou
a cabea, brincando com o pendente da Virgem que trazia ao pescoo. - O mido  to pequeno que tive medo de lhe tocar at a Maria mo colocar nos braos. "Por amor
de Deus, Maria", disse-lhe eu, "se o deixo cair o diabo vem e leva-o." Mas ela limitou-se a rir e depois a chorar outra vez. O sorriso dele  igual ao meu, segundo
diz a minha Maria. Deus livre a pobre criana de se parecer comigo. Grande coisa que isso lhe h-de trazer! Deves estar a perguntar-te o que fiz eu ento. Devia
t-lo mandado de volta para a me dele, mas a Maria nem queria ouvir tal coisa. Ali estava ela com o beb nos braos, amando-o como se fosse seu, as lgrimas a correrem-lhe
pela cara. Seria um monstro se o mandasse de volta. E eu no sou um monstro, apenas um velho cansado e com pouco mais por que viver a no ser a vida. O Ramoncito
 outra vida, outra vida passageira para sofrer e morrer nesta terra. E de que serve? Tu sabes, Osvaldo, si, senor, tu deves sab-lo. Se pudesses falar de onde te
encontras, provavelmente davas-me algumas indicaes e conselhos. Talvez os meus ouvidos velhos estejam demasiado entupidos de preocupaes terrenas para te conseguir
escutar.
Ramon seguia no carro e observava a cidade a desaparecer  distncia e a dar lugar aos tradicionais e verdejantes campos ingleses. Pensou em Ramoncito, agora com
seis anos, quase a idade que Federica tivera quando ele lhe acenara adeus naquela quente manh de Janeiro h tantos anos. Contemplou o passado e recordou como Ramoncito
sarara os relacionamentos
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entre ele e a sua me, Estella e os pais. Pablo Rega continuava, porm, a desconfiar de si. Desenvolvera o hbito de brincar nervosamente com o pendente que trazia
ao peito do mesmo modo que algum seguraria uma cruz se tivesse de enfrentar um vampiro, mas pelo menos amava o neto e acolhia a filha como dantes. O seu prprio
pai ignorava a criana que brincava a cerca de seis quilmetros da sua casa de Vero, com o seu sangue a correr-lhe nas veias e os seus genes preparados para um
dia dar continuidade  famlia. Contudo, Mariana insistira para que no se lhe dissesse nada. Era o segredo deles, algo que ficaria apenas entre os trs.
"O momento certo surgir", dissera ela a Ramon, "mas deixa que seja eu a contar-lho a seu tempo." Haviam-se passado seis anos e ela nada lhe dissera. Ramon interrogava-se
se ela alguma vez o faria.
Helena enviou os filhos para casa de Toby.
- O Ramon apareceu. No quero que ele os veja - explicou ao irmo pelo telefone.
- O qu? O Ramon est em Inglaterra?
- Nem mais.
- Meu Deus - exclamou Toby, sentando-se. - Depois deste tempo todo para que raios se lembrou de aparecer?
- Para ver os filhos, segundo ele.
- Assim de repente, sem mais nem menos?
- Eu no quero que ele veja os midos - repetiu Helena, ansiosamente.
- Isso parece-te sensato? - perguntou Toby, hesitante. -  pai deles, afinal de contas.
- Apenas biologicamente. No permitirei que venha perturb-los. A Fede j tinha comeado a andar para a frente com a vida dela. Est feliz. A ltima coisa de que
precisa  que o Ramon aparea e lhe prometa este mundo e o outro.
- bom, em relao a isso ests coberta de razo - concordou ele.
- Eu sei que estou.
-- E como  que te vais livrar dele? - perguntou Toby, imaginando Ramon a vigiar a casa at eles regressarem.
- No te preocupes, eu livro-me dele.
- No me parece que o Arthur seja um grande adversrio para o Ramon.
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- No estava a pensar no Arthur. Eu consigo ver-me livre dele sozinha. Mat-lo-ei com a minha gentileza - comentou ela e riu nervosamente.
- Tens de permanecer calma, Helena, e de ser forte - sugeriu o irmo para a encorajar. - No te deixes irritar e no permitas que ele te manipule. Agora s uma mulher
independente. No precisas dele. Passaste muito bem estes anos todos sem ele. Mostra-lhe como mudaste. No s mais a mulher que ele conheceu. Est bem?
Helena acenou para si mesma.
- Tens razo. Se eu mostrar fraqueza ele usar esse trunfo contra mim.
- Isso mesmo. s uma fora a ter em conta. Leva-o  submisso, lembra-te que ele, afinal, tambm  humano.
Depois de mandar as crianas para casa de Toby nas suas bicicletas, Helena tomou banho e vestiu-se, tentando convencer-se de que a maquilhagem e a roupa serviam
apenas para mostrar a Ramon como mudara. Porm, sabia a verdade e irritava-a que ainda sentisse a necessidade de o impressionar.

Esperou no jardim, no banco sob a cerejeira onde Polly se costumava sentar a observar as suas sebes e canteiros. Em criana, Helena observara-a a plantar aquela
rvore. Como crescera rapidamente! Tal como os seus filhos. Tambm ela se admirava com o correr rpido dos anos. O Chile parecia-lhe agora ter sido uma outra vida.
Uma vida envolta em sombra, porque ela ficara cheia de medo de olhar para trs para ela, receosa de ter saudades dela. Tomara a sua deciso, fizera a sua escolha
e por isso dera incio a um outro captulo, fechando o anterior para sempre. Quando escutou o som de pneus na gravilha o seu corao bateu mais forte, bombeando
o sangue pelas suas veias a uma velocidade desconfortvel. Mais uma vez, o seu passado vinha ao de cima para a atormentar. Ps-se de p com pouca firmeza, resistindo
ao impulso de fumar e caminhou com uma calma forada em direco ao porto do jardim.
Ramon mal reconheceu Helena. Ela cortara o cabelo curto. Estava mais descorado, mais espesso e a sua pele recuperara aquela caracterstica luminosidade que ele achara
to encantadora da primeira vez que a vira. Os olhos dela brilhavam de bem-estar e sorria serenamente. Ele esperara
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que ela comeasse logo a exigir que desse meia-volta e se fosse embora, mas ela recebeu-o com a afabilidade de um velho amigo, apanhando-o desprevenido e gorando
todos os seus planos. Helena reparou que ele ficara sem palavras e, ganhando mais confiana, convidou-o a juntar-se-lhe no jardim para uma bebida.
- Ests com ptimo aspecto - disse Ramon quando ambos se sentaram sob a cerejeira com dois copos de sumo caseiro de sabugueiro feito por Polly. Helena agradeceu
e olhou para o rosto vincado dele, para os seus cabelos compridos e grisalhos. Assemelhava-se a um leo de meia-idade. Continuava majestoso e impressionante. Continuava
a ser o rei da selva, s que j no da selva dela. A hesitao dele expusera a sua fraqueza, e ao aperceber-se disso Helena aproveitara de imediato a oportunidade
para assumir o controlo. Para seu espanto j no o temia.
- Tambm ests com bom aspecto. Mais velho - referiu ela com um sorriso malicioso -, mas ainda muito bem-parecido.
- Obrigado - agradeceu ele e franziu as sobrancelhas. - Peo desculpa por esta ausncia to longa.
- Longa  um eufemismo - gracejou ela mas com cuidado para no revelar quaisquer vestgios de amargura. - No foste talhado para a paternidade, Ramon. Mas no te
tortures. Passmos muito bem sem ti. Na verdade, deveria agradecer-te. Libertaste-nos do crculo vicioso ao qual estvamos presos no Chile. Somos muito felizes aqui
- declarou e olhou-o firmemente nos olhos.
Ramon reparou que ela no estava a fumar e que no tinha as mos a tremer. Sentiu-se desconfortvel.
- Tenho sido um pai intil - concedeu ele. - Mas amo-os.
-  tua maneira, tenho a certeza que sim. Eles tambm te amam. Amam a recordao que tm de ti. Mas sobreviveram sem ti.
- Estou a ver - disse ele num tom que soou mais a um gemido, a um lamento. Inclinou-se para a frente e apoiou os cotovelos nos joelhos. - A Fede no quer que cases
com o Arthur.
- Eu sei - respondeu Helena. - No quer que ningum te substitua.
- Escreveu-me a pedir que impedisse que tal acontecesse.
- E como  que planeias fazer isso? -? perguntou, sorrindo com segurana, como se encarasse a sbita misso dele de manuteno da paz como uma fonte de entretenimento.

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- No sei. Vim conversar contigo, foi tudo - afirmou ele, encostando-se de novo e olhando para ela com um ar solcito. Esvaziou o copo.
- Escuta, eu gosto mesmo muito do Arthur. Ele  bom para mim. Est sempre presente e disponvel quando preciso. Tu nunca estiveste, Ramon. Mas eu no te censuro.
Fui eu que te escolhi e fui eu que escolhi deixar-te. Nem mais nem menos. Agora quero casar com o Arthur, e a Fede ter de se conformar e lidar com a ideia.
- Ela no quer sair de Polperro - comentou Ramon.
- Eu sei, mas nem sempre podemos ter o que queremos.
- No achas que ela j foi desenraizada o suficiente?
- Olha quem fala - retorquiu Helena, contendo a sua raiva. Em primeiro lugar, se no fosse por causa de ti no teramos sido desenraizados.
- Se bem me recordo, eu no queria que vocs se viessem embora.
- Mas recusaste-te a mudar. No tive outra alternativa. - As faces de Helena tingiram-se de encarnado por um momento, traindo a sua fria interior. Virou o rosto
e serviu mais sumo, consciente de que, se mostrasse o mais pequeno sinal de vulnerabilidade, ele atacaria e ela estaria perdida.
- Amas este tal de Arthur? - quis ele saber.
- Gosto muito dele - respondeu Helena.
- No foi isso que eu perguntei.
- No me digas que no tens uma pobre e negligenciada mulher escondida algures no Chile - respondeu ela na defensiva, evitando responder  pergunta.
Ramon esboou um sorriso pretensioso e acenou que sim com a cabea.
- Sim, tenho.
Helena ficou aturdida com a resposta sincera dele, apesar de saber que ele teria encontrado algum durante estes sete anos de separao, era inevitvel. Queria perguntar-lhe
como era ela, se era paciente e submissa, se as longas ausncias dele a incomodavam como a si. Contudo, resistiu  tentao.
- bom, ento sabes como . Quando se gosta de algum - respondeu, engolindo o seu desapontamento ao mesmo tempo que exteriormente sorria para o marido.
Ramon observou a calma impenetrvel de Helena e interrogou-se se fora Arthur quem lhe dera o nimo para ser to autoconfiante. Helena era
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assim quando se apaixonara por ela. T-la-ia ele realmente desgastado como a um bonito tapete?
- Pretendes portanto o divrcio? - perguntou Ramon, mordendo apreensivamente o interior das bochechas.
-- Sim - respondeu ela, ignorando a voz dentro da sua cabea que lhe suplicava que no prescindisse dele.
- Ento, divorciemo-nos.
Ela fez um aceno constrangido com a cabea.
- Obrigada.
- O que irs fazer em relao  Fede?

- Porque  que isso te importa? - reagiu ela, exasperada, perdendo de repente a compostura to cuidadosamente cultivada. - Despreza-la durante sete anos e depois
apareces sem mais nem menos por causa de uma carta que ela te escreveu? No tens o direito de perguntar sequer como  que ela est, ou o Hal. Eles no te so nada
hoje em dia. No te pertencem. Se te preocupasses terias estado presente quando a Fede caiu da bicicleta, quando foi arreliada na escola por ser a nica criana
sem pai, ou... ou... quando o Hal acordou com pesadelos ou teve as dvidas normais de um menino da idade dele. Mas no estavas. Sabes bem que no estavas. Porque
no regressas para a tua mulher no Chile e nos esqueces? No tiveste qualquer problema em esquecer-nos nos ltimos sete anos. Por amor de Deus, Ramon - exclamou
ela, levantando a voz at tremer de raiva e desapontamento. - Desiludiste-nos a todos, muito. Profundamente. Quero que te vs embora.
Ramon no queria deix-la. Ela mudara. A mulher neurtica e sufocante que se agarrava a ele como uma lapa, recusando-lhe espao para respirar, parecia ter desaparecido.
Helena transformara-se numa mulher que sabia o que queria e tinha a fora de carcter para levar a cabo os seus desejos. Sabia que Arthur estava por trs desta mudana
e estava curioso por ver, por si mesmo, o homem que fora bem-sucedido onde ele falhara. Contudo, ela olhava-o nos olhos duramente. Os argumentos dela eram fortes
e ela sabia que ele j no era capaz de a manipular como sempre fizera no passado. J no o temia. com relutncia, ps-se de p.
- Ento, parece que est na hora das despedidas?
-  verdade - confirmou ela, levantando-se tambm.
- Comunicaremos por intermdio dos nossos advogados.
- Muito bem.
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- Acho que no consigo passar o resto da minha vida sem ver os meus filhos.
- D-me tempo - concedeu Helena, sentindo-se de repente entristecida pelo carcter definitivo da deciso de se divorciarem. - Quero casar com o Arthur. Se a Fede
acha que voltaste ficarei com uma batalha imensa entre mos. Esperaste sete anos, mais um no far qualquer diferena, pelo menos para a Fede.
Ramon baixou os olhos.
- Queres mesmo casar com ele? - perguntou, interrogando-se por que motivo isso lhe interessava.
- Sim - respondeu ela, mantendo a compostura com muito esforo.
- bom, nesse caso, boa sorte.
- Obrigada. - Ramon inclinou-se para a frente e beijou-a no rosto. Helena afastou o rosto rapidamente, temendo que ele alongasse o beijo, receando no ser capaz
de lhe resistir. Depois, ele virou-se e foi-se embora. Helena voltou a sentar-se no banco e esperou que o som do carro desaparecesse na estrada. Depois colocou a
cabea entre as mos e chorou.
Federica pedalava pela vereda abaixo. Deixara Hal com Toby e Julian que haviam concordado que ele estava demasiado cansado para pedalar de regresso a casa depois
de to farto lanche. Lev-lo-iam a casa de carro mais tarde. Federica ficara encantada: sozinha podia pelo menos ir to depressa quanto quisesse sem se preocupar
que algum carro pudesse aparecer depois de uma curva e assustar o irmo. Tirou os ps dos pedais e deixou a bicicleta embalar pela estrada abaixo. com o sol pelas
costas e o vento primaveril a pentear-lhe o cabelo sentia-se satisfeita.

De repente, um reluzente Mercedes preto surgiu no final da curva, fazendo-a levar de imediato as mos aos traves numa apavorada tentativa de controlar a bicicleta
e evitar embater contra o carro. com o corao suspenso entre batidas, sentiu uma lufada de ar quente quando o carro passou perigosamente perto de si e depois ouviu
o guinchar dos pneus,  medida que o carro parava no meio da estrada. Deteve a ziguezagueante bicicleta arrastando as solas dos sapatos pelo alcatro. Em seguida,
assentou ambos os ps no cho e virou-se. O Sol estava to resplandecente que teve de colocar a mo sobre os olhos para os proteger
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do ofuscante brilho. Observou o carro, mas ningum saiu. Semicerrou os olhos num esforo para perceber quem seguia no seu interior, mas o reflexo nos vidros impediu-a
de ver. Permaneceu imvel, interrogando-se sobre o que se passava pela cabea do condutor que o impedia de sair do carro e pedir desculpa por quase a ter atropelado.
Estava visivelmente abalada, pois todo o seu corpo tremia, mas ainda assim ningum aparecia. Ento, para espanto de Federica, o carro ps-se de novo em andamento
e desapareceu to subitamente quanto aparecera, devolvendo  estrada a anterior tranquilidade, como se nada tivesse acontecido. Apenas as marcas pretas no alcatro
traam a indeciso do estranho.
CAPTULO VINTE E QUATRO
Outono de 1990
Federica insistia que era crescida de mais para ser dama de honor no casamento da me.
- Tens catorze anos - argumentou Helena, simplesmente - e seja como for s pequena para a tua idade. - Mais uma vez, Federica virou as costas e abandonou o quarto,
bateu com a porta da rua e saiu em direco s falsias, seguida de perto por Rasta, j um Labrador adulto com patas enormes e uma grande mancha preta no focinho
que confundia toda a gente.
Helena suspirou com aborrecimento e decidiu que Hal teria de ser um pajem solitrio: com doze anos no era a coisa que mais lhe agradava, mas concordou devido a
um mecanismo oculto na sua gnese que o tornava incapaz de negar o que quer que fosse  me.
Aps a breve visita de Ramon, Helena decidira casar com Arthur. O divrcio demorara dezoito meses a ser decretado. Helena desfizera-se em lgrimas ao vislumbrar
a prova fsica de que o seu casamento com Ramon terminara. Segurara a folha de papel nas mos e interrogara-se se casar com Arthur era realmente o que queria. Porm,
depois, forara-se a recordar como o seu casamento com Ramon fora infeliz e como Arthur era amvel. Arquivara o papel e prosseguira teimosamente com os seus planos,
recusando-se a escutar o seu corao que batia inaudivelmente por Ramon.
Durante esse tempo Helena combatera quase todos os dias com a filha, que continuava a acreditar que o pai apareceria para a salvar do terrvel Arthur.
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- O Arthur nunca ser meu pai - gritara ela para a me num dos seus muitos acessos de histeria. - E nunca sairei de Polperro. O pap  to bonito, no percebo o
que vs no Arthur!
Helena ignorava-a, esperando que, com o tempo, ela se habituasse a Arthur. No habituou.

Federica desenvolvera o hbito de passear no cimo das falsias, observando as ondas a desfazerem-se violentamente contra as rochas l em baixo e a hipnotizante subida
e descida do frio oceano que, qual animal, parecia espelhar a sua prpria fria interior. Rasta sentar-se-ia ao lado dela, o vento soprando-lhe as orelhas para trs
contra o pescoo cor de areia, aninhando-se contra ela para se aquecer, pressentindo a dor da dona e compartilhando dos sentimentos dela  sua maneira.
Federica no conseguia compreender por que razo o pai no escrevera. Suplicara-lhe que a ajudasse e ele ignorara-a. Sentia-se vazia por dentro. No interior da sua
cabea gritava por compaixo, mas ningum a escutava. Ocasionalmente, o seu desespero vertia para fora e discutia com a me, mas Helena nunca se preocupou em inspeccionar
por baixo da expresso exterior de um sofrimento enraizado bem mais profundamente do que ela imaginava. Ningum o fez. Federica abria o seu corao a Hester, mas
esta era apenas uma criana, como ela mesma, e no podia fazer muito mais do que escut-la. Hester tinha um pai, por isso no poderia compreend-la.
Federica gostaria de ter conversado com Sam, mas este nem sempre estava em casa e quando estava ela constatava que as palavras se lhe secavam na boca e era incapaz
de comunicar com ele sem ser por meio de sorrisos fteis. Sabia que ele conseguia ver para alm dos seus sorrisos, era inteligente o suficiente para reconhecer a
infelicidade dela e muitas vezes colocava-lhe afectuosamente o brao em redor dos ombros por nenhuma razo aparente, ou ento perguntava-lhe como estava num tom
compassivo. Hester contara-lhe que o ouvira confessar  me que tinha um fraquinho por ela, o que tornara Federica mais constrangida e menos capaz de se abrir com
ele. Contudo, ficara secretamente encantada e sentia que partilhavam uma ligao especial forjada naquele dia por entre as campainhas. Sam j no a ignorava. Embora
ela fosse ainda uma criana, reparara nela. E Federica sentia-se to apaixonada que no era capaz de se concentrar em mais nada. S o iminente casamento da me a
distraa da sua paixo.
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O dia do casamento de Helena chegou, e Federica acordou com a inevitvel sensao de tragdia que a perseguira durante os ltimos meses. Contemplou a manh outonal:
o cu estava chuvoso, tremeluzindo por entre as folhas douradas e orvalho sedoso que parecia agarrar-se a tudo como se fossem lgrimas. Contemplou a casa que se
tornara o seu lar e amou-a ainda mais porque sabia que ia deix-la.

"Oh, se fosse adulta", pensou, "pelo menos podia tomar as minhas prprias decises." Porm, tinha catorze anos e continuava a ter de obedecer  me. Sorumbaticamente,
tomou o pequeno-almoo enquanto a me andava de um lado para o outro num pnico pr-nupcial porque primeiro perdera os sapatos, depois o rmel e por fim o prprio
vestido, guardado no roupeiro da me por ser menos hmido. Para grande aborrecimento de Federica, deu por si a pr ordem na desarrumao da me, a servir-lhe copos
de vinho e a servir-lhe de relutante assistente, recebendo ramos de flores, presentes de casamento e atendendo o telefone. Polly fazia companhia  filha no quarto
desta enquanto a cabeleireira lhe arranjava o cabelo e a maquilhava, tentando impedir que ela bebesse demasiado e mantendo a atmosfera animada.
Hal estava esticado sobre a cama a jogar um jogo de vdeo, absorto em relao ao caos que o rodeava.
Federica amuou todo o tempo; era tudo o que conseguia fazer para conter o choro. Quando achava que as coisas simplesmente no podiam ficar piores, Sam entrou na
igreja com uma namorada nova pelo brao. A rapariga era alta, tinha cabelos longos e escuros e pernas compridas que emergiam de uma saia cor-de-rosa assaz curta.
Federica teve vontade de se esconder por trs da lpide mais prxima e morrer.
A cerimnia seria de aco de graas na igreja da vila e conduzida pelo excitvel reverendo Boyble que at mandara limpar a batina especialmente para a ocasio e
engraxara os sapatos com tamanho entusiasmo que estes brilhavam por baixo das suas saias como um par de peixinhos-de-prata.
Jake recusara-se a estar presente porque Helena se recusara a excluir Julian. Polly aconselhara-o a que "crescesse". "Por amor de Deus, Jake, ests a ser muito infantil",
disse ela, deixando-o a cismar na cozinha entre os seus barcos em miniatura. "Esta contenda j dura h tempo suficiente! Sinceramente, seria de esperar que colocasses
este disparate de lado para entrares na igreja de brao dado com a tua filha."
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Toby, o padrinho, estava na extremidade da nave central com Arthur, cuja testa estava cravejada de cristais de suor, e a flor na lapela esmorecera devido ao calor
que o seu corpo exsudava. Toby piscou o olho a Federica, que conseguiu esboar um tnue sorriso apesar do peso que sentia no corao. No sabia se no concordava
com a sobrinha: Arthur era uma pobre escolha como marido. Olhou de relance para a parte da congregao onde estavam os acompanhantes de Arthur e decidiu que se semicerrasse
os olhos veria pouco mais do que uma montona mancha cinzenta. Federica contemplou os seus sapatos encarnados e desejou bater trs vezes com os calcanhares e aparecer
no Chile.
Na altura em que a noiva devia supostamente aparecer, um silncio expectante reprimiu a tagarelice da congregao. O reverendo Boyble avanou a passos largos e com
um ar importante pela nave, os seus sapatos silenciando os ltimos sussurros com o seu barulho metlico  medida que ele se acautelava para no escorregar. Toda
a gente virou a cabea para a porta. Contudo, quando esta se abriu no foi a noiva quem entrou, apenas Molly e Hester que avanaram a passos curtos e rpidos para
os seus lugares com as mos pressionadas contra a boca numa tentativa de abafar os seus risinhos.
- Merda - sussurrou Sam para a namorada, revirando os olhos. Andaram a mexer outra vez no meu haxixe, raios partam!
De facto, Molly aprendera a enrolar os seus prprios cigarros e sabia onde o irmo escondia o seu haxixe. Ingrid cruzou o seu olhar com o de Sam e franziu a testa,
inclinando a cabea para um lado, mas Sam encolheu os ombros, negando qualquer responsabilidade. Hester acenou a Federica, que a olhou melancolicamente de volta,
mas Hester estava demasiado intoxicada para reparar na tristeza da amiga.

Quando Helena chegou por fim num deslumbrante vestido cor de marfim bordado, um suspiro de admirao alastrou pela congregao, seguido de imediato por um arquejo.
De brao dado com ela, a conduzi-la pela nave seguia nem mais nem menos que Nuno.
- Meu Deus! - exclamou Ingrid. - Que est o meu pai a fazer? A expresso carrancuda de Inigo suavizou-se e os cantos da sua boca curvaram-se de satisfao.
- Ora, que coisa esplndida. Esplndida - comentou ele, esfregando as mos uma na outra.
- Que queres tu dizer com isso, querido? - perguntou-lhe Ingrid, acotovelando-o discretamente.
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- bom, o cego a conduzir o cego - gracejou ele.
- A Helena no  cega.
- Deve ser, para casar com aquele nabo - respondeu ele e riu-se.
- Bem, suponho que tens razo - concordou Ingrid. - Uma enorme cedncia tendo em conta que j foi casada com o deslumbrante Ramon - acrescentou, recordando-se do
esbelto latino que tanto os cativara antes de partir to rapidamente quanto aparecera.
- Onde est o av? - sussurrou Federica para a av, emergindo por pouco tempo da sua escura caverna de autocomiserao. Polly encolheu os ombros e olhou de relance
para Toby, que pestanejava impotentemente.
- Oh, meu Deus - suspirou Polly com um ar triste. - O Jake afinal no veio. Lamento.
Helena esperara dez minutos  porta da igreja que o pai chegasse. Sabia que havia boas hipteses de que ele no viesse e estava preparada para avanar pela nave
sozinha com Hal. No estava zangada, apenas triste. Se o casamento da prpria filha no conseguia mitigar o seu preconceito, interrogava-se o que raios o faria.
Quando o reverendo Boyble comeara a mexer nervosamente no seu livro de oraes e a contorcer os cantos da boca, Helena percebeu que no podia atrasar mais o servio
religioso, apesar de ser o seu casamento. Julian, o fotgrafo de servio, tirara uma ltima fotografia da agitada noiva antes de se esgueirar para dentro da igreja.
Helena acenara com a cabea para que o reverendo Boyble desse incio  cerimnia e piscara o olho a Hal, que, no seu fato azul, lhe sorriu em resposta com orgulho.
Ento, de repente, a voz de Nuno fizera-a estacar  porta.
- Minha querida, quem  que a vai entregar ao noivo? - perguntou ele, avanando pelo carreiro como se estivesse num passeio de domingo.
- Nuno - respondeu ela, virando-se.
- Estou atrasado, receio - afirmou ele, consultando o relgio de ouro que trazia suspenso da cintura por uma corrente.
- Suponho que vai dizer-me que "a pontualidade  o ladro do tempo" - gracejou ela.
- No, minha querida, a idade  que  o ladro do tempo, rouba-nos as faculdades por completo, incluindo a capacidade de nos recordarmos
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de acontecimentos importantes como o seu casamento. S me lembrei porque fizera um n no meu leno de assoar, mas depois demorei uns bons quinze minutos a perceber
por que carga dgua fizera o n. Como v, minha querida, a idade destitui-nos de tudo.

- bom, o melhor ento  ir entrando - sugeriu ela, dando um passo ao lado para ele entrar e reparando nos dedos sapudos do reverendo a tamborilar com impacincia
o livro de oraes.
- Deus espera, meu bom homem - disse Nuno com uma fungadela.
Os dedos pararam de tamborilar e o reverendo Boyble ficou por uma vez sem palavras com a boca semi-aberta.
- Na verdade, Nuno - disse Helena, com o lampejo de uma ideia a brilhar-lhe nos olhos. - Fazia-me um favor?
Helena foi mais uma vez acometida pela dvida ao caminhar pelo brao de Nuno em direco ao homem que no espao de alguns minutos seria seu marido. Fez um enorme
esforo para livrar a sua mente de pensamentos acerca de Ramon, e empurrou para o lado qualquer incerteza com uma vontade de ferro. Prendeu o olhar em Arthur e recordou-se
da sua bondade e adorao e a sua mente clareou. "Eu mereo-te", pensou com os seus botes ao mesmo tempo que a mo hmida dele encontrava a sua e ele sorriu alegremente
para si. Os olhos de Arthur diziam-lhe que estava deslumbrante e ela devolveu-lhe o sorriso com sinceridade.
Ao sentar-se no seu lugar ao lado da filha, Nuno escutou os guinchos abafados de Molly e Hester que no paravam quietas na fila de trs.
- Inebriadas de vida - explicou Ingrid vagamente, abanando a cabea.
- Ento  isso que eles enrolam hoje em dia? - respondeu ele, recostando-se.
- Por favor, pai. So apenas midas - argumentou ela, abrindo o folheto com a sequncia da cerimnia.
- No, minha querida, so as tuas midas e se continuam a guinchar como um par de porcos numa quinta, ser melhor que as mandes sair fungou, erguendo o queixo numa
pose devota e voltando a sua ateno para a cerimnia de casamento.
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O servio foi longo devido  excessiva exuberncia do reverendo Boyble que adorava escutar o som da sua prpria voz, inspirada por Deus, ecoar pelas paredes de pedra
da sua igreja. Era melhor do que cantar hinos na banheira. Os olhos de toda a gente estavam nele, sequiosos que as suas palavras os inspirassem pelo estreito caminho
do Senhor. Os casamentos eram a sua cerimnia preferida e gostava de os alongar o mais possvel no apenas por si mesmo, mas pelo feliz casal e respectivos amigos
e familiares que se haviam reunido para o escutar. Assim, enlevado pela vivacidade de esprito e inteligncia do seu sermo, no reparou nos olhos da sua congregao
a baixarem de tdio e no som de dedos impacientes a folhearem o plano do servio religioso, interrogando-se quanto mais tempo iria durar.
Por fim, toda a gente saiu aturdida da igreja  excepo de Arthur, que emergiu a passos largos como um gladiador triunfante.
- Minha querida esposa - exclamou, beijando-a na face plida. Minha querida e amada esposa. Agora pertencemos um ao outro para sempre.
- Sim - respondeu ela, engolindo o horrvel n de dvida que se formara na sua garganta. - Para sempre - repetiu, no querendo pensar muito no que tal significava.

Depois de sorrir para Julian treparam para uma carruagem puxada por cavalos e fizeram lentamente o percurso de regresso a casa para a recepo. A quente luz outonal
incendiava o cu  medida que o fim da tarde chegava e o Sol comeava a afundar-se no horizonte ocidental.
- Ests deslumbrante, Helena, s maravilhosa - declarou Arthur, pegando-lhe na mo. - Sou o homem mais sortudo do mundo.
Helena apertou-lhe a mo, subitamente dominada pelo esplendor do dia que terminava e pelo afecto que os olhos do seu novo marido espelhavam.
- E eu tenho muita sorte por te ter - respondeu ela, sentindo cada palavra e olhando para as suas amveis feies que lhe prometiam uma vida de indulgncia e amor.
- vou deixar de fumar como uma homenagem a ti e para anunciar o incio de uma nova vida. Sou realmente muito afortunada por me teres escolhido.
- No, minha querida. A sorte  toda minha e algo que no esquecerei nem por um momento. - Inclinou a cabea e beijou-a. Ela fechou
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os olhos e inalou a segurana do aroma dele. Isso acalmou-a e recordou-lhe todas as razes por que o escolhera.
 medida que os convidados foram chegando ansiando por sustento, Polly foi correndo de um lado para o outro da tenda que haviam erguido no jardim com tabuleiros
de scones e sanduches, ao mesmo tempo que Toby se assegurava que toda a gente tinha um copo de champanhe. Hester e Molly encontraram Federica sentada sozinha no
seu quarto.
- H horas que te procuramos - disse Hester, juntando-se a ela na cama.
- Ests bem? - perguntou Molly. - Ests com um ar to infeliz.
- No quero deixar Polperro - fungou ela.
- Ns tambm no queremos que te vs embora de Polperro disse Hester.
- No gosto do Arthur - acrescentou Federica, cruzando os braos frente ao peito. - Meu padrasto  que ele no . Era o que faltava!
- Ele no  assim to mau - argumentou Molly, tentando ajudar.
- Mas no  o meu pai.
- No, sem dvida que no  - concordou Molly, dando risadinhas e olhando para Hester. - Mas ningum  to bem-parecido quanto o teu pai.
- Ele no veio - fez notar Federica, baixando os olhos. - Estava certa de que viria.
- Talvez no tenha recebido a tua carta - aventou Hester, colocando o brao em redor da amiga.
- Talvez.
- Sei de uma forma de te alegrar - afirmou Molly, sorrindo para a irm e levando a mo ao bolso.
- Que boa ideia - concordou Hester, batendo com a mo na boca e pestanejando culposamente para Federica.
- Que  isso? - perguntou Federica.
- Um dos cigarros especiais do Sam. No chegmos a termin-lo.
- explicou Hester entre risadinhas nervosas. - Ningum nos vai encontrar aqui, pois no?
- Hester, chama-se uma ganza e no, ningum nos vai achar aqui
- afirmou Molly, acendendo o isqueiro. - Presumo que seja a primeira vez que experimentas? - acrescentou, acenando para Federica, que acenou que sim com um ar ansioso.
- Muito bem, isto fuma-se como um cigarro normal - explicou.
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- Nunca fumei um cigarro.
- Ento, vais aprender uma coisa nova hoje - disse Molly, dando uma passa na ganza. - Abre a janela, Hester. - Hester abriu-a de par em par e o som de msica fez-se
ouvir por cima do murmrio abafado de vozes.
- Parece que se esto a divertir - gracejou Hester.
- No tanto quanto ns - argumentou Molly, estendendo o cigarro a Federica. - Agora inspira profundamente, segura o fumo por uns segundos e depois deixa-o sair.
E, por amor de Deus, tenta no ter um daqueles disparatados ataques de tosse, so uma coisa muito imatura.
Federica estava determinada a no tossir. Levou a ganza aos lbios e inspirou to profundamente quanto podia. As duas irms observaram divertidas o rosto da amiga
a ruborizar-se enquanto sustinha a respirao e o fumo como lhe fora dito.
- Muito bem - elogiou Molly, tirando-lhe o cigarro das mos e entregando-o a Hester.
Federica expirou freneticamente e arquejou.
- E que tal? Como te sentes? - inquiriu Molly.
- Bem - respondeu Federica, que no sentia absolutamente nada.
- Experimenta outra vez - sugeriu Molly, dando uma passa antes de entregar a ganza de novo a Federica.
Ao fim de alguns minutos, Molly e Hester riam como um par de hienas, ao passo que Federica chorava sem conseguir parar.
- Estou apaixonada pelo Sam - comeou ela. - Amo-o de verdade. No consigo evit-lo. Mas ele nunca olhar para mim. Sou demasiado nova e feia. Nada como aquela modelo
que trouxe consigo hoje. Suponho que seja a namorada dele, no? - quis saber.
Hester e Molly riram ainda com mais fora.
- No podes estar apaixonada pelo Sam, ele  to palerma! - argumentou Molly. - E seja como for, ele s se interessa por uma coisa. Tal como todos os rapazes.
- E no  por poesia - referiu Hester com um sorriso dengoso.
- Hester, isso foi to espirituoso!
- A srio?
- Sim, acabaste de dizer uma coisa muito engraada.
- Mas afinal de contas, ela  namorada dele? - soluou Federica.
- Por agora, mas  claro que j ter outra na prxima semana. Ele arranja uma nova todas as semanas, sabes? A dose semanal do Sam -
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gracejou Molly. - Eu no estou interessada em homens que apenas querem sexo. Quero um homem com uma boa cabea.
- O Sam tem uma boa cabea.
- Sim, tem, Fede, mas de momento est firmemente instalada na ponta da pilinha dele - fez notar Molly, e tanto ela quanto Hester tombaram em cima da cama a contorcerem-se
de riso.
Federica chorou ainda com mais vontade.
Por fim, Molly apercebeu-se de que a ganza ainda piorara mais o estado de Federica e pediu a Hester que fosse procurar Toby ou Julian temendo que a amiga se pudesse
suicidar de desespero.
- No te preocupes, Fede, no fim hs-de acabar por esquecer o Sam. No queres uma pessoa to mais velha do que tu. Meu Deus, ele j ter vinte e nove anos quando
tu fizeres vinte. E, seja como for, no queres ser Federica Appleby, pois no?

Federica estava prestes a declarar que no queria nada mais que no fosse ser Federica Appleby quando a porta se abriu e Toby e Julian entraram, afogueados e ansiosos.
- Muito bem, meninas, porque no nos deixam sozinhos com a Fede e voltam para a festa? - sugeriu Julian, acenando com a mo para afastar o fumo.
- Podem deitar fora o resto dessa ganza - disse Toby, iradamente, abanando a cabea. - Vocs so demasiado novas para andarem a experimentar estas coisas.
Molly e Hester esgueiraram-se para fora do quarto. Molly no tinha qualquer inteno de deitar fora a sua preciosa ganza, eram difceis de arranjar, em especial
porque Sam as escondia sempre em locais diferentes.
Toby sentou-se ao lado de Federica e puxou-a para os seus braos, ao passo que Julian se sentou numa cadeira frente a eles.
-  um dia horrvel para ti - comeou Toby, beijando-lhe o rosto hmido -, mas em breve terminar...
- E l terei de deixar Polperro.
- Ah - disse Toby, erguendo as sobrancelhas para Julian. - J me tinha esquecido disso. Julian, ficas com a Fede enquanto eu vou l abaixo por um segundo. - Julian
tomou o lugar dele ao lado de Federica e colocou-lhe um brao em redor dos ombros.
- Estou apaixonada por algum que no me ama - disse ela, pestanejando para Julian.
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- Como pode ele no te amar? - comentou Julian num tom compreensivo. - Diz-me quem ele  que eu trato-lhe da sade!
- Sam Appleby - fungou Federica.
- Ah, sim,  muito atraente - concordou ele. - E inteligente. Gosto de homens inteligentes.  tambm um sensualista. Tens muito bom gosto.
- Mas sou demasiado nova - queixou-se ela.
- Claro que no - contraps Julian. - s de momento. Tens que idade? Catorze e ele tem vinte e dois ou vinte e trs? O tipo de mulheres que ele agora escolhe so
mais velhas do que tu e esto dispostas a ir para a cama com ele.  isso que ele quer. Todos os homens so iguais. Se eu fosse a ti, colocava-o em gelo como um bom
champanhe e guardava-o para mais tarde.
- Mas no posso esperar tanto tempo - protestou Federica.
-  claro que podes. Quando amamos uma pessoa de verdade, esperamos por ela para sempre. Eu esperaria pelo Toby para sempre.
- Tens sorte por teres o Toby - disse ela. - Eu no tenho ningum.
- Tens-nos a ns e ns tomaremos conta de ti - argumentou ele, apertando-a.
- Sinto-me como se no fosse importante para ningum. A mam tem o Arthur e o Hal tem a mam. O meu pai j no me escreve, por isso  como se estivesse morto - disse
ela. - O Arthur nunca ser um pai para mim. Nunca. Preferiria morrer.
- Ele no quer ser teu pai - explicou Julian. - Ele j tem os filhos dele. O Arthur quer apenas ser um marido para a tua me. No podes censur-lo por isso. Ela
 uma mulher muito bonita, mas o feitio dela tambm no  fcil. O Arthur merece uma medalha.
- Talvez.
- E a tua me merece um pouco de felicidade, no achas?

- Sim - respondeu Federica e suspirou de resignao.
-  triste quando os casamentos no do certo.  triste para os pais e triste para os filhos. Mas  preciso seguir em frente e fazer o melhor da situao - explicou
ele. - Nunca se sabe, talvez com o tempo venhas a poder sair de Inglaterra e ir tu mesma visitar o teu pai. Quando fores mais velha no precisars de permisso de
ningum. Poders ir simplesmente. Portanto, aguenta firme por enquanto.
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Quando Toby regressou, o seu rosto irradiando satisfao, Julian percebeu que ele tinha boas notcias. Federica olhou para ele esperanosamente, interrogando-se
o que o seu curto desaparecimento conseguira produzir. Sentou-se frente a ela e deu-lhe as mos.
- Fiz um acordo com a tua me. Ela hoje est de bom humor, portanto foi a altura perfeita para a abordar.
- Um acordo? - perguntou Federica, no se atrevendo a imaginar o que seria.
- bom - respondeu Toby, sorrindo. - Se quiseres podes ficar na mesma escola e viver comigo e com o Julian durante a semana, desde que voltes para casa da tua me
e do Arthur ao fim-de-semana.
Federica arquejou incrdula.
- A srio? A me deixa? - inquiriu, limpando o rosto com a manga.
- Deixa.
- E o Rasta?
- E o Rasta tambm. Suponho que conseguimos lidar com vocs os dois - riu Toby.
- Oh, obrigada, tio Toby! - exclamou ela entusiasmada, lanando os braos em redor do pescoo dele. - Nem acredito.
- Ser uma espcie de penso semanal - disse Julian.
- Podes dar-me lies de fotografia - combinou ela, alegremente - e eu fao-vos bolos e tomo conta de vocs. Nem vo saber o que vos atingiu. Eu sou muito arrumada
e organizada e uma excelente cozinheira. No vos incomodarei nem um pouco - acrescentou ainda, incapaz de conter a sua satisfao.
- Bolos em troca de lies de fotografia, parece-me bem - aprovou Julian, acenando com a cabea para Toby.
- Posso mudar-me hoje?
- Assim que a tua me partir em lua-de-mel e com uma condio
- fez notar Toby.
- E qual ? - perguntou ela num tom apreensivo.
- Que sejas simptica com o Arthur.
- Pronto, est bem - concedeu ela. E acrescentou travessamente: - Nunca mais lhe chamo velho gordo.
Sentado no seu escritrio, Jake ardia em fogo lento como um pedao de carvo. Teria gostado de ir ao casamento da filha, mas ela fizera
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a sua escolha. No estava preparada para sacrificar o amante do irmo pelo seu prprio pai. Estava profundamente magoado. Contudo, Helena sempre fora uma rapariga
difcil. Desde criana que conseguira ter toda a gente a correr  volta dela. Era tambm teimosa e conseguia sempre o que queria - bom, quase sempre. Jake tinha
pena de Arthur e interrogava-se se ele teria a resistncia para satisfazer os caprichos dela. Sabia que ela ainda suspirava por Ramon. Nunca o dissera, mas ele percebia.
Cismara com os papis do divrcio, no querendo assin-los, mas sabendo que tinha de o fazer, uma vez que o divrcio fora deciso sua. Tal como deixar Ramon. As
decises haviam sido dela e tinha de viver com elas. O problema de Helena, pensou ele, era estar habituada a forar as pessoas, empurrando-as at ao limite e at
no terem outra escolha a no ser ceder  sua vontade. Provavelmente esperara que Ramon se recusasse a deix-la partir e depois se recusasse a conceder-lhe o divrcio.
Porm, Ramon era mais forte que ela. Helena encontrara um adversrio  altura e perdera. Arthur era uma aposta segura. No havia ali qualquer desafio. Talvez apenas
quisesse uma vida tranquila depois de todas as batalhas que combatera. " o que todos queremos", pensou ele, sorumbaticamente, pegando num barril de madeira em miniatura
para colar no barco de piratas que estava a fazer.
CAPTULO VINTE E CINCO
O ano seguinte foi um ano muito feliz para Federica e muito lastimoso para Jake. Enquanto Federica vivia contente com o tio Toby e Julian, fazendo bolos, aprendendo
a fotografar e pedalando at Pickthistle Manor como sempre fizera, Jake retirou-se ainda mais para as entranhas dos seus pequenos barcos, desgostado e indignado
por a filha ter permitido que Federica vivesse com homossexuais numa idade to sensvel. Polly tentara discutir o assunto com ele, mas Jake recusava-se a ser arrastado
para tal conversa.
"No est certo", diria quando estava bem-disposto e " repugnante!" quando se encolerizava.
Tudo aquilo fazia parte do plano de Helena e era tpico do seu padro de manipulao. Obrig-lo-ia a ceder no final, tinha a certeza disso.
Polly enviou a Helena fotografias de Jake noutros casamentos para que ela as pudesse sobrepor s suas no seu lbum de casamento, mas Helena limitou-se a rir e a
envi-las de volta.
- A srio, me, sempre achei que o pai  que era o excntrico da famlia, no tu - comentou ela, mas Polly ficou mais aborrecida com o sucedido do que deu a entender.
Tinha tambm saudades de ter a filha e os netos em casa e passava horas a pensar em desculpas para ir at casa de Toby para ver Federica.
- Sabes, a Federica est muito feliz, Jake - comentou Polly uma tarde, depois de a ter visto regressar de um passeio de barco com Toby e Julian, no Helena.
Tinha as faces rosadas do vento e estavam os trs a rir. Toby carregava o cesto do piquenique cheio de pratos vazios de comida que Federica preparara e Julian tinha
tirado fotografias. Rasta trotava atrs deles, cheio por ter partilhado do lanche e cansado dos jogos na praia.
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- Sabes, estavam todos com muito bom aspecto. Podiam ser perfeitamente uma famlia normal - prosseguiu Polly, sem se preocupar se Jake estava ou no a escut-la.
Queria partilhar a sua alegria e diabos a levassem se iria permitir que o preconceito dele a impedisse. Ele continuou a colar pequenas peas e a uni-las com uma
concentrao total. O Toby  como um pai para a Federica. Acho que foi a melhor coisa que a Helena fez, p-la a viver com eles. E est a crescer tanto tambm! J
est uma senhora. Cozinha para eles e toma conta deles como uma pequena me. Estou to orgulhosa dela! To orgulhosa! O Julian ensinou-a a fotografar. E ela tem
olho para aquilo, s te digo. Sim, tem mesmo. Ele at emoldurou algumas e pendurou-as na parede. Fez maravilhas pela auto-estima dela. Era disto que ela precisava,
de um pai. E agora tem dois. - Olhou para o marido circunspectamente, mas este continuava centrado no seu projecto como se no a tivesse escutado.
Quando Hester abordou a me com a ideia de uma festa para festejar os seus dezasseis anos, Ingrid telefonou de imediato a Helena e sugeriu partilhar a festa com
Federica.
- Matamos dois coelhos com uma cajadada - disse Ingrid, sabendo que no era capaz de organizar a festa sozinha.
- E em que tipo de festa estavas a pensar? - perguntou Helena, interrogando-se se Ingrid sabia o que quer que fosse sobre jovens de dezasseis anos e o caos em que
transformariam a sua casa.
- Hummmm, assim uma coisa bonita com uma tenda grande respondeu vagamente.
Helena sorriu ao aperceber-se da ditosa ignorncia de Ingrid.
- E em relao  comida?
- Oh, um bufete, talvez. Eu contrato uma empresa para o fazer adiantou ela com jovialidade.
- Quantas pessoas?
- Quantos amigos  que elas tm? - devolveu Ingrid, a sua mente vagueando j para o leitoso cu de final de tarde e para o lago que agora se tornara o lar de bandos
de aves nidificantes.
- Porque no nos juntamos com as raparigas para conversarmos melhor? - sugeriu Helena, consciente de que a ateno de Ingrid estava a diminuir.
- Querida, que boa ideia. Vem tomar ch connosco amanh e traz a Federica. - Depois acrescentou ainda - Traz tambm o Hal. O Joey
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e o Lucien estaro por c e sei que adorariam v-lo. J no vemos tanto o Hal, ultimamente.
Hal gostava muito de Arthur. Apenas raramente se recordava do pai quando o nevoeiro na sua memria se dissipava o suficiente para o ver com nitidez. Uma vaga impresso
de um homem com o aspecto encrespado e curtido de um lobo e a imperiosa natureza de um rei. Em criana, Ramon assustara-o, mas agora que era mais velho apenas o
temia em sonhos. Arthur, pelo contrrio, fazia-o sentir-se especial. Passava tempo com ele, encorajava-o e nunca o depreciava. O amor de Arthur por Helena era avassalador,
mas nunca de mais para se intrometer entre ela e o seu filho. Arthur compreendia a proximidade de ambos e ficava enternecido. Tentava ser um bom pai para Hal e era
recompensado com o afecto e a confiana do rapaz. Helena esperara que Hal ficasse com cimes da sua relao com Arthur, teria sido muito natural, mas, para sua surpresa,
Hal reagiu a Arthur de uma forma que nunca reagira com o pai.
S Federica mantinha a esperana em Ramon.

Helena observou  medida que Arthur cativou lentamente toda a gente em Polperro. Tendo comeado como uma figura cmica, conquistou o respeito de toda a vila com
a simples jovialidade da sua natureza. Sorria sempre, arranjava sempre tempo para falar com as pessoas e nunca se cansava de escutar os seus problemas, oferecendo
bons conselhos com honestidade, nunca mexericando sobre o que lhe contavam. Era um homem em quem se podia confiar. At Ingrid comeou a gostar dele  medida que
ele conquistava o seu afecto por intermdio do seu surpreendente conhecimento acerca de aves e amor pelos animais. Ajudou Hester a salvar ourios e elogiou a adega
de vinhos de Inigo. Nuno alcunhou-o de "Arturo", apelido que toda a gente achou muito divertido e adoptou de imediato. S Federica continuou a chamar-lhe Arthur
por puro despeito. Helena andava enfurecida com a m vontade da filha em aceitar o novo padrasto e achava que ela no merecia nem um pouco uma festa.
- "Esprito de festa, que na melhor das hipteses no  seno a loucura de muitos para benefcio de uns poucos" - citou Nuno, servindo uma chvena de ch a Helena.
Ergueu para ela as suas espessas sobrancelhas, que haviam envelhecido tal como ele e se assemelhavam agora a duas ondas do mar.
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Helena abanou a cabea.
- Lamento, Nuno, apanhada outra vez - respondeu ela, sorrindo-lhe, complacentemente.
- Ah, quem me dera a vivacidade de esprito do jovem Samuel! Estivesse ele aqui e dar-me-ia a resposta num piscar de olhos. - Suspirou, pousando o bule. - Alexander
Pope, minha querida - revelou. "A mulher  quando muito ainda uma contradio" - acrescentou com um sorriso afectado -, tambm  dele.
- Pronto, pai, j chega de exibicionismo, j tenho a cabea a andar  roda - queixou-se Ingrid, sorvendo o seu ch. - Reparei que j no fumas, Helena - acrescentou,
observando que tambm j no tremia. - Vejo que Arturo faz maravilhas por ti.
-  verdade. Estou muito feliz. Embora haja alturas em que ainda anseio por um cigarro - respondeu ela com sinceridade. - Mas ele  extremamente tolerante. Tenho
muita sorte.
- Ainda bem. Quem me dera que o Inigo o fosse. O nico sinal que vejo dele, ultimamente,  o seu mau humor a infiltrar-se por baixo da porta do escritrio como se
fosse gua. Interrogo-me, sero todos os filsofos assim to desgraados?
- Minha querida, eles debruam-se sobre os grandes mistrios da vida que no podem ser provados. Isso deve ser, seguramente, desmoralizador - explicou Nuno num tom
sagaz.
- Nesse caso, ele deveria talvez filosofar sobre si mesmo, no h mistrio maior e mais insondvel - replicou.
- Mas ainda mais desmoralizador - acrescentou Nuno.
- bom,  melhor no nos dispersarmos - fez notar Helena. Onde esto as raparigas, no devamos comear a discutir a festa delas?
-  claro - respondeu Ingrid, acendendo um cigarro. - A festa. No me ocorre nada melhor do que ter um alegre grupo de jovens a jantar numa tenda. Que romntico,
uma tenda no jardim! Tal como no teu casamento, Helena. Que pena que a Molly seja demasiado nova para casar, pois caso contrrio daramos mais uso  tenda.
A data foi marcada para um sbado, em Julho, a meio entre o aniversrio de Federica, que era em Junho, e o de Hester, em Agosto. Decidiram-se por uma enorme tenda
no relvado de frente para o lago, pois Ingrid queria que os jovens desfrutassem do magnfico espelho de gua ao pr do Sol. Quando Helena se ofereceu para pagar
metade da festa, Ingrid acenou com a mo, rejeitando a sugesto.

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- Meu Deus, no - respondeu, agitando o cigarro no ar. - E o mnimo que o Inigo pode fazer e, para alm disso, ele at paga para no ter de estar presente - comentou
maliciosamente.
Helena at receava pensar no custo total do evento, uma vez que as raparigas tinham tido demasiadas ideias. Queriam cento e cinquenta amigos, servios de catern
msica, pista de dana e muitas bebidas alcolicas. Ingrid sugerira um ponche de fruta, mas Nuno insistiu que bebessem vinho.
- Se os tratamos como crianas, eles comportar-se-o como crianas - afirmara. - Dem-lhes vinho e eles procedero com a sofisticao de jovens aristocratas parisienses.
Helena no acreditava que isso fizesse a mais plida diferena: os aristocratas parisienses brios, provavelmente, no eram muito diferentes dos alunos embriagados
da Cornualha. Nuno e Ingrid estavam a habilitar-se a uma desagradvel surpresa.
A noite da festa seguiu-se a um tpico dia de Vero ingls. Chovera grande parte de dia intermitentemente, inundando Polperro de um sol exuberante apenas para o
encobrir logo de seguida e mergulhar a vila em sombras. Federica preparou a mochila e Toby foi deix-la em Pickthisde Manor durante a tarde.
- No suporto se chover durante toda a festa - lamentou-se ela.
- A Ingrid esforou-se imenso para que o jardim ficasse bonito.
- No te iludas, querida - admoestou Toby com um sorriso. Ningum vai ligar um chavo ao jardim, estaro todos demasiado ocupados a olhar uns para os outros.
- Ainda assim, no ser to divertido se chover.
- Discordo, as coisas correm muito melhor quando tudo  lanado ao caos. Se fosse a ti, fazia figas para que chovesse.
Ao aproximarem-se da casa, o estmago de Federica deu um n. O Dois Cavalos verde e branco de Sam estava estacionado  porta.
Desde o casamento da me no ano anterior, Federica mal vira Sam. H muito que deixara Cambridge e, seguindo os conselhos de Nuno, vivera e trabalhara em Roma durante
um ano antes de regressar e aceitar um cargo financeiro em Londres. Nuno ficara furioso por v-lo desperdiar a sua "mente brilhante" numa carreira que qualquer
pessoa com
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meia clula cerebral podia encetar, porm Sam assegurou-lhe que seria apenas temporrio; queria ver como a City funcionava. Federica ansiara que o carro dele estivesse
estacionado na gravilha, mas agora que o via ali entrou em pnico mais uma vez, receando no saber o que dizer quando o visse. Desejou ser mais velha, mais alta,
mais bonita e mais confiante.
- Toby, o Sam est em casa - fez ela notar com uma voz hesitante.
- ptimo. Vai sendo tempo de ele te ver florir numa bonita jovem - respondeu ele, parando  porta da casa.
- Tenho medo.
-  claro que tens, e  precisamente isso que torna a situao to excitante. Se no estivesses assustada no serias tu, e tu s encantadora. - Olhou de relance
para ela e esperou que Sam tivesse crescido tambm.

- Seria de esperar que pensasses isso, s meu tio - apontou ela com uma risada.
- Mas tambm sou homem - contraps ele, tocando-lhe na face.
- E acho que s lindssima. Portanto, vai e s tu mesma. Ele nem vai perceber o que o atingiu.
Federica beijou o tio afectuosamente antes de sair do carro ainda hesitante. Toby ficou a v-la entrar e pensou que ela se assemelhava a uma ma a amadurecer numa
rvore: estava ainda verde, mas com os cuidados certos tornar-se-ia uma excelente ma.
Federica abriu a porta no instante em que o cu se derramou outra vez, agredindo o cho com setas de gua.
- Caramba! - queixou-se Hester, avanando para ela. - Ainda bem que j chegaste. J me viste este tempo?
- Vai ser maravilhoso, querida - disse Ingrid, esvoaando pelo vestbulo com um vaso de orqudeas. - Isto vai alegrar a tenda.
- A minha me deve achar que vamos dar uma gala para jovens debutantes. No faz mesmo ideia! - sussurrou Hester, sorrindo matreiramente. - A nica chatice  que
o Sam e o seu amigo Ben vo policiar a festa logo  noite.
- Como assim? - perguntou Federica, corando ao ouvir o nome dele.
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- bom, vo andar de olho em ns, a certificar-se de que no haver actividades por trs dos arbustos - riu ela.
- Se o tempo continua assim, ningum se aproximar sequer dos arbustos - comentou Federica, o seu corao batendo mais forte com a antecipao da presena de Sam.
Quando Federica e Hester atravessaram a sala de estar e as portas duplas em direco  tenda, Sam acenou-lhe e disse para Ben:
-  uma caixinha de surpresas, aquela.
- O qu, ela? - inquiriu Ben, estendido no sof como uma aranha.
- Sim. Fe-de-ri-ca - disse Sam, pronunciando cada slaba com um sotaque italiano  semelhana de Nuno.
- Seria pedofilia - gracejou Ben.
- Entretanto, sim. Mas escuta o que te digo, quando for mais velha h-de ser deslumbrante. Tenho andado a observ-la.  diferente das restantes. H qualquer coisa
de insondvel nela e eu aprecio isso. D-lhe mais uns anos e ser uma bela jovem.
-- Ento, para qu esperar?
- Por amor de Deus, Ben. No sou adepto de desflorar crianas reclamou Sam, consternado.
- No  a festa dos dezasseis anos dela?
- Sim,  - respondeu ele.
- Ento, est madura o suficiente para ser colhida. Mais vale apanh-la antes que algum se antecipe. Apresentas-ma? Gostava de observ-la mais de perto.
Ben seguiu Sam pela tenda, que Ingrid enchera com grandes vasos de orqudeas, ignorando a florista que decorava o local com os seus prprios arranjos. Viradas para
o jardim, Hester e Federica estavam ambas de braos cruzados observando melancolicamente a chuvada enquanto a empresa de catering se afadigava a erigir mesas por
entre o caos. Esquivando-se aos tcnicos de electricidade e  banda que ensaiava, Sam e Ben avanaram at junto das raparigas.

- Ol, Fede. - Federica virou-se e sentiu o calor provocar-lhe picadas no pescoo ao mesmo tempo que Sam se aproximava. Quanto mais se concentrava em no corar,
mais vermelha a sua cara ficava. Sorriu, tentando agir de forma natural e baixou os olhos. - Este  o Ben
- apresentou Sam. Ben estendeu a mo e observou o rosto dela com os olhos semicerrados.
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- Os polcias - comentou ela com um sorriso.
- Os polcias - concordou Sam, enfiando as mos nos bolsos das calas. - Foi a nica forma de conseguirmos ser convidados para a festa.
- No precisamos de polcia - reclamou Hester.
- Isso  o que tu pensas - riu Sam. - Talvez ainda nos venham agradecer quando todos aqueles rapazes embriagados andarem  bulha por vocs.
- Quem dera - respondeu ela. - Olha para isto - acrescentou, esticando a mo para a rua e sentindo os pingos de chuva.
- Eu gosto da chuva.  romntico - referiu Sam. Federica evitou cruzar o olhar com o dele, mas apesar dos seus esforos sentia os olhos dele fixos no seu rosto como
se fossem o calor do Sol. Interrogou-se acerca do sbito interesse dele e desejou que se fosse embora antes que a sua proximidade a sufocasse.
- Pois, mas eu no - contraps Hester. - De todos os dias em que podia ter chovido, porque tinha logo de ser hoje? Isto vai ficar um autntico banho de lama.
- Podem despir-se todos e fazer uma luta na lama - gracejou Ben, olhando para o amigo em busca de aprovao. Hester soltou umas risadinhas. Sam mudou de assunto.
- Como  que tem sido viver com o teu tio? - perguntou a Federica. Recordou-se da conversa que haviam tido sentados por entre as campainhas e de como ela estava
angustiada com a perspectiva de sair de Polperro.
- Tem sido ptimo, obrigada - respondeu ela, conseguindo olh-lo por um instante, mas achando a intimidade daquele olhar insuportvel e desviando os olhos. Sentia-se
ridcula, como se a sua lngua fosse demasiado grande para a boca. Desejava conseguir encontrar algo inteligente para dizer. - O Julian tem-me dado lies de fotografia
- disse, preenchendo o silncio que parecia embaraosamente grande e vcuo.
- Aposto que j deves tirar boas fotografias - respondeu Sam. Deves com certeza ser uma boa fotgrafa, com um professor como o Julian.
- E  mesmo. J vi algumas das fotografias dela - replicou Hester com sinceridade. Sam ergueu as sobrancelhas com interesse.
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- No so assim to boas - interps Federica, acanhadamente. Ainda no.
- Uma carreira como fotgrafa seria bastante interessante - comentou Sam, acenando com a cabea. - Podes ir para onde quiseres e sers sempre dona de ti mesma. H
muitos pontos a favor da liberdade, posso dizer-te.
- Eu sei, mas ainda tenho um longo caminho a percorrer antes de atingir esse ponto.

- O tempo passa muito depressa -- referiu Sam, reflectindo na forma como o ano anterior voara quase sem dar por isso e no quanto ela mudara durante esse tempo.
- Espero que sim - respondeu Federica, reparando, para seu espanto, na expresso intensa no rosto dele enquanto a olhava. Ficou grata quando Hester sugeriu que fossem
comeando a preparar-se para a festa.
- No temos tempo para ficar aqui  conversa com dois velhos disse, arrastando Federica pelo brao. Federica estava mais do que satisfeita por sair dali.
- No cheguei a desejar-te um feliz aniversrio - gritou Sam, observando-as a desaparecer no interior da sala de estar.
- Podes faz-lo mais tarde, quando a arrancares a ela e a um adolescente excitado dos arbustos.
- Cala-te, Ben - ralhou Sam com irritao. - Por vezes consegues ser mais infantil que elas.
Federica desfrutou de um banho quente na companhia de Trotsky, que assumiu o cargo de vigilante, uma vez que nenhuma das portas em Pickthistle Manor tinha fechaduras.
Ficou ali deitado no meio do vapor, arquejando com a sua nobre cabea pousada sobre as patas e a lngua cor-de-rosa a pender para fora. Mais uma vez, Federica encontrou
Sam nos recantos sigilosos da sua mente. Fechou os olhos e imaginou um mundo onde tudo o que ela dizia era espirituoso e inteligente, onde nunca corava ou gaguejava,
onde estava sempre deslumbrante. Sam amava-a nesse mundo. Amava-a apaixonadamente. Beijava-a com ternura e urgncia, incapaz de a deixar afastar-se da sua vista
nem por um segundo. O afecto dele era avassalador. Nos seus braos ela sentia-se segura e querida, protegida das dvidas e preocupaes que a atormentavam silenciosamente
no mundo real.
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Foi arrancada desses aprazveis recantos pelo sonoro e impaciente bocejo de Trotsky, que se pusera de p e estava  porta  espera que o deixassem sair. Federica
encontrou Hester frente ao espelho do seu quarto. Tinha j secado o cabelo e Molly estava a aplicar-lhe rmel com a mo firme de uma maquilhadora profissional.
- s a seguir  Hester - disse Molly. Federica sentou-se na cama enrolada na toalha.
- No sei. Nunca pus maquilhagem - referiu, torcendo o nariz.
- bom, hoje  a tua festa de anos e vais estar maravilhosa. Despacha-te e veste-te - ordenou num tom autoritrio, afastando-se um pouco da irm para admirar a sua
obra. - Hester, ests linda - comentou, aplicando-lhe p-de-arroz com pinceladas curtas.

Quando Hester e Federica apareceram na tenda, os seus vestidos, cabelos arranjados e maquilhagem concediam-lhes a discreta sofisticao de raparigas mais velhas.
Molly colocou-se orgulhosamente atrs delas como uma ama, empurrando-as para a frente para que pudessem ser admiradas. Ingrid juntou as mos frente  boca e exclamou
que pareciam umas princesas. Helena apercebeu-se de que a filha estava a crescer e sentiu uma pontada de saudosismo e tristeza pela infncia que chegava ao fim.
Usava um vestido azul-claro sem alas que condizia com os seus olhos verde-azulados e Molly prendera-lhe o cabelo louro no cimo da cabea. Tinha um ar inocente e
ao mesmo tempo vago, ao contrrio de outras raparigas da sua idade que ou eram demasiado sabichonas para seu prprio bem ou demasiado infantis. Federica adquirira
uma qualidade etrea no ltimo ano, mas Helena tinha a certeza de que a filha no estava consciente do seu prprio encanto; era uma menina demasiado insegura.
- Esto ambas lindas - comentou, prendendo uma madeixa solta de cabelo por trs da orelha de Federica. - Lindas - voltou a repetir melancolicamente. Desejou que
Ramon estivesse ali para ver a filha. Iria ficar to orgulhoso! Afastou o pesar e a mgoa e esboou um pequeno sorriso. - O Toby vem buscar-te amanh de manh. Ests
maravilhosa, Fede! Uma mulherzinha.
- Che belle donne! - exclamou Nuno, entrando na tenda de fato branco.
- Pai, que raio  isso que trazes vestido? - inquiriu Ingrid, olhando-o dos ps  cabea, espantada. - O convite dizia fato escuro.
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- Cara mia, eu  que dito o meu prprio cdigo de vesturio - respondeu com um suspiro. -  o baile da minha neta e acho que devo exibir-me no meu melhor.
- Tens a certeza que queres vir  minha festa, Nuno? - perguntou Hester com uma gargalhada. - Pareces um pinguim.
- Sinto-me lisonjeado, verdadeiramente lisonjeado - disse ele com uma vnia. -  uma honra estar na companhia de duas belas princesas. Celebremos com uma taa de
champanhe!
Federica estava decepcionada por Sam no ter descido. Sentia-se bonita e queria que ele a visse. Enquanto fazia interminveis brindes com Ingrid, Nuno e a me no
tirava os olhos das portas duplas, o seu corao antecipando tremulamente a apario dele. Porm, Sam nunca mais aparecia. Por fim perguntou a Hester:
- Onde esto os dois agentes da polcia?
- A ver televiso, suponho - disse para desapontamento de Federica. - Ho-de aparecer quando a coisa comear a aquecer.
As coisas comearam a aquecer bem depressa. Os convidados chegaram e trataram de consumir quase o abastecimento total de lcool antes de se sentarem para jantar.
O bufete foi servido mais cedo para compensar, mas ningum se aproximou da comida at Trotsky ter sido avistado a uma das mesas, qual aspirador canino, a despachar
pratadas de salsichas de um s flego. Depois de Hester ter arrastado o animal para o jardim, os convivas caram sobre as travessas, receando perder as iguarias
para os outros animais que vagueavam para dentro e para fora da tenda como se fosse a casa deles. Federica sentou-se entre dois rapazes que no conhecia, os quais
falaram toda a noite sobre crquete e exames escolares, sem lhe prestarem a mnima ateno. Demasiado tmida para se impor, limitou-se a recostar-se na cadeira e
a escut-los submissamente, observando Molly, ali perto, que conseguia captar a ateno de toda a mesa, fumando um longo e estreito cigarro com grande estilo. Em
comparao, Federica sentia-se conspcua e ridcula.
Federica danou com dois rapazes, mas estava demasiado constrangida para o apreciar. Reparou que os rapazes olhavam por cima dos seus ombros, talvez em busca de
raparigas mais interessantes com quem danar. Viu uma das amigas de Molly, num vestido de renda preta, mover-se com a gil sofisticao de uma danarina profissional
e desejou ser possuidora
300

de tal confiana. Por fim, quando se preparava para bater em retirada para uma cadeira num canto isolado da tenda, de preferncia debaixo de uma orqudea, o seu
par sofreu de um repentino inchao nas bochechas, agarrando Federica pela mo, e arrastou-a para a rua.
- Acho que vou vomitar - gemeu ele ao mesmo tempo que o lcool lhe dava a volta ao estmago.
- E para que precisas de mim? - perguntou, espantada, sentindo os saltos dos sapatos enterrarem-se no ensopado relvado de Ingrid.
- No quero morrer sozinho - respondeu o rapaz, puxando-a para o ar nocturno.
- No deve ser assim to grave, pois no? - devolveu ela na esperana de que ele fizesse uma recuperao miraculosa e a levasse de volta  festa. Tremia de frio
e a chuva fina comeava a encharcar-lhe os ombros e o rosto.
-  muito grave - conseguiu ele dizer antes de lanar a cabea para o meio de um arbusto e vomitar com grande alarido. Federica estremeceu ao reparar que ele cobrira
as lindas rosas de Ingrid com blis e salsichas modas. Deu um passo atrs e tapou a boca com a mo enojada. De repente, os chuviscos transformaram-se em chuva que
tombava grossa e pesada, martelando o seu vestido de seda e infiltrando-se at  pele. Inclinou a cabea para a frente sem saber se havia de deix-lo ali no canteiro
e correr para a tenda ou permanecer com ele. Quando ouviu o seu nome ecoar pelo jardim, desviou a sua ateno do gemebundo arbusto, aliviada. Era Sam.
- Federica! - gritava ele. Federica semicerrou os olhos e viu Sam a correr na direco dela por entre o dilvio. - Federica. Ests bem? perguntou, ao chegar mais
perto dela. Tinha a camisa branca to molhada que se lhe colava ao corpo como papel revelando por baixo a cor da pele. O cabelo louro pingava pelo rosto abaixo,
mas o seu sorriso era largo como se gostasse dos contratempos dramticos que a chuva sempre acarretava.
- O qu? - balbuciou ela, pestanejando.
- A Hester disse que tinhas sido arrastada para o jardim por um bbado - explicou ele, recuperando o flego. Federica apontou para o arbusto. - Jesus! - exclamou
Sam, tapando o nariz com o indicador e o polegar. - Vamos embora daqui. Ele h-de ficar sbrio por si mesmo
- declarou, pegando-lhe pela mo e conduzindo-a na direco oposta  da tenda.
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- Onde vamos? - gritou Federica ao mesmo tempo que estugava o passo para o acompanhar naqueles frgeis saltos.
- Para longe daquela horrvel festa - respondeu ele, indignado. No tens estado a divertir-te, que eu bem vi. - O corao de Federica bateu mais forte com a ideia
de ele a observar, de reparar em si. Ficou contente por a noite lhe ocultar a vermelhido das faces bem como o rmel esborratado. Quando ele abriu a porta do celeiro,
penetraram na escurido. Escutou-o a mexer na lingueta e sentiu o aroma a feno quente e a erva cortada. Segundos depois rodou a pedra do seu isqueiro e acendeu uma
vela.
- Nunca aqui estive antes - afirmou ela, olhando em redor com curiosidade.

-- Eu venho aqui muitas vezes. Em especial  noite, porque h uma famlia de patos-selvagens que vive aqui.  por isso que no acendo a luz. Para no os assustar.
Acendo apenas uma vela para os conseguir observar.
- Uma famlia de patos. Ests a falar a srio? - inquiriu.
- Anda da - sussurrou ele, pegando-lhe novamente na mo. Eu mostro-te.
Sam conduziu-a lentamente pelo celeiro cujo cho estava coberto por palha dourada que reflectia a luz da vela e tremeluzia. O celeiro era usado para armazenar cereal
e fenos para os animais e barrotes de madeira para as lareiras. O som da chuva apedrejava o telhado, mas o interior era quente e seco. Sem fazerem qualquer barulho,
treparam para cima dos fardos, agacharam-se e espreitaram para o ninho de penas onde a famlia de patos residia. Os pequenos patos estavam todos a dormir, ignorando
as estranhas criaturas que os observavam em silncio, ao passo que a me, prudente mas ao mesmo tempo intrpida, permanecia sentada, imvel, com os seus olhos pretos
abertos e alerta. Sam sorriu para Federica, que sorriu de volta, encantada. Nenhum deles falou, apenas observaram sem permitir que o som de qualquer slaba arruinasse
o momento.
Quando Sam se inclinou na sua direco e a beijou, Federica foi tomada totalmente de surpresa. com a mo segurou-a pela nuca e os seus lbios beijaram os dela, aturdidos,
antes de afastar o rosto e olhar para o rosto dela para avaliar a sua reaco. Ela parecia petrificada.
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- No gostaste? - inquiriu ele, ternamente. Federica tentou falar, mas as palavras no se formavam como esperara. - Gostarias que te beijasse outra vez? - Ela acenou
com a cabea, dominada por completo pela proximidade do corpo dele. Sam voltou a colocar a sua boca contra a dela, delineando os lbios dela com os seus, sentindo
a pele dela sem a provar. Federica deixou-se ficar imvel, demasiado receosa de se mexer, no sabendo ao certo o que fazer. Como se pressentindo o seu desconforto,
Sam afastou-se um pouco e com as pontas dos dedos acariciou-lhe o cabelo molhado da chuva e pendendo-lhe pelo rosto.
-  o teu primeiro beijo? - perguntou.
- Sim - respondeu ela numa voz rouca. Sam sorriu com ternura.
- A primeira vez  sempre um pouco assustadora. Ainda me lembro da minha.  pior para um rapaz porque supostamente devemos saber o que estamos a fazer.
- E como  que sabias o que fazer? - inquiriu ela numa tentativa de fazer conversa, mas s conseguia pensar na sensao dos lbios dele nos seus e na receosa antecipao
de novo beijo.

- Instinto - disse ele apenas, tirando os culos. Depois olhou para ela com uma intensidade que fez o estmago dela apertar-se e passou-lhe a mo pelo pescoo. -
Olha, fecha os olhos. No fiques acanhada. Escuta os teus sentidos, no a tua cabea que anda s voltas a interrogar-se sobre o que se passa. Beijar deve ser uma
coisa agradvel, no desconfortvel. Descontrai-te e concentra-te no que o teu corpo est a sentir. No te deixes dispersar pelos teus medos. No estou a avaliar-te,
apenas a desfrutar de ti. - Federica soltou uma risadinha nervosa. - V, fecha os olhos - insistiu ele. Federica deu nova risadinha e depois fechou os olhos expectantemente.
O seu estmago voltou a dar uma volta ao sentir os lbios dele na sua pele, beijando-lhe o maxilar, atrs das orelhas, a testa e os olhos. Por muito que tentasse
ignorar os seus pensamentos, no conseguia permitir-se desfrutar do prazer dos seus sentidos como ele sugerira com medo de se soltar e parecer ridcula. Sentiu o
aroma do seu aftershave misturado com o natural odor masculino do corpo dele e teve vontade de se beliscar para se assegurar de que aquilo estava realmente a acontecer.
Ento, quando comeava a achar que a sua mente iria estragar um momento to mgico, os lbios dele voltaram a cobrir a sua boca, abriram-se e puseram fim ao frentico
fluir
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dos seus pensamentos. Saboreou o vinho na lngua dele e sentiu o seu queixo spero contra a sua pele. Consciente apenas do enlevo sensual do momento, reagiu instintivamente.
Sam envolveu-a nos seus braos e puxou-a contra si. A, sob a luz tremeluzente da vela, todo o seu ser se agitou e despertou com o florir da Primavera.
CAPTULO VINTE E SEIS
Ao regressar a casa Helena encontrou um bilhete de Arthur em cima da mesa da cozinha.
Fui ao cinema com o Hal, vemo-nos mais tarde. Beijos, Arturo
Abriu o frigorfico, tirou uma lata de Coca-Cola e um prato de carnes frias e sentou-se para comer sozinha. Olhou para o relgio na parede e interrogou-se o que
Federica estaria a achar da festa. Andara demasiado ocupada com o novo marido e o filho para reparar no amadurecimento da filha. No ano que passara, Federica comeara
discretamente a metamorfosear-se, emergindo da sua crislida como uma lcida jovem, com profundos olhos melanclicos e o sorriso tmido de uma criana desconfortvel
com a muda da sua pele infantil. Por um lado era competente, sensata e independente, contudo, Helena reconhecia nela uma crescente dependncia e insegurana pois
esses eram os traos de carcter que herdara de si. Comeu a carne com pouco entusiasmo. A imagem resplandecente de Federica no seu vestido de gala lanara uma sombra
de pesar sobre o seu corao que parecia agora incapaz de sacudir. Tentou no pensar em Ramon, mas a imagem dele vinha  tona nos seus pensamentos como uma bia
no mar. A flutuava, relutante em ser levada pela corrente. Os seus olhos pretos perscrutavam-na inquisitoriamente e quase conseguia escut-lo a perguntar-lhe se
era feliz.
No era to feliz quanto esperara ser. Arthur era bom para si e ela gostava profundamente dele. Era um autntico santo, aturando os seus humores variveis e impacincia
com o sorriso amvel de um pai extremoso. Era tudo o que Ramon no era. Era altrusta, tolerante, no a julgava,
305

no entanto, faltava-lhe o carisma, a paixo e o fulgor de Ramon. com Arthur ansiava por qualquer coisa mais. Desejava que ele fosse mais bem-parecido, mais magro,
menos desastrado. O seu andar meio saltito irritava-a e ansiava por que ele se contivesse ao invs de correr para as pessoas como um Labrador demasiado animado.
A exuberncia dele enlouquecia-a. Temia contemplar demasiado os primeiros anos do seu casamento com Ramon, pois nada no mundo poderia competir com aquele avassalador
jbilo e sensao de realizao. Em Federica via o reflexo da rapariga que ela mesma fora outrora. Imaculada, como um pedao de papel em branco  espera que algum
o pintasse com amor. Pensou na sua prpria folha de papel e no que a vida nela gravara, tantas cores, mas no teve a coragem de olhar com ateno suficiente para
reparar que a maioria das cores feias era obra sua.
Quando Toby chegou a Pickthistle Manor na manh seguinte para ir buscar Federica, viu o seu rosto radiante a sorrir para si da janela do quarto de Hester. Correu
escada abaixo e lanou-se para os braos dele.
- Foi a melhor festa do mundo! - exclamou ela, mal capaz de disfarar o sorriso de uma mulher feliz. Planeara manter os seus beijos nocturnos com Sam em segredo,
mas assim que se viu sozinha no carro com o tio, as palavras comearam a emergir como se no tivesse controlo sobre elas.
- Ele levou-me para o celeiro e beijou-me. Foi to romntico suspirou ela, abanando-se com o manual da Automobile Association. Estava a chover l fora, mas o celeiro
estava quente e cheirava a feno. Ele acendeu uma vela e mostrou-me um ninho de patos-selvagens. Foi to amoroso! Conversmos toda a noite. Ele foi to compreensivo
e amvel, nada como aqueles horrveis imbecis com quem dancei. O Sam salvou-me como naquele dia no lago. No fao ideia do que ele v em mim.
Toby fez um sorriso nervoso. No imaginava que algum com a idade de Sam fosse querer um relacionamento de longo prazo com uma rapariga da idade de Federica, e fazia
uma ideia do que a sobrinha desejaria.
- Eu sei o que ele v em ti, Fede. s uma jovem muito bonita. No me surpreende nem um pouco que ele pense que s maravilhosa.
- O que ir acontecer agora? - perguntou ela.
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Toby suspirou e olhou fixamente em frente.
- No esperes demasiado, querida - aconselhou, no querendo ser desmancha-prazeres, nem, ao mesmo tempo, que o entusiasmo dela atingisse nveis despropositados.
- Como assim?
- Ele  bem mais velho do que tu. No cries demasiadas expectativas, e se ele quiser de facto estar contigo, ser um bnus.
- Ah, est bem. - Sorriu alegremente, descendo o vidro. - De qualquer maneira vou v-lo, a Hester convidou-me para o lanche esta tarde.
- ptimo - comentou Toby.
- No te preocupes, eu venho de bicicleta. O exerccio far-me- brilhar.
- A brilhar j tu ests - gracejou Toby.

Arthur, Helena e Hal vieram at  cabana de Toby e Julian para um almoo de churrasco e saberem como a festa correra. A chuva limpara o cu durante a noite e o ar
brilhava agora com renovada vivacidade e claridade. Federica conseguiu contar  me e ao padrasto pormenores suficientes acerca da festa para satisfazer a curiosidade
deles sem mencionar o que se passara com Sam. Toby piscou-lhe o olho e fez um sorriso matreiro, prometendo silenciosamente guardar o segredo dela. Arthur, Hal e
Julian jogaram croquete no relvado enquanto Helena estava sentada  sombra e bebericava Pimms. Federica estava demasiado absorta para reparar na tenso impregnada
nas feies da me e partiu num passeio com Rasta. Toby nunca estava demasiado distrado para no reparar nos humores da irm e foi sentar-se ao lado dela na mesa.
- A Fede est feliz - comentou.
- Sim, tens razo - concordou ela num tom montono. - Tudo graas a ti e ao Julian. Acho que lhe fez bem viver com dois homens.
- Continua, ainda assim, a ter saudades do pai - disse ele, servindo-se de uma chvena de caf. - Por vezes dou com ela a brincar com aquela caixa que ele lhe deu.
Sabias que ela guarda todas as cartas dele ali?
- Sabia. Trgico, no achas? - referiu Helena, amargamente.
-  muito natural.
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- Mas no  natural abandonares a tua famlia durante vrios anos, pois no?
- No, no .
- Tambm no  natural uma criana viver com o tio. Em especial quando tem a me mesmo ao virar da esquina.
-  por isso que ests desanimada? - inquiriu ele num tom compreensivo.
- Oh, sei l - suspirou. - s vezes acho que meti os ps pelas mos. Afastei-os do pai, da ptria, dos avs. Casei outra vez, com uma pessoa de quem a Federica no
gosta. Por isso deixo-a viver afastada de mim para que possa estar perto dos amigos. Achas isso natural?
Toby tocou-lhe na mo que repousava sobre a mesa ao lado do copo de Pimms.
- O pai ignora o Julian e recusa-se a ir ao casamento da prpria filha porque no  capaz de encarar o amante do filho. Sacrifica o seu relacionamento com o filho
por causa das suas convices sexuais. Isso tambm no  natural - fez ele notar e sorriu com empatia. - No importa o que  natural e o que no . Seja como for,
 tudo uma questo de opinio. Se a Federica  feliz connosco,  natural. Se o Hal  feliz contigo e com o Arthur, isso  natural tambm. A Fede e o Hal vem-se
bastantes vezes. Sentem que so irmo e irm. Algumas pessoas mandam os filhos para colgios internos. Isso  natural?
- Suponho que tens razo - concedeu Helena com gratido.
- Mas no  isso que te est a perturbar - aventou ele, olhando na direco do relvado para Arthur que acabara de fazer passar a sua bola encarnada pelo arco e acenava
os braos no ar com satisfao, como um pinguim obeso.
Helena riu cinicamente.
- Conheces-me bem de mais - afirmou.
- Eu sei.
-  em alturas como esta que desejava no ter deixado de fumar queixou-se, enchendo o copo. - Estou satisfeita, Toby. O Arthur  bom para mim. Cuida de mim. Faz
tudo por mim.  o oposto do Ramon, que era um intil egosta.
- Mas ainda amas esse intil egosta - interrompeu Toby.
- Eu no usaria a palavra "amar" - interps ela, rapidamente, baixando os olhos, que lhe ardiam quando pestanejava.
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- Mas o Arthur no te satisfaz por completo.
- O Arthur... - suspirou ela com resignao. - O Arthur no chega. - Toby olhou pensativamente para a irm. Ela abanou a cabea. - Mas agora estou encurralada. 
isso. Fiz a minha escolha e pronto. Repara como o Hal o adora. Criaram um verdadeiro lao entre eles,  maravilhoso.

- Helena, todos temos de fazer compromissos nesta vida. Dificilmente encontrars as qualidades de que gostas no Ramon e aquelas que aprecias no Arthur agrupadas
num s homem.  quase uma improbabilidade.
- Mas eu no queria deixar o Ramon, para comeo - sussurrou ela, olhando o irmo nos olhos.
- Que queres dizer com isso? - perguntou em voz baixa, esperando no ter percebido bem.
- No achei que ele abrisse mo de mim. - Os olhos dela brilhavam de lgrimas.
- Meu Deus, Helena - arquejou ele, abanando a cabea.
- Mas uma vez tomada a deciso, no podia voltar atrs. Tinha de ir at ao fim. Depois... - hesitou, quase incapaz de divulgar a depravao do seu segredo.
- Depois o qu?
- Depois casei com o Arthur porque a perspectiva de me voltar a casar enfureceu o Ramon. Percebi isso nos olhos dele. Estava a mago-lo e isso fez-me sentir bem.
- Esvaziou o copo. - Achas-me malvada?
- Malvada no, Helena, mas muito pouco sensata.
- No contes a ningum - pediu ela.
- No conto - prometeu. - Meteste-te numa bela confuso, minha irm.
Ela acenou que sim, sombriamente.
- E no h ningum que possa resolver esta confuso por mim afirmou, esboando um tnue sorriso.
Federica regressou do seu passeio e foi directa para o quarto onde se deitou na cama e fechou os olhos. Reviu mentalmente as cenas da noite anterior uma e outra
vez, desfrutando dos beijos e das carcias dele como se da primeira vez. Tinham ficado sentados  luz tremeluzente da
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vela e conversado at a msica da festa ter deixado de reverberar por entre a chuva, e o som dos carros e dos convidados de sada se desvanecer no silncio da noite.
Federica deixara-se ficar envolta pelos braos dele e franqueara-lhe a entrada nos recessos secretos da sua mente. Falara-lhe da caixa da borboleta, da histria
de Topahuai e das cartas do pai, que relia sempre que se sentia triste. com Sam encontrara memrias esquecidas, escondidas por trs do tumulto da sua actual vida,
tal como a ocasio em que encontrara um peixe morto na praia em Vina e o pai lhe falara sobre a morte. Pegara numa concha e sentara-se ao lado dela na areia e explicara-lhe
que, quando uma criatura morria, deixa uma concha, as barbatanas, o corpo e flutua at ao cu para ficar com Deus. Fizera ento um pendente com a concha e pendurara-o
em redor do pescoo dela. "Como vs, a concha no  importante,  o esprito contido nela que importa e no pode nunca ser destrudo", afirmara ele, mas s mais
tarde, quando era mais velha,  que entendera o que o pai quisera dizer com aquilo.
Sam escutara-a atentamente, afagando-lhe o cabelo, divertido com algumas das suas histrias, comovido com outras.
- s muito especial, Fede - disse ele num sussurro, beijando-lhe a testa.
- Que queres dizer com "especial"?

- bom, que s diferente. Acho que j viveste mais do que outras raparigas da tua idade. "A experincia faz o homem" - citou ele - e tu j experienciaste mais coisas
do que muitas mulheres com o dobro da tua idade. Consigo ver isso nesses teus grandes olhos tristes - riu ele, beijando-lhe a tmpora. - Precisas de algum que olhe
por ti.
Federica aconchegou-se contra o corpo dele e sentiu pela primeira vez em muitos anos a mesma sensao de segurana que sentira nos braos do pai.
- Quem me dera ser mais velha - suspirou ela. - Independente, sem ter de ir  escola.
- Tambm j no falta muito para acabares o liceu.
- Tu tens sorte, ests em Londres. Nunca mais ters de fazer nada que no queiras.
- Isso no  verdade. Temos sempre de fazer coisas que no queremos fazer. Olha, para comeo de conversa, eu preferia viver aqui em Polperro.
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- A srio?
- Sim, no sou nem de longe um londrino. Mas no estou ainda preparado para me "pr ao fresco".
- Qual  o teu sonho? - perguntou ela, curiosa.
- Uma cabana virada para o mar, ces, um porco talvez, uma famlia, uma extensa biblioteca e uma longa lista de sucessos de venda.
Ela soltou uma gargalhada.
- Um porco?
- com certeza, uma cabana no est completa sem um porco gracejou ele. - E qual  o teu sonho?
- Gostava de tirar fotografias e viajar pelo mundo - declarou Federica e depois acrescentou - e gostaria de regressar um dia a Cachagua. No sei porqu, mas sinto
mais saudades da casa dos meus avs do que da minha.
- Tenho a certeza que um dia regressars.
- Gostaria tambm de viver em Londres, ser muito rica e famosa como o meu pai.
- bom, provavelmente tambm nisso sers bem-sucedida - disse ele. - Ou alcanars os teus sonhos e aperceber-te-s de que nunca passaram de embarcaes vazias.
- "O conhecimento pode ser ensinado, mas a sabedoria, meu rapaz, tem de ser aprendida por intermdio da experincia" - citou Federica no sotaque italiano de Nuno.
Sam riu.
- Ah, ento ds ouvidos ao que o velho Nuno tem para dizer exclamou ele com admirao.
-  impossvel no dar, ele repete tudo tantas vezes que os seus ditados acabam por ficar impregnados no ouvido.
- E ainda bem. Nunca conhecers algum mais sbio do que ele.
Federica sorria enquanto recordava aquela conversa. Ficara nos braos dele at as suas roupas terem secado e a suave luz da aurora ter comeado a penetrar pelas
frinchas do celeiro, qual nvoa anunciando o incio do dia. Haviam conversado como velhos amigos e ela despira-se das suas inibies a cada carcia dele e dos seus
medos com cada beijo. Depois de se esgueirar para o quarto de Hester no fora capaz de pregar olho. S conseguia pensar em Sam. Sempre soubera no seu corao que
Sam lhe estava destinado.
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Toby e Julian estavam sentados l fora no terrao a ler o jornal e a comentar os assuntos do dia quando Federica desceu as escadas aos pulinhos, preparada para pedalar
at Pickthistle Manor. A casa estava agora em silncio, uma vez que Helena partira j com Arthur e Hal para ir tomar ch a casa dos pais. Toby pousou o jornal e
examinou-a.
- E ento? - perguntou ela. - Estou bem? Ele acenou reflectidamente com a cabea.
- Pareces-me muito bem - respondeu sorrindo e tirando os culos de aros quadrados que lhe davam um ar de cantor e compositor dos anos setenta.
- Bem, na verdade, no sei se no parecer que te deste a grandes trabalhos - apontou Julian, esfregando o queixo.
- Mesmo? - inquiriu ela, olhando para baixo para as calas de ganga e os sapatos de salto.
- Querido, ela est fantstica - insistiu Toby. Porm, Julian abanou a cabea.
- Hummmmm, no, no - murmurou. - Cala antes os tnis em vez desses sapatos, acho que  isso. No vais querer dar o ar de que te esforaste muito.
Federica correu escada acima, aparecendo dois minutos depois com um par de tnis brancos.
- Tinhas razo, querido - concordou Toby, impressionado.
- No   toa que sou fotgrafo - respondeu Julian, batendo com o dedo na bochecha e erguendo as sobrancelhas. -  preciso ter um bom olho.
- Querida, ests muito melhor assim - elogiou Toby. - Diverte-te e porta-te bem. No te esqueas que ele  muito mais velho que tu.
- S firme e diz "no" - acrescentou Julian. - Seja o que for que ele te pea, diz "no". - Federica revirou os olhos e riu.
- Isso s lhe despertar ainda mais o interesse -- explicou Toby.
- O grande canalha, a pr aquelas patas sujas em cima da nossa menina - resmoneou Julian, sorrindo para ela.
- Quero escutar-te a diz-lo, meu amor - disse Toby. Federica soltou umas risadinhas, afastando-se.
- V! - gritou-lhe Julian, -  a palavra mais importante no vocabulrio de uma mulher.
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- NO! - ripostou ela, dobrando a esquina.
Toby encolheu os ombros para Julian. Estavam ambos a pensar na mesma coisa. Ali estariam para ela quando tudo terminasse mal.

Federica pedalou pelas serpenteantes veredas acima, ladeadas por cicutria e rainnculos, cantarolando para si mesma. Quando fez a curva para entrar no porto a
primeira coisa em que reparou foi no espao deixado pela ausncia do carro de Sam. Parou de cantarolar e franziu a testa. Encostou a bicicleta  parede da casa e
correu porta adentro. Durante os meses de Vero, quando o tempo estava bom, Ingrid gostava que todas as portas estivessem abertas para que as fragrncias do jardim
e das roseiras, que cobriam as paredes da casa, enchessem as divises com os frteis perfumes da natureza. Tambm permitia aos vrios animais socorridos por Hester
entrar e sair livremente sem terem de pedir para vir  rua. As andorinhas que faziam o seu ninho no alpendre, ano aps ano, mergulhavam pelas janelas abertas e um
ou outro rato campestre mais audaz esgueirava-se para dentro da cozinha para satisfazer a sua gula nas tigelas do co. Federica atravessou a sala at ao relvado
onde a tenda estava a ser desmontada por um exrcito de homens bronzeados, de bons de basebol na cabea e cales cor de caqui. Encontrou Hester e Molly deitadas
na relva ainda com os vestidos da noite passada a beber caf.
- Ol, Fede - grunhiu Hester, espreitando para ela por cima dos seus culos escuros.
- Nem conseguimos mudar de roupa - explicou Molly. - Estamos de caixo  cova.
- Mas foi uma festa maravilhosa - referiu Fede, olhando em redor em busca de Sam.
- Foi ptima - concordou Hester. -Junta-te a ns.
Federica sentou-se na relva e brincou distraidamente com as margaridas.
- Ests com um ar surpreendentemente fresco para algum que esteve a p toda a noite - comentou Molly, olhando-a de cima abaixo.
- com quem  que desapareceste durante tanto tempo? Nem sequer te ouvi quando te vieste deitar - referiu Hester, esfregando os olhos encarnados.
- Ningum muito emocionante, receio - murmurou Federica, esforando-se o melhor que podia por disfarar.
313
- Pois, pois. Ests a corar - disse Molly. - Ele beijou-te?
- No, no. Apenas conversmos - insistiu ela de modo pouco convincente.
- Conversaram? - zombou Molly. - As pessoas no "conversam" em festas, "curtem".
- Pois, lamento, mas ns conversmos.
- Sobre o qu? - perguntou Hester, torcendo o nariz.
- Ele falou sobre ele mesmo - respondeu Federica num tom fortuito. - Na verdade, comeou por vomitar nos arbustos, o que no foi muito agradvel. Depois comeou
a chover com fora, por isso corremos para o celeiro e abrigmo-nos ali da chuva. Fiquei a ouvi-lo at cerca das quatro da manh.
- Pobre de ti. Perdeste a tua prpria festa - disse Hester. - Ele foi muito entediante?
- Horrivelmente - respondeu Federica. Molly olhou para ela com um ar duvidoso.
- No sejas to crdula, Hester aconselhou, sorrindo para Federica. - No acredito nem um pouco nisso.
- Molly, ela no iria beijar uma pessoa depois desta ter acabado de vomitar.
- Talvez ele no tenha vomitado - argumentou Molly, erguendo uma sobrancelha.
- Olhem, na verdade nem interessa -- concluiu Federica. - E vocs?
Hester soltou umas risadinhas.
- Eu curti com dois rapazes - contou ela -, mas o Nuno apanhou-me da segunda vez e insistiu em danar comigo. Sabes, ele  um excelente danarino, ficarias surpreendida.
- Hoje ainda nem deu as caras, deve estar de ressaca - riu Molly.
- A me est na praia a pintar. Achou que a festa foi encantadora, apesar de as suas orqudeas terem sido todas espezinhadas e de Joe Hornish ter passado de bicicleta
por cima do relvado molhado e ter deixado marcas de pneus por todo o lado. O pai est lvido e diz que para a prxima pagar para no haver festa nenhuma.

- E os polcias? - atreveu-se Federica a perguntar, inclinando a cabea para esconder os olhos, no fossem eles tra-la.
- Oh, o Sam regressou a Londres com o Ben - disse Hester.
- Ah - disse Federica, forando um sorriso.
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- Acho que j teve o suficiente de midos de dezasseis anos bbados que dure uma vida inteira - afirmou Molly.
A mente de Federica ensombrou-se. As suas faces ruborizaram-se de desapontamento ao mesmo tempo que sentia de novo a mesma arrebatadora sensao de rejeio. Nem
sequer esperara para se despedir. Seria possvel que a noite anterior no tivesse significado nada para ele? Depois de lhe parecer que permanecera ali tempo suficiente
que lhe permitisse ir embora sem levantar suspeitas, pedalou at casa por entre copiosas lgrimas e dolorosos soluos que abriram a velha ferida que o pai provocara
h anos. Quando chegou a casa, correu para o quarto e lanou-se para cima da cama em desespero. Acreditara verdadeiramente que ele a amava, tal como acreditara que
o pai a amara tambm. Abriu a caixa da borboleta e recordou com vergonha que permitira que ele partilhasse dos seus mais profundos segredos, que o convidara para
o seu mundo privado, apenas para descobrir que ele no estava realmente muito interessado. Foi um doloroso despertar.
Quando Toby regressou do mar, viu a bicicleta de Federica largada na gravilha e pressentiu que alguma coisa se passava. Correu escada acima e encontrou-a a chorar
agarrada s cartas do pai. Envolvendo-a nos seus braos, no precisou de perguntar o que acontecera. J sabia. Fora exactamente o que temia.
- Todas as pessoas de quem me aproximo fogem - murmurou ela, limpando as lgrimas na camisola do tio.
- Isso no  verdade - contraps ele. - Ns estaremos sempre aqui para ti.
- Ele  tal e qual o meu pai. Porque tm de se ir embora sem dizer uma nica palavra? Sinto-me to desprezvel!
- Eles no te merecem, Fede. s muito melhor que eles.
- Mas eu amo o Sam - lamentou-se ela.
- Minha querida, s to jovem e o teu amor  to inocente.
- No, no . Amo-o de verdade.
- Ele tambm ainda  jovem, Fede. Que poderias tu esperar? Um dia, ele querer um relacionamento, mas por agora deseja apenas gozar a sua liberdade. E tu tambm
ainda andas na escola, meu amor.
Federica olhou para o tio com os olhos inchados.
- Mas eu no quero mais ningum a no ser ele - explicou. No h ningum no mundo como o Sam.
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- Eu sei - anuiu ele. - Tens de ser paciente. Vocs tm ambos ainda muito para crescer. Foi muito irresponsvel da parte dele dar-te esperanas. Deve saber o que
sentes em relao a ele.
- Ele  to querido e amvel - argumentou ela. - Nunca me magoaria de propsito.
-  claro que no. O que se passa  que as vossas expectativas so diferentes. Eu  que no gosto de te ver sofrer. Se o apanhasse dava-lhe uns safanes.
- Eu no permitiria - disse Fede, esboando um sorriso triste.

- Vais ficar bem, Fede - garantiu Toby, depois abraou-a com ternura.
Porm, naquele momento, Federica no acreditava que o seu corao alguma vez recuperasse.
No final da tarde Federica passeou pelo cimo dos penhascos com Rasta. As suas recordaes da noite anterior haviam agora sido maculadas. Nada mais sentia a no ser
ressentimento e autocomiserao. Por todo o lado via Sam; nas nuvens cor-de-rosa que reflectiam o pr do Sol, nas ondas que varriam as rochas na sua eterna batalha
para as desgastar. A familiar sensao de vazio apertava-lhe de novo o corao, recordando-lhe os momentos infelizes na sua vida em que o amor que dera s pessoas
lhe fora arremessado de volta. Temia no voltar a ter a coragem de amar. Sentada na relva, puxou Rasta contra si e enterrou a cara no seu plo hmido. Depois lanou
os seus desejos ao mar e ficou a v-los afundarem-se.
CAPTULO VINTE E SETE
Sam conduzia pela autoestrada enquanto Ben ressonava e se babava no banco do passageiro. Escutou o rdio por um momento, mas no tardou que a sua mente comeasse
a vaguear at  noite anterior. Deu por si no celeiro com Federica e foi assolado por um enorme sentimento de culpa. Onde  que ele tinha a cabea? Umas poucas horas
de auto-indulgncia no valiam com certeza o sofrimento que se seguiria. Sentia-se um monstro. Fora por isso que insistira que partissem logo a seguir ao pequeno-almoo.
No tinha coragem para lhe dizer pessoalmente que fora muito bom, mas que no passara de um beijo no feno. Sam no era cruel ou insensvel. Gostava bastante dela.
Federica tornara-se uma jovem surpreendentemente bela e cativante, mas qual pssego prestes a amadurecer, colhera-a cedo de mais. A inocncia dela fora demasiado
tentadora e ele no conseguira suportar a ideia de que outra pessoa a pudesse estragar. Qualquer um dos palermas da festa a poderia ter atrado para um arrufo embriagado
no meio dos arbustos, umas apalpadelas no escuro, um beijo baboso, por mais nenhuma razo do que gabar-se acerca disso, mais tarde, com os amigos. Vira-a correr
para o jardim precisamente com o tipo de rufia que temia e perseguira-a com a inteno de a acompanhar de regresso  tenda. As suas intenes haviam sido boas, ainda
que no tivesse tido a fora de carcter para as levar at ao fim.
O que acontecera a seguir fora vergonhoso. Tinha mais nove anos que ela e experincia suficiente para saber o que um primeiro beijo pode fazer a uma rapariga como
Federica. Porm, ali, sob a luz urea da vela, envolta pelos doces aromas da natureza, ela olhara para si com tamanha adorao e enlevo que o perturbara. Surpreendido
pela sua sbita reaco
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a uma rapariga que conhecia desde a infncia, sentira-se ao mesmo tempo desarmado e desprevenido. Os seus impulsos responderam aos seus instintos e, antes mesmo
de ter tentado dar ouvidos  voz amordaada da razo, beijou-a. A princpio ela mostrara-se acanhada e receosa, combatendo as suas prprias batalhas internas num
esforo de vencer a timidez. Mas, por fim, rendeu-se s sensaes que experimentava pela primeira vez. Encantado pela inocncia dela, sentira prazer em mitigar-lhe
os receios e em contempl-la conquistada e dominada pelos seus sentidos. Um beijo nunca mais volta a ser to doce como da primeira vez, como naquele primeiro despertar.
O remorso que sentia pesava-lhe no corao.
Observou o Sol a dissipar as neblinas matinais e a dar incio a um esplndido dia de Vero, fazendo com que os hmidos campos tremeluzissem em seu redor. Desligou
o rdio e olhou para o lado, para o amigo cujo corpo recuperava do lcool e do deboche da noite anterior. Sam estava satisfeito por poder ficar assim sozinho com
os seus pensamentos, por muito que estes o atormentassem. J ouvira Ben vangloriar-se o suficiente e isso apenas o fizera sentir-se ainda mais envergonhado; seria
to mau quanto o amigo? Garantiu firmemente a si mesmo que era melhor que Ben. Enquanto Ben beijara e apalpara todas as raparigas que conseguira, ele desfrutara
de um momento de ternura com uma querida amiga. Sim, uma querida amiga. Fora encantador e comovente e no apenas por causa do beijo. Haviam conversado at de madrugada,
sobre tudo e sobre nada, e gostavam verdadeiramente um do outro. Porm, ela era demasiado jovem. Era to simples quanto isso. Ento, porque no conseguira ser homenzinho
e lho dissera cara a cara?
Sam debateu-se com a sua conscincia todo o caminho at Londres. Parando no caminho para meter combustvel, comprou o jornal e um pacote de passas cobertas de chocolate
e acordou o amigo. Estava pronto para conversar. Precisava de se distrair.
- Ento - comeou, metendo-se de novo no carro e pondo-o a trabalhar -, j te sentes melhor?
- Sinto-me horrivelmente - respondeu Ben e bocejou. - Mas valeu a pena. Ainda assim, estou ansioso por voltar a sentir o smog. J tive a minha conta de midas frgidas
por uns tempos. Num infantrio a diverso  limitada, se  que me entendes. Estou pronto para a universidade da vida! - riu ele, enfiando a mo no pacote de passas
de chocolate.
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Sam revirou os olhos e ligou o rdio.
- Entendo-te - concordou sem grande convico. - A universidade da vida.
Sam rapidamente esqueceu os seus remorsos em relao a Federica  medida que voltava  rotina da sua vida em Londres. Viajava at  City de metro todas as manhs,
colocava o mnimo possvel de esforo no seu trabalho e depois regressava a casa ao final da tarde e ia sair com os amigos. De vez em quando engatava uma rapariga,
fazia amor antes do jantar e despedia-se dela antes da hora de dormir. A ideia de acordar e dar com uma estranha a seu lado na cama repugnava-o. Necessitava de sexo
como precisava de comer, mas assim que a refeio terminava a viso do prato sujo era muito pouco apelativa. Nunca se recordava dos nomes delas e raramente dos rostos,
contudo o seu apetite nunca diminua. A ternura era uma emoo que deixara no celeiro, em conjunto com a famlia de patos e a vela apagada. Ningum conseguia inflamar-lhe
o corao ou perturbar as suas emoes, que permaneciam frias e distantes e aparentemente impenetrveis.
No Outono, quando regressou por fim a casa, a Polperro, escondia-se no escritrio de Nuno a discutir A Prima Bette de Balzac, temendo que Federica pudesse vir visitar
Hester e o olhasse com aqueles seus olhos grandes e tristes e voltasse a ser consumido pelo remorso. Queria contar a Nuno, mas sentia-se demasiado envergonhado para
o fazer. Por isso, amuava pela casa, contaminando-a com a sua presena glida.

- Meu Deus, Sam - queixou-se Molly -, ests uma lstima este fim-de-semana. Que se passa?
- Absolutamente nada - respondeu ele.
- Bem que me podias ter enganado - ironizou ela, observando-o com circunspeco. - Problemas de saias, j percebi - acrescentou com um esgar.
- No me deparo com problemas nesse departamento - replicou ele com um ar pomposo.
- Porque no levas o Trotsky a dar um passeio ou assim? Ests com aquela horrorosa cor de Londres.
- Que est a Hester a fazer? - perguntou como quem no quer a coisa.
- No sei - respondeu Molly, encolhendo os ombros -, mas eu vou ver um vdeo.
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- E qual  que vais ver?
- O Grande Amor da Minha Vida - disse ela num tom alegre, abrindo a caixa.
- Essa velharia outra vez! - exclamou ele, rindo.
- Eu adoro o filme. J no se fazem homens assim.
- O Cary Grant  demasiado melfluo para ti, Mol. Achei que preferias homens mais duros.
- Apenas como ltimo recurso - retorquiu ela. - Se um Cary Grant me arrebatasse, nunca mais olharia para mais nenhum assentador de tijolos!
Sam soltou uma gargalhada e abandonou a sala a chamar por Trotsky.
Estava ventoso junto aos penhascos, mas sabia-lhe bem sentir a brisa marinha no rosto. Fora de casa podia, pelo menos, evitar dar de caras com Federica. Balanava
os braos ao mesmo tempo que andava, agasalhado no casaco de pele de ovelha de Nuno, e ia fazendo festas no co enquanto este farejava a terra dormente em busca
de coelhos. Pensou no seu trabalho, que detestava, e na City, que odiava, e fantasiou em fazer uma casa em Polperro, um dia. No se importava de viver em Londres
por algum tempo, mas o seu corao estava no campo e a sua alma pertencia ao mar, no s poeirentas ruas de uma cidade estril. Contemplou as agitadas ondas e inspirou
a maresia, enchendo o peito de memrias da infncia. O que desejava fazer acima de tudo era escrever.
Nuno era mais do que encorajador. J lhe dissera mais do que uma vez, e num tom srio, que estava a desperdiar a sua criatividade num banco impessoal, desempenhando
um cargo mais adequado a um qualquer idiota.
"Tu tens imaginao, meu rapaz, e talento, e quebra-se-me o corao de v-lo nessa hibernao." Tinha razo,  claro. Contudo, havia qualquer coisa que o retinha.
O talento era uma coisa muito boa quando se sabia como o canalizar. S que Sam no sabia sobre o qu haveria de escrever.
com esse pensamento melanclico, levantou os olhos. Reparou em duas pequenas figuras  distncia, avanando lentamente na sua direco. De repente, tomado de pnico,
preparava-se para se virar e caminhar na direco oposta, quando uma delas acenou. Persistiu at ele responder com um entusistico aceno. Eram Hester e Federica
e no havia como evit-las.
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 medida que elas se aproximavam, o corao dele comeou a bater mais depressa. Estava apreensivo. Preferia ignor-la, mas isso seria cruel. Teria de tentar agir
como se nada tivesse acontecido. Fazia figas para que ela no tivesse contado nada a Hester.
- Ol, Sam - gritou a sua irm contra o vento. Rasta chegou mais depressa e comeou a brincar com Trotsky, Isso permitiu-lhe desviar a sua ateno para os ces,
chamando-os e fazendo-lhes festas, agachando-se para abraar o Labrador.
- Ol, Sam - cumprimentou Federica.
Sam levantou os olhos relutantemente e forou um tnue sorriso. As faces dela estavam encarnadas devido  caminhada e os seus olhos brilhavam por causa do vento.
Era bvio que estava tambm a fazer um esforo por dissimular. Ele acolheu de bom grado o fingimento dela e a sua melancolia desvaneceu-se.
- Como ests, Federica? - perguntou ele, pondo-se de p e contemplando o seu rosto sincero.
- Bem, obrigada - respondeu ela, enfiando as mos nos bolsos e arrastando os ps para se manter quente.
- Est frio, no est? - comentou Sam.
- Um frio de rachar - queixou-se Hester. - Mas faz bem  pele
- acrescentou. - Far-nos- brilhar.
- J esto as duas a brilhar de forma bem evidente - gracejou ele.
- ptimo - entusiasmou-se Hester. - Eu bem te disse, Fede. Federica sorriu timidamente, mas no disse nada.
- Como vai a escola? - perguntou Sam a Federica, mas Hester antecipou-se e respondeu pela amiga.
- Somos obrigadas a estudar tanto que me parece que o meu crebro vai entrar em greve - comentou com uma risadinha.
- "O conhecimento  poder - citou Sam, olhando de relance para Federica, que estava a olhar para os ces.
- O conhecimento  entediante - gemeu Hester. - Seja como for, o melhor  continuarmos a andar, antes que congelemos. Fazes-nos companhia? - convidou. Federica olhou
para ele, esperanosamente, e Sam ouviu-se a si mesmo dizer que sim, que iria com muito prazer.
- Os ces so muito mais felizes juntos - comentou Hester. Desafio-vos a separ-los. Reparem como se esto a divertir!
Observaram Rasta e Trotsky correr atrs de uma magra lebre, que ziguezagueou por um campo como se fizesse pouco dos vacilantes esforos
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dos ces para a apanhar. Todos riram quando os ces regressaram com as lnguas de fora e a abanar as pesadas caudas para ocultar o embarao que sentiam.
- Estes dois passam demasiado tempo em sofs - exclamou Sam. Federica sorriu.
- E demasiado tempo com as bocas cheias de biscoitos, imagino
- acrescentou.
- Acho que nem saberiam o que fazer se tivessem conseguido caar a lebre - disse Hester, fazendo festas a Trotsky que encostou o focinho  sua anca. - Ainda assim,
quer ser elogiado pelo esforo.

- Isso pelo menos podemos conceder-lhes - respondeu Sam, afagando o dorso de Rasta quando este passou por si. Foi um momento fugaz aquele em que a mo de Federica
roou na de Sam ao mesmo tempo, pois tambm ela estendia o brao para acariciar o seu co, mas pareceu-lhe uma eternidade. Ambos retiraram a mo de imediato, cada
qual fingindo que no dera conta de nada, quando na verdade ainda sentiam o respectivo toque na pele.
Depois disso, Federica mal conseguia olhar para Sam. As suas faces continuavam vermelhas, mas mais devido ao embarao do que ao frio e receava que ele reparasse.
Enfiou a mo no bolso, onde esta parecia vibrar com um estranho prazer. Acautelou-se para no caminhar muito junto a ele, no fossem acotovelar-se por engano, e
manteve os olhos fixos  frente. Estava aliviada por Hester estar conversadora. A amiga dominava a conversa, tagarelando sobre tudo e no reparando em nada. Sam
tentou incluir Federica, mas as suas palavras eram engolidas pelo entusiasmo da sua melhor amiga, que respondia por si, aparentemente por hbito. Ao chegarem a casa,
Sam comeava a achar o domnio da irm fastidioso. Federica mal dissera uma nica palavra. Estava desapontado. E ficou surpreendido ao aperceber-se de que ficara
ainda mais desapontado quando ela disse que tinha de se ir embora.
- Mas no queres uma chvena de ch? - perguntou ele, detendo-se junto  porta da frente enquanto Hester se debatia para tirar as botas no alpendre. Federica abanou
a cabea.
- Tenho de regressar a casa do Toby. A minha me vai-me buscar s quatro - explicou.
- Ah, j me tinha esquecido que passas os fins-de-semana com a tua me, no ?
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- Sim - respondeu ela. - A maior parte deles.
- Ento, eu levo-te a casa de carro - sugeriu ele, para seu grande espanto.
- Obrigada, mas eu vou bem de bicicleta - protestou ela.
- Est frio e seja como for j est a escurecer - argumentou ele, olhando para o cu vespertino que comeava a dar os primeiros sinais do crepsculo. - O Rasta pode
ir no banco de trs e eu ponho a tua bicicleta na bagageira. Simples.
- Vemo-nos na escola, Fede - despediu-se Hester antes de entrar no vestbulo e fechar a porta.
Federica no teve escolha. Rasta estava j acomodado no banco de trs do Dois Cavalos de Sam, embaciando os vidros com o seu hlito quente.
Federica trepou para o banco da frente e esperou que Sam terminasse de prender a bicicleta. Apertou as mos uma na outra nervosamente. Vislumbrando o seu rosto manchado
e o cabelo desalinhado no espelho lateral, fez o que pde para se compor enquanto ele no estava a olhar. Tentou ficar atenta ao barulho dos passos dele, porm a
nica coisa que conseguia ouvir era a respirao ritmada de Rasta no banco de trs.
Sam fechou a mala at onde pde e rodeou o carro em direco  porta. No fazia a mnima ideia daquilo de que iriam conversar ou por que motivo sugerira lev-la
a casa. Ela parecia ter uma habilidade especial para minar a sua sensatez. Meteu-se no carro e fechou a porta com estrondo.
- Aposto que o Rasta no viaja muitas vezes em primeira classe brincou ele para quebrar o gelo.
Federica riu.
-  habitualmente um soldado de infantaria - respondeu ela. S espero que no tenhas elevado muito os padres dele, pois, caso contrrio, nunca mais querer viajar
de outra forma.

- Assim sendo, no lhe daremos quaisquer extras - comentou. Ou seja, nada de usque e de dutyfree.
Ambos riram enquanto Rasta arquejava atrs deles.
O carro passou pelo porto e seguiu pela vereda. O cu vespertino adquiriu de repente um tom de rosa quase fluorescente  medida que o Sol se comeava a pr, capturando
os seus moribundos raios nas plumosas nuvens, conforme se despedia do dia. Ambos contemplaram a cena com admirao.
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-  maravilhoso - suspirou Federica num tom sonhador.
-  como se a natureza por vezes sentisse necessidade de protestar a sua supremacia e mostrar-nos a todos como  poderosa - respondeu Sam, reduzindo a velocidade.
-  sempre to fugaz!
- Eu sei, um momento precioso e logo a seguir desapareceu. Mas  isso que o torna to mgico. Por vezes, as coisas so mais especiais porque so efmeras.
- Um raro vislumbre do Cu - disse ela, recordando sem querer os beijos que haviam trocado no celeiro. Baixou os olhos e sentiu calor no rosto.
- Repara como inundou os campos de cor de laranja - exclamou ele, desviando o carro para a berma da vereda. - Sinto uma sbita vontade de caminhar por eles. Anda
da.
Federica seguiu-o at ao campo. Sem falarem, avanaram colina acima para caminharem por entre a peculiar luz laranja.
- O teu rosto agora  cor de laranja - apontou ele com uma gargalhada e olhou para os seus dedos da cor do ouro.
- Tambm o teu. Isto  que  brilhar!
- Vamos at ao cimo da colina. Poderemos ver o efeito que provocou no mar. - Ento, permitiu que os seus impulsos tomassem de novo o controlo. Pegou-lhe na mo fria
e conduziu-a at ao topo. Federica sentiu o corao inchar como um balo de ar quente e elev-la literalmente no ar. Foi incapaz de conter o sorriso que lhe tomou
todo o rosto. Quando chegaram ao cimo do monte puderam apreciar toda a magnificncia da natureza. O mar estava estranhamente calmo, estendendo-se at ao horizonte
sob um manto dourado.
Nenhum deles falou. Limitaram-se a ficar imersos naquela luz suave, a contemplar o celestial espectculo que se desenrolava em redor deles. Era to enfeitiante
quanto transitrio. Assim que o Sol desapareceu para aquecer outra costa, ficaram de repente mergulhados em sombra e com a sombra veio o frio. Federica tremia.
- Tens frio? - perguntou ele, apertando-lhe a mo. Ela acenou que sim com a cabea.
- Mas valeu a pena - acrescentou, aturdida de felicidade.
- Seguramente que valeu. No  todos os dias que se v um cu assim. Estou contente por ter partilhado este momento contigo - disse, olhando-a com afecto.
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Federica arquejou e olhou-o desorientada. A ternura dele era inesperada. No doloroso silncio dos ltimos meses, ansiara por escutar tais palavras. Sonhara que se
encontraria mais uma vez sozinha com ele, mas  medida que os meses passavam comeara a duvidar que tal momento voltasse alguma vez a acontecer. Olhava agora para
o rosto dele, tentando interpretar nas suas feies quais seriam as suas intenes. Contudo, ele limitou-se a sorrir de novo, no revelando nada.

- Vamos, ou ainda chegars tarde e eu meto-me em sarilhos - disse ele, por fim, largando-lhe a mo e enfiando a sua no bolso do casaco para a manter quente. Desapontada,
Federica seguiu-o monte abaixo at
ao carro.
S quando chegaram  estrada  que Federica se apercebeu de que haviam esquecido Rasta por completo.
- No acredito! - lamentou-se ela. - Pobre Rasta. Devia estar a ficar doido de frustrao a ver-nos ali no cimo do monte.
- Lamento - desculpou-se Sam, abanando a cabea. - Fiquei to deslumbrado com o pr do Sol que me esqueci totalmente do co.
- Tambm eu.
- Achas que ele nos perdoa? - perguntou, sorrindo para ela. Federica sorriu em resposta.
- Acho que sim, se prometeres que nunca mais voltas a esquecer-te dele - respondeu ela, metendo-se no carro. Rasta abanava a cauda o mais que podia num espao to
apertado e babou o banco todo com o entusiasmo de os ver outra vez.
- Acho que vou pagar por isso - referiu Sam, olhando para a baba do co, que corria num riacho pela pele do banco abaixo.
- Oh, sim, vais desejar t-lo levado connosco - riu ela.
- Lamento, Rasta, mas este momento era apenas para mim e para a tua me - explicou-se ele, ligando o carro. - Poders vir da prxima vez.
Federica animou-se com a ideia de que poderia haver outra ocasio como aquela. Podia no a ter beijado, mas seguramente que a fizera sentir que era especial, que
se preocupava com ela. Quando a deixou em casa do tio, inclinou-se e beijou-a suavemente no rosto. Federica podia jurar que o beijo durara mais tempo do que era
normal.
- At breve - despediu-se ele, afastando o rosto.
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- Obrigada, Sam, gostei muito - respondeu ela num tom srio. E o Rasta tambm - acrescentou, receando soar demasiado sentimental.
- E eu tambm - concordou Sam. Comeou a tirar a bicicleta dela da bagageira enquanto ela abria a porta ao co, que saltou imediatamente para a rua e se aliviou
no pneu do carro. Ambos riram e Sam revirou os olhos.
- Por quanto mais tempo terei de pagar pela minha negligncia? troou.
Federica encolheu os ombros.
- Ento, adeus - voltou ele a dizer antes de se meter no carro. Federica ficou a v-lo afastar-se e a acenar at o carro entrar na estrada e desaparecer.
PARTE III
CAPITULO VINTE E OITO
Londres, Outono de 1994

- A vida seria to mais simples para todos ns se os ladres entrassem na loja em uniformes prisionais s riscas pretas e brancas com os sacos dos artigos roubados
s costas - disse Nigel Dalby, o encarregado da segurana, sentado  secretria, com um p apoiado sobre uma cadeira e dois perspicazes olhos azuis passando avidamente
de um rosto para outro. Falava com um forte sotaque do Yorkshire e tinha uma cabea demasiado pequena para o restante corpo. Federica reparou que, embora ele estivesse
a dirigir-se a oito novos funcionrios, os olhos dele regressavam sempre a ela. - Porm, os larpios no se destacam assim da multido, pois no? E tambm no andam
com grandes cartapcios a dizer "sou ladro". - Riu da sua prpria piada e bateu com a mo na coxa. Os olhos de Federica foram atrados para a bem definida protuberncia
que lhe deformava as apertadas calas. Envergonhada por a sua ateno se ter desviado para a, concentrou-se no rosto dele e tentou prestar mais ateno  palestra.
- Eles parecem-se com qualquer um de ns. Daqui a pouco vou mostrar-vos um vdeo com uns ladres verdadeiros para que possam ver como eles so espertos. Todos vocs
tm olhos, certo? S vos peo que os usem. Tero sempre de estar de guarda, atentos. Numa loja como esta, milhares de libras so roubadas todos os anos por ladres
habilidosos. - Estalou a lngua e apontou para os olhos com dois dedos. Usem-nos. Estejam sempre alerta. Ora muito bem, nos telefones podem ver trs botes com os
cdigos A, B e C. O cdigo A dever apenas ser accionado se a situao for ameaadora. Digamos, por exemplo, que
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um homem armado entra na loja e vos ameaa pessoalmente ou aos clientes. Esta chamada seguir directamente para a esquadra da polcia e eles garantem que esto ao
nosso lado no espao de cerca de dois minutos. O cdigo B dever ser accionado se algum vos parecer suspeito. Nesse caso, eu deso e sigo a pessoa ou as pessoas
em causa, subtilmente, pela loja. O cdigo C ser usado para pedir ajuda no caso, digamos, de um cliente mais difcil ou assim. - Lambeu os lbios com a lngua seca
e olhou para Federica. - Alguma dvida?
Um dos rapazes levantou o brao aps um safano de encorajamento por parte de um colega.
- Qual  o aspecto de uma pessoa suspeita? - inquiriu, tentando no sorrir.
Nigel acenou com a cabea com um ar srio.
- Boa pergunta, Simon. Eu diria que um homem ter um ar suspeito se usar um bon de basebol, tiver a barba por fazer, andar mal vestido, se for estrangeiro.
Federica olhou de relance para os colegas para verificar se estariam to estupefactos quanto ela. No pareciam estar.
-- E no caso de uma mulher? - voltou a perguntar Simon, exibindo-se frente s raparigas, que sorriam por trs de franjas compridas e lustrosas.
Nigel fungou impacientemente, ansioso por no fazer uma figura ridcula.
- Deus deu-vos crebro, foi por isso que vos contratmos. Pensem um bocadinho. - Voltou a estalar a lngua e ligou o vdeo.
Federica tentou concentrar-se nas imagens, mas apercebeu-se de que os seus olhos se desviavam de novo para Nigel Dalby, cujos dedos compridos e brancos se debatiam
com o comando do aparelho.
No final da palestra Federica regressou ao piso dos presentes e lembranas e a uma densa nvoa de perfume Tiffany.

- Como  que correu, minha querida? - perguntou Harriet, uma das raparigas que trabalhara na loja durante uns anos. Era alta e rolia com uma inclinao por roupas
de cores vivas e joalharia reluzente. Receio que o Nigel tenda a apreciar demasiado o som da sua prpria voz. Percebi que te reteve ali mais de uma hora. Provavelmente
engraou contigo. Ele  um bocadito mulherengo - acrescentou e riu audivelmente, afastando os seus caracis cor de avel dos ombros verde-lima e colar de prolas.
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- No imagino que tenha muito sucesso com as mulheres - respondeu Federica. - S se torna atraente por ser estranho.
- Minha querida, ficarias surpreendida. Embora ele no seja propriamente o Torquil Jensen, no ? - disse ela numa voz empastada, franzindo os lbios cor de cereja.
- Quem  Torquil Jensen? - perguntou Federica.
-  claro que no poderias saber quem ele . - Os olhos de Harriet brilharam de admirao. - O Torquil  o homem mais bonito que alguma vez conhecers - murmurou
num tom confidencial. -  o sobrinho de Mister Jensen, o velho excntrico dono da loja, e farta-se de vir fazer compras aqui  loja.
- E eu j conheci esse tal Mister Jensen?
- Se o tivesses conhecido, seguramente que o saberias! - exclamou ela, brincando com as prolas em redor do seu pescoo. - Ele desloca-se com um extenso squito
de conselheiros e parasitas e nunca dirige a palavra a ningum. Comunica com os seus empregados por intermdio de lacaios. Uma verdadeira lesma. O sobrinho  um
milagre gentico! O velho raramente entra na loja. Eu acho que manda c o Torquil espiar por ele. Ainda assim, tem cuidado, os telefones esto todos sob escuta.
Mister Jensen  um controlador manaco.
- A srio? - arquejou Federica, espantada.
- Sim, com certeza. No faas quaisquer telefonemas pessoais, querida. Nem penses nisso. Eles pem-te de imediato no olho da rua. H uns meses, a Greta teve uma
rapariga, do mais querido que havia, a trabalhar como sua assistente. Infelizmente, bastou um telefonema pessoal e estava despedida. Nem direito teve a explicaes.
Acho que a sala dos empregados tambm est sob escuta, por isso, nada de piadas sobre Mister Jensen, ou sequer sobre a Donzela do Gelo.
- A Donzela do Gelo?
- A Greta. - Fungou e torceu o nariz.
- Como  que ela ?
Harriet ajeitou o enorme lao de seda que trazia ao pescoo, desatando-o e fazendo-o novamente.
- Um horror, minha querida, um absoluto horror - declarou de maneira enftica.
- Ah.
-  oriunda da Sucia e, se queres saber, c para mim nunca descongelou por completo. Mas no te preocupes, ela  fria com toda
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a gente. Diz sempre o que pensa e no se preocupa com o efeito que isso tem. O Torquil certa vez saiu com ela durante algumas semanas, e ela j se andava a pavonear
por aqui como se fosse a dona e comeou a referir-se a Mister Jensen como William. Um grande disparate, acredita. Como seria de esperar, a coisa no durou e, agora,
o Torquil mal reconhece a presena dela. O conselho que te dou  que obedeas tranquilamente e no arranjes confuses com ela. Limita-te a fazer o que ela disser
e no te atravesses no caminho dela. Tens sorte em ser ainda uma empregada to subalterna. Ela no se dar ao trabalho de implicar contigo. - Federica sorriu de
alvio. - O nico seno  seres to bonita. Isso poder vir a constituir um problema.

- Mister Jensen  casado?
- No,  um solteiro. Uma pena, com tanto dinheiro. O Torquil tambm no casou, mas tem sempre uma namorada na cidade. Conduz um Porsche e vive em The Little Boltons.
Um endereo muito distinto, s te digo. O meu pai perdeu todo o seu dinheiro com a falncia da Lloyds. Que pena, agora terei de procurar um marido rico. E pensar
que fui outrora uma herdeira. Onde  que vives?
- Em Pimlico com umas amigas - respondeu Federica.
- Pimlico  excelente. Pequenas casas de estuque branco. Gosto disso. Tm um ar muito mais grandioso do que so - referiu Harriet.
Mal tinham acabado de falar quando Greta deslizou escada abaixo por trs delas. Era magra, com cabelo louro reluzente puxado para trs e apanhado num rolo na nuca
do seu elegante pescoo. Usava um fato Chanel azul-marinho com botes dourados e sapatos azuis a condizer. Era bem mais velha do que Federica esperara, teria pelo
menos quarenta anos, e embora fosse alta e magra, exibia o rosto impertinente e de lbios delgados de uma mulher profundamente infeliz.
Avanou para Federica e olhou-a de cima abaixo com um ar autoritrio e olhos azuis glidos.
- Penso que ainda no tive a oportunidade de a conhecer. Bem-vinda  Saint John and Smithe. - Sorriu superficialmente, um gesto fugaz apenas para ser educada. -
A regra nmero um  no ficar o dia todo  conversa. H clientes para atender e  de muito m educao conversarem umas com as outras e ignorarem-nos. A Harriet
j devia sab-lo. - Falava com um ligeiro sotaque, pronunciando as palavras com uma formalidade glacial. Harriet comeou a desculpar-se, mas Greta
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interrompeu-a com um resfolego. - Pois, pois, ela  nova, por isso no faz mal - comentou num tom irnico. Enquanto ela se afastava, atravessando o piso na direco
do seu gabinete, Harriet revirou os olhos e depois olhou para Federica e piscou um deles.
- No fiques to preocupada, querida, o resto do grupo so todos uns verdadeiros campnios - asseverou e depois consultou o relgio. - Olha que bem, est na hora
de uma pausa para um cigarrinho. Vemo-nos daqui a quinze minutos!
Federica mudara-se para Londres no final do Vero de 1994. Tinha dezoito anos. Inigo comprara a Molly e a Mester um apartamento em Belgrave Road e estas haviam insistido
que Federica viesse viver com elas em troca de uma renda insignificante, uma vez que havia espao para mais uma cama no quarto de Hester. Molly estava a estudar
Histria na Universidade de Londres e Hester andava na Escola de Arte Saint Martin, seguindo as pisadas artsticas da me.
Federica no considerara prosseguir os seus estudos. Queria ser fotgrafa, tal como Julian e o seu pai, mas Helena estremecera com a ideia de ver a filha a levar
o mesmo tipo de vida nmada que Ramon e encorajara-a a tentar outras coisas.
- Primeiro tens de ganhar algum dinheiro e isso s se consegue com um emprego normal - argumentara Helena. - Quando fores capaz de te sustentar a ti mesma poders
fazer o que quiseres.

Federica raramente via Sam, excepto em sonhos. Sonhos que pontuavam os longos dias e lhe preenchiam as noites de desassossego e anseios. Nas raras ocasies em que
se encontravam, na casa dele em Polperro ou, ocasionalmente, no apartamento dele em Londres, ele sorria-lhe com ternura e perguntava-lhe sempre como ia a sua vida.
Porm, a promessa de algo mais do que uma amizade dissolvera-se como aquele cu rosa-flamingo e deixara-a a debater-se na sombra, interrogando-se por que motivo
ele j no queria saber de si. Viver com Molly e Hester apenas atiava a sua paixoneta e a recordava a todo o momento do jovem que conquistara o seu corao naquele
lago gelado h mais de dez anos. De vez em quando Sam telefonava para falar com as irms. Sempre que Federica atendia o telefone, controlava o tremor na voz com
uma vontade de ferro e conversava com ele como conversaria com qualquer outro amigo, contudo, vivia de cada palavra que ele dizia at
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ao prximo telefonema, como se fossem namorados. Por muito que se tentasse convencer de que no valia a pena amar Sam e viver de memrias que ele em tempos partilhara,
mas que agora muito provavelmente j esquecera, no conseguia controlar o seu corao. No havia ningum no mundo como Sam.
Pela primeira vez na sua vida, Federica experimentava o que era ser independente e gostava da sensao. No final de Setembro recebeu o seu primeiro salrio, setecentas
libras. Harriet levou-a s compras em Knightsbridge e ela gastou o dinheiro quase todo em roupas novas, discutindo com a amiga que queria v-la no mesmo tipo de
peas coloridas que ela vestia. No espelho de cada loja, Federica avaliava se Sam aprovaria ou no a sua escolha e depois dava por si a questionar-se se ele alguma
vez pensava em si. No entanto, no desistiu - talvez fosse ainda demasiado nova, talvez ele estivesse  sua espera, talvez... Quando apareceu no trabalho no dia
seguinte tinha um aspecto bastante londrino na sua saia cinzenta curta e sapatos de salto alto e com o rosto embelezado com rmel e blush que Harriet insistira que
ela comprasse.
Greta fungou despeitadamente e disse-lhe que no exagerasse no sorriso.
- No s um anncio a dentfrico, Federica, e ficas com um ar demasiado fervoroso, ainda assustas os clientes.
Federica corou at  raiz dos seus cabelos plidos e baixou os olhos, envergonhada.
- Assim est melhor - comentou Greta. Depois, num esforo para a manter longe da seco e longe da vista, mandou-a para a cave arrumar o armazm. - Quero-o to ordenado
e limpo que possa tomar o meu pequeno-almoo l - acrescentou, avanando a passos largos para o seu gabinete.
Apesar da aspereza ocasional de Greta, Federica adorava o seu trabalho. Gostava da segurana que este lhe proporcionava e do dinheiro que ganhava. Divertia-se com
Harriet e as restantes pessoas que trabalhavam nas outras seces rapidamente se tornaram quase como uma famlia alargada. A maioria dos clientes era simptica e
afvel e de vez em quando um ou outro cliente masculino convidava-a para sair. Contudo, Harriet recomendara-lhe que no misturasse prazer com negcios e, por isso,
ela declinava os convites atenciosamente, lisonjeada por repararem
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em si. No obstante, o nmero de homens esperanosos que rondavam a seco dos presentes e lembranas cresceu  medida que a confiana de Federica aumentava. Exasperada,
Greta bania-a para o armazm o mais que podia, mas ainda assim eles persistiam.
Uma manh fria de Novembro, Federica e Harriet estavam ao balco quando uma cigana idosa e obesa se abrigou ali da nvoa invernal, transportando um grande nmero
de sacos de supermercado cheios do que pareciam ser mais sacos.
- Parece-me que  um trabalho para o Nigel - sussurrou Federica com jovialidade, pressionando o boto B do telefone.
Harriet soltou umas risadinhas.
- Ele vai adorar esta, querida - desdenhou ela. - Esta mulher vive na rua e vem aqui de vez em quando para usar a casa de banho.
- Que horror - comentou Federica, torcendo o nariz com averso.
- Se achas que isso  um horror, deixa-me ento que te diga que ela lava o traseiro no lavatrio - acrescentou Harriet. - O segredo  no dizer a ningum e fazer
figas para que Greta o use logo a seguir a ela.
- Bolas! Agora  demasiado tarde - sibilou Federica, vendo Nigel avanar escada abaixo com um esgar predatrio que lhe ruborizava o rosto. Nigel pestanejou trs
vezes para Federica que olhou para a cigana. Esta abria caminho pelo corredor que dava acesso  casa de banho das senhoras. Nigel fintou habilmente um par de clientes
idosos, mas no conseguiu chegar  cigana antes de ela se meter na apertada casa de banho e trancar a porta. Nigel bateu na porta com os punhos, exclamando bem alto:
-  a polcia, por favor saia da casa de banho! Ao que a cigana respondeu:
- D de frosques, sou uma senhora! - ao mesmo tempo que Torquil Jensen entrava na loja.
Greta emergiu de imediato do seu gabinete e avanou para Federica.
- J te disse centenas de vezes que no quero conversas enquanto trabalham. Vai ao armazm, Federica, e separa a mais recente entrega de molduras de fotografias
- ordenou.
- Mas h centenas - protestou Harriet em defesa de Federica.
- No me respondas. Sou tua chefe e estou a dar uma ordem  Federica. Se ela no tem coragem de se queixar pessoalmente, sugiro que
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procure outro emprego, pois no tenho pacincia para pessoas fracas. Depois, virando-se para Federica: - O armazm. J.
Federica partiu de imediato ao mesmo tempo que Torquil se aproximava do balco. Greta sorriu para ele, denunciando o seu desespero e infelicidade pela forma como
aos lbios empalideceram e os olhos se humedeceram.
Torquil respondeu-lhe com um meio sorriso.
- Ol, Greta - cumprimentou, olhando para ela por meros segundos antes de voltar a sua ateno para Harriet. - Harriet, ests muito bonita hoje.
Harriet inchou de orgulho e alegria.
-  muito amvel da sua parte, Mister Jensen - respondeu com alegria, desfrutando da inveja que tal causava a Greta, apesar do facto de saber que mais tarde pagaria
por isso.

- Harriet, preciso de comear as minhas compras de Natal. Ser que poderias ajudar-me? No que diz respeito a presentes tu s uma verdadeira perita.
- com certeza, Mister Jensen, seria um prazer - respondeu ela, mergulhando nos olhos verdes dele e desejando que Federica emergisse das entranhas da loja para testemunhar
o seu momento de glria.
- Greta, ests com um ar plido - comentou ele, sorrindo para o rosto franzido dela. - Deves andar a trabalhar de mais.
- No, no. Estou muito bem - gaguejou ela, contudo o seu rosto parecia derreter-se como um gelado no Vero.
 medida que Torquil e Harriet imergiam na multido de compradores, estes afastavam-se com reverncia, no devido ao estatuto de Torquil, mas  sua deslumbrante
beleza.
Greta sentiu a blis ferver-lhe no estmago e enfiou-se de volta no gabinete para lamber o orgulho ferido.
- D de frosques! Sou uma senhora - grasnava a cigana em protesto.
- Isso  coisa que no ! - disse Nigel num tom sibilante para a frincha da porta, esperando que nenhum dos clientes a conseguisse ouvir. - vou avis-la s mais
uma vez. Se no sair, teremos de deitar a porta abaixo e arrast-la c para fora.
- Uma senhora j no pode mijar em paz? - gritou ela. - Tenho os meus direitos. Uma mija  uma mija, tanto para uma duquesa quanto
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para uma vagabunda. No sou nenhuma duquesa, mas sou uma senhora da cabea aos ps.
- Muito bem, voc  que escolheu. Vamos arrombar a porta.
- Pronto, pronto - cedeu ela, abrindo a porta. Nigel encolheu-se ao sentir o fedor quando ela chegou perto dele. -J nem se pode mijar em paz - queixou-se a cigana
enquanto passava por ele.
Os clientes faziam caretas  medida que ela se bamboleava pela loja, lanando-lhes olhares carrancudos.
- Aposto que a si ele deixava mijar em paz - guinchou para uma senhora de idade que estava pregada ao cho de medo e averso. - Esta espelunca cheira pior que o
rabo do diabo! - acrescentou ainda antes de desaparecer na rua. Toda a loja pareceu suspirar de alvio. S Harriet e Torquil continuaram s compras absortos relativamente
 agitao.
Ao fim de um par de horas a desempacotar molduras e a empilh-las em prateleiras, Federica ficou satisfeita por ver o rosto alegre e entusiasmado de Harriet surgir
na porta.
- Querida, no vais acreditar, o Torquil Jensen esteve na loja e passou duas horas inteirinhas s compras comigo - sussurrou ela, receando que a escutassem.
- A srio? - disse Federica, tentando partilhar do seu entusiasmo.
- Ele cilindrou a Greta. Devias ter visto a cara dela. O queixo caiu-lhe at aos ps. Parvalhona.
- Espectacular.

- Ele  um borracho de cair para o lado. Quem me dera que o pudesses ter visto.  moreno e misterioso, com os olhos verdes mais deslumbrantes que mudam para azul,
dependendo do que tem vestido, e hoje trazia uma camisola verde de caxemira, por isso eram verdes, como esmeraldas. Ele  to elegante! Transpira riqueza e confiana.
No acredito que no o tenhas visto.  que s vendo  que se compreende.
- Federica encolheu os ombros - Seja como for, ele escolheu imensa coisa e foi tudo levado l para cima e tu e eu  que vamos ter a honra de embrulhar tudo.
- Sorte a nossa - respondeu Federica, sarcasticamente.
- No dirias o mesmo se o tivesses conhecido - disse Harriet num tom compreensivo, observando as pilhas de molduras ordenadas por cor. - Sabes, no me surpreenderia
nem um pouco se a Greta te tivesse
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mandado para aqui de propsito por o ter visto entrar na loja. Aposto que iria ficar de olho em ti, adora louras.
- Acho que nem olharia para mim, Harriet. E, seja como for, tambm no o quereria. O meu corao suspira por outra pessoa - confessou ela e sentou-se no banco.
- Quem? - inquiriu Harriet, inclinando-se contra a moldura da porta.
- Oh, apenas uma pessoa que conheci toda a minha vida. Mas  intil, ele no poderia estar menos interessado em mim - explicou ela e sorriu para a amiga num esforo
para no revelar a extenso da sua infelicidade.
- No irias querer mais ningum se visses o Torquil - argumentou Harriet, sabendo que nunca admiraria outro homem enquanto fosse viva. - Se o Torquil casar eu vou
para freira - acrescentou com um sorriso. - Anda da, acho que a Cinderela j sofreu o suficiente na cave.
Federica no tinha qualquer desejo de conhecer Torquil Jensen. Pertencia exclusivamente a Sam Appleby. Por muito que tentasse seguir em frente e interessar-se por
outra pessoa, o seu corao batia de forma incessante por Sam. Adorava a forma travessa como ele sorria, a madeixa de cabelo dourado que lhe tombava sobre os inteligentes
olhos, a sua natureza dominante e confiana. E tinha saudades dele a toda a hora.
Falava com a me dia sim, dia no. Helena j no se preocupava com Federica, que crescera e se tornara uma jovem sensata, capaz de olhar por si mesma. Preocupava-se
com Hal. Nunca fora uma criana fcil, ao contrrio da irm, mas sempre fora dcil e obediente. Agora metia-se em sarilhos na escola, chumbando exames e adquirira
uma atitude em que questionava tudo o que ela fazia e discutia, s pelo prazer de ser maador. Helena lamentava a perda da criana que costumava agarrar-se a si
e acarici-la com o seu olhar terno. Agora, Hal mostrava-lhe um semblante carrancudo num momento, e no momento a seguir era carinhoso e Helena sentia-se como se
vivesse numa montanha-russa permanente, incapaz de sair. Desaparecia com os amigos aos fins-de-semana e, por vezes, regressava de madrugada a cheirar a lcool e
a cigarros, quase incapaz de se arrastar escada acima para a cama.
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Helena desesperava. Arthur acarinhava-a com o seu apoio e afecto e no pedia nada em troca. Altruisticamente, escutava-a enquanto ela desabafava as suas mgoas e
dava-lhe conselhos sbios, embora soubesse que ela no prestaria ateno a uma nica palavra. Estava demasiado envolvida para conseguir ver a situao com objectividade.
- Ignora-o, minha querida - aconselhava Arthur. - Ele vive dependente da tua ateno como um parasita. Se a ateno se esgotar, ele desiste.

- O meu filho no  uma carraa! - replicava ela antes de assumir a expresso de uma mrtir muito incompreendida. Contudo, Arthur compreendia Hal. Fora mimado toda
a sua vida porque Helena nunca deixara de se sentir culpada por o ter afastado do pai. Na opinio de Arthur, uma me culpada era uma coisa muito perigosa. Hal precisava
de uma mo firme, e at que isso acontecesse continuaria a esticar os limites o mximo que conseguisse. Porm, Helena no permitia que o seu marido exprimisse a
sua autoridade e em vez de conquistar o respeito do filho com severidade, tentava ganh-lo com brandura.
Federica tambm escutava os agravos da me com a pacincia de uma terapeuta. No incio, quando Federica acabara de se mudar para Londres, Helena perguntava-lhe sobre
o emprego e o apartamento, porm, assim que ela se ambientara, a me perguntava-lhe cada vez menos vezes sobre a sua vida at que a sua curiosidade se esgotou por
completo e no falava de mais nada a no ser de Hal. Se Federica tentava conduzir a conversa para longe do irmo, Helena voltava atrs na conversa ou encontrava
uma forma de voltar a falar dele. Hal j no era o seu passatempo, mas a vida dela, e o que ele reclamava em termos de ateno tudo consumia.
A vida de Federica em Londres estava to afastada de Polperro que era capaz de se desligar do emaranhado das relaes familiares. A princpio era tudo to novo que
no teve tempo para ter saudades de casa. Depois falava com Toby e Julian ao telefone e sentia de repente um desejo imenso de ver o mar, de escutar o guinchar das
gaivotas, de sentir o ar fresco e salgado e das noites silenciosas. Tinha tambm muitas saudades de Rasta, que tivera de deixar com o tio. Ao chegar a Londres percebeu
porqu. A cidade no era local para um co como Rasta que adorava os seus longos passeios pelo campo e as brincadeiras na praia.
Depressa esmoreceria num lugar como Londres, mas, ainda assim, ela sentia a falta da companhia dele.
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A princpio teve dificuldade em dormir  noite devido ao rudo dos carros, das pessoas e das sirenes da polcia que a faziam acordar sobressaltada e lhe gelavam
o sangue nas veias. Porm, ao fim de um ms, comeou a achar o barulho reconfortante e as luzes amarelas da rua, que inundavam o pequeno quarto que partilhava com
Hester, um desencadeador de memrias h muito esquecidas.  medida que se familiarizava com as ruas, comeou a sentir uma crescente sensao de pertena. A cidade
deixou de lhe parecer um avassalador labirinto a temer, mas, ao invs disso, uma urbe simptica a percorrer e a desfrutar. Fez novos amigos e saam quase todas as
noites, indo ao cinema e ao teatro ou simplesmente ao pub, onde jogavam gamo e conversavam at  hora de fecho. No entanto, a presena imaginria de Sam seguia-a
onde quer que fosse, por isso, afastava os homens que a admiravam e ansiavam por t-la para eles.
Ento, quando Federica acreditava que nada poderia fazer desvanecer a paixo que sentia por Sam, algum entrou na sua vida e a mudou para sempre.
CAPTULO VINTE E NOVE
- A Greta quer que mudemos toda a porcelana para o outro lado da seco - referiu Harriet, penosamente, quando Federica entrou na seco.

- Tens a certeza?  muito trabalho pesado - respondeu Federica. Depois reparou nos crculos em redor dos olhos baos de Harriet. Ests bem?
- Fiquei fechada fora do meu apartamento ontem  noite e acabei s voltas pela rua at de manh.
- Devias ter-me telefonado - disse Federica.
- No tinha o teu nmero comigo, querida. Mas eu estou bem. Protege-me apenas da Greta, por favor. - Suspirou e esboou um pequeno sorriso. - Pelos vistos, o Torquil
vem  loja hoje para fazer mais compras. Entregaram os presentes todos que embrulhmos antes do fim-de-semana, mas ele precisa de mais alguns. No aguento, estou
com um ar horrvel - suspirou Harriet, esfregando os olhos.
- Nunca poderias estar horrvel, Harriet. A Greta pode olhar por ele - argumentou Federica, guardando a mala por baixo do balco. Talvez isso a ponha de bom humor.
- Isso  que era bom - gemeu Harriet.
A meio da manh tinham j mudado toda a porcelana e estavam encostadas ao balco a recuperar foras, quando Mr. Jensen entrou seguido de um grupo de homens de fato
escuro a esfregarem as mos num gesto de deferncia e a dizerem "sim, Mister Jensen, com certeza, Mister Jensen" a tudo o que ele dizia. Harriet e Federica endireitaram-se
de imediato e sorriram educadamente.
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- Aquele  que  Mister Jensen - sussurrou Harriet por entre dentes.
- E achas que eu no percebia logo? - murmurou Federica de volta. - Basta olhar para o grupo de lambe-botas! - O squito deteve -se e olhou em redor, comentando
em voz baixa os produtos e os expositores. - Ainda bem que mudmos a porcelana antes de ele entrar comentou Federica.
- Foi mesmo a tempo - respondeu Harriet. - O homem passava-se se visse a seco toda desarrumada.
Nada escapava aos pequenos olhos de Mr. Jensen. Examinou a seco com um olhar prolongado e escrutinador. Quando os seus olhos repousaram sobre o semblante anglico
de Federica, endireitou-se e sussurrou qualquer coisa ao ouvido de um dos seus assistentes. Nesse momento, Greta emergiu do seu gabinete.
- No vos tinha dito que no se pusessem com conversas durante as horas de trabalho? - disse num tom exasperado, o seu sotaque quase mutilando as palavras.
- bom dia, Greta - cumprimentou Mr. Jensen, aparecendo por trs dela como se de nenhures. - Acho que no nos conhecemos acrescentou, virando-se para Federica. Greta
pestanejou, surpreendida, e enfolou o peito pomposamente.
- Federica Campione - apresentou-se Federica, estendendo a mo.
-  um prazer t-la por c - respondeu Mr. Jensen com um sorriso, observando-a com curiosidade. - Precisamos de rostos alegres como o seu a atender os clientes.
- Soltou um riso abafado e semicerrou os seus pequenos olhos pretos. Os assistentes seguiram-lhe o exemplo.
- Assegure-se de que ela est sempre  vista, Greta.
Greta acenou entusiasticamente com a cabea.
- com certeza, Mister Jensen, sei reconhecer um talento quando o vejo - vangloriou-se.

- ptimo - fungou e depois a sua expresso toldou-se ao ver que a porcelana fora toda mudada de lugar. - Porque  que a seco foi toda mudada? - inquiriu, indignado.
Os assistentes puseram-se muito direitos e cruzaram os braos frente ao peito numa exibio de indignao mtua.
- Oh - arquejou Greta, juntando as mos como se estivesse horrorizada. - Peo muita desculpa. A Federica  nova e no compreendeu
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as minhas instrues - disse sem sequer pestanejar. Federica corou at  raiz do cabelo. Mr. Jensen acenou com a cabea e os assistentes descruzaram os braos.
- Talvez para a prxima no seja m ideia que se faa entender melhor - admoestou ele num tom firme. - Quero tudo como estava acrescentou, estalando os dedos no
ar como se chamasse um empregado de mesa. Depois virou-se e conduziu o squito escada acima at  seco de mobilirio.
- Ouviram o que ele disse! - disse Greta com impacincia e brusquido. - E tu, Harriet, se vieres mais alguma vez trabalhar com esse aspecto, mando-te direitinha
para casa... permanentemente. Entendeste?
- Harriet respondeu que sim com um aceno de cabea. Estava demasiado fatigada para discutir. - ptimo! Agora, despachem-se, antes que ele volte.
Federica ficou boquiaberta a observ-la a desaparecer dentro do gabinete.
- No tenho palavras - comentou.
-  melhor habituares-te, querida, ela faz destas coisas a toda a hora. J me vi em sarilhos tantas vezes por ela ter esta mania de sacudir a responsabilidade dos
seus ombros. Ela esconde-se por trs de ns, mas fica com os crditos todos quando as coisas correm bem, acredita. Muito bem, voltamos  estaca zero. Parvalhona!
- murmurou, retirando as chaves dos expositores da gaveta.
Federica fervia de raiva silenciosamente enquanto andava de um lado para o outro da seco. Harriet estava demasiado cansada para falar, por isso Federica espolinhava-se
sozinha na sua prpria autocomiserao, desejando ter coragem para se impor. Quando um homem alto, vestido de cabedal e com um capacete de mota preto e reluzente,
entrou na loja, ela pressionou o boto B do telefone num acto de provocao e ficou  espera que Nigel Dalby descesse as escadas.
Nigel deslizou escada abaixo com a subtileza de um polcia numa pantomima. Federica cruzou o olhar com o dele e acenou com a cabea na direco do homem que pairava
de forma suspeita junto  porta. Nigel abordou-o, endireitou-se para ganhar um ar mais imponente e pediu-lhe que retirasse o capacete.
- Lamento, mas no permitimos capacetes dentro da loja - explicou com presuno. O homem inclinou a cabea para o lado, divertido,
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antes de retirar as luvas e depois o capacete, sacudindo o seu cabelo negro e revelando ser nem mais nem menos do que Torquil Jensen. Nigel desculpou-se atabalhoadamente
e encolheu-se.

Federica suspirou ao mesmo tempo que empalidecia. Harriet tinha razo, era o homem mais bonito que alguma vez vira. Nigel retirou-se s arrecuas, quase fazendo vnias
 medida que se afastava, e depois correu escada acima para esconder a sua humilhao na privacidade do seu gabinete.
Torquil olhou para Federica com os seus olhos verdes e esboou um sorriso dengoso.
- Ento, a menina  que  a segurana da loja? - comentou ele avanando na direco dela e pousando o capacete no balco. - Eu sou Torquil Jensen. - Estendeu a mo.
Observou-a a corar ao mesmo tempo que examinava as feies dela com o mesmo olhar perscrutador que o seu tio usara antes.
- Federica Campione - apresentou-se ela numa voz rouca.
- Italiana?
- Chilena.
- Um bonito pas - exclamou ele. - Viajei at l quando era jovem. - Depois sorriu para ela descaradamente. - Isto talvez lhe v soar um pouco ridculo, mas estou
to deslumbrado com a sua beleza que me esqueci do que vim c fazer. - Federica fez um esgar de desconforto e sentiu as asas de uma borboleta estremecerem no seu
estmago. -  muito bonita - continuou ele. - Deve ser nova por c. Ningum demonstra assim tanto interesse em ajudar Nigel Dalby. Soltou uma gargalhada, o rosto
enrugando-se em linhas profundas em redor da sua enorme boca e olhos surpreendentemente plidos. - Fez-lhe um favor, ele pensa que  muito mais importante do que
na verdade ; esse tipo de pessoas precisam de ser chamadas  realidade.
- Foi um engano. Peo desculpa - contraps, pensando em Nigel Dalby a curar a sua mortificao sozinho no seu gabinete e sentiu-se culpada. - Ele estava apenas a
cumprir a sua funo - acrescentou em defesa dele.
- E a Federica estava apenas a cumprir a sua - disse ele. - Acabei de comprar uma mota nova, tem de vir dar uma volta um destes dias - acrescentou, acariciando-a
com um olhar intenso. Ela sorriu acanhadamente. Torquil cruzou os braos e inclinou-se sobre o balco. Ela
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recuou ao mesmo tempo que o aroma forte da pele dele e o calor do corpo lhe invadiam os sentidos com uma intimidade demasiado grande.
- Ah, j sei por que vim. Preciso de uma coisa para uma rapariga explicou e depois pensou por um momento, esfregando o queixo hirsuto com a mo. - Uma jovem mais
ou menos da sua idade. Um presente de Natal. De que tipo de coisa gostaria ela?
- Conhece-a bem? - perguntou Federica, tentando soar profissional, apesar da proximidade sufocante dele.
- No muito bem. Mas quero dar-lhe qualquer coisa - disse ele num tom fortuito, sorrindo-lhe.
- E quanto  que quereria gastar?
- O dinheiro no  problema. Se estivesse c h mais tempo saberia disso. Nunca olho para os preos, s servem para atrapalhar. Do que acha que gostaria, por exemplo?

- bom, se no a conhece muito bem, talvez devesse escolher uma coisa bonita, mas no demasiado ntima. Vejamos... - Sugeriu ela, olhando em redor da loja, sentindo
o olhar descarado dele enrubescer-lhe as faces. Viu Harriet escondida atrs dos expositores de vidro que continham a porcelana, a qual tinham acabado de mudar, e
desejou que ela viesse em seu auxlio. Contudo, Harriet sentia-se demasiado feia para se mostrar e encolheu-se ainda mais at j nem Federica a conseguir vislumbrar.
- E que tal um daqueles vasos de porcelana? Podia comprar uma planta e oferec-los em conjunto.
- Voc gostaria de uma planta? - perguntou ele.
- com certeza. Todas as mulheres gostam de plantas.
- Gosto das suas ideias, d-me outra - pediu sem tirar os olhos dela.
-- Um quadro? - sugeriu Federica, olhando para a coleco de quadros na parede.
- No conheo o gosto dela em termos de pintura - disse ele, ponderadamente. - E que tal uma moldura em prata ou algo bonito que ela possa usar?
- Ah, j sei - interrompeu ela, conduzindo-o at um expositor fechado, em vidro, que continha molduras em prata delicadamente trabalhadas. - Esta acabou de chegar,
 chinesa.  to delicada, no ? Se no a conhece muito bem, parece-me o presente perfeito.
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-  uma boa vendedora - elogiou ele, tirando-lhe a moldura das mos. - Se um homem lhe oferecesse isto, ia gostar?
-  claro. Gostaria independentemente de quem ma oferecesse.
- ptimo, ento pode embrulh-la. No foi complicado. Federica comeou a embrulhar a moldura com as mos a tremer,
pois os olhos dele observavam cada movimento seu com um fascnio evidente.
- Quer lev-la agora ou prefere que mande entregar?
- Eu levo agora - respondeu, desarmando-a com outro sorriso largo.
- Vai desejar mais alguma coisa?
- J perdi a disposio. Voltarei uma outra vez e isso tambm me dar oportunidade de a ver de novo - disse em voz sussurrada. Federica procurou freneticamente alguma
coisa para dizer, mas no lhe saiu nada. Ficou muda a olh-lo. Quando ele abandonou a loja deixou um enorme vcuo para o qual Federica ficou a olhar como se estivesse
a ver alguma coisa que mais ningum conseguisse ver. Depois respirou de novo e apercebeu-se que mal se atrevera a respirar todo o tempo que Torquil estivera junto
a si.
O resto do dia decorreu numa deslumbrante nvoa sonmbula. Quando regressou ao apartamento no se conseguia recordar de nada do que acontecera depois de Torquil
Jensen ter partido, mas recordava-se de cada palavra que haviam trocado, como se as tivesse aprendido todas de cor. Enquanto desfrutava de um copo de vinho com Hester
e Molly a campainha tocou. Hester foi abrir e deparou-se com um rapaz das entregas com duas encomendas para Federica. Quando esta viu o tamanho do segundo pacote
comeou a tremer. Era uma grande planta num vaso de porcelana azul e branco, como o que recomendara a Torquil naquela manh.
- Quem  que enviou isto tudo? -- perguntou Hester, espantada.
- Isto vai ficar lindssimo aqui no apartamento - comentou Molly, tirando o vaso das mos de Federica e colocando-o na sala de estar, onde comeou a desembrulh-lo.
- O que h no outro pacote?
- Imagino que seja uma moldura em prata para fotografias - respondeu Federica, estupefacta.
- Como  que sabes? - inquiriu Hester.
347

-? Sei.
- Ento, v - disse Molly com impacincia, lanando a cinza do cigarro para a lareira. - O embrulho no se abre sozinho por ficares a olhar para ele.
Federica abriu o papel com cuidado e retirou a delicada moldura importada da China.
-  deslumbrante - arquejou Hester, observando-a admirada. Repara, tem pssaros cinzelados - acrescentou, passando a mo pela moldura.
-- Isso tambm ficaria muito bem na sala de estar - comentou Molly, apagando o cigarro.
Contudo, Federica segurou a moldura com fora.
- Ponho a fotografia do meu pai aqui - decidiu ela. - Vai para a minha mesa-de-cabeceira.
- Boa ideia - exclamou Hester. - Assim tambm a poderei apreciar.
Federica avanou pelo corredor em direco ao seu quarto e fechou a porta. Conseguia escutar os sussurros de Molly e Hester que se interrogavam sobre quem lhe oferecera
presentes to dispendiosos. Porm, ela ignorou-as e sentou-se na cama para trocar a moldura da fotografia do pai pela nova. Passou carinhosamente o dedo pelo seu
bonito rosto e reparou como Torquil se assemelhava a Ramon. O mesmo cabelo negro, a mesma pele morena e a mesma boca generosa. S os olhos eram diferentes. Os de
Ramon eram negros e misteriosos como o universo, ao passo que os de Torquil eram claros e brilhantes como uma lagoa verde pouco profunda. Colocou a fotografia na
moldura e disps a moldura sobre a mesa-de-cabeceira, depois recostou-se e ficou a admir-la. Foi assim que Hester a encontrou, olhando assombrada para o mundo oculto
do pai.
- No quero incomodar-te - disse ela, despertando a amiga do
seu transe.
- No faz mal, entra. - Federica afastou os olhos da fotografia.
- Quem  ele? - perguntou. - Imagino que seja um "ele" - disse por entre risadinhas.
- Meu Deus, Hester. Havias de o ter visto.  o homem mais belo que alguma vez vi - explicou enfaticamente, recostando-se nas 348
almofadas. -  alto e moreno e tem olhos verdes lindos. Quando ele sorri o meu corao at se contorce. Sinto-me como se tivesse sido atingida por um camio.
- Eu diria antes que por uma das flechas do Cupido - gracejou ela, acomodando-se na sua cama. - Onde  que o conheceste?
-  o sobrinho do dono da Saint John and Smithe. Felizmente, no  baixo e careca como o tio.
- Ento, ele foi l  loja?
- Sim, e eu pensei que fosse um ladro porque entrou de capacete de motociclista, por isso chamei o Nigel Dalby para que viesse control-lo. Foi to embaraoso!
- bom,  bvio que ele no se ofendeu.
- No, at se divertiu. - Sorriu, recordando o momento.
- Divertiu-se muito, estou a ver - comentou Hester, admirando a moldura. - Tambm est embeiado.
- Eu acho que ele est embeiado por muitas mulheres.
- Que idade tem ele?
-  bastante mais velho - respondeu Federica e corou.
- Est bem, mas tem que idade. Cinquenta?

- No, deve ter trinta e muitos.
- Pois,  de facto mais velho - concordou Hester, mas no era capaz de esconder a sua admirao.
- Mas maduro, confiante, estabelecido - contraps Federica e mordeu o lbio com ansiedade.
- Queres dizer, rico e de confiana. Algum que tomar conta de ti e te livrar de todos os problemas com o reluzir de um anel de noivado - riu Hester.
- No, apenas mais adulto do que os rapazes que habitualmente conheo.
- Oh, cus, que emocionante. Nem acredito - comentou Hester, apertando as mos uma na outra.
- Nem eu.
- Que vais fazer?
- No sei. - Federica suspirou e todo o seu corpo estremeceu de emoo. - Acho que no irei conseguir dormir muito esta noite.
- Ah, corao inconstante - disse Hester, levantando-se da cama.
- Que queres dizer com isso?
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- Pensar que estiveste apaixonada pelo Sam - lembrou, sorrindo para a amiga. - Tinha esperanas que ele te transformasse num verdadeiro membro da nossa famlia.
- Ora, Hester - replicou Federica como quem no quer a coisa e abanando a cabea. - Essa paixoneta de infncia h muito que se desvaneceu.
- Seja como for, agora  que terminou com certeza, no? - lamentou. Depois encolheu os ombros num gesto de resignao antes de deixar Federica sozinha com os seus
pensamentos.
No dia seguinte, Federica chegou  loja com as bochechas em chamas, temendo que toda a gente soubesse que Torquil lhe enviara aqueles presentes na noite anterior.
Contudo, Greta convocou uma reunio de seco e presenteou-os a todos com uma preleco irada sobre como deviam comportar-se na loja e que no queria ver ningum
em grupinhos a mexericar quando havia clientes para atender. Ningum reparou nos olhos furtivos de Federica que iam passando de rosto em rosto at se fixarem no
cho, relaxarem e embaciarem, ao mesmo tempo que a sua mente a bombardeava com imagens de Torquil.
Quando as portas se abriram s dez, Federica recebeu um telefonema. Pegou no auscultador com o corao aos pulos.
- bom dia - disse Torquil num tom alegre. - Recebeu os meus presentes?
- Sim - respondeu Federica, tentando soar calma. - No devia t-lo feito.
-  claro que no, mas deu-me imenso prazer - alegou ele, enternecido com o bvio nervosismo dela.
- Obrigada.
- Eu sei que  um pouco precipitado da minha parte, mas no consegui conter-me. Perdoa-me?
Federica riu para ocultar o seu embarao.
-  claro.
- Eu sei que isto tambm lhe vai soar um pouco precipitado, mas permite que a leve a sair esta noite?
- Oh,  que...
- Por favor, no diga que no, quebra-me o corao - suplicou ele.

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- bom...
-  a nica forma de ficar a conhec-la. No vou comear a ir  loja todos os dias, no ?
Federica soltou umas risadinhas.
- Est bem, ser um prazer - concordou, abanando-se com o bloco das ordens de encomenda.
- vou busc-la ao seu apartamento s oito. Planeei uma coisa especial para ns - avanou ele. - Leve qualquer coisa quente.
- Combinado - respondeu, curiosa por saber que surpresa era aquela que exigia que ela vestisse "qualquer coisa quente".
- Vemo-nos ento s oito - despediu-se ele.
Federica desligou o telefone e ps-se a olhar em redor como se o mundo de repente estivesse diferente. E isso assustava-a.
Quando Greta chamou Federica ao seu gabinete, percebeu que ela ficara a saber do telefonema e comeou a desculpar-se, ansiosa por no perder o emprego. Contudo,
Greta silenciou-a com um nico olhar glido.
- Que no volte a acontecer. Sabes que todos os telefonemas so monitorizados nesta empresa.  para teu prprio bem que te aviso.
- Peo desculpa - disse Federica.
- Se queres receber uma chamada pessoal, deves dizer a quem te telefona que o faa durante a hora de almoo e para a sala dos funcionrios. Se for urgente, podem
sempre telefonar para o meu gabinete e eu entrego o recado. Se toda a gente nesta empresa recebesse telefonemas pessoais, ningum trabalharia. Fiz-me entender?
- Sim, Greta.
- ptimo. No quero voltar a ter esta conversa.
Federica receava demasiado indispor Harriet para lhe contar sobre Torquil. Por isso, cumpriu as suas tarefas como normalmente, escondendo as agitaes de um estmago
em rebulio e o bater apressado do corao que lhe dava o dobro da energia de qualquer pessoa. A meio da tarde j mal se conseguia concentrar nas tarefas mais simples
e ficou aliviada quando pde, por fim, acalmar os nervos na gua perfumada de um longo banho de espuma.
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Molly cancelou os planos que fizera com uns amigos da universidade e rondava a janela mais a irm para verem o moreno desconhecido que cortejava a amiga delas.
Federica no tinha nada de encantador para vestir. O seu guarda-roupa era composto por fatos de trabalho discretos. Assim, Molly emprestou-lhe uma camisola de gola
alta creme, de caxemira, para vestir com umas calas de ganga pretas e Hester emprestou-lhe o seu novo casaco de pele de ovelha que comprara na Harvey Nichols. Porm,
quando o reluzente Porsche parou  porta do edifcio e Torquil, irrepreensivelmente vestido com um par de calas pretas de camura, que usava por cima de botas,
emergiu, Molly percebeu que algum teria de orientar Federica.
- Meu Deus, ele  um borracho - exclamou Molly, boquiaberta. Hester correu para o lado da irm.
- Ena, Fede,  mesmo ele? - guinchou de entusiasmo. - Grande sortuda.
Federica estacou junto  porta, tremendo.

- Estou to nervosa que me sinto maldisposta - confessou. No sei o que dizer.
- No sejas ridcula - objectou Molly. -  claro que sabers o que dizer. S porque ele  bonito no significa que seja diferente de qualquer pessoa. Provavelmente
est to nervoso quanto tu.
- Diverte-te, Fede - desejou Hester num tom encorajador. Deixa que ele te entretenha,  o que a minha me costuma sempre dizer.
- Ele  lindo de cair para o lado - suspirou Molly, acendendo um cigarro e desejando t-lo conhecido primeiro. - No sejas  inocente. Ele h-de estar  espera de
uma pessoa sofisticada.
-- Oh, meu Deus, Molly - lamuriou-se Federica. - Ests a deixar-me ainda mais nervosa.
- bom, se ficas aqui muito mais tempo, no tarda ele vai-se embora e a  que fica tudo resolvido - acrescentou Molly num tom autoritrio. - Vai!
Quando Federica desceu os degraus para a rua, o seu plido rosto e olhos ansiosos foram iluminados pela incandescncia dos candeeiros de rua, e Torquil sentiu o
estmago flutuar-lhe dentro da barriga, erguendo-o do cho. Federica avanou para ele com o mesmo sorriso tmido
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que o havia deslumbrado no dia anterior. Cumprimentou-a com um beijo e sentiu o doce aroma do ylangylang que ela deitara na gua do banho.
- Ests linda - elogiou ele e reparou com agrado que ela corou. Depois abriu-lhe a porta do carro e ficou a v-la acomodar-se no banco de pele. Ao fechar a porta
e rodear o carro em direco ao lugar do condutor, olhou de relance para a janela do apartamento e viu os rostos de Molly e Hester pressionados contra o vidro e
acenou. Para seu divertimento os dois rostos desapareceram como um par de aparies.
- Ainda bem que vestiste uma coisa quente - disse ele, rodando a chave e colocando o carro em movimento.
- Onde  que vamos? - perguntou ela.
- Surpresa - respondeu ele e Federica viu-o sorrir de satisfao.
- Gostas de surpresas, no ? - comentou ela.
- Desde que seja eu a surpreender. Nunca penses sequer em surpreender-me a mim. No irei gostar.
- No me esquecerei disso.
Conduziu ao longo da margem do rio em direco a Parliament Square. Estava uma noite fria e seca. O cu brilhava por cima do claro brumoso de uma cidade que nunca
escurecia, e a lua flutuava sobre a superfcie do Tamisa como o fantasma de um barco naufragado. Federica no poderia ter esperado uma noite mais romntica. Abriu
o vidro e permitiu que o ar fresco lhe dissipasse o nervosismo. Torquil estacionou o carro e tirou um cesto de verga e uma manta da bagageira do carro.
- Para que  isso? - inquiriu ela, divertida.
- Faz parte da surpresa - disse ele, erguendo uma sobrancelha. Segue-me e descobrirs.

Federica seguiu-o at uma abertura na muralha junto ao rio e desceu os hmidos degraus em direco a um bonito barco encarnado que balouava na corrente. Um velho
comandante esperava com a mesma pacincia filosfica dos homens do mar com os quais Federica crescera em Polperro, por isso sentiu uma pontada de nostalgia. O homem
acenou-lhe com a cabea sem sorrir e estendeu a sua spera mo para a ajudar a subir ao convs. Ela aceitou a ajuda e entrou no barco. Torquil trepou para a proa
e estendeu a manta no cho.
- E pronto, podes avanar, vamos dar um grande passeio - declarou ele, observando-a a sorrir de prazer. Deu-lhe a mo para a equilibrar.
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- Aqui  muito mais divertido. Podemos ver para onde nos dirigimos, para comear - acrescentou, deslocando o cesto de piquenique.
- No acredito que organizaste isto para mim - exclamou ela, sentando-se na manta.
-- Quero impressionar-te - respondeu ele com sinceridade. Muito bem, Jack, estamos prontos para partir - gritou para o comandante que acenou com a cabea e desapareceu
na cabina. O motor rugiu antes de se apaziguar num chocalhar suave e avanarem pelo enluarado Tamisa.
Torquil acomodou-se ao lado dela e abriu o cesto.
- Comecemos com uma taa de champanhe - sugeriu, estendendo-lhe um copo de cristal. - J alguma vez tinhas viajado no Tamisa?
- No, s na margem - respondeu ela.
- ptimo. Fico contente que seja uma estreia - disse ele, servindo-lhe champanhe.
- Est uma noite to deslumbrante. Tambm foste tu que a organizaste?
- Fiz o melhor que pude.
- E fizeste muito bem.
- Fiz bem em encontrar-te - comentou ele, ternamente, encostando o seu copo ao dela. - A ns.
Federica provou o champanhe e engoliu as suas reservas.
- Soube que conheceste o meu tio - disse ele, arqueando uma sobrancelha.
- Sim - retorquiu Federica com cuidado, no desejando comentar o horrvel homem que percorrera a loja com uma empolada presuno ao mesmo tempo desnecessria e absurda.
- Ele gostou de ti.
- A srio?
- Ele tem muito bom gosto e  perceptivo no que diz respeito a pessoas.  uma qualidade que corre na famlia. - Depois contemplou-a com um olhar arrebatador, admirando
a sua falta de sofisticao.
- s demasiado inocente para teres sido criada em Londres. Cresceste no Chile?
- S at aos sete anos, depois mudmo-nos para a Cornualha.
- Do sublime para o ridculo - gracejou ele. -  por isso que s diferente. Um pouco latina, um pouco inglesa. Uma espcie de mestia
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- brincou ele. - Gosto disso - acrescentou, esvaziando o copo. No sou mestio. Espero que gostes de ingleses de sangue puro.
-  claro que gosto de ingleses. No conheo muitos homens latinos. Deixei o Chile ainda jovem - explicou.
- E agora s velha - comentou ele com um sorriso. - Eu arriscaria adivinhar que tens dezoito anos - conjecturou ele, tirando a garrafa do cesto e voltando a servir
o champanhe.
- Adivinhaste - disse ela, surpreendida. - Sabes tudo?

- Como disse, sou um tipo perceptivo - replicou ele, afectando um sotaque londrino.
Federica riu.
- Nesse caso, suponho que tenhas cerca de trinta e cinco anos presumiu ela e levou a taa de champanhe aos lbios.
- Errado, receio ser bem mais velho que isso. Tenho trinta e oito. Demasiado velho para ti.
Federica sentiu o corao a cair-lhe aos ps de desiluso. Interrogou-se sobre o que quereria ele dizer com aquilo e porque a convidara sequer para sair se achava
mesmo que era demasiado velho para si.
- Vamos comer qualquer coisa - sugeriu ele, dispondo uns pratos com tostas, foisgras e caviar.
O barco deslizava lentamente pelo Tamisa, passando sob pontes que lanavam ominosas sombras sobre a gua, pela Torre de Londres e prosseguindo em direco  escurido.
'Desfrutaram do piquenique e abriram outra garrafa de champanhe.
- Fui criado pelo meu pai e por uma madrasta. A minha me morreu quando eu era menino - declarou Torquil, fortuitamente.
- Lamento - disse Federica, entendendo bem a sua perda. Embora o seu pai no tivesse morrido, poucos sinais de vida dera nos ltimos dez anos.
- Oh, eu era demasiado pequeno para compreender e depois o meu pai casou com a Cynthia. Foi uma boa me para mim. Ela no podia ter filhos, por isso amava-me como
se fosse seu. Sendo filho nico, fui estragado com mimos toda a minha vida - referiu com uma risada, no mencionando, porm, que o amor de Cynthia era por vezes
claustrofbico e o do pai autoritrio.
- Suponho que o mimo ter sido merecido. Deves ter sofrido muito - argumentou ela e apertou-lhe o brao compassivamente.
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Ele franziu as sobrancelhas para ela.
- Tu tambm sofreste, no foi? - perguntou num tom gentil, inclinando a cabea para um dos lados. - Queres falar sobre isso?
Federica deu por si a franquear-lhe a entrada na sua vida. A sua lngua soltou-se com o lcool e a beleza da paisagem circundante, permitindo que toda a dor se escapasse
sem censura. No o planeara, mas havia qualquer coisa nos olhos e no sorriso dele que a atraam. Ele parecia ver atravs dela, derrubando as suas defesas com cada
olhar penetrante e compreendendo o que vislumbrava.
- Oh, minha pobre querida - disse ao reparar que ela comeara a tremer e colocando um brao em redor dos ombros dela. - Precisas de algum que cuide de ti. Eu cresci
com amor a mais, tu cresceste com amor a menos.
- Nada disso - contraps ela, tentando desvanecer a sensao de leveza na cabea. - Fui muito afortunada.
- No te enganes, minha querida, toda a gente precisa de uma me e de um pai. Se tiveres a sorte que eu tive de ter um progenitor substituto maravilhoso, isso pode
compensar, sob muitos aspectos, a perda de um progenitor natural. Mas o Arthur no chega obviamente aos calcanhares do teu pai.
- No chega nem de longe! - exclamou ela com ardor. - No o suporto.

- bom, ia sendo tempo de teres algum que pensasse em ti para variar. A tua me no pensou em ti quando deixou o Chile, pois no? O teu pai tambm no te colocou
em primeiro lugar. Precisas de algum que te ponha em primeiro lugar. - Puxou de uma manta e envolveu-a nela. Federica sentiu-se de repente emocionada, mas no sabia
se era devido ao facto de estar a falar sobre o pai ou porque Torquil dissera que era demasiado velho para si. Queria dizer-lhe que no era demasiado velho, mas
no teve coragem. Silenciosamente, abriu-lhe o seu corao e esperou que ele reparasse.
- No estejas triste - sussurrou ele, observando os olhos dela tremeluzirem como a gua do Tamisa.
Ela abanou a cabea.
- No estou triste - respondeu e sorriu melancolicamente. - Estou muito contente. Estou contente por estar aqui a partilhar desta magnfica
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noite contigo. Foste muito gentil em ouvir-me. No fiques com a ideia errada. Tive uma infncia maravilhosa e fui muito feliz. Algumas pessoas, como tu, sofrem a
perda de um pai ou me, por vezes de uma famlia inteira. Eu, na verdade, no tenho nada de que me queixar. O meu pai no est morto, pois no?
- No, morto no est, apenas desmemoriado - disse, apertando-a. - vou fazer-te muito feliz - declarou. Ergueu-lhe o queixo com a mo e com o dedo secou-lhe as lgrimas.
- Agora j te encontrei - reconfortou-a antes de lhe beijar os lbios salgados. Ela reagiu com avidez,  medida que o rosto spero dele lhe arranhava a pele e os
seus lbios molhados afastavam os dela para assim penetrar na inocncia dela e reclam-la para si. Nesses momentos de intimidade, Federica esqueceu os beijos ternos
de Sam porque encontrara, por fim, um homem que prometia am-la e proteg-la e apagar as cicatrizes do abandono.
CAPITULO TRINTA
- A Fede est apaixonada - disse Hester  me, que estava junto ao tronco da rvore de Natal a orientar Sam com vagos e flcidos acenos de mo.
- No, querido, um bocadinho mais para a esquerda. Isso mesmo
- dizia ela. - Agora deixa ver se o Angus voa l para dentro.
Sam desceu do escadote e olhou para o ninho que prendera firmemente ao ramo mais alto da rvore.
- Apaixonada por quem? - inquiriu ele, dobrando o escadote.
- Ele  lindo de morrer - comentou Hester. -  moreno e tem os olhos verdes mais plidos que alguma vez vi. Est sempre a mandar-lhe presentes. Sabias, me, que
a levou a Paris s por um dia e lhe comprou sacos e sacos de roupa? No vais reconhec-la agora. Est to sofisticada!
Sam tombou pesadamente no sof, esticando as pernas  sua frente e colocando as mos por trs da cabea.
- E pensar que ela esteve outrora apaixonada por ti - acrescentou Hester com um esgar.
- No esteve nada - respondeu Sam num tom agressivo. - Pelo menos desde que era criana.
- Onde est o Angus. ANGUS!- gritou Ingrid, olhando em redor da sala. - Ainda h pouco aqui estava - queixou-se, os dedos agitados brincando com o monculo que pendia
entre os seus generosos seios.
- Provavelmente voou l para fora - aventou Sam, meio irritado.

- com este frio, duvido - contraps Ingrid, avanando para o vestbulo com os panos do seu vestido tnico ondeando atrs de si como as velas de um navio. - Molly,
viste o Angus? - perguntou, quando Molly passou por si a caminho da sala de estar.
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Sim, est na biblioteca com o Nuno. Est a tentar ensin-lo a ler. - Suspirou e revirou os olhos. - Por amor de Deus, o bicho  uma pomba, no um papagaio!
- Conta l, Mol, como  o novo namorado da Federica? - inquiriu Sam, recuperando das brumas da sua memria a inocente noite que partilhara com ela no celeiro e o
pequeno passeio ao pr do Sol.
-  simptico - referiu Molly, sentando-se ao lado do irmo. rvore magnfica! - exclamou ela. - Mas no me parece que o Angus v gostar muito de ficar ali,  mais
feliz no quarto de vestir do pai.
- S isso? Simptico? - persistiu Sam com curiosidade, questionando-se porque se sentia contrariado.
- bom - comeou Molly, afastando o seu cabelo ruivo da cara.  lindo e encantador, mas... - Fez uma pausa, tentando colocar os seus pensamentos por palavras. - ,
digamos, demasiado bom para ser verdade - disse ela num tom decidido. - A Fede est maravilhosa. S te digo, Sam, no a vais reconhecer.
- Est deslumbrante, de facto - concordou Mester.
Molly detestava falar sobre Federica e Torquil. Cada vez que os via juntos sentia uma torturante inveja e odiava-se por isso.
- Ela est feliz? - perguntou Sam com um certo ressentimento.
- Est apaixonada - disse Molly num tom severo.
- Sim, est feliz - respondeu Hester. - Nunca a vi to feliz. Ele d-lhe imensa ateno. Telefona-lhe a toda a hora, leva-a a sair. Ela est a desabrochar.
- Ele mais parece pai dela - declarou Molly.
- Pai dela? - exclamou Sam, espantado. - Mas que idade tem ele?
- Trinta e oito - disse Molly, erguendo as sobrancelhas para o irmo a indicar o seu desacordo.
- Que raio anda ela a fazer com uma pessoa to velha? - retorquiu Sam, iradamente. - Tem mais vinte anos que ela!
- A idade no importa se as pessoas se amam - argumentou Hester.
- Importa sim - entreps Sam. - A Federica  impressionvel.
- E onde  que est a diferena? Ela ser impressionvel com quem quer que namore - disse Hester.
- No gosto nem um pouco disso - concluiu Sam, tirando os culos e massajando a cana do nariz entre o polegar e o indicador.
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- bom, podes dizer-lho pessoalmente, ela vem c a casa hoje  noite - sugeriu Molly. - Mas no traz o Torquil - acrescentou desapontada.

Sam caminhou pelas falsias com Trotsky e Amadeus, o novo cocker spaniel. Observando as ondas a pelejar com as rochas l em baixo, cobrindo-as de espuma antes de
recuarem para ganharem impulso para nova investida. Protegeu-se contra o vento glido, apertando mais o casaco e encurvando os ombros num esforo para se manter
quente. Trotsky avanava por trs das suas pernas, usando-o como escudo contra o vento, ao passo que Amadeus corria por todo o lado numa nsia de farejar tudo. Pensou
em Federica de mau humor, incapaz de compreender porque o assunto o incomodara. O beijo no celeiro fora um momento encantador de prazer inocente. No significara
nada mais que isso: um beijo numa noite chuvosa. No planeara beij-la, acontecera. Depois ficara a sentir-se culpado por se ter aproveitado dela. Era to bvio
que ela o adorava! Depois oferecera-se impulsivamente para a levar a casa do tio, num dia de Outono, e haviam partilhado aquele celestial e ureo entardecer. Tivera
vontade de a beijar naquela colina voltada para o mar. Fora o momento mais romntico da vida dele. Aquele cu, aquela tonalidade, aqueles aromas e Federica com um
ar inocente e etreo. No era capaz de admitir o seu desejo, nem para si mesmo. Ela era muito mais nova que ele. Podia ter quem quisesse, mas Fede era demasiado
jovem. Mergulhou as mos nos bolsos e suspirou. Sentira-se culpado por a desejar, por isso evitara-a mais uma vez. Uma forma cobarde de lidar com os problemas, mas
era a nica coisa que podia fazer. Arranjara forma de se convencer que no sentia fosse o que fosse por ela. Porm, agora Federica estava apaixonada por outra pessoa.
No estava habituado a no ser o alvo das atenes dela. Esperava que esta relao no durasse. Os relacionamentos precipitados frequentemente no resultavam.
- Este Torquil Jensen no me soa desconhecido - fez notar Toby enquanto conduzia at  manso dos Appleby.
- No o devem conhecer - respondeu Federica do banco de trs.
- Conhecemo-lo - insistiu Julian, abanando a cabea. - S no me recordo  em que ocasio.
- Ele  um bocadinho velho para ti, Fede.
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-  mais velho, mas no demasiado velho - argumentou Federica, alegremente. - O amor atinge-nos independentemente da idade. E ns amamo-nos um ao outro.
- Por favor, diz-me que ele ainda no te desflorou, querida! - pediu Julian num tom ansioso. - Mato-te, se ele te tocou com um dedo sequer.
Federica soltou uma gargalhada.
- No, ainda no - respondeu, divertida, estremecendo de emoo com a ideia de fazer amor com Torquil pela primeira vez.
- Graas a Deus! - suspirou Julian.
- No deixes que ele te instigue a fazer o que quer que seja que tu no queiras. Ele  um homem experiente, mas tu s uma criana.
- Querido Toby, j no sou uma criana - argumentou ela. - Tenho dezoito anos.
- To adulta - respondeu Toby, sarcasticamente.
- No faas nada de que te arrependas. Ters muitos namorados antes de encontrares a pessoa certa - fez notar Julian. - E ns queremos examin-los a todos.
- Podem conhecer o Torquil quando quiserem - disse ela, inclinando-se para a frente entre os dois bancos. - Vo ador-lo.  lindo, engraado, sofisticado, encantador...
- Deve ter alguns defeitos - contraps Toby. - Todos temos.
- O Torquil no - suspirou ela, sonhadoramente. -  perfeito. Toby e Julian trocaram um olhar, mas no era o momento certo para partilharem a sua opinio.

Quando Federica entrou na sala de estar de Pickthistle Manor, onde a sua me, Arthur e Hal estavam j a celebrar a vspera de Natal com copos de champanhe e a admirar
a linda pomba branca aninhada no cimo da rvore a observ-los, Sam sentiu-se como se algum o tivesse acabado de esmurrar no estmago. Ela estava radiante num par
de calas de cabedal pretas e camisola de caxemira azul-clara que se colava  sua elegante figura, o decote em V realando o volume dos seios. Os seus compridos
e louros cabelos reluziam e pendiam-lhe pelos ombros, salientando o tom de pele do rosto e dos olhos. Abraou Hester e Molly e deteve-se um pouco junto  porta a
conversar animadamente. Sam sentiu um n na garganta e bebeu um longo gole de champanhe num
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esforo para o desatar. Observava-a sem tirar os olhos dela. Molly e Hester tinham razo, ela parecia diferente. Parecia feliz. Nuno foi o primeiro a mencionar a
transformao.
- Cara mia - comentou num tom de aprovao. - O patinho feio transformou-se num cisne.
- Pai, ela nunca foi um patinho feio - disse Ingrid em defesa de Federica. Levou a boquilha aos lbios escarlates e, exasperada, deu uma passa no cigarro, como costumava
fazer sempre que os comentrios do pai eram imprprios.
- Em comparao com o cisne, minha querida, era um patinho feio - ripostou num tom firme, sorrindo para Federica.
- Obrigada, Nuno - riu ela. Depois os seus olhos tombaram sobre o rosto torturado de Sam, que continuava a observ-la do sof. Ela devolveu-lhe o olhar com um sorriso,
mas ele no retribuiu o sorriso. Virou-se para Toby, sentado a seu lado, como se estivesse envergonhado por ter sido apanhado a olhar para ela.
-  a nova vida londrina - aventou Helena. - O Hal, porm, h-de ir para a universidade - acrescentou, tentando desesperadamente atrair o filho para longe do seu
enfado com elogios. Porm, Hal lanou um olhar mal-humorado  me. Sabia que nunca entraria numa universidade e no tinha sequer desejo de ir. Apenas viera a esta
festa porque ela lhe suplicara que viesse. No gostava muito de Lucien, era demasiado inteligente, tal como o irmo, Sam, de quem tambm no gostava. Ambos o faziam
sentir-se inadequado. Olhou para a irm junto  porta e ressentiu-se da ateno de que estava a ser alvo; no estava habituado a que as luzes da ribalta incidissem
sobre ela. Porm, quando a irm se sentou ao lado dele, a sua amargura apaziguou-se e permitiu que ela o animasse.
- Como vo as aulas? - perguntou ela. Hal abanou o cabelo negro que lhe pendia sobre a testa e olhou para a irm com os olhos castanho-escuros do pai.
- Vo bem - respondeu impassivelmente.
- Sentes-te frustrado l, no ? - disse ela num tom compreensivo.
- Quero deixar a escola o mais cedo possvel.
- E a universidade no est na tua lista de opes - acrescentou Federica, reparando no trejeito rebelde da boca do irmo quando este sorriu.
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- No - respondeu ele, olhando para Helena do outro lado da sala.

- No te preocupes. No ters de ir. Podes fazer o que quiseres. Vem para Londres. Ias adorar - garantiu ela, entusiasticamente.
- Assim que acabar os estudos, pisgo-me daqui. Estou farto da Cornualha - confessou, franzindo o sobrolho. - Estou farto de viver com a me e com o Arthur.  claustrofbico.
Preciso do meu espao. No preciso de ningum a controlar-me a toda a hora.
- J no ser por muito mais tempo - encorajou Federica. - Depois sers livre.
Mais uma vez, cruzou inadvertidamente o seu olhar com o de Sam. Este levantou-se com a desculpa de ir buscar outra garrafa de champanhe  cozinha e desapareceu da
sala. Federica deixou Hal com a sua autocomiserao e seguiu-o.
- Ol, Sam - cumprimentou, encontrando-o sozinho a fazer festas aos ces. Ele olhou-a surpreendido e esboou um pequeno sorriso.
- Ol, Federica - respondeu num tom fortuito. - Como ests?
- Estou bem. Tens alguma coisa menos forte?
- Forte?
- Para beber.
- Ah, sim - respondeu, sentindo-se palerma. - Limonada, Coca-Cola, sumo de laranja?
- Pode ser sumo de laranja. Obrigada.
Sam abriu o frigorfico e retirou um jarro de sumo de laranja natural. Serviu-lhe um copo com a mo pouco firme e interrogou-se por que motivo, tendo em conta que
a conhecia h mais de dez anos, tinha ela de repente o poder de o deixar nervoso.
- Deduzo que estejas a gostar de Londres - comentou, esforando-se por continuar a conversa com o objectivo de a manter na cozinha.
Federica reparou que ele estava a comear a perder o cabelo. J no era louro, mas mais escuro, e cortado muito curto. Parecia mais velho e menos polido que dantes.
Sam pestanejou para ela e estendeu-lhe o copo.
- Estou a gostar muito - respondeu ela, encostando-se  bancada.
- A Molly e a Hester contaram-me que tens um namorado novo disse Sam, tentando parecer que estava feliz por ela, mas em vo, pois
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apenas conseguiu fingir um pequeno e desastrado sorriso que parecia no se lhe descolar do rosto.
Federica mal conseguiu conter a sua excitao. Quando falou sobre Torquil, os seus olhos tremeluziram e o seu rosto iluminou-se. Sam sentiu uma pontada de ressentimento.
- Sim. Ele  maravilhoso - contou sorrindo de orelha a orelha. A Molly e a Hester j o conheceram.
- E que faz ele?
- Lida com propriedades - respondeu ela. - Tem uma empresa prpria.
Sam ergueu as sobrancelhas, impressionado.
- ptimo. Gostaria muito de o conhecer - mentiu.
- Nunca mais te vi - fez ela notar, abanando a cabea com pesar. - Engraado, vivemos todos na mesma cidade e, no entanto, tu nem sequer apareces pelo apartamento
para visitar as tuas irms.
- Eu sei - suspirou ele, desejando t-las visitado mais vezes. Movemo-nos em mundos diferentes.

- O tempo passa to depressa, no ? - comentou ela. - Nunca esquecerei o dia em que me salvaste do lago.
- Ou a noite em que te beijei no celeiro - acrescentou Sam, olhando-a fixamente, interrogando-se por que carga dgua mencionara tal coisa.
As faces de Federica ruborizaram-se de embarao.
-  verdade - respondeu ela, secamente, tentando disfarar. Parece que foi h uma eternidade.
- Foi o teu primeiro beijo - referiu ele, olhando-a com ateno.
- Mas no o ltimo - retaliou ela com audcia. Sam baixou os olhos, recordando-se do tal Torquil e contemplando o fundo do copo.
- Foi bonito da tua parte teres-me iniciado no mundo dos romances amorosos, Sam. Devia agradecer-te - acrescentou Federica ainda num tom frio, lembrando-se do sofrimento
que a indiferena dele lhe causara e querendo castig-lo por isso. -  melhor voltar para a sala de estar. Ainda comeam a interrogar-se que estaremos ns aqui a
fazer. Afinal de contas, no foi assim h tanto tempo que tive uma paixoneta por ti. Riu de forma irreverente. - Mas, no final, acabamos por crescer, no  assim?
- concluiu antes de deixar Sam sozinho a remoer as palavras dela.
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Contudo, Federica no foi para a sala de estar. Enfiou-se na casa de banho e trancou a porta. Sentou-se na tampa da sanita e esperou que a sua pulsao abrandasse
e que o rubor nas faces desaparecesse. J no tinha medo de Sam, mas ele magoara-a e no era capaz de lhe perdoar por isso. Ele brincara com os seus sentimentos
por pura diverso e depois largara-a quando a diverso se esgotou. J no estava apaixonada por ele. Pouco mais sentia do que o encantador resplendor de um primeiro
amor inocente. Porm, reconhecia nos olhos dele um reflexo de desapontamento. Pressentia que o seu novo relacionamento com Torquil o enfurecia e isso dava-lhe algum
prazer. Era tarde de mais para Sam. Ela agora pertencia a outro. Sam perdera o seu momento e ela esperava que ele vivesse para o lamentar.
Federica em breve esqueceu o seu breve confronto com Sam. Regressou a Londres, depois do Natal, e para os arrebatadores braos de Torquil. Quando ele lhe disse que
ia lev-la a esquiar  Sua num fim-de-semana prolongado, s eles os dois, percebeu que ele queria fazer amor com ela e marcou s pressas uma consulta no mdico.

Federica pensava frequentemente em sexo. Quando ele a beijava, ansiava por que as mos dele explorassem o seu corpo e o descobrissem tal como ela o explorara e descobrira
em criana. Desejava-o acima de tudo, mas precisava de ter a certeza de que no era uma relao fugaz. O seu maior receio era entregar-se-lhe de alma e corao para
depois o ver sair da sua vida, deixando-a humilhada e despedaada. Tinha de confiar nele primeiro. Porm, aos poucos, Torquil conquistou a confiana dela. Estava
sempre presente e disponvel quando precisava dele. Telefonava-lhe quando dizia que o faria, nunca se atrasava quando a ia buscar para sarem, era um homem de palavra
e, mais importante ainda, colocara-a no centro do seu mundo. Quando aceitou o convite dele para ficar no chal do pai dele na Sua, f-lo com a inteno de o deixar
entrar por completo na sua vida.
O chal de Torquil ficava no sop da montanha, rodeado por enormes abetos e com uma vista deslumbrante sobre o vale. Na varanda nevada, observavam as estrelas tremeluzir
no negro e cristalino cu nocturno. Uma Lua fogosa iluminava as montanhas com uma luz quase fosforescente, permitindo-lhes vislumbrar pormenores como se fosse de
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dia. Torquil pegou-lhe na mo e conduziu-a ao quarto, onde um intenso fogo ardia na lareira, combatendo o frio da montanha que entrava pela janela aberta. Ento,
ele segurou-lhe o rosto entre as mos e beijou-a ternamente na boca.
- Quero que recordes este momento para sempre - murmurou.
- Recordarei.
- Quero que signifique tanto para ti como representa para mim acrescentou ele. Demasiado comovida para responder, abandonou-se aos seus sentidos, desfrutando do
prazer das carcias e da sensao da boca dele, quente e hmida, na sua. Estremeceu ao mesmo tempo que as mos dele lhe puxavam a camisa para fora das calas e avanavam
pelo seu corpo, sentindo a suave inocncia da pele dela. Estava enternecido porque sabia que estava a desprender as ptalas de uma flor por colher, dando-lhe a conhecer
o amor fsico pela primeira vez. Tacteou-lhe os pequenos seios, tocando nos mamilos, que se intumesceram. Despiu-lhe a camisa e observou a tremeluzente luz das chamas
banhar-lhe o corpo. Depois, desabotoou-lhe as calas e puxou-lhas para baixo, deixando-a de cuecas e a sorrir timidamente.
- s linda - sussurrou com admirao, delineando com o olhar cada curva do corpo dela. Por um momento, ela debateu-se com o embarao que sentia, consciente da sua
vulnerabilidade e insegura sobre o que devia fazer. Porm, ele pareceu pressentir a timidez dela e, tomando-lhe as mos nas suas, beijou-as antes de as conduzir
at aos botes da camisa e das calas. No tardou que ficasse nu e orgulhoso diante dela. Puxou-a contra si e enterrou o rosto no seu pescoo. Depois afagou-lhe
a parte interior das coxas, subindo at se deparar com o tecido das cuecas. Federica quase perdeu a fora nas pernas, mas ele no a conduziu para a cama, insistindo
para que ficasse em p enquanto os seus dedos deslizavam at onde o desejo dela jazia quente e sem disfarces. Ela arquejou ao sentir os dedos geis dele, as suas
faces ganharam cor e as pestanas estremeceram de prazer. Ento, depois de ela se entregar quele toque cadenciado, flutuando nas deliciosas ondas de um mar inexplorado,
ele tomou-a nos braos e levou-a para a cama, onde lhe foi permitido ceder ao tremor das pernas e estender-se, aturdida e sem acanhamento, para que ele lhe cobrisse
o corpo de beijos e a explorasse com a lngua. Por fim, gentilmente, penetrou nela para a possuir por completo.
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Torquil recostou-se e acendeu um cigarro.
- Nunca te vi fumar - disse ela, aninhando-se nele.
- S depois de fazer amor - explicou ele, inalando a nicotina. E apenas da melhor qualidade.
- Foi maravilhoso, Torquil - disse ela e corou ao recordar o seu despudor.
Ele puxou-a para si com o brao e beijou-a na testa hmida.
- Tu foste maravilhosa - argumentou num tom enftico.

- Tambm tu - respondeu ela e riu.
- Isto  apenas o comeo. Quero levar-te na aventura de uma vida - disse ele, e depois olhou-a fixamente com os seus plidos olhos verdes. - Mais uma vez, eu sei
que posso parecer apressado, mas sei o que quero. - Federica pestanejava desconcertada. - Quero casar contigo, Fede.
Federica sentou-se como se tivesse uma mola.
- S me conheces h uns meses - protestou alarmada, interrogando-se que milagre fizera com que ele a amasse assim.
- Mas tu amas-me, no amas? - perguntou, franzindo a testa.
- Sim, amo - respondeu ela. - Mas o casamento  para o resto da vida.
- E eu vou amar-te para o resto da vida - insistiu ele, puxando-a para a abraar de novo. - Casa comigo, Fede, e faz de mim o homem mais feliz do mundo. Eu sei que
sou mais velho que tu, mas a questo  essa mesma. Sei melhor o que quero e sei o que  melhor para ti - argumentou, beijando-a de novo. - Precisas de algum que
olhe por ti e te proteja e  isso que eu vou fazer. Cuidar de ti e proteger-te. No precisars nunca mais de te preocupar com o que quer que seja. O amor tudo cura.
- Sim, cura - concordou ela, sorrindo ao aperceber-se da intensidade da emoo que sentia. - Amo-te muito. Estou apenas receosa. Suspirou. - Vi o casamento dos meus
pais desmoronar-se. No quero que isso me acontea.
- No acontecer, prometo. Nunca mais sentirs quaisquer receios - reconfortou-a ele. - Se casares comigo, sers feliz para sempre, prometo.
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- bom, se tens a certeza que me queres, ento, sim, aceito casar contigo - afirmou e riu alegremente. - Mistress Torquil Jensen. Diria que me parece muito bem.
- No to bem quanto o anel que te vou comprar - disse ele e abraou-a com tanta fora que ela mal conseguia respirar.
Torquil pressionou os lbios contra a testa dela antes de dar mais uma passa no cigarro. Sentia-se to afortunado por ter encontrado Federica! O destino fora gentil
consigo. Ela era perfeita sob todos os aspectos. Depois do rol de raparigas mundanas e citadinas, a inocncia dela encantava-o. A simplicidade dela investia-o de
poder, e a sua beleza e graciosidade deslumbravam-no. com Federica sentia que algum precisava de si e sentia-se adorado. Consciente de que ela estava a desfrutar
do amor fsico pela primeira vez, sentia-se enternecido e honrado por ela o ter escolhido - uma emoo que era nova para si. Era o heri dela. Federica admirava-o
e respeitava-o e confiava nele a ponto de permitir que tomasse decises e assumisse o controlo. Tendo vivido toda a sua vida de acordo com as meticulosas coordenadas
estabelecidas pelo pai, estava por fim a afirmar a sua independncia. O pai no iria gostar desta deciso. Fora sempre a presena dominante na vida do filho. Como
a extensa sombra de um enorme carvalho, a fora da sua personalidade sempre lhe parecera inescapvel. Porm, nos ltimos anos, Torquil crescera e afastara-se da
sombra do pai. Cada passo para fora da sombra, por mais minsculo que fosse, era encarado como uma vitria. Agora estava a dar outro passo, maior. Federica fora
escolha sua. Ningum podia controlar o seu corao.

Quando Federica regressou a Londres telefonou  me a dar-lhe a notcia.
- Me, vou casar - declarou. Helena sentou-se.
- Vais-te casar! - exclamou, horrorizada. - com o Torquil?
- Pois, com quem mais haveria de ser? - respondeu Federica e soltou uma gargalhada.
- Mas eu nem sequer o conheo - protestou Helena.
- Vais conhecer. Vamos a este fim-de-semana.
- Querida, no achas isto tudo um pouco precipitado? S o conheces h poucos meses.
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-  o que eu quero - afirmou ela num tom decidido.
Helena ficou em silncio por um momento. Recordou-se do seu prprio casamento apressado com Ramon e estremeceu.
- S tens dezoito anos. s uma criana.
- No, sou uma mulher - retorquiu Federica, enfaticamente, e sorriu para si mesma.
-J contaste a novidade ao Toby?
- Ainda no - respondeu. - Queria contar-te primeiro.
- bom, telefona ao Toby - sugeriu a me. - Acho tudo isto muito repentino. No conheo o rapaz, por isso no sei o que dizer. Porque no fazem um longo noivado para
terem mais tempo para se conhecerem melhor um ao outro?
- O Torquil quer casar imediatamente.
- A srio?
- Sim.  muito impulsivo. Mam, ns amamo-nos - insistiu.
- O teu pai e eu tambm nos amvamos.
- Isto no tem nada a ver contigo e com o pai. Trata-se de mim e do Torquil e somos duas pessoas completamente diferentes. Ambos sabemos o que queremos.
Helena suspirou. Como se Federica tivesse idade suficiente para saber o que queria!
Quando Toby tomou conhecimento da notcia ficou devastado e furioso.
- O Julian e eu vamos a Londres de imediato para conversar com ela - disse a Helena. - Apanhamos um comboio amanh de manh. Eu sei que j vi este Torquil antes,
e o Julian tambm, e embora no nos recordemos onde,  certo que nos deixou um gosto amargo na boca.
- Tenta incutir-lhe alguma sensatez, Toby, ela perdeu o juzo.
- A Fede no casar com ele, no te preocupes - garantiu Toby.
- Ela est decidida.
- Bem sei. Mas d-me ouvidos.
- Graas a Deus, porque a mim  que j no d ouvidos - respondeu na defensiva, recordando, com um resduo de amargura, que a filha sempre escutara o pai. - Onde
 que vo encontrar-se com ela? No estar a trabalhar?
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- No. O Torquil f-la deixar o emprego. Agora estiola na casa dele em The Little Boltons.
- Que fino - comentou Helena, secamente.
- Muito - concordou Toby. - Vamos directos para l.

A notcia espalhou-se depressa. Polly ficou aterrada e derrubou acidentalmente um dos barcos miniatura de Jake, que se desfez em centenas de pequenos pedaos no
cho. Quando ele regressou a casa do trabalho, ao fim do dia, e se deparou com a sua querida criao arruinada, a boca crispou-se de frustrao at se dar conta
do olhar pesaroso da mulher, pois os olhos de Polly tendiam a pender como os de um co quando estava infeliz.
- A Federica vai casar com o tal homem - declarou num tom desanimado.
Jake abanou a cabea.
- Barcos em miniatura h muitos, mas s h uma Federica. Espero que ela saiba o que est a fazer - comentou.
- Ela acha que est a casar com o pai - disse Polly. - Segundo a Ingrid, que sabe tudo por intermdio das filhas, o homem tem quarenta anos e  a cara chapada do
Ramon.
- Ento, o diabo do homem deve ser garboso - fez notar Jake.
- Diabo  a palavra-chave neste caso, receio - contraps Polly num tom grave.
Helena estava na manicura quando surgiu o boletim noticioso na rdio. No estava a prestar muita ateno, escutando e sonhando acordada ao mesmo tempo. Porm, as
palavras do locutor concentraram os seus pensamentos num nico, e o pnico percorreu-lhe as veias com a violncia de um maremoto.
O comboio que Toby ejulian haviam apanhado para Londres descarrilara.
CAPTULO TRINTA E UM
Cachagua
Estella gritou e sentou-se na cama de olhos esbugalhados e aterrorizada. Ramon foi arrancado da quente selva africana para a febre fria do pesadelo da sua amada.
Esticou a mo e acendeu a luz. Sentou-se tambm e puxou-a para os seus braos, afagando o seu hmido cabelo e murmurando palavras de conforto.
- Mi amor, foi um sonho mau, nada mais que isso - afirmou, sentindo o pulsar forte do corao dela vibrar contra o seu corpo como uma criatura assustada e desesperada
por sair. - Estou aqui, meu amor, pronto, j passou.
- Sonhei com a morte - disse ela, sentindo ainda as garras glidas do medo cravadas no seu corao.
- Foi s um sonho.
-  uma premonio - contraps ela, -  a segunda vez que o tenho.
- Ests apenas assustada com alguma coisa, mi amor,  s isso.
- Acontecer uma terceira vez - prosseguiu ela, abraando-o com fora em redor dos ombros e a tremer. - E depois acontecer de verdade.
Ramon abanou a cabea e beijou-lhe o pescoo.
- Conta l, quem  que morreu no teu sonho? - perguntou ele, fazendo-lhe a vontade.
- No sei. No vi o rosto dele - respondeu ela, tentando conter as lgrimas. - Mas tenho medo que fosses tu.
- Ser preciso mais do que um sonho para me matar - gracejou ele, mas Estella no achou graa.
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- Talvez fosse o Ramoncito - aventou com a voz embargada. No sei.
- Olha para mim - pediu ele, segurando-a  distncia de um brao. - Olha-me nos olhos, Estella. - Ela fixou-o com o olhar cavado de algum atormentado e viu-o sorrir
para si com amor. - Ningum vai morrer. No  possvel predizer a morte num sonho. Ests ansiosa com alguma coisa e o teu subconsciente est a lidar com isso. Talvez
estejas preocupada com a minha viagem a frica.

Estella acenou e suspirou  medida que a luz dispersava os horrores do seu sonho e trazia a sua mente de volta  realidade.
- Talvez - concedeu ela.
- S estarei fora algumas semanas - tranquilizou-a Ramon. - H muito tempo que no me ausento.
- Eu sei. Tens sido um pai maravilhoso para o Ramoncito - fez ela notar e sorriu.
- E um bom amante? - inquiriu, arqueando as sobrancelhas e sorrindo tolamente.
- E um bom amante -? repetiu ela.
Ramon inclinou a cabea para um lado e franziu a testa.
- Sabes que nunca te deixarei - afirmou. - No tens motivos para te sentir insegura. Amar-te-ei para sempre.
- Eu sei. E eu tambm te amarei para sempre.
Quando Ramon desligou a luz e tomou Estella nos seus braos ela j no foi capaz de dormir, no por j no se sentir cansada, mas antes porque receava voltar a sonhar
com a morte pela terceira vez, fazendo assim com que o sonho se realizasse. A me dissera-lhe, certa vez, que predissera a morte da prpria me num sonho. Por trs
vezes sonhara que a me jazia morta frente a uma casa cor-de-rosa. Como no conhecia nenhuma casa cor-de-rosa, no se preocupou e esqueceu o assunto. No entanto,
algumas semanas depois, a me morria de ataque cardaco enquanto tratava da madressilva que crescia pela parede lateral da sua casa branca. O Sol estava a pr-se
nesse momento e a parede reflectia um tom rosa quente e radiante. Estella ficou a afligir-se at o sono a vencer. Quando acordou de madrugada, foi com alvio que
se deu conta de que nem sequer sonhara.
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Quando Ramon se divorciara por fim de Helena, Estella esperara que ele casasse consigo. Guardou esta esperana s para si, no a verbalizando nem aos pais. Contudo,
para seu desnimo, ele nunca falara em casamento. Estava satisfeito com a forma como as coisas estavam. Era livre para ir e vir sem o lao psicolgico de um contrato.
Mariana esperara tambm que ele formalizasse a sua relao com Estella. com o passar dos anos, Mariana e a me do seu neto haviam-se tornado boas amigas. Aos poucos,
as divises impostas pela natureza das suas posies na sociedade desmoronaram-se e sentiram-se livres para viver e conviver como iguais. Estella inclua Mariana
na vida do seu filho, telefonando-lhe regularmente para Santiago e combinando visitas secretas quando passavam os meses de Vero em Cachagua. A princpio, Mariana
ansiara por contar a Ignacio sobre Estella e Ramoncito, mas, aos poucos, foi-se acostumando ao segredo e isso j no a incomodava.
Ramoncito tinha agora onze anos. Era moreno e tinha cabelo escuro como os pais, com os olhos profundos e castanhos da me. Era independente e despreocupado como
Ramon e sensvel como a me. Era uma criana que apenas dava alegrias. Gostava de escutar as divagantes histrias do pai e de apanhar conchas na praia com a me.
Sentava-se no cho a falar com as lpides com o av e deliciava ambas as avs com histrias acerca das suas aventuras com os seus amiguinhos. No herdara o desejo
impaciente de viajar do pai nem a egosta necessidade de satisfazer os seus desejos  custa das pessoas que amava.

Mariana dizia que Ramoncito fora abenoado com o melhor de ambos os pais e tinha razo. Via muitas vezes Federica na sinceridade do sorriso dele e na inocncia confiante
dos seus olhos, e interrogava-se se Ramon o via tambm, se se lembrava, e consolava-se a si mesma com a ideia de que, pelo menos, ela se recordava por ele. Enquanto
fosse viva, Federica e Hal nunca seriam esquecidos.
Ramon amava o filho com uma intensidade com a qual outrora amara Federica. Ainda amava a filha e muitas vezes, quando estava a inventar histrias para Ramoncito,
o seu corao apertava-se de nostalgia, pois tambm Federica adorava as suas histrias. Depois recordava aquele doloroso momento em que a sua prpria negligncia
se aprumara para o estrangular de remorso.
Vira-a. Pedalando pela vereda a caminho de casa, o seu rosto afogueado de felicidade e do esforo, ignorando que o homem que passara
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por si no Mercedes preto era o seu pai. Ordenara ao condutor que parasse o carro de imediato. Federica, escutando os pneus do carro guinchar, travara a bicicleta
e virara-se, semicerrando os olhos para os proteger do brilho do sol. Por uns momentos, que na sua memria pareciam dolorosamente longos, observara-a com saudade,
combatendo o desejo de abrir a porta do carro e correr para ela, de a erguer do cho com um abrao, como sempre fizera quando ela era criana. Ela era ainda pequena
em estatura, pequena para uma menina de treze anos, mas os seus membros eram compridos e o rosto o de uma jovem: esguio, anguloso, soberbo. Ramon reprimira um lamento
que ameaava libertar-se sob a forma de um grito desesperado. "Federica" era o que os seus lbios ansiavam por gritar e teve de se debater para conseguir engolir
o nome dela. Ela protegera ento os olhos do sol com a mo, um p no pedal, o outro no asfalto. O cabelo, comprido e plido, agitava-se com o vento. Conservava ainda
a aparncia de um anjo. La Angelita. Porm, ele recordara-se do que Helena lhe havia dito. Federica era feliz sem ele. Se a tivesse abraado como desejara, tal abrao
teria sido apenas uma falsa promessa. Uma promessa de entrega, uma promessa de devoo, mas, acima de tudo, a promessa de impedir Helena de se casar com Arthur,
e Ramon sabia que no podia fazer tal coisa. Assim, frente a promessas que no poderia cumprir, pedira tristemente ao condutor que seguisse. Devia a Helena a liberdade
de se casar com Arthur e de viver em paz com os seus filhos. Regressara ao Chile consumido de remorsos e de arrependimento. Se ao menos lhe tivesse suplicado que
ficasse, nada teria mudado. Teria ainda um relacionamento com os filhos. Contudo, isso no foi safano suficiente para o fazer abrir o corao para o que tivera
e perdera, pois regressara para os braos e aroma a rosas de Estella e Ramoncito e, mais uma vez, Federica recuara para os recessos da sua mente, onde os apelos
dela j no eram escutados.
Estella falou  me dos pesadelos que tivera.
- Estou assustada - confessou, enquanto a me, estendida num cadeiro como uma foca obesa, se abanava com um leque. - Tenho medo que o Ramon morra em frica.
Maria secou a testa suada com um leno branco e limpo que a me lhe fizera e pensou atentamente no problema da filha.

- Tens de fazer uma visita a Fortuna - aconselhou depois de meditar sobre o assunto.
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- Para que leia o meu futuro? - perguntou Estella com ansiedade. Ouvira muitas vezes as pessoas falar de Fortuna, pois era a nica pessoa negra que alguma vez algum
vira. Dizia-se que o pai dela sobrevivera a um naufrgio quando um navio de carga, transportando escravos, se afundara ao largo da costa do Chile. A me fora uma
chilena que o acolhera e o tratara. Fortuna vivia numa pequena aldeia junto  costa, para norte, e quando no estava estendida ao sol a ver os dias a passar, lia
a sorte das pessoas por uma pequena quantia. De que forma sobrevivia com to pouco dinheiro ningum sabia, mas havia quem afirmasse que era sustentada por um idoso
cuja vida salvara ao predizer um tremor de terra que o teria morto no tivesse ele abandonado a casa como ela lhe dissera.
Estella regressou a casa a matutar no conselho da me. Ramon estava no seu escritrio, sentado ao computador a transcrever alguns pensamentos. O entardecer estava
calmo e melanclico, inundando a costa com uma luz suave e rosada. Estella decidiu no falar a Ramon sobre Fortuna, muito embora os livros que ele escrevia estivessem
cheios de mistrio e magia. Temia que ele no gostasse da ideia. A adivinhao estava muito associada s supersties das classes menos afortunadas. Estella surpreendeu-o
pelas costas e abraou-o. Ele ficou contente por v-la e beijou-lhe o interior dos pulsos.
- Vamos dar um passeio pela praia, preciso de apanhar ar - disse ele, conduzindo-a para a rua pela mo. Caminharam sob aquela estranha luz rosa e beijaram-se embalados
pela cadncia das ondas.
- vou ter saudades tuas quando partir amanh - confessou Ramon.
- Eu tambm - retorquiu ela e franziu a testa.
- No continuas a pensar naquele sonho, pois no? - perguntou, beijando-lhe a testa.
- No, no - mentiu. - Apenas preferia que no fosses.
- Estarei em Santiago amanh  noite, tenho de me encontrar com o meu agente durante a tarde. S apanho o avio na quinta-feira  noite. Telefonar-te-ei de Santiago
e telefonar-te-ei do aeroporto.
- Ento, ficarei  espera - suspirou ela.
- Sim, mas pensarei em ti a cada minuto e se fechares os ouvidos para o resto do mundo, talvez me consigas escutar a enviar-te mensagens de amor. - Beijou-a de novo,
segurando-a com fora em redor da esguia cintura. Mais tarde, quando fez amor com ela sob a luz aquosa
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da Lua, que se reflectia no mar e entrava tremeluzente pela janela do quarto, saboreou as rosas na pele dela, sentiu o forte aroma da sua intimidade e soube que
os levaria consigo at ao outro lado do mundo e os recordaria quando se sentisse s.

No dia seguinte, Estella e Ramoncito acenaram adeus a Ramon e ficaram a ver o carro desaparecer no cimo da colina numa nuvem de poeira. Ramoncito seguiu ento para
a escola de mochila s costas cheia de livros e uma lancheira, que Estella preparara para o almoo dele. Virou-se para acenar  me e soprou-lhe um beijo. Ela soprou-lhe
outro de volta e ficou junto  estrada mais um pouco, sorrindo com ternura do afecto aberto e sincero do filho, que nunca deixava de a surpreender.
No voltara a sonhar com a morte. Adormecera embalada pelas memrias da noite de amor com Ramon e acordara com as feies radiantes de uma mulher satisfeita. Contudo,
ainda se sentia receosa e foi por causa desse medo glido que decidiu ir com a me fazer uma visita a Fortuna.
Pablo Rega observou-os a cavar a sepultura. Estava calor e a terra estava dura e seca. Encostou-se  lpide de Osvaldo Garcia Segundo e mastigou uma palha comprida
enquanto eles trabalhavam na outra extremidade do cemitrio.
-  um bom local - comentou para Osvaldo. - Virado para o mar, como o teu. Si, senor, de frente para o mar,  o melhor. Imagine-se estar encafuado l atrs sem vista.
Eu gostaria era de estar aqui, onde se pode ver o mar e o horizonte. D-nos uma sensao de espao, de eternidade. Gosto disso. Gostaria de fazer parte da natureza.
Diz-me como  estar desse lado, Osvaldo! - Inspirou o perfume dos pinheiros e esperou por uma resposta, porm Osvaldo provavelmente nunca fora um homem de muitas
palavras. - Isto est a ficar bem cheio - prosseguiu. - No tarda no haver espao e tero de comear a escavar sepulturas antigas como a tua. H boas probabilidades
de eu vir a ser sepultado em cima de ti. Assim poderamos conversar at  eternidade - gracejou. - No me importaria nada.
Estella e a me chegaram de autocarro e encaminharam-se de imediato para a pequena casa de Fortuna, que ficava bem perto da poeirenta
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estrada. No havia flores ou arbustos, apenas solo seco e arenoso e lixo, que Fortuna espalhava em redor da casa, no para afastar os espritos malignos, como as
pessoas suspeitavam, mas porque era demasiado preguiosa para colocar as coisas num caixote. A casa cheirava a comida putrefacta e a leite azedo. Estella e a me
tiveram que disfarar as involuntrias caretas com sorrisos para no ofender a idosa. Fortuna estava sentada  porta numa cadeira de baloio em verga, observando
os raros carros que passavam, troteando espirituais negros que o pai lhe ensinara em criana. Quando vislumbrou Maria riu com vontade e perguntou por Pablo Rega.
- Ainda conversa com os mortos? - inquiriu. - Ningum lhe disse que eles no o conseguem ouvir? Eles no ficam por c, sabes, voam at ao mundo dos espritos no
momento em que abandonam esta terra esquecida por Deus.
Maria ignorou-a e explicou que a filha viera para que lhe lesse o futuro. Fortuna parou de se embalar na cadeira e sentou-se direita, a sua expresso adquirindo
a aparncia sria de uma mulher sbia, consciente da responsabilidade que advinha do seu dom.
Pediu a Estella que se sentasse e chegou a cadeira  frente. Ficaram cara a cara uma com a outra e com os joelhos quase a roarem. Maria afundou-se noutra cadeira
e puxou do seu leque. Fortuna segurou as trmulas mos de Estella nas suas, suaves e carnudas pois nunca havia trabalhado um dia na sua vida, e pressionou as palmas
das mos de Estella com os polegares. Contorceu a boca numa srie de formas estranhas e fechou os olhos, deixando as pestanas tremelicar como se no tivesse qualquer
controlo sobre elas. Estella olhou para a me ansiosamente, mas Maria fez-lhe sinal que se concentrasse e abanou o leque com nervosismo.

- Nunca foste to feliz - disse, por fim, Fortuna e Estella sorriu, pois era verdade, nunca antes fora to feliz. - Tens um filho que ser um dia um escritor famoso
como o pai. - Estella corou de orgulho. Ele canalizar a sua dor para a poesia, que ser lida por milhes de pessoas. - O sorriso de Estella desvaneceu-se  medida
que o medo cravava de novo as suas glidas garras no seu corao. As pestanas de Fortuna comearam a tremelicar mais depressa. Maria parou de se abanar e olhou fixamente
para ela, boquiaberta. - Vejo morte - declarou. Estella comeou a sufocar. - No consigo ver-lhe o rosto, mas est prxima.
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Muito prxima. - Fortuna abriu os olhos ao mesmo tempo que Estella puxou as mos para trs e comeou a arquejar. Sentia a garganta apertada, a ponto de quase impedir
que o ar lhe chegasse aos pulmes. A me pulou da cadeira com a agilidade de uma mulher bem mais magra e empurrou a cabea da filha para baixo, colocando-a entre
os joelhos.
- Respira, Estella, respira - instrua ao mesmo tempo que a filha tentava respirar fundo, combatendo o medo que a estrangulava. Fortuna recostou-se na cadeira e
ficou a ver me e filha a debaterem-se contra a inevitabilidade da sua predio. Por fim, quando Estella comeou a respirar de novo, o estrangulamento foi substitudo
por amargos soluos e lgrimas que a dilaceravam por dentro.
- No quero que ele morra - gemia ela. - No quero perd-lo, ele  a minha vida. - Maria puxou a filha para os seus braos e tentou consol-la, mas no havia nada
que pudesse dizer que a reconfortasse. Fortuna pronunciara-se.
- Por favor, diga-me que no  o Ramon - suplicou ela, mas Fortuna limitou-se a abanar a cabea.
- No posso dizer-te porque tambm no sei - respondeu. O rosto da pessoa no me foi revelado. Mais no posso fazer.
- H alguma coisa que ns possamos fazer? - inquiriu Maria em desespero.
- Nada. O destino  mais forte que todos ns.
Estella estava determinada a mudar o futuro. Disse  me que Ramon partiria para frica no dia seguinte e que, se pudesse impedi-lo de ir, talvez lhe salvasse a
vida. Maria no tentou det-la. Sabia que a filha no a ouviria. Estava demasiado perturbada para ficar em Cachagua  espera que o desastre a atingisse. Abraou
a filha no terminal dos autocarros e tranquilizou-a de que olharia por Ramoncito durante a ausncia dela.
- Que Deus te acompanhe e te proteja - desejou a me.
Estella chorou todo o caminho at Santiago. Ia sentada junto  janela com a cabea encostada ao vidro, revivendo as memrias mais preciosas que guardava de Ramon
como se ele j tivesse morrido. Fechou os olhos e rezou at estas oraes silenciosas comearem a formar palavras na sua lngua, que murmurava delirantemente sem
se dar conta de que os outros passageiros a escutavam. Quando chegou a Santiago apanhou um
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txi para o apartamento dele. Uma vez frente ao edifcio, voltou a desfazer-se em lgrimas. No sabia o que fazer ou para onde ir. Talvez tivesse chegado tarde de
mais. E se ele estivesse morto no apartamento? Deixou-se cair nos degraus de mrmore e escondeu o rosto nas mos. Ao sentir um suave toque no ombro, levantou os
olhos  espera de ver Ramon, ficando desapontada ao ver o porteiro olhar para si com uma expresso compreensiva bem vincada no seu suave rosto.
- Sente-se bem, senora? - inquiriu.
- Estou  procura de Ramon Campione - murmurou ela.
- Dom Ramon? - disse ele, franzindo a testa. - Quem  a senhora?
- O meu nome  Estella Rega. Sou... - Ele inclinou a cabea para um lado. - Sou a... a...
- A esposa dele? - disse o porteiro.
- Sou a...
- Se  a esposa dele posso dizer-lhe onde ele est - afirmou ele gentilmente, sorrindo.
- Sou a mulher dele - declarou Estella num tom firme, secando as lgrimas do rosto com um leno branco.
- Dom Ramon est numa reunio. Saiu h mais de uma hora, mas eu chamo-lhe um txi e peo ao condutor que a leve ao stio. - Estella esboou um sorriso agradecido.
- Assim est melhor - disse o porteiro. -  demasiado bonita para estar to triste. - Depois ajudou-a a entrar para o txi que chamara e ficou a v-lo desaparecer
no meio do trnsito.
Ramon levantou-se.
- Amanh parto para frica - declarou. - Estarei fora trs semanas.
- Ser uma visita curta para os teus padres - comentou o agente, sorrindo sarcasticamente.
- bom, hoje em dia no tenho muitos motivos para estar longe.
- Ests a dizer que esta mulher que tens escondido todos estes anos te roubou o corao?
- Fazes demasiadas perguntas, Vicente.
- Eu sei que tenho razo. Percebo pela tua escrita. Todas as pginas reflectem amor.
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Ramon riu e pegou na mala.
- Ento, tenho ainda menos razes para me afastar.
- Mas ainda assim o fazes.
-  o que fao sempre.
- Telefona-me quando regressares.
Ramon fechou a porta atrs de si e entrou no elevador. Pensou no que Vicente lhe dissera - "todas as pginas reflectem amor" - e sorriu para si mesmo ao pensar em
Estella e Ramoncito. Depois contemplou o seu reflexo no espelho. No estava a ficar mais jovem. Comeava a ficar grisalho nas tmporas e, olhando para o corpo, tambm
no estava propriamente a ficar mais magro. Inclinou a cabea para um lado e esfregou o queixo. "Devia ter feito de Estella uma mulher honrada", pensou. "Devia ter
casado com ela h anos."
Quando abriu a porta para a movimentada rua deteve-se por um momento, estupefacto ao ver uma mulher que se parecia exactamente com Estella do outro lado da rua.
Olhava confusa para a esquerda e para a direita, com os olhos inchados e vermelhos que se precipitavam para todo o lado como os de um animal aterrorizado no acostumado
ao trnsito. Ramon pestanejou ainda algumas vezes antes de se dar conta de que era, de facto, Estella e gritou-lhe. Ela ouviu o seu nome e levantou os olhos. Sorriu
de alvio ao v-lo e ergueu a mo para lhe acenar.

- Ramon! - gritou de felicidade e, colocando a mo sobre a boca, tentou conter as lgrimas de alegria que lhe turvavam os olhos. Depois avanou para a estrada.
- Estella, no! - gritou ele, mas era tarde de mais. As fascas do camio projectaram-se para o ar ao mesmo tempo que os pneus guinchavam no esforo de se deter
para evitar a mulher que avanara cegamente para a frente deles. Ramon largou a mala e correu para o outro lado da rua, cujo movimento pareceu ficar suspenso  medida
que os transeuntes paravam e os condutores saam dos seus carros para ver o que acontecera. Quando Ramon viu o corpo trucidado de Estella, jazendo inerte frente
ao veculo, lanou-se para ela com mos trmulas, tentando desesperadamente encontrar-lhe o pulso.
- Fala comigo, Estella, fala comigo - suplicava ele, pressionando o seu rosto contra o dela, sussurrando-lhe ao ouvido: - Diz qualquer coisa, meu amor, qualquer
coisa. Por favor, no morras.
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Porm, ela no se mexeu. Ramon contemplou em choque o rosto plido dela e reparou que tinha ainda vestgios de um pequeno sorriso na suave curva dos lbios. Colocou
um dedo sobre eles, desejando que ela respirasse. Mas no restava um nico flego no seu corpo. No havia nada que pudesse fazer para a ressuscitar. Ergueu o corpo
despedaado de Estella nos braos e pressionou-o contra o seu corao e depois chorou amargamente e em voz alta, dando voz  avassaladora dor que o submergia  medida
que tomava conscincia de que a matara.
- Quem era ela? - algum perguntou.
- A minha mulher - gemeu ele, embalando-a para trs e para a frente como um louco.
Ramon levou a mulher que amara como nunca amara outra de regresso  sua terra natal em Zapallar. Maria fora acometida por uma febre mortal ao saber da notcia e
estava como que em transe, inerte e indiferente aos rogos desesperados de Pablo Rega, que mantinha viglia  sua cabeceira, regateando em silncio com Deus. Mariana
correra de imediato para a casa deles e abraara-os aos dois, pois com o passar do tempo acabara por se afeioar e amar a filha deles como se fosse sua. S Ramoncito
permanecia inabalvel e composto. Mariana explicara ao neto que a me fora viver com Jesus e que olhava por ele e o amava do Cu. Porm, Ramoncito limitara-se a
acenar com a cabea e a abra-la para a consolar. Mariana estava confusa. A maturidade do neto perturbava-a. No entanto, no escutara o corao dele a partir-se
ou a sua alma bradar de desespero.
Tal como Fortuna predissera, milhes de pessoas sentiriam o seu sofrimento nas palavras que escreveria mais tarde. Porm, por enquanto, no era capaz de compreender
a sua prpria dor ou de saber como exprimi-la.
Ramon chegou, dilacerado e envelhecido, com o corpo da sua amada Estella. Permitiu-se ser consolado pelos familiares braos da me e depois recomps-se para ser
forte para o filho. Quando Maria viu Ramon, pestanejou, emergiu do transe e contou-lhes tudo sobre a predio de Fortuna. Ramon abanou a cabea.
- Morreu no meu lugar - concluiu ele, pesarosamente.
- No, morreu porque estava na altura dela - contraps Maria. Foi por isso que Fortuna no conseguiu ver o rosto dela.
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Quando Ignacio Campione bateu  porta da casa de Pablo Rega, o pequeno grupo de enlutados olhou uns para os outros surpreendidos. Ignacio entrou com a passada de
um homem incapaz de continuar a fazer-se de ignorante.
- Lamento muito, filho - declarou, puxando Ramon para os seus braos. Ramon pestanejou, estupefacto, para a me por cima do ombro de Ignacio. Mariana encolheu os
ombros e limpou as lgrimas. - No achavas certamente que eu era assim to parvo - afirmou, batendo ao de leve nas costas do filho. Por uma vez, Ramon ficou sem
palavras. Encostou a cara ao pescoo do pai e soluou.
Estella foi sepultada no cimo da colina de frente para o mar, sob a sombra de um alto pinheiro. Pablo Rega pediu mais tarde desculpa a Osvaldo Garcia Segundo, pois
a partir daquele momento passaria a falar apenas com a filha. Ao contrrio de Osvaldo, Estella respondia-lhe. Conseguia escutar a voz dela no encher e vazar das
mars e sentir o seu aroma no vento, que cheirava sempre a rosas.
Ramon contemplou o horizonte e reflectiu sobre os seus insensatos actos de egosmo que tantas vidas haviam arruinado. Pensou no que amara e perdera. Depois olhou
para o seu filho de onze anos. Ramoncito olhou-o tambm e sorriu. No sorriso dele, Ramon viu o sorriso de Federica e as lgrimas de Hal, a frustrao de Helena e
o amor incondicional de Estella e engoliu o seu arrependimento como se fosse um enorme n na sua garganta. Colocou a mo no corajoso ombro do filho e jurou que compensaria
a sua negligncia amando Ramoncito, estando sempre presente e disponvel para ele, mudando a sua maneira de ser, como Helena outrora lhe suplicara que fizesse.
Colocou uma nica rosa vermelha sobre o caixo e quando se afastou era j um homem diferente.
CAPITULO TRINTA E DOIS
Polperro
Helena, Jake e Polly estavam impotentemente colados  televiso  espera de notcias do acidente. Fora dado um nmero para os familiares ligarem, mas estavam ainda
a tirar vtimas dos destroos e no havia quaisquer notcias de Toby e Julian. Arthur saiu a correr do escritrio e foi buscar Hal  escola antes de ir para casa
de Jake e Polly. A coznha parecia vibrar com a ressonncia da dor que todos sentiam. Todos os barcos em miniatura de Jake estavam espalhados ao abandono, como se
fossem fsforos, pelo cho e pela mesa, pois, num acesso de raiva e remorso, Jake lanara-os todos ao cho. Polly tentou reconfort-lo, dar-lhe a mo, ao mesmo tempo
que ele descia em espiral para um negro abismo onde a teimosia e o preconceito se riam dele zombeteiramente, mas ele no aceitou. Estava demasiado envergonhado.
Demasiado desgostado por ter permitido que a intolerncia obscurecesse o valor da vida.
Seguro de que Toby estava morto e incapaz de encarar o resto da famlia, Jake saiu de casa para ir passear at s falsias. Caminhou por entre a erva de Inverno
e derramou lgrimas de auto-averso. O vento frio fazia-lhe arder os olhos, mas prosseguiu cegamente como se ao caminhar depressa pudesse deixar o desespero para
trs.

Recordou-se de Toby em criana. Das alturas em que o levara no seu barco, em que haviam ficado em silncio a observar as gaivotas e os cardumes de peixe mesmo abaixo
da superfcie. Recordou-se de como rira quando Toby lhe pedira para devolver  gua a enorme truta que tinham acabado de apanhar. Arreliara-o, segurando o peixe
e acenando-o
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frente ao rosto atormentado do filho. Estremeceu perante tal memria, bem como perante muitas outras. Toby sempre soubera o valor da vida. Soubera-o melhor que qualquer
outra pessoa.
Depois relembrou as alturas em que pai e filho haviam sido to chegados que ambos acreditavam que nada poderia separ-los. Toby ajudara-o a colar os pequenos barcos
em miniatura at altas horas da noite. Haviam contado histrias um ao outro, rido e trabalhado em conjunto imersos no silncio familiar e confortvel de quem tudo
partilha. Um tempo houvera em que Toby lhe contava tudo.
Contudo, Julian chegara e tudo isso mudara.
Jake sentou-se numa rocha fria e olhou para o rude horizonte onde as ondas investiam umas contra as outras, fazendo correr espuma como se fosse sangue. Procurou
no ntimo da sua atormentada alma a raiz do seu preconceito. No fora apenas a homossexualidade de Toby que colocara pai contra filho, pois, bem no seu ntimo, haviam
crescido ressentimentos muito antes de saber da orientao sexual do filho. Havia outra coisa qualquer. Algo bem mais primitivo. Recordou-se da primeira vez que
Toby o apresentara a Julian. Reparara de imediato na proximidade entre os dois. A forma como riam em conjunto como velhos amigos, como antecipavam os pensamentos
um do outro como se fossem irmos, desfrutando do mesmo tipo de silncio entre pai e filho. O cime sufocara-o. Ao examinar mais minuciosamente os seus sentimentos,
apercebeu-se de que nunca, na verdade, tivera qualquer problema com a homossexualidade de Toby, apenas fora mais fcil apresentar isso como desculpa para o seu rancor,
em vez de admitir que estava enciumado, at para si mesmo. Sentia-se de repente consumido de vergonha.
Jake no era um homem religioso, mas sentia a presena de Deus na natureza e foi a que rezou. Rezou para que Deus o perdoasse e suplicou-Lhe que poupasse as vidas
de Toby e Julian para que pudesse compens-los por todos aqueles anos desperdiados.
Quando regressou a casa, Polly reparou que a expresso do marido se alterara. Algures, l fora, ajustara contas com o monstro que o atormentava. Estava agora pronto
para se juntar ao resto da famlia.
Helena sabia que devia ser forte pelo filho, mas a sua tristeza era avassaladora. Estava sentada imvel a observar as suas lgrimas a provocarem pequenas ondulaes
na superfcie da chvena de caf e permitiu que a dor a tomasse por completo. Quando Arthur chegou, conseguiu erguer os olhos inchados a indicar que precisava de
ser consolada. Arthur pousou a sua pasta e colocou-se no centro da cozinha.
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- Muito bem - comeou ele num tom calmo e de quem estava a controlar a situao, colocando as mos nas ancas. - Falei com os servios de emergncia no local e at
agora no h sinal deles. Podemos pelo menos ficar gratos pelo facto de no constarem da lista de vtimas.
Helena largou a chorar. Polly franziu os lbios com fora numa tentativa de conter a sua aflio. Tinha de ser forte pelo resto da famlia.

- Pronto, no podemos fazer mais nada a no ser esperar. Sugiro que telefonemos de quinze em quinze minutos. Jake, mantenha o rdio ligado para irmos escutando os
boletins noticiosos. Helena, no os chores prematuramente. Embora no tenhamos novidades ou notcias deles, h esperana. Concede-lhes pelo menos essa cortesia.
- Helena ficou estupefacta. Nunca antes ouvira o marido falar com tamanha autoridade. Pestanejou para ele com admirao. - Temos todos de ser fortes uns pelos outros.
Temos de ter calma e esperar - concluiu ele e viu a mulher endireitar-se obedientemente.
- Muito bem, algum quer mais uma chvena de ch? - perguntou Polly, enchendo a chaleira.
Federica desejava estar em Polperro com a restante famlia. Estava deitada na enorme cama de Torquil, em The Little Boltons, e olhava sem pestanejar para a janela,
desejando que o telefone tocasse com boas notcias. Telefonara para o escritrio de Torquil e deixara-lhe uma mensagem com a secretria. Estava permanentemente 
escuta,  espera de ouvir a chave na fechadura, e tinha j a audio to aguada que o corao disparava ao mais pequeno rudo.
Helena telefonara-lhe com a terrvel notcia. Porm, enquanto no surgissem provas da morte deles, havia esperana de que pudessem estar vivos. Ligara a televiso
e vira os vrios servios noticiosos. O comboio assemelhava-se a um brinquedo de lata que fora descuidadamente amachucado por uma criana mimada. Vira os bombeiros
afadigarem-se com os corpos dos mortos e procurara por trs deles os rostos dos vivos, mas no conseguira ver Toby ou Julian na mancha de caras desconhecidas. Quando
se tornara demasiado penoso, desligara a televiso, deitara-se na cama e esperara por notcias da me.
Quando o telefone tocou por fim, levantou o auscultador com a mo a tremer e mal conseguiu escutar a voz do outro lado devido  tenso em que estava.
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- Fede,  a Hester.
O corao de Federica caiu a pique.
- Ah, Hester, ol - respondeu, desapontada.
- Pedi o nmero  tua me. Lamento muito. Estamos todos a pensar em ti - disse Hester. - A Molly e eu estamos aqui sentadas no apartamento a rezar para que estejam
bem.
- Obrigada, Hester - murmurou Fede. - Tambm rezo pelo mesmo.
Hester ouvira falar do noivado de Federica e Torquil, mas achou que no era altura para falar disso.
- bom, vou desligar para deixar a linha livre, mas estamos aqui se precisares de ns - acrescentou num tom amvel antes de desligar.
Quando a chave rodou por fim na fechadura, o ouvido de Federica estava demasiado concentrado no telefone para se aperceber. Torquil encontrou-a enroscada na cama.
Avanou at ela, tomou-a nos braos e ela chorou contra o peito dele.
- Achei que nunca mais vinhas - lamentou-se, passando os braos em redor do pescoo dele. - Se calhar esto mortos.
- No sabes se esto - respondeu ele. - Que dizem as ltimas notcias?
- Isso  o pior, no h notcias.
- Tens estado atenta  televiso?

- No suportava mais ver as imagens. Estou  espera que a minha me telefone. Eles tm estado a ligar regularmente para aquela linha de apoio aos familiares que
foi criada.
- Pois,  tudo o que podemos fazer por agora. Esperar e rezar disse ele, afagando-lhe o cabelo. - Vais ver que eles esto bem, querida, eu sei que sim.
Porm, Federica no conseguia animar-se.
Ao fim de algum tempo, Torquil levantou-se e ps-se a andar de um lado para o outro do quarto.
- Ficarmos assim abatidos no vai mudar nada e j comeo a sentir-me claustrofbico. Porque no tomas um duche, te vestes e samos para almoar e te distrares um
bocadinho.
- No posso ir almoar numa altura destas! - exclamou ela, horrorizada.
- Vai fazer-te bem sares de casa, comer uma sopa quente. Vais ver que o tempo passar mais depressa.
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- Mas e o telefone? - gaguejou ela.
- Eu reencaminho as chamadas para o meu telemvel. No te preocupes, quando eles souberem de alguma coisa, telefonam-nos para onde quer que estejamos - garantiu
Torquil.
As notcias voaram depressa em Polperro. Ingrid fumava cigarro atrs de cigarro, incapaz de pintar ou elevar-se, naquela sua habitual forma alheada, acima da preocupao
e angstia que sentia. Inigo fechou os livros de filosofia e foi sentar-se com a mulher frente  lareira a meditar sobre o significado da morte. Nuno abanou a cabea
e bebeu de um s trago um clice de brande, argumentando que devia ter sido ele.
- A minha hora est perto - suspirou. - Aqueles rapazes tm anos ainda  frente deles.
Sam estava sentado frente ao computador no emprego, ansiando por falar com Federica. Molly telefonara-lhe e contara-lhe a notcia. Sam ligara de imediato a rdio
e escutara os pormenores do acidente, desejando poder consol-la como fizera naquele dia, entre as campainhas, depois de Federica ter escutado a proposta de casamento
de Arthur com a sua me. Era to jovem e estava to desamparada nessa altura, olhando para si com olhos tmidos, adorando-o incondicionalmente. Recordou os doces
beijos trocados no celeiro e a embaraosa conversa na cozinha, na vspera de Natal, e sentiu que ela se afastava de si. J detestava Torquil Jensen. "Que raio de
nome  aquele?", pensava para si mesmo com despeito. Na sua confuso, Molly esquecera-se de lhe dizer que Federica se ia casar. Apenas se lembrara de lhe dar o novo
nmero de Federica e de lhe pedir que lhe telefonasse. "Ela precisa do nosso apoio", explicara Molly.
Sam rabiscou em redor do nmero que escrevera no canto da primeira pgina do Evening Standard e considerou se ela iria ou no ficar satisfeita com o telefonema dele.
Depois, colocou as suas reservas de lado e marcou o nmero. Recostou-se na cadeira e sentiu o corao acelerar de cada vez que escutava o toque de chamada. Por fim,
o toque parou e uma voz masculina grave respondeu com urgncia:
- Fala Torquil.
O estmago de Sam contorceu-se de irritao.
-  Sam Appleby para a Federica - declarou friamente. Torquil verbalizou o seu desapontamento com um sonoro suspiro.
- Lamento, mas ela est no banho.
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- Ah - respondeu Sam num tom impaciente, tirando os culos e esfregando a cana do nariz.
- Ela pode ligar-lhe depois?  que ns gostaramos de deixar as linhas livres. No sei se sabe, mas...
- Sei. Diga-lhe apenas que eu telefonei - interrompeu Sam e desligou. Iradamente, apunhalou o jornal com o abridor de cartas. Arrependeu-se de ter sequer telefonado.
- Torquil Jensen - rosnou entre dentes -, que imbecil!
- Quem era? - gritou Federica da banheira. Torquil mordeu o interior da bochecha, deliberando se havia ou no de lhe dizer. No apreciara muito o tom arrogante de
Sam Appleby. E fosse como fosse, Federica agora no precisava de amigos do sexo masculino; tinha-o a ele.
- Nada, querida, era do escritrio - respondeu com um sorriso torcido.
Sam Appleby podia ter-lhe desligado o telefone na cara, mas ele acabara por ter a ltima palavra.
Torquil levou Federica a almoar num pequeno restaurante perto de casa. O empregado, que conhecia Torquil bem, deu-lhes uma mesa junto  janela e Federica sentou-se
a olhar tristemente para a rua.
- O tio Toby foi sempre como um pai para mim - fez ela notar, mexendo a colher dentro da sopa. - O meu prprio pai nunca se deu muito ao trabalho, mas o Toby tinha
sempre tempo para ns. Tenho tantas recordaes dele! - Suspirou, no se dando ao trabalho de secar uma enorme lgrima que pendia das suas pestanas.
- Ests a falar no passado, querida - referiu Torquil, acariciando-lhe o brao com ternura. - Tenho a certeza que ele est vivo, vais ver.
- Oh, deve estar morto - contraps, desesperanada. - Se estivesse vivo j teramos sabido.
Nesse momento o telemvel de Torquil tocou estridentemente e sobressaltou todo o restaurante.
- Fala Torquil - atendeu ele de imediato. - Ah, Mistress Cooke,  Torquil Jensen. H novidades?
- A Federica est a consigo? - perguntou Helena, ignorando as habituais cortesias.
- Eu vou j passar.
- Fede, querida, lamento mas continuamos sem saber nada ao certo. H trinta e dois mortos. O Toby e o Julian no esto entre eles, mas
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tambm no constam da lista dos sobreviventes. No sabem ainda. Continuam  procura. Estamos todos a esforarmo-nos imenso para sermos fortes. O Arthur tem sido
maravilhoso. Assumiu por completo o controlo da situao. Nunca achei que estivesse na sua natureza fazer tal coisa.
- Oh, me, estou a rezar com toda a fora - sussurrou Federica.
- Tambm eu. Estamos todos.
- No cheguei a despedir-me - acrescentou Federica com a voz embargada, contemplando a rua. De repente viu Toby e Julian caminhando alegremente passeio acima. Toby
vinha a comer um chocolate. Federica emudeceu de estupefaco, pestanejando vrias vezes e com fora para o caso de estar enganada.
- Eu sei, minha querida, eu tambm no - disse Helena com uma fungadela. Ento, depois de um momento, como a filha no dissesse nada, acrescentou: - Fede, ests
bem?

- Me, eles esto aqui! - exclamou de olhos esbugalhados. Torquil virou-se e olhou pela janela.
- Quem?
- O tio Toby e o Julian!
- O qu?
- Esto a caminhar rua acima na minha direco.
- Tens a certeza?
- Sim! - respondeu ela, levantando-se e correndo porta fora. Toby! Julian! - gritou.
Toby sorriu jovialmente quando viu a sobrinha a correr para si. Ela lanou-se para os braos dele.
- Esto vivos- riu. - Esto vivos! - gritou para o telefone, com Helena ansiosamente  espera do outro lado da linha.
- Passa j o telefone! - ordenou  filha. - Esto vivos! - acrescentou, olhando para os pais, para Arthur e para Hal, assombrada.
- Helena - disse Toby, sorrindo para o telefone.
- Que raios vos aconteceu? - exigiu saber.
- Que queres dizer?
- O acidente de comboio.
Toby franziu a testa.
- Que acidente de comboio? - perguntou, espantado.
- Por amor de Deus! - arquejou Helena. - No me digas que nem sequer estavam no comboio?
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- Apanhmos um comboio mais cedo porque ojulian tinha uma reunio de manh no Soho.
- No acredito! - exclamou ela. - Ns achvamos que estavam mortos. Quase nos mataram de preocupao!
- Meu Deus, peo desculpa.
-  bom que peas! - disse ela em fria. -Jesus, Toby, achmos que estavam ambos mortos. Estvamos doidos de angstia. At j tinha planeado o discurso que ia fazer
no funeral. Raios partam! Adoro-te! lamuriou antes de se desfazer em lgrimas.
Jake tirou-lhe o telefone das mos.
- Toby.
- Pai. - Seguiu-se uma breve pausa enquanto Jake procurava as palavras que h apenas alguns minutos tivera na ponta da lngua.
Toby olhou de relance para Julian, desconcertado.
Por fim, Jake contentou-se com uma coisa menos dramtica.
- Vem para casa, filho, venham ambos - declarou meio constrangido. Queria dizer mais, mas no o conseguia fazer pelo telefone.
A testa de Toby franziu-se de perplexidade.
- Ests bem, pai? - perguntou.
- Ests vivo. Esto ambos vivos. Nunca me senti melhor em toda a minha vida - anunciou triunfantemente e Toby reconheceu a antiga e familiar voz do pai, a voz que
ressoara de afecto antes de o preconceito a estrangular.
O telefone foi passado  me, depois a Arthur e por fim a Hal. Quando Toby desligou por fim, abanou a cabea, desconcertado.
-  melhor entrarem e almoarem connosco - convidou Torquil, estendendo a mo. - Sou Torquil Jensen. No sabem o prazer que  conhec-los.

Quando Toby e Julian regressaram a Polperro, tiveram uma recepo que nenhum deles achava que merecia. A maior parte da vila juntou-se  famlia de Toby e aos Appleby
na plataforma e bateu alegremente palmas logo que eles desceram do comboio. At Inigo viera, no seu pudo casaco de caxemira e chapu de feltro, para mostrar a sua
alegria por ambos terem chegado sos e salvos a casa. Polly observou com orgulho Jake a abraar ambos os rapazes, dando-lhes palmadinhas nas costas, pois tinha a
garganta demasiado apertada de emoo para conseguir falar. Os
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olhos de Toby marejaram-se de lgrimas ao abraar o pai, um abrao que destruiu a invisvel muralha que se erguera entre ambos. Os seus olhos comunicaram silenciosamente
tudo o que sentiam, e as lgrimas demonstraram o amor que ambos consideravam inapropriado exprimir verbalmente. Foi com uma imensa satisfao que Helena viu a sua
famlia reunida outra vez, mas estava desejosa de saber como correra o encontro deles com Federica e se haviam conseguido impedir os seus planos de casar.
 medida que Toby avanava por entre a multido de amigos e conhecidos em direco  sada, ficou surpreendido ao ver Joanna Black, a rapariga que beijara certa
vez na escola, acanhadamente junto  porta. Ela sorriu-lhe e Toby sorriu tambm, curioso.
- Ol, Joanna - cumprimentou ele.
- Ol, Toby - respondeu ela. - No pensei que te lembrasses de mim.
- Lembro, sim - disse Toby e riu amigavelmente.
- Queria apenas pedir-te desculpa por te ter desprezado daquela vez na mercearia.
- Oh, no te preocupes, no tem problema. Foi h muito tempo.
- Encolheu os ombros ao mesmo tempo que ela arrastava os ps acanhadamente.
- Eu sei, mas no foi amvel.
- Eu  que no fui nada amvel. Mas tambm j foi h muito tempo.
Joanna baixou os olhos e prendeu uma madeixa encaracolada do seu cabelo castanho-claro por trs da orelha.
- Pois,  precisamente isso - disse ela em voz baixa. - Quando me beijaste, aqueles anos todos atrs...
- Sim?
- E eu fugi a chorar.
- Sim.
- Fiquei magoada no por me teres beijado. Eu desejara que o fizesses - confessou ela e riu com vergonha. - Fiquei sentida por causa da expresso de repugnncia
ao beijares-me.
- Oh, lamento - desculpou-se Toby, encolhendo novamente os ombros.
- No, no precisas de pedir desculpa, a srio. Eu agora compreendo. No gostavas de raparigas, mas eu na altura no sabia.
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- Porque me vieste falar disso agora? - quis saber ele.
- Achava que tinhas morrido - respondeu ela simplesmente.
- Ah.
- H anos que planeava falar contigo, mas nunca consegui reunir a coragem suficiente.
- Obrigado - disse ele, acompanhando-a pela porta da estao.

- bom, era isto que queria dizer-te. Est dito. - Riu ainda nervosamente, esfregando as mos contra o frio. Depois deu-lhe um abrao. Toby ficou imvel, apanhado
de surpresa e ouviu-a soltar um profundo suspiro. Joanna nunca esquecera aquela primeira paixoneta infantil ou o beijo apressado no recreio. - At mais ver - despediu-se
ela antes de se afastar quase a correr.
Toby ficou a v-la afastar-se e abanou a cabea.
- Sabes, a morte faz as pessoas fazerem as coisas mais estranhas comentou com Julian.
Julian sorriu de orelha a orelha.
- As pessoas deviam morrer mais vezes - gracejou. - A morte traz ao de cima o melhor em toda a gente.
A morte trazia de facto ao de cima o melhor de cada pessoa. Sem que disso se apercebessem, cada membro da famlia de Toby tinha mudado.
Jake confrontara o seu cime e sara vencedor. A admirao de Polly pelo marido crescera, unindo-os assim onde outrora o preconceito os afastara. Helena apercebera-se
mais do que nunca do valor da vida e deu graas a Deus por Arthur, que inchou de alegria quando ela comeou a dar-lhe a mo por baixo da mesa e a sorrir para ele
com intimidade, como quando se haviam conhecido. Hal emergiu do seu casulo e comeou a reparar nas pessoas em seu redor, embora temporariamente.
Quando Helena conseguiu, por fim, perguntar a Toby como correra o encontro com Federica, deu-se conta de que no se importava se eles casassem. Afinal de contas,
o casamento no representava um risco de vida.
- Fiquei surpreendido ao constatar como ele era encantador - referiu Toby, saboreando o risoto de cogumelos de Polly. -  bem mais velho que ela, bonito, inteligente.
- Uma figura paterna, eu diria - acrescentou Julian. - No poderia ter sido mais simptico e amvel.
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- E ser que ele vai ser amvel com ela? - inquiriu Polly enquanto Jake lhe servia vinho.
- Ela  jovem - argumentou Jake -, mas no  palerma.
- Oh, ela sabe bem o que quer, pai - afirmou Toby. - Isso  certo. Seja como for, ela j no  a "pequena Fede".  uma mulher. Cresceu bem depressa desde que conheceu
o Torquil. Ela no vai ceder desta vez, garanto-vos.
- No entanto,  vulnervel, em especial com um homem bem mais velho que consegue manipul-la - interps Arthur.
- Sim,  vulnervel -concordou Helena. -  impressionvel e este  o seu primeiro amor, ela devia ganhar mais experincia, namorar mais.
- A Fede no  pessoa para andar de namorico aqui e ali - comentou Hal, deitando ketchup no risoto.
- bom, e com razo - salientou Jake.
- A Helena no est a sugerir que ela durma com uns e outros, pai, apenas que cresa mais um pouco, ganhe mais experincia, conhea outras pessoas. Eu concordo.
 preocupante que ela case com o primeiro homem pelo qual se apaixona assim precipitadamente, por mais encantador que ele possa ser. Afinal de contas, o casamento
 para o resto da vida - fez ver Toby.
- Devia ser - acrescentou Helena num tom sarcstico.
- Pode ser - contraps Arthur, acariciando-lhe o joelho com o seu. Ela piscou-lhe o olho de forma galante.
- Eu acho o casamento uma seca - observou Hal. Helena sorriu

para ele e abanou a cabea.
- Ento, o que fazemos? - perguntou Polly, esvaziando o seu copo. - Cruzamos os braos? No fazemos nada?
- Nada - respondeu Jake. - Ela tem de navegar o seu prprio barco, Polly.
- E quando  que vamos conhecer o noivo? - quis saber Helena.
- Eles disseram que talvez viessem at Polperro este fim-de-semana - referiu Toby.
- ptimo - concluiu Jake com um aceno de cabea. - Agora, nada de mais opinies at termos dado uma oportunidade ao pobre do rapaz. H mais risoto, Polly?
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Quando Molly telefonou a Sam para lhe dizer que Toby e Julian estavam vivos, lembrou-se de lhe dizer que Federica ia casar. Sam quase se engasgou no seu cime.
- No digas disparates, ela ainda agora o conheceu.
- Eu sei.  absurdo - concordou Molly. - Mas  verdade.
- Ela tem a idade da Hester, por amor de Deus, que sabe ela acerca do casamento?
- Nada. Se soubesse no me parece que se precipitasse desta forma. A me diz que ele  um substituto do pai que ela nunca teve.
- Bem, ento  isso. Uma sndrome da figura paterna - concluiu Sam, amargamente.
- Nem mais.
- Quando  o casamento?
- Na Primavera.
- O qu, esta Primavera? - exclamou ele, tirando os culos e esfregando os olhos, de repente casados e desconfortveis.
- O Torquil quer casar o mais cedo possvel. Sabes que ele at j conseguiu que ela parasse de trabalhar?
- No!
- Sim,  verdade. Ela j mudou muitas das suas coisas para casa dele.
- Onde  que ele vive?
- Em The Little Boltons - respondeu Molly num tom que espelhava despeito.
- bom, ela tambm no ter de trabalhar, no ? Ele  seguramente rico.
- Toda a gente devia fazer alguma coisa - argumentou Molly. A Federica vai tornar-se numa daquelas mulheres horrveis que no fazem mais nada a no ser compras o
dia inteiro.
- Ah, a Fede no - disse Sam na defensiva.
- Sim, a Fede - insistiu ela. - Ele h-de transform-la no que quiser que ela seja. A Fede no tem propriamente uma personalidade muito forte, no ?
-  jovem.
- A Hester tambm  jovem e tem mais espinha dorsal que ela.
- Teria de ter, com uma irm como tu - comentou Sam com brusquido.
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- Que queres dizer com isso?
- Tu tens  inveja que a Fede tenha sido totalmente arrebatada por algum bonito e rico - acusou, interrogando-se porque estaria a ser assim com a irm.
- Olha, eu s telefonei para te contar a novidade, no foi para discutir contigo - retorquiu, exasperada.

- Desculpa, Mol. Foi um dia cansativo - desculpou-se, suspirando de frustrao. Quando desligou o telefone, sentia-se nauseado. Incapaz de se concentrar no seu trabalho,
vestiu o casaco e deixou o escritrio mais cedo, sem se importar com o que o seu chefe pensaria. Fosse como fosse, no pretendia trabalhar por muito mais tempo na
City. Quanto mais depressa regressasse a Polperro melhor. No desejaria certamente ficar em Londres se Federica e Torquil se casassem.
Apanhou o metro para Hyde Park Corner e vagueou por Hyde Park, pontapeando as folhas e franzindo as sobrancelhas aos esquilos. Quando comeou a chover, abrigou-se
sob um telheiro e ficou lastimosamente a ver o cu derramar-se em seu redor. No conseguia entender porque o incomodava tanto que Federica se fosse casar. Afinal
de contas, tivera a sua oportunidade e deixara-a escapar. Beijara-a e depois deixara-a. Consolou-se com a desculpa de que no queria estar envolvido numa relao,
fosse de que espcie fosse. No queria sentir-se preso. Ainda que Federica estivesse livre, no tentaria seduzi-la. Apenas no queria que mais ningum a tivesse.
Ao caminhar por entre a chuva miudinha em direco a casa sentiu-se muito melhor. Ento, Federica ia casar com Torquil. Que importava isso? Havia mais peixe no mar.
Durante um tempo, Sam conseguiu convencer-se de que j no se interessava por Federica, porm, no momento em que se encontrou cara a cara com Torquil Jensen deixou
de ser capaz de continuar a fazer de conta. Todos os seus instintos o admoestavam contra este casamento, que, na sua opinio, estava condenado ao falhano antes
mesmo de ter comeado. Contudo, mais ningum parecia partilhar da sua opinio.
Torquil e Federica chegaram a casa de Toby numa sexta-feira  noite. Ele insistira para que fossem parando pelo caminho em pequenas estalagens zpubs para descansarem
da viagem e comerem. Enquanto ziguezagueavam pelas estreitas veredas, Torquil foi assaltado por uma estranha sensao de dj vu.
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- Sei que j estive aqui antes - afirmou, contemplando as sebes de Inverno e as rvores despidas e interrogando-se por que motivo o cenrio lhe parecia to familiar.
- Provavelmente numa vida anterior - sugeriu Federica, encolhendo os ombros. - Talvez nessa altura tambm nos amssemos.
- No - insistiu ele num tom srio -, j aqui estive de certeza, mas no estou a ver ao certo quando e porqu.
Federica voltou a encolher os ombros e no pensou mais no assunto. Mal conseguia estar quieta na sua nsia de mostrar o noivo  famlia. Quando pararam frente 
casa de Toby e Julian, Torquil tocou a buzina. Toby apareceu e deixou-se ficar  porta enquanto Rasta corria para os receber com um entusiasmo nada refreado.
- Bem-vindos - cumprimentou Toby, sorrindo afectuosamente. Julian apareceu por trs dele para capturar o momento em filme. Foi ento que Torquil se apercebeu por
que motivo tinha tanta certeza de j ali ter estado. Ainda tinha aquela Polaroid de Lcia que Julian tirara. Inspirou profundamente e saiu do Porsche. Fazia figas
para que a recordao que tinham dele se tivesse desvanecido com o passar dos anos, pois se ainda fosse vvida no seria uma imagem muito positiva a que teriam de
si.

Jake e Polly foram os primeiros a chegar para jantar. Jake desconfiava de "meninos da cidade" e achava que Federica devia casar com algum de Polperro.
- Ela j foi desenraizada o suficiente ao longo da vida. Do que precisa  de estabilidade e de estar rodeada das pessoas e dos locais a que se habituou. Ainda assim,
suponho que o rapaz merece uma oportunidade de provar que est qualificado para cuidar dela - admitiu durante o percurso para a casa do filho.
Polly concordou com ele e acenou com a cabea ponderadamente.
- S gostava que ele no fosse to mais velho - suspirou.  bom quando duas pessoas podem envelhecer juntas. Ele ser um idoso antes mesmo de ela chegar  meia-idade,
o que  uma pena.
Quando entraram na sala de estar, Torquil ps-se de imediato de p e estendeu a mo calorosamente. Polly e Jake foram logo desarmados pela beleza do rosto dele e
pelo encanto do seu sorriso largo.
Polly devolveu-lhe o sorriso com prazer.
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-  um prazer enorme conhec-lo - disse com entusiasmo, no imune ao apelo de um jovem bonito. Jake foi mais reservado, embora tivesse ficado impressionado com a
perfeio das feies dele, e ficou a observar Torquil, tentando no se deixar influenciar pela aparncia.
Mas at Jake foi facilmente conquistado quando Torquil deu a mo a Federica num gesto carinhoso e o olhou nos olhos, declarando:
- A minha prioridade  uma s, Mister Trebeka, fazer a Fede to feliz quanto me for possvel e cuidar dela.
O velho corao de Jake entregou-se e ele acenou, indicando a sua submisso.
- Bem, como pode ver, Torquil, ela tem uma famlia muito chegada e carinhosa. No a deixe afastar-se muito de casa, dessa forma ela poder desfrutar da sua nova
vida consigo e da segurana que as razes lhe concedem. - E depois acrescentou: - E, por favor, trate-me por Jake.
Quando Arthur, Helena e Hal chegaram, a sala de estar estava j animada com a conversa e os risos. Hal detivera-se junto ao Porsche, adorando o dono mesmo antes
de o conhecer.
- Uau, ele deve ser mesmo porreiro para ter um carro assim! - exclamou, apressando-se a entrar para o conhecer. Helena reparou de imediato nas semelhanas fsicas
entre Torquil e Ramon, mas tambm nas diferenas - o rosto de Torquil no possua o mesmo aspecto rude do de Ramon; era demasiado suave e polido. Contudo, no pde
seno abandonar as suas reservas perante tal magnificncia. Ele era no s alto e bem-parecido, como as suas roupas eram imaculadas, desde o casaco de caxemira aos
sapatos castanhos bem engraxados. Sentando-se ao lado de Federica perto da lareira, piscou o olho  filha em sinal de aprovao e ela irradiou de alegria.
Apenas as suspeitas de Arthur fervilhavam sob a superfcie da sua boa disposio.
Helena ficou ao lado de Torquil durante o jantar. Olhando-a nos seus ansiosos olhos, ele garantiu-lhe que desejava, acima de tudo no mundo, fazer a sua filha feliz.
- J estou a ver de quem  que a Federica herdou a beleza. A Helena e ela podiam quase ser irms - afirmou, observando as faces dela ruborizarem-se.

- Ela  muito vulnervel, Torquil, e eu diria demasiado jovem para casar - devolveu Helena, bebericando o vinho. - Mas o Torquil  mais
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velho e mais sensato e no tenho dvidas de que a far muito feliz. O que ela precisa  de segurana; algo que um homem mais jovem seria incapaz de lhe dar. Tenho
de admitir que quando ouvi falar de si pela primeira vez fiquei preocupada que fosse demasiado velho para ela e que o casamento fosse uma enorme precipitao. Porm,
agora que o conheo, percebo exactamente por que motivo ela no quer esperar. Porque haveriam de esperar se tm tanta certeza quanto aos vossos sentimentos? O casamento
 um jogo, por melhor que as pessoas se conheam. Mas eu acho que apostaria em vocs os dois.
- Torquil, davas uma volta de carro comigo depois do jantar? perguntou Hal, gritando por cima do barulho.
- Claro - respondeu Torquil. Depois aproveitou a oportunidade para fazer um pequeno discurso. - Queria apenas dizer que quando me apaixonei pela Fede nunca antecipei
apaixonar-me por toda a famlia dela, mas fiquei agradavelmente surpreendido. - Olhou em redor da mesa para todos os rostos iluminados e olhos brilhantes de toda
a gente e fez uma pausa, olhando para Federica, aparentemente sem quaisquer receios de mostrar a sua emoo. - Quero agradecer a todos por me fazerem sentir to
bem-vindo e pela Federica, pois sei que cada um de vs desempenhou um papel muito importante em torn-la o que ela hoje : a mulher que eu amo do fundo do corao.
Polly engoliu as lgrimas com um gole de vinho ao mesmo tempo que Helena sorria para Toby e este lhe acenava com a cabea num gesto de aprovao.
- Sabem, o Torquil acha que j aqui esteve antes - declarou Federica divertida.
- No, eu enganei-me, querida - respondeu  pressa. - Tive mas foi uma daquelas sensaes de dj vu.
Julian olhou para ele e franziu a testa.
- Na verdade, eu no tinha dito, Toby, que o nome Torquil Jensen me soava conhecido?
-  impossvel esquecer um nome como Torquil, no ? - gracejou Federica.
- bom, eu sei que nunca aqui estive antes - respondeu Torquil com cuidado -, pois, se tivesse estado, simplesmente no me teria ido embora.
Toby ergueu o copo com uma risada.
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- Muito bem dito, Torquil - aplaudiu. - Bem-vindo  famlia. Todos ergueram os seus copos. Apenas Arthur hesitou antes de levantar o seu para brindar ao convidado
como os restantes. No conseguia perceber ao certo porqu, mas havia qualquer coisa que no batia certo em relao a Torquil. Era demasiado perfeito.
No dia seguinte, Torquil e Federica foram convidados para almoar em Pickthistle Manor para que conhecesse os Appleby. Ingrid aprovou de imediato a escolha de Federica,
uma vez que Torquil no se encolheu ao ver a doninha ferida que coxeava com um ar de indiferena pelo vestbulo e fez festas aos ces com entusiasmo.

Inigo fechara-se no seu escritrio, tendo pedido que apenas fosse incomodado na improvvel circunstncia de um incndio, por isso Ingrid desculpou-se em nome dele
e conduziu os convidados  enorme sala de estar, onde a lareira ardia com fulgor sob uma prateleira de fogo poeirenta e cheia de curiosidades e um retrato pensativo
de Violet, a me de Ingrid.
Nuno apertou a mo do jovem e fungou circunspectamente, ao passo que Hester veio logo a correr, excitada, e Molly se fez de difcil, demorando-se no sof onde fazia
de conta que no reparava nele. Sam entrou na sala com um ar severo e beijou Federica no rosto antes de acenar com a cabea para Torquil com uma arrogncia que no
lhe ficava bem. Torquil disfarou a sua averso por trs de um sorriso amigvel e acenou de volta antes de se virar para conversar com Hester.
Sam no se deixou enganar. Detestou-o assim que lhe ps a vista em cima.
- No confio nele - sussurrou para Nuno. -  demasiado falinhas mansas. H-de haver um retrato dele com todas as suas imperfeies escondido algures num sto, de
certeza.
- Ah, um Dorian Grey, talvez. Ele  sem dvida belo - respondeu Nuno enquanto observava Ingrid, Hester e Molly desfrutarem do esplendor da perfeio fsica de Torquil.
- Meu Deus, so to simplrias! - desdenhou Sam. - Porque ser que as mulheres se deixam deslumbrar tanto pelas aparncias?  pattico.
Nuno mirou com cuidado o neto e franziu a testa com um ar conhecedor.
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- No estars por acaso um bocadito enciumado, meu rapaz? Sam abanou a cabea com convico e enfiou as mos nos bolsos.
-  claro que no. Ela  como uma irm para mim. Apenas me sinto protector - insistiu Sam, roendo-se ao ver Federica ser alvo da glria de Torquil.
- Est bem - suspirou Nuno com um sorriso. - "Oh, acautele-se, senhor do cime,  um monstro de olhos verdes que zomba da carne de que se alimenta."
- Otelo de Shakespeare - respondeu Sam com um tom indiferente.
- Mas eu garanto que no cobio a Fede para mim. Apenas detesto v-la cair nas mos erradas.
- No podes viver a vida das pessoas por elas, meu rapaz, elas tm de errar por elas mesmas e aprender. Todos temos.
- Eu sei, mas  difcil ficar de braos cruzados a v-lo acontecer admitiu Sam, tristemente.
- Nada neste mundo convenceria a Federica de que Torquil no  bem o que parece... Se  que, de facto, ele nos est a enganar. Mantm os teus pensamentos para ti
mesmo. Da honestidade nada mais resultar a no ser amargura.
Todo o almoo Sam observou Torquil a exibir-se enquanto as mulheres riam de admirao de cada piada e dito espirituoso que ele proferia. Uma vez ou duas, Torquil
cruzou o olhar com o do seu agressor, mas foi ele quem desviou o olhar primeiro.
"Ele sabe que eu o consigo ver  transparncia", pensou Sam para si mesmo. Federica reparou no silncio de Sam e sentiu o seu entusiasmo dissipar-se como se a desaprovao
do amigo lhe sugasse as energias. Depois de almoo decidiram todos ir dar um passeio.
- Vens connosco, Sam? - perguntou Federica, esperanosamente. Porm, Sam abanou a cabea.

- Tenho que fazer - respondeu ele. "Coisas melhores do que escutar as piadas imbecis do Torquil", pensou num tom amargo, e abandonou a sala de estar em direco
ao escritrio de Nuno.
O escritrio de Nuno tinha a vantagem de ficar situado num canto da casa. Uma metade do mesmo ficava voltada para o jardim, a outra metade para a parte da frente.
Sam foi-se colocar junto  janela a observar
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Torquil a brincar com os ces, que corriam pela relva em redor de Molly, Hester e Ingrid.
- Adoro ces, Ingrid - dizia Torquil, fazendo-lhes festas na cabea. - Estes dois so verdadeiramente especiais.
- Os amantes de ces so boas pessoas - respondeu ela. - Podemos sempre avaliar a verdadeira natureza de uma pessoa pela forma como lida com um co. - Envolveu-se
melhor no seu comprido casaco de l. - Se vo at s falsias, sugiro que pea um casaco emprestado, Torquil.
- No  preciso, obrigado, tenho um no carro. vou num instante busc-lo - declarou, deixando as raparigas a conversarem umas com as outras. Sam ficou a v-lo desaparecer
pela arcada e avanar at onde estacionara o carro. Deslocou-se para a outra janela do escritrio. Torquil caminhou pela gravilha na direco do seu Porsche, seguido
ansiosamente por Trofsky e Amadeus, que farejavam e saltitavam em redor dos ps dele. Para surpresa de Sam, Torquil tratou-os com impacincia.
- Raio dos ces. Pisguem-se! - resmungou, afastando Amadeus do caminho com o p. Amadeus encolheu-se momentaneamente at decidir que se tratava de um jogo e correr
de volta para Torquil. - Raios partam os animais! - continuou a resmungar, abrindo a bagageira e tirando o casaco. Trotsky ergueu as orelhas espantado e recuou,
deixando Amadeus a erguer-se nas patas traseiras e a pressionar as da frente, enlameadas, contra as imaculadas calas vincadas de Torquil. Este ficou furioso. Voltou
a praguejar e empurrou violentamente o spaniel para o cho. Voltas a fazer uma dessas e logo vs o que te acontece! - ameaou antes de regressar para junto das raparigas,
que o aguardavam ansiosamente.
Sam ficou junto  janela, estupefacto com o que acabara de testemunhar. Quis contar de imediato o sucedido a Federica, mas quem  que acreditaria em si? Sentou-se
na cadeira de pele de Nuno e ficou a ver o fogo a arder na lareira. "S por cima do meu cadver  que ele conduzir a Federica ao altar", pensou para si mesmo, mas
no fazia a mais pequena ideia de como iria deter Torquil.
CAPITULO TRINTA E TRS

Toda a gente adorara Torquil. Tomara Polperro como um conquistador vitorioso, ganhando o corao de todas as pessoas que conhecera, subjugando-as com o seu sorriso
perfeito e olhos perspicazes. Apenas Sam e Arthur no se deixaram conquistar, guardando as suas suspeitas para si mesmos, formando uma resistncia silenciosa, recusando-se
a serem enganados. Contudo, mais ningum parecera conseguir ver para alm do charme de Torquil. Nuno estivera demasiado absorto nas obras de Stendhal para reparar,
as mulheres demasiado impressionadas para sequer tentarem, e a famlia de Federica ficara to profundamente enamorada pelo encanto e simpatia de Torquil, que nem
dera a Arthur a oportunidade de exprimir a sua opinio. Restava apenas a ambos uma opo, mas Nuno acautelara Sam quanto a uma conversa franca com Federica. Sam
fervilhava numa irritao, sentindo-se impotente, enquanto Federica zumbia delirantemente em redor da rede de uma aranha muito astuta. Contudo, Arthur tinha menos
a perder - a enteada no gostara dele logo desde o incio.
Conseguiu encontrar uma altura adequada no domingo, enquanto Torquil ia conhecer a costa da Cornualha no barco de Toby, acompanhado de Jake, Hal ejulian. Federica
no quisera ir, preferindo passar algum tempo com a av na cozinha a preparar o almoo para impressionar o noivo. Helena estava sentada numa cadeira de baloio,
sob uma multido de barcos em miniatura suspensos, a beber um Bloody Mary e a discutir planos de casamento, enquanto a me e a filha se afadigavam em redor do forno
a preparar legumes e tarte de melao. Ao fim de algum tempo, Federica vagueou at  sala de estar onde encontrou Arthur sozinho a ler o jornal. Esboou um sorriso
simptico.
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- Como vo os cozinhados? - perguntou Arthur, dobrando o jornal e pousando-o no sof a seu lado.
Federica pairou em redor da porta, relutante em iniciar uma conversa com o padrasto.
- Vo bem - respondeu impassivelmente.
- No imagino que alguma vez tenhas de cozinhar depois de casada - disse Arthur e ficou a olhar para ela.
- Oh, continuarei a cozinhar, fi-lo toda a minha vida. - Depois olhou para o padrasto com a testa franzida e perguntou: - No gosta do Torquil, pois no?
Arthur suspirou e recostou-se nas almofadas.
- Receio no confiar nele, Fede - respondeu, continuando a fit-la com os seus perspicazes olhos castanhos.
Federica baixou os olhos e depois colocou desafiadoramente a mo na cintura.
- O que h para desconfiar?
-  demasiado cedo, Fede - argumentou ele. - S o conheces h poucos meses, porque tens de casar j? Qual  o problema de passarem primeiro algum tempo juntos? 
isso que me torna desconfiado.
- Amamo-nos um ao outro - insistiu ela num tom contrariado.
- E que sabes tu do amor, Fede? No tens experincia. Ele  o primeiro homem que te arrebata o corao.  bem-parecido, rico, encantador, que mais sabes acerca dele?
- No preciso de saber mais nada acerca dele. O Arthur e a minha me no so exactamente o eptome do casamento perfeito - retorquiu ela na defensiva.
Arthur cruzou os braos e soltou uma gargalhada.
- Temos os nossos problemas,  claro. O casamento no  uma tarte de melao, Fede. Estou preocupado porque gosto e me interesso por ti.
- No, no se interessa, s se preocupa com o Hal - redarguiu ela, impulsivamente, e depois desejou ter ficado calada. No porque no fosse verdade, mas porque era
uma resposta infantil e estava a esforar-se o mais que podia por se apresentar como uma adulta. - Seja como for - prosseguiu no mesmo tom desafiador -, por mais
que se esforce por encontrar defeitos no Torquil, asseguro-lhe de que no encontrar. Ele  perfeito.  isso que o incomoda.
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- No  verdade - respondeu Arthur, pacientemente. Queria perguntar-lhe o que  que Torquil, um homem urbano e sofisticado de trinta e oito anos, quereria de uma
rapariga provinciana de dezoito anos e pouco experiente, mas sabia que isso a magoaria. Ao invs disso, limitou-se a acrescentar que estava preocupado com a rapidez
do romance.
- Se o Torquil no tem nada a esconder, qual  o mal de esperarem mais alguns meses?  a pressa dele que me preocupa.
- A isso chama-se amor, Arthur - devolveu ela, sarcasticamente e revirou os olhos exasperada. - Olhe, no me apetece discutir mais isto. A minha me gosta dele.
Na verdade, toda a gente gosta dele, excepto o Arthur. E a verdade  que a sua opinio no me interessa - concluiu, virou-lhe as costas e foi-se embora.
Ao regressar  cozinha decidiu no falar do sucedido com a me ou com a av - no queria pensar em coisas negativas. Era a poca mais feliz da sua vida e no iria
permitir que o metedio do padrasto lha arruinasse. Ele nunca lhe agradara, desde o incio.
Quando os homens voltaram, encarnados do vento e da boa disposio, Torquil subiu ao andar de cima para mudar de roupa para o almoo. Federica andava de um lado
para o outro da cozinha, excitada, dando os toques finais nos pratos com o mesmo entusiasmo com que outrora o fizera para o pai. Toby e Julian estavam junto  lareira
a contar a Helena que um caranguejo gigante quase lanara Torquil borda fora.
- Ele no gostou nada do bicho, mas temos que dar a mo  palmatria, o Torquil  uma pessoa que sabe rir de si mesmo! - gracejou Toby.
Arthur vagueou at ao armrio das bebidas para tomar qualquer coisa forte antes do almoo. Chocalhou um cubo de gelo contra o copo antes de se servir de usque.
Olhou pelas portas duplas para o jardim de Inverno e sentiu um mau pressgio. A conversa com a enteada fora mais do que desastrosa. O almoo seria embaraoso. Desanimado,
abriu a porta e avanou para o terrao. Inspirou o ar frio e observou o seu hlito erguer-se sob a forma de vapor ao expirar. Depois, para seu espanto, escutou uma
voz na janela por cima de si. Recuando p ante p at  parede, escutou deliberadamente a conversa privada de Torquil ao telemvel, falando  janela para uma melhor
recepo. "... O casamento ser a ltima vez que me apanham nesta santa terrinha esquecida por Deus...
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Ela adora a cidade, acredita,  boa de mais para esta gentinha provinciana... Estou a salv-la de uma vida de ces e caranguejos e bem a tempo, podes acreditar.
Pobre rapariga, imagina s o que ser crescer aqui, no admira que esteja to grata por eu ir casar com ela... No comeces com isso outra vez, querida, j te disse,
amo-a do fundo do corao... Est bem, no  uma rapariga mundana como tu, mas  por isso que gosto dela.  pura e inocente, intocada. No quero as sobras de ningum...
Espera at a conheceres, ento compreenders... Tu no trabalhas nesse departamento, trabalhas na cave e  a que gosto de ti", riu guturalmente. " a que gostas
de estar... Escuta,  melhor eu desligar. Quanto mais depressa almoarmos, mais depressa poderemos sair daqui."
Arthur susteve a respirao com medo de ser escutado e esperou um momento antes de se atrever a abrir a porta e a voltar para dentro. Sentiu-se fisicamente nauseado,
mas pior que a nusea era a raiva que sentia, pois no tinha onde a descarregar. Ningum lhe daria ouvidos.

Fingindo uma dor de cabea, permaneceu em silncio durante todo o almoo enquanto Torquil fazia o papel do convidado perfeito, exprimindo o seu amor por Polperro
e pelo mar, forjando um lao falso com a famlia que, como Arthur bem sabia, ele desprezava. Observar Federica era como testemunhar um choque entre automveis em
cmara lenta. No havia nada que pudesse fazer para o impedir.
Enquanto Arthur e Sam ponderavam os efeitos da triunfante visita de Torquil, Federica mudou-se por completo para a luxuosa casa em The Little Boltons. Era uma casa
requintadssima, decorada por um dos melhores decoradores de Londres com tecidos dos mais caros e peas de arte.
- No acredito que vou viver aqui para sempre - comentou ela entusiasmada, lanando-se para cima da cama.
- E no s. Vais ter o meu nome e depois os meus filhos. Encheremos esta casa com o sapateado de pequenos ps - planeou ele, deitando-se ao lado dela e beijando-lhe
a testa.
- Oh, Torquil. Nunca fui to feliz - declarou Federica, segurando o rosto dele entre as mos. - s tudo o que alguma vez sonhei.
- E tu s um sonho tornado realidade. Toda a minha vida te procurei - afirmou ele, sorrindo para ela. -- s to boa, Fede. No te mereo. s amorosa e sensata. s
um anjo. Pura como o acar. No sei o que vs em mim. Sou to imperfeito!
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Federica olhou-o nos olhos e interrogou-se por que motivo Arthur no confiara nele; ele tinha a expresso mais honesta que alguma vez vira.
Mais tarde, quando admirou os roupeiros imaculadamente arrumados e cheios de fatos Chanel, sapatos Ferragamo, roupa informal Ralph Lauren, roupa interior La Perla
e joalharia Tiffany, reparou que fora Torquil quem lhe comprara tudo. Quando lhe perguntou onde estavam as suas antigas roupas, ele disse que dera tudo a Mrs. Hughes,
a governanta.
- A filha dela tem a tua idade e eles no tm muito dinheiro, querida. Para alm disso, agora que ests comigo sers diferente - explicou ele, abraando-a. - Vais
largar a tua antiga pele em conjunto com o teu antigo nome. Sers Mistress Torquil Jensen e quero que tenhas o melhor de tudo.
Embora tivesse apreciado que ele a consultasse antes de dar a sua roupa, no queria parecer ingrata. Respondeu simplesmente que ele era demasiado generoso e que
no merecia tanta ateno. A bvia alegria e aprovao dele fizeram desvanecer os seus receios e voltou a animar-se. No queria nada mais a no ser agradar-lhe.
Quando admirou a sua nova maturidade ao espelho, ficou assombrada com a distncia que percorrera desde aquela manh em Vina, h mais de dez anos, em que contemplara
o seu reflexo infantil com averso. Depois de tantas desiluses, merecia Torquil.
Ansiava por partilhar as suas novidades com o pai, mas ressentia-se do facto de ele h anos no dar notcias. Apesar da sua alegria, sentia-se desesperadamente desiludida.
Agora que tinha Torquil, j no procurava a felicidade por entre o tremeluzente esplendor da caixa da borboleta. No precisava de o fazer. As sombras do passado
haviam sido substitudas pela luminosidade da sua nova vida. J no precisava mais das suas memrias; ia construir recordaes novas com Torquil. Assim, colocou
a caixa no cimo de um armrio e fechou a porta.

Sam passara a noite anterior ao casamento de Federica na cadeira de pele de Nuno a reler O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas, a melhor histria de vingana
alguma vez escrita. Os madrugadores pssaros haviam-no acordado ao romper da aurora. Olhara em redor, espantado por ter conseguido dormir numa noite como aquela.
Esfregou os olhos cansados e contemplou o tnue nevoeiro matinal pela janela. O jardim
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estava envolto numa suave neblina de Vero como se fosse uma tenda de teias de aranha brilhantes. Uma frgil bruma que, na efemeridade da sua natureza, continha
a promessa de um magnfico dia de sol.
Para Sam o dia nada mais prometia que infelicidade.
Quando Nuno entrou no escritrio s oito da manh encontrou o neto a olhar melancolicamente pela janela.
- Gostaria de pensar que foi um dos meus tomos que te manteve acordado toda a noite - declarou, olhando de relance para o pesado livro que repousava no joelho de
Sam.
Sam virou-se lentamente e pestanejou para o av.
- Gostaria de trancar Torquil Jensen no Chateau dIf - murmurou.
- Ah! - suspirou Nuno, acenando com a cabea. - A jovem Federica casa-se hoje.
- Isso mesmo - respondeu Sam, tirando os culos e limpando-os  camisa.
- "O amor  a sabedoria dos loucos e a loucura dos sbios" - declarou Nuno e ergueu uma espessa sobrancelha.
- Nuno, hoje no tenho pacincia para isso, mas para satisfazer as exigncias do teu ego, direi que  William Cook, Life of Samuel Fooe.
- Moto bene, caro. Mesmo em alturas de grande desespero s capaz de manter a cabea no lugar e fazer a vontade a um velho.
- No estou apaixonado pela Fede, Nuno, j to tinha dito antes, apenas no quero v-la sofrer. - Depois acrescentou iradamente: Acho que no consigo ir  igreja.
Contemplar o amor-prprio daquele Torquil Jensen ainda  capaz de me levar a fazer alguma coisa de que mais tarde me arrependerei.
- Meu rapaz, se no consegues reconhecer que a tua ira  inflamada pelo cime, ento no s o homem pelo qual sempre te tomei. Se queres a minha opinio, tiveste
a admirao daquela gentil criatura durante anos e optaste por rejeit-la. Agora, recompe-te e aceita a derrota com honra. Sugiro uma tigela de papas de aveia e
uma chvena de ch, depois veste-te e vem  igreja connosco, de boa vontade. Estas coisas so enviadas para nos testar, e este talvez seja o teu maior teste at
 data. Suponho que queiras mostrar-te  altura dele.
Assim, Sam tomou o pequeno-almoo em silncio enquanto a tagarelice animada das irms e da me lhe exacerbava ainda mais os nervos
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e o empurrava cada vez mais para o fundo dos seus perturbados pensamentos. Joey regressou do jardim com um enorme sapo nas mos, explicando que o encontrara a afogar-se
na piscina. Quando Ingrid tentou tirar-lhe o animal das mos, o sapo pulou para o ar com a habilidade de um acrobata e prosseguiu aos pulos pela cozinha, defraudando
todas as tentativas encetadas para o apanhar.

- Ora, deixem-no - suspirou Ingrid penosamente, servindo-se de outra chvena de ch. - Ele acabar por encontrar o caminho de regresso ao seu charco sem a nossa
ajuda. Parece-me que o senhor Sapo  bem capaz de tomar conta de si mesmo!
Molly e Hester iam ser damas de honor.
- Quem me dera que fosse eu a casar com o Torquil Jensen, em vez de seguir cinco passos atrs da noiva - lamuriou-se Hester com inveja. - No acredito na sorte da
Fede.
- Logo a Fede, de todas as pessoas! - exclamou Molly, abanando a cabea de admirao por um homem como Torquil se ter logo apaixonado por uma rapariga como Federica,
tendo em conta que ela mesma era muito mais atraente e carismtica. "Devia ser eu", pensava para si mesma, ressentidamente.
''''- Ora, vejam se acordam! - vociferou Sam de repente, levantando-se da cadeira. Molly e Hester ficaram ambas a olh-lo confusas. Ser que nenhuma de vocs tem
inteligncia
suficiente para ver para alm do palminho de cara dele? No me surpreende que a Hester tenha sido ludibriada, mas Mol, sempre achei que fosses mais perceptiva. O
Torquil Jensen ficaria bem melhor numa dessas telenovelas americanas apalermadas. Qual era a que vocs costumavam ver? Dalas? Numa linguagem que ambas conseguem
entender, ele no  nenhum Bobby Ewing! - E com isso abandonou a cozinha.
As duas irms pestanejaram uma para a outra, estupefactas.
- Perdi alguma coisa? - perguntou Molly, pousando a sua caneca. Hester encolheu os ombros.
- Se perdeste, Mol, ento eu seguramente que tambm - respondeu, desconcertada. - O que  que Dlias tem a ver com o casamento da Fede?
- O Torquil Jensen pode ser muita coisa, mas no  um J.R. Fungou Molly zangada. - Como se atreve ele a acusar-me de falta de percepo. Raios o partam, sempre se
achou mais esperto que toda a gente.
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- Pode at ser mais inteligente que o Torquil, mas o Torquil ficou com a beleza toda - referiu Hester com uma risadinha.
-  isso obviamente que est a incomodar o Sam.  tudo uma questo de cabelo - riu com desdm. - O Sam est a perder o dele e o Torquil tem de sobra!

Sam estava constrangidamente sentado no banco da igreja, ignorando Joey que brincava em silncio com o senhor Sapo, tendo por fim forado a criatura a render-se
com a tigela do co. Observou o pretensioso perfil do noivo com uma averso silenciosa. Torquil sussurrou para o seu padrinho, as cabeas de ambos inclinadas como
um par de conspiradores. Incapaz de suportar o tormento que tal viso evocava, desviou o olhar para os arranjos de flores brancas e amarelas e para o outro lado
da igreja onde os distintos amigos de Torquil estavam sentados sob faustosos chapus, olhando circunspectamente em redor para o que lhes devia parecer um cenrio
assaz paroquial e provinciano. O reverendo Boyble afadigava-se de um lado para o outro com um ar importante, genuflectindo exageradamente de cada vez que passava
frente ao altar. Por fim, o pai de Torquil e a madrasta apareceram e entraram na igreja com grande cerimnia. Sam olhou para o enorme e elaborado chapu de Mrs.
Jensen, lembrou-se de um poema do autor humorstico Edward Lear, abanou a cabea ao pensar na futilidade de tudo aquilo e cruzou o seu olhar com o de Nuno. O av
sorriu de esguelha e rabiscou qualquer coisa num pedao de papel, depois passou-o a Lucien, que o passou a Ingrid, que se inclinou por cima do filho mais novo, absorto
com o sapo, e o entregou a Sam. Desdobrou o papel e riu em voz alta. Nuno lera os seus pensamentos, pois citara o mesmo poema: "E a Galinhola Dourada veio tambm,
e o Pobble que no tem dedos e o pequeno urso Olmpico e o Dong com o seu luminoso nariz... Todos vieram e fizeram as suas casas no lindo chapu de Quangle Wangle
Quee."
Buff Jensen estava sentado no banco mesmo por trs do filho. Era um homem grande com uma testa larga e cabelo preto, que comeava a rarear, penteado para trs com
laca para dar a impresso de que tinha mais do que na realidade exibia. Os olhos dele eram plidos e autoritrios, engastados numa pele lisa no marcada pelas habituais
linhas de expresso. Buff raramente sorria. Estava demasiado consciente da sua prpria
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importncia e da necessidade de a exibir. Torquil virou-se e sorriu para o pai, um sorriso que traa o seu triunfo bem como o seu genuno orgulho. Buff esperara
um melhor partido para o filho e abrir mo do controlo era algo que aceitaria com dificuldade. Contudo, esta pequena batalha fora ganha por Torquil. Cynthia via
apenas o orgulho no sorriso do enteado. Ia casar com a rapariga que amava, no havia dvida em relao a isso. Cynthia engraara bastante com esta pequena noiva.
Tivesse ela uma personalidade mais forte, talvez se tivesse sentido uma rival, mas Federica seria a nora perfeita - desde que se fechasse os olhos  provenincia
dela.
Aps uma breve pausa, a famlia de Federica avanou para os seus lugares com bem menos cerimnia que os Jensen. Helena usava um vestido cor-de-rosa com um pequeno
chapu redondo a condizer e Polly ia de encarnado - no haviam obviamente planeado as indumentrias em conjunto. Quando Helena vislumbrou o enorme chapu de Mrs.
Jensen franziu os lbios contrariada e desejou ter tido a coragem de trazer algo maior. Deu tambm por si a ansiar por Ramon - a presena pouco imponente de Arthur
no impressionava ningum. Quando os dedos hesitantes de Mrs. Hammond desceram sobre o teclado, a tagarelice foi reduzida a um expectante silncio e toda a gente
se levantou e olhou para trs para captar o primeiro vislumbre da noiva.
Federica deteve-se um pouco sob a abbada da entrada da igreja antes de penetrar na luz suave da nave. Sam foi subitamente consumido pelo arrependimento. Ficou imvel
como uma esttua, o seu estupefacto rosto exaurido de sangue, e sentiu as garras afiadas do amor cravarem-se mais fundo no seu corao. Era como se o mundo tivesse
parado em seu redor, apenas Federica avanava aos poucos para si com a expresso sublime de um anjo. Mal se atrevia a respirar. S quando o senhor Sapo se escapou
das mos de Joey e saltou para o banco de madeira por trs de si antes de pular para o corredor central,  que Sam foi acordado do seu transe e se apercebeu, com
grande desespero, que Federica no caminhava para si mas antes se afastava. Afastava-se para longe do seu alcance e s se podia culpar a si mesmo. As nuvens da sua
memria afastaram-se e vislumbrou os ternos beijos no celeiro, o rosto dourado dela na colina e quase sufocou de infelicidade e arrependimento.

Jake observou com orgulho o filho a conduzir Federica at ao altar e limpou uma lgrima ao recordar-se do casamento da filha a que no
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assistira. Helena arquejou, pois Federica deslizava no brao do tio como uma princesa com diamantes no cabelo e uma gargantilha de prolas e diamantes no pescoo.
O vestido cor de marfim tremeluzia sob a luz celestial que penetrava pelas janelas de vitrais, e a sua pele parecia brilhar com uma translucidez que no era deste
mundo. Helena pensou em Ramon at as lgrimas comearem a embaciar-lhe os olhos e a memria dele se tornar to forte que quase conseguia sentir o cheiro dele. Arthur
apertou-lhe a mo, o que a trouxe de volta  realidade do seu entediante casamento e as lgrimas comearam a tombar com mais abundncia.
Arthur tambm queria chorar - lgrimas de fria e frustrao, mas no podia, por isso deixou-se ficar sentado numa lgubre resignao, enquanto a enteada passava
por si para abraar o seu destino.
Ingrid suspirou, enlevada com a beleza da msica, e Inigo abandonou-se s vibraes positivas emanadas pela casa de Deus e tomou a mo da esposa na sua, recordando-se
do seu prprio casamento h tantos anos.
Nuno observava Sam. Compreendia o neto melhor do que este se compreendia a si mesmo. Viu a raiva na curva dos seus petulantes lbios e a mgoa por detrs dos seus
tempestuosos olhos cinzentos e quis dizer-lhe que quem espera sempre alcana.
Sam sentia-se como se estivesse a assistir a um enforcamento pblico; o sacrifcio dos inocentes. Observou Torquil com olhos de predador, estudando cada movimento
da sua presa, cada pestanejar. Havia qualquer coisa de sinistro no brilho dos sapatos dele, no casaco imaculado, na camisa hirta de goma, no relgio de ouro no fundo
da brilhante corrente, nas esmeraldas dos botes de punho. Nem sequer uma madeixa de cabelo lhe desobedecia e se extraviava para a testa. Sam contemplou Federica,
trmula e radiante, no vestido que Torquil escolhera para ela, nas jias que lhe oferecera - apenas o tmido sorriso continuava a ser seu, mas Torquil sorriu deslumbrado
para ela, preparado para se apoderar disso tambm.
Julian regressara ao seu lugar na ponta de um banco depois de ter tirado as fotografias fora da igreja. Colocou a mquina debaixo do banco e recostou-se para assistir
 cerimnia. Aps um momento, a sua ateno foi desviada por uma mulher de cabelo preto, sentada do outro lado da nave. Era magra e tinha um ar confiante, vestia
um vestido justo azul-plido e tinha as longas pernas traadas, tamborilando nelas o ritmo da
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msica com unhas compridas e bem arranjadas. Sentiu que estava a ser observada e olhou para ele por debaixo da larga aba do seu chapu. Quando reparou que era Julian,
sorriu. "Ainda tenho a tua camisa", disse sem voz. Julian arquejou ao recordar-se de repente de onde conhecia Torquil. Aquelas duas pessoas enfatuadas, que to arduamente
se esforara por esquecer, vinham agora  tona do seu pensamento. Contudo, era o dia do casamento de Federica, no era a altura ou o lugar para recordaes negativas.
Talvez Torquil tivesse amadurecido desde aquela poca. Esperava sinceramente que fosse esse o caso. Viu a aliana deslizar para o dedo de Federica e o reverendo
Boyble declarar o feliz casal marido e mulher. Ela agora pertencia-lhe. Abandonara a enseada em direco ao mar aberto.
Sam baixou os olhos derrotado e reparou no sapo que o observava expectantemente do cho. Inclinou-se e pegou na criatura com ambas as mos e segurou-a com firmeza.
"Agora s s tu e eu", disse num sussurro, abanando a cabea. Depois, ao observar a madrasta de Torquil a passar por si, mudou de ideias e largou o indolente sapo
no chapu dela e sorriu de orelha a orelha.
No fora capaz de deter o casamento, mas este pequeno acto de sabotagem concedia-lhe uma superficial sensao de prazer.
CAPTULO TRINTA E QUATRO
Sam regressou ao seu emprego desprovido de significado na City e Helena  aridez do seu casamento, mas para Federica a vida nunca mais seria a mesma.
Assim que regressou, bronzeada e feliz, da lua-de-mel, telefonou a Harriet e marcou um almoo. Enfiando-se no Mercedes num fato Gucci, indicou o endereo ao motorista
e depois recostou-se no banco e saboreou a boa vida. Os assentos eram de pele, o painel de instrumentos de madeira envernizada. Federica no aprendera a conduzir.
Torquil nunca a encorajara a faz-lo. Comprou-lhe um carro e contratou-lhe um motorista. "Quero que tenhas o melhor de tudo", explicara ele, "porque te amo e te
estimo." Fez deslizar o vidro para baixo e observou a escaldante e poeirenta cidade do conforto e frescura do seu carro. Sentia-se sofisticada e encantadora e a
sua boa disposio flutuava no ar doce do seu dispendioso perfume. Endireitou um enorme anel de esmeralda com que Torquil a presenteara e sorriu para si mesma com
cuidado para no esborratar o batom. Era Mrs. Torquil Jensen. Para Federica, o som de tal nome possua uma ressonncia gloriosa e sussurrou-o para si mesma algumas
vezes, "Mrs. Torquil Jensen, Mrs. Torquil Jensen". O quanto se afastara do seu incerto comeo em Polperro.
A lua-de-mel fora idlica. Haviam passado uma semana em frica, num safari, uma semana na costa e as ltimas duas semanas na Tailndia. Tinham ficado nos hotis
mais prestigiados, contratado os melhores guias e viajado sempre em primeira classe. Federica ficara encantada com tudo o que via e Torquil adorara v-la absorver
experincia nova atrs de experincia nova como um orgulhoso pai. No entanto, acima de
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tudo, ela desfrutara dos momentos a ss que haviam passado juntos como marido e mulher, quando ele fizera amor com ela no calor hmido da selva africana e nos quartos
perfumados com jasmim na Tailndia. A, ele ensinara-lhe a escutar o chamamento da sua prpria sensualidade e a abandonar-se a ele. A perder-se no prazer das carcias
sem inibio ou culpa. Quando tivera dificuldades em libertar-se da timidez, ele atara-a s colunas da cama, para que ela no tivesse outra escolha a no ser ceder
aos seus sentidos e navegar sem constrangimentos nas ondas dos seus afagos. A princpio, ficara escandalizada com a ideia, ele nunca antes sugerira nada assim. Porm,
Torquil rira da inexperincia dela e com a adequada persuaso, ela concordara em experimentar desde que fosse feito com amor. Corava agora ao recordar-se desses
momentos, embora secretamente se sentisse orgulhosa da sua nova mundanidade.

O carro parou frente s portas dos enormes armazns Saint John Smithe. O porteiro apressou-se a descer os degraus para a ajudar a sair do carro.
- Ah, Mistress Jensen - disse ele, surpreendido. - bom dia acrescentou num tom de reverncia e acenando com a cabea.
- Obrigada, Peter - respondeu ela enquanto o porteiro fechava a porta do carro. Ele no comentou o seu regresso ou fez qualquer piada sobre como subira na vida.
Era demasiado bem-educado. Agora que ela era Mrs. Torquil Jensen, uma parede invisvel erguera-se entre eles. Federica Campione pertencia ao outro lado desse muro.
Quando Harriet viu Federica mal reconheceu a amiga. Estava deslumbrantemente bronzeada e o seu plido cabelo fora ainda mais descolorado pelo sol. Estava to elegante
que Harriet teve de suprimir um ataque de inveja.
- Minha querida, ests fantstica. O casamento obviamente que te fez bem - exclamou, abraando-a.
- Adoro estar casada - respondeu Federica deliciada, apertando as mos uma na outra como uma criana com um brinquedo novo. - Estou felicssima.
- No consigo acreditar que partilhas todas as noites a mesma cama com o Torquil. Odeio-te - gracejou Harriet, brincando com o colar de prolas em redor do pescoo.
Depois abanou a cabea e acrescentou num tom mais srio: - J que eu no o consegui caar, minha querida, fico feliz que estejas com algum que eu conheo e adoro.
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- Por favor, no vs para freira! - brincou Federica, dando-lhe a mo. - Tu gostavas mesmo dele, no era?
Harriet acenou tristemente, mas sorriu apesar do seu desapontamento.
- Sim, gostava - admitiu. - Sempre fiz a coisa parecer uma brincadeira, mas...
- Muitas coisas srias se dizem a brincar - interrompeu Federica.
- Nem mais.
- Ento, podes sair para um almoo rpido? - perguntou. Harriet olhou em redor, furtivamente.
- Ters de pedir. A Greta anda ressabiada com o teu casamento sussurrou, olhando de relance para a porta fechada do gabinete de Greta. - vou adorar observar este
confronto.
- Ningum vai apreci-lo mais do que eu - contraps Federica e sorriu, preparando-se para devolver por inteiro a crueldade com que a chefe a tratara durante o breve
tempo que trabalhara como vendedora.
- Vai avis-la que estou aqui - pediu e ficou a ver Harriet atravessar a seco com passos seguros at ao gabinete de Greta.
Federica olhou em redor para o seu antigo local de trabalho, que era agora, na realidade, o negcio da sua famlia. Sentiu uma profunda sensao de satisfao e
poder e resolveu us-la para humilhar Greta. Contudo, quando Greta apareceu, Federica perdeu a vontade de a magoar. Era demasiado fcil e, para alm disso, tinha
j ganho. Recordou-se de repente de um dos ditados preferidos de Nuno, "c se fazem, c se pagam" - no lhe cabia a si exercer vingana.

Greta engoliu com dificuldade e sorriu apenas com os lbios, deixando que os olhos trassem o seu desconforto. O seu plido rosto exibia a infelicidade que sentia
em cada linha de expresso. J no tinha o poder de a intimidar.
- Parabns, Federica - disse Greta, constrangida.
- Obrigada.
- Mister Jensen disse que o casamento foi magnfico.
- Foi mesmo - respondeu Federica, reparando no esforo que Greta estava a fazer para soar animada, uma caracterstica to pouco natural nela quanto a benevolncia.
- Gostaria de levar a Harriet a almoar comigo, Greta, no se importa que ela demore mais que uma hora, pois no?
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Greta franziu os lbios e abanou a cabea.
-  claro que no. - Depois soltou uma risada constrangida e acrescentou: - A Federica  que manda.
Federica levou Harriet a almoar ao Oriel, em Sloane Square. Riram do confronto entre Federica e Greta e da sua sbita mudana de estatuto.
- Estou a adorar - admitiu Federica. - Sinto-me como uma Cinderela dos tempos modernos. Sabes, ele  do mais generoso que h. Posso ter tudo o que quiser. Costumava
sonhar ser rica.
- Ento, o que vais fazer esta tarde? - perguntou Harriet.
- No sei. Terei de conversar sobre isso com o Torquil. Entendo que no posso trabalhar na loja da famlia, que seria absurdo, mas gostava de me ocupar de alguma
forma. Gostava muito de fazer alguma coisa relacionada com a fotografia. O Julian ensinou-me o bsico, talvez pudesse fazer um curso mais avanado e depois transformar
isso numa profisso.
- Isso seria maravilhoso. Sempre quiseste ser fotgrafa - entusiasmou-a Harriet.
- Uma vez, a minha me disse-me que teria de ganhar dinheiro antes de me lanar numa carreira assim. bom, agora tenho mais dinheiro do que alguma vez sonhei, posso
fazer o que quiser. - Riu e piscou o olho  amiga, que sorriu de volta com um pouco de inveja.
- Minha querida, s uma sortuda - suspirou Harriet. - Mas ningum o merece mais do que tu.
Nessa tarde, quando Torquil regressou do trabalho, tiveram a primeira discusso sria.
- Agora que regressmos da nossa viagem de npcias, Torquil, gostava de me dedicar a alguma coisa. Gostava de trabalhar - disse Federica, acomodando-se no sof do
escritrio dele.
Torquil avanou at  mesa das bebidas e serviu-se de um usque.
- Queres uma bebida? Uma taa de vinho, talvez? - perguntou.
- Diz-se que uma taa de vinho tinto por dia faz uma senhora brilhar. No que j no estejas a brilhar.
Federica riu.
- Aceito o vinho, obrigada - respondeu ela.
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Ele estendeu-lhe o copo e sentou-se no cadeiro, repousando um dos ps no tamborete.
- Porque queres trabalhar, querida?
- bom, alguma coisa tenho de fazer - argumentou, provando o vinho. -  delicioso, querido.
-  parte do presente de casamento do Arthur - explicou Torquil.
- O teu padrasto tem muito bom gosto.

- Apenas em algumas coisas - contraps ela com secura. - Noutras no tem gosto absolutamente nenhum, acredita.
- Agora s uma mulher rica, Fede, no precisas de trabalhar - disse ele num tom srio.
- Pois, mas ser um grande tdio se no fizer nada - explicou ela. - No  pelo dinheiro. Tu s mais do que generoso e eu estou-te muito grata por isso.  apenas
para preencher o dia, para ter um motivo para me levantar todas as manhs.
- Amar-me no  razo suficiente para te levantares de manh? gracejou Torquil.
- Sabes o que quero dizer - insistiu ela.
- Em breve no ters mos a medir com os bebs - disse ele
e sorriu ternamente.
- Talvez - respondeu, esperando que Deus a preservasse disso pelo menos durante mais alguns anos. - Mas, digamos que no engravido to depressa, seguramente que
no querers que me arraste aqui por casa sem fazer nada.
- Querida - contraps ele num tom firme -, tens uma casa linda, roupas lindas, um marido que beija o cho que pisas, que mais podes querer? - Franziu a testa e Federica
sentiu-se de imediato culpada por querer mais que isso.
- bom - murmurou, sentindo de repente uma desconfortvel sensao de incerteza apertar-lhe o corao -, o Julian deu-me lies de fotografia quando eu era mida,
se no queres que eu trabalhe, talvez possa frequentar um curso?
- Se tens mesmo de fazer alguma coisa - concedeu ele com relutncia -, um curso ser a nica opo. No permito que a minha esposa trabalhe.
- Obrigada - respondeu ela mais satisfeita, aliviada por a discusso estar a chegar a um final produtivo.
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- Mas fotografia, no - acrescentou ele, resolutamente.
- Porque no? - perguntou ela, espantada.
Ele no estava a brincar, mas antes a olh-la nos olhos e muito a srio.
- Arranjo um professor para te ensinar o que quiseres. - Olhou em redor do escritrio. - Literatura. Sim, podes fazer um curso de literatura.
- Literatura? - devolveu ela, desanimada. - A literatura no me interessa nem um pouco.
- No, eu gostava que tirasses literatura - insistiu ele, encaminhando-se para as estantes e tirando um livro. - Nunca li nenhum destes. Gostaria que tu os lesses.
- Torquil - protestou ela pouco firmemente.
- No, insisto - declarou ele. - Se queres fazer um curso, literatura  o nico aceitvel.
- Muito bem, estudarei literatura - concedeu ela pouco convicta. Preferia fazer isso do que nada.
- Ento, est decidido - afirmou ele, esvaziando o copo. - Agora, amor da minha vida, chega aqui e d-me um beijo. Detestaria ficar a pensar que tivemos uma discusso.

Quando Federica se meteu na gua perfumada do banho, reflectiu na conversa que haviam tido. Sentia-se apreensiva. Mas ao invs de tentar examinar os motivos da sua
inquietao, arranjou desculpas para a relutncia do marido em deix-la escolher um curso de que gostasse. " porque me ama e apenas quer o melhor para mim", pensou
para si mesma ao mesmo tempo que as bolhas se dissolviam com o sabonete. "A fotografia pode esperar, resolveu ela e decidiu abordar o assunto novamente numa outra
ocasio, quando se sentisse mais segura no seu casamento.
Mais tarde, quando Torquil a envolveu num enorme toalho branco e fez amor com ela, qualquer dvida que pudesse ainda restar desvaneceu-se e tudo o que restou foi
uma devoo incondicional e um forte desejo de fazer tudo para lhe agradar.
Nessa noite, aperaltou-se e tomou parte do primeiro de muitos e interminveis jantares e festas. Conheceu rostos novos, esforou-se ao mximo por se recordar do
nome de toda a gente e rapidamente aprendeu
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a tagarelice social, conversas que diziam muito sem dizer nada de nada. Torquil assegurava-se sempre de que ela era a mulher mais bem vestida da sala e sorria de
orgulho sempre que ela era elogiada. Contudo, ficaria incandescente de raiva se achasse que ela estava a conversar demasiado tempo com outros homens e proibia-a
de danar com qualquer outra pessoa que no ele, explicando que era humilhante ter de ver outro homem esfregar-se contra a sua esposa.
Assim, Federica tinha sempre o cuidado de no pisar o risco. Sabia instintivamente quando ele estava a observ-la e modificava o seu comportamento. Se visse o rosto
dele toldar-se de cimes, avanava na direco dele e dava-lhe o brao, permanecendo ao lado do marido como um bonito apndice. Quando os seus instintos se rebelavam
contra as ordens dele, dizia a si mesma que ele era de outra gerao e alterava a sua conduta para no o contrariar.
- Toda a gente te adora, Fede - comentou Torquil enquanto se acomodavam no banco traseiro do carro no regresso de uma de muitas festas. Federica sorriu de prazer.
- Sinto-me to orgulhoso de ti acrescentou, afagando-lhe a face. - s linda e serena. Pelo menos umas dez pessoas vieram dizer-me hoje o quanto sou um afortunado
por te ter encontrado.
- No, a afortunada sou eu por te ter encontrado - respondeu ela, pegando-lhe na mo e beijando-lhe os dedos.
Torquil olhou-a por um longo momento, como se procurasse alguma coisa nas feies dela.
- s mesmo, querida? - disse ele, abanando a cabea. - No sei se sers.
Federica franziu a testa e dissipou o estranho comentrio com uma gargalhada. Torquil reparou na ansiedade dela e no esforo para a dissimular. Para sua surpresa,
isso concedeu-lhe uma estranha sensao de satisfao. Porm, foi incapaz de interpretar estes novos sentimentos ou de compreender por que os sentia. Era demasiado
insensvel para perceber que estava a comear a ressentir-se da mulher por todas as razes que o haviam levado a casar com ela. A pureza de Federica comeava a irrit-lo,
a sua perfeio a exasper-lo. Ela fazia-o sentir-se inadequado. No conseguia evitar no a rebaixar, como se, derrubando-a do seu pedestal de mrmore, pudesse elevar-se
a si mesmo.
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Num esforo para exercer mais controlo, Torquil anunciou que no aprovava a amizade de Federica com Harriet.

- Ela no  sofisticada o suficiente para ti, meu amor. s demasiado inteligente para desperdiares os teus afectos com uma pessoa do calibre dela. J no te movimentas
nesse mundo, os teus amigos tm de mudar tambm. Tenho uma pessoa em mente de quem irs sem dvida gostar - declarou num tom animado. - Lcia Sarafina.
Lcia estava mais do que satisfeita por poder ser til.
- Tornar-me-ei amiga da tua mulher se arranjares tempo para me ver - regateou ela num tom coquete quando ele lhe telefonou.
Torquil gostava das atenes dela.
- Ela precisa de se dar com mulheres como tu - disse. -  demasiado branca de neve.
- Compreendo o que queres dizer - concordou Lcia, deliciada com a ideia de que a devoo dele pela mulher pudesse estar a desvanecer-se. - Mas ela  jovem. Logo
crescer.
- com a tua ajuda, maestra, espero que sim.
- Deixa isso comigo, querido. Depois quero que me agradeas em pessoa, capisci?
- Capisco. - Soltou uma gargalhada. - s uma velhaca. - Depois soltou um profundo suspiro que se escapou da sua garganta como um gemido. - Senti mesmo a tua falta.
- No precisas de sentir a minha falta - murmurou ela. - Sabes onde encontrar-me.
- No perdes por esperar - respondeu ele -, mas entretanto tens uma misso a cumprir.
Federica fez um grande esforo para gostar de Lcia. Tinha de o fazer para agradar ao marido. Lcia convidou-a a ir ao Harrys Bar onde ficaram na melhor mesa, no
canto mais afastado do restaurante.
- Todos os homens nesta sala iro directamente para casa depois do almoo e faro amor com as mulheres - comentou Lcia num suave sotaque italiano, ao mesmo tempo
que Federica se sentava. - Como podes ver, esto todos a olhar para mim. Eu fao-os sentirem-se libidinosos. Suspirou e humedeceu os lbios, pintados com um batom
encarnado-vivo, com a ponta da lngua. - Provavelmente no te recordas de me ter conhecido no casamento. Tiveste de ser apresentada a tanta gente nova!
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-  claro que me lembro de te conhecer - disse Federica, diplomaticamente. - s a amiga mais chegada do Torquil.
-J nos conhecemos h muito tempo - referiu ela num tom anelante.
- Como  que se conheceram?
- Em Itlia. Eu estava a viver em Roma e o Torquil deslocou-se l para o casamento de um amigo mtuo, Demo-nos bem de imediato contou ela, alisando as cutculas
das unhas com o dedo e recordando uma das ocasies em que haviam feito amor numa das salas do palato.
- Quando  que te mudaste para Londres?
- Pouco tempo depois - respondeu. - Ah, o cardpio. Vamos escolher e depois logo coscuvilhamos  sria. Um Boody Mary para mim, por favor, e a minha convidada tomar...?
- olhou para Federica e ergueu uma sobrancelha negra.
- Uma gua mineral, se faz favor - respondeu Federica e sorriu graciosamente para o empregado.
- No sabes como fico satisfeita por ver o Torquil to feliz e radiante - continuou Lcia.
Federica sorriu.
- Ficou contente por saber que o fao feliz. Ele fez-me mais feliz do que alguma vez julguei possvel.

- Oh, ele  de facto um homem invulgar - concordou Lcia. Nunca conheci um homem to devotado  mulher. s to pura e inocente.  isso mesmo que ele adora em ti.
Nunca percas essa qualidade - acrescentou melifluamente. - Tens muita sorte. Ele j esteve apaixonado muitas vezes, mas nunca amou da forma que te ama.
- Como assim?
- bom... - ponderou Lcia, brincando com uma madeixa de cabelo preto que lhe pendia sobre o ombro como a cauda de um rato anafado. - Ele sempre quis casar com algum
inocente. Algum imaculado, inexperiente nas coisas do mundo. Exactamente como tu. Namorou muitas mulheres sofisticadas, mas queria que a sua esposa fosse o oposto,
que nunca tivesse sido tocada por ningum.  esse o teu ponto forte.
- Estou a ver - acenou Federica, combatendo o seu mal-estar. Apercebendo-se do desconforto dela, Lcia colocou a mo por cima da dela.
- No digo isto como uma crtica - apressou-se a acrescentar. Ele venera-te, querida. Nunca conheceu ningum to perfeito quanto tu.
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Adora-te. Estou apenas a dar-te um conselho, de mulher para mulher.  preciso ser-se esperta neste mundo para conseguir manter um homem.  preciso perceber ao certo
o que eles gostam em ns e nunca perdermos isso de vista.
- No posso ficar jovem e inocente para sempre - protestou Federica com humildade.
- Claro que podes - contraps Lcia, acenando com a cabea e piscando o olho. Quanto mais "branca de neve" Federica fosse, mais Torquil ansiaria pela morena sofisticao
da sua amante italiana. - Podes ser tudo o que quiseres ser.
Federica encolheu os ombros e esboou um pequeno sorriso. Lcia deixara-a a sentir-se desconfortvel. Comeava a ficar farta que lhe dissessem como era anglica
e perfeita. Ningum conseguia viver  altura de tal imagem.
- Adorava estar casada com um homem como o Torquil - suspirou Lcia, empurrando a salada com o garfo com uma expresso sonhadora. - Nada escapa ao seu controlo.
Adoro isso.  algo incrivelmente romntico. E to pouco habitual num homem ingls! Os italianos assumem sempre o controlo e isso faz as mulheres sentirem-se muito
femininas.
- Sim, embora, por vezes, seja bom ser independente - argumentou Federica, recordando-se da discusso que haviam tido sobre ela trabalhar e encolhendo-se interiormente.
- No sejas palerma, Fede, tens ali uma pedra preciosa, desfruta dela - contraps Lcia num tom srio. - Milhes de mulheres matariam para deixar os seus empregos,
para terem as suas caticas vidas organizadas por um homem carinhoso. No sabes a sorte que tens.
- Oh, sei, sim - respondeu Federica de imediato -, mas por vezes  um pouco esmagador.
-  a maneira dele de demonstrar que te ama. Habituar-te-s e depois acaba por se tornar natural. No te esqueas que ele tem sempre em conta os teus interesses,
sempre. Cada escolha ou deciso que toma por ti  para o teu bem. Meu Deus, ele tem o qu... mais vinte anos que tu? - Federica acenou que sim com a cabea. - Ou
seja, mais vinte anos de experincia que tu. Se eu fosse a ti, recostava-me e apreciava a viagem.

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Federica aceitou o conselho dela. Parou de se encontrar com Harriet e evitava ir  Saint John Smithe para no se cruzar com ela. Estudava literatura uma vez por
semana com um antigo professor de Cambridge, chamado Dr. Lionel Swanborough, que usava sempre um fato de trs peas e um chapu de feltro colocado meio de esguelha
sobre a sua estreita cabea. Ficou ao mesmo tempo impressionado com a biblioteca de Torquil e pouco impressionado com a falta de conhecimentos de Federica.
- Raramente leio - confessou ela. Ele deu-lhe Ana Karenina e insistiu para que lesse o livro inteiro numa semana.
- No se preocupe, minha querida, assim que virar as primeiras pginas, as restantes oitocentas e cinquenta e duas virar-se-o por si mesmas. - Tinha razo. Depois
de analisarem Ana Karenina avanaram para A Feira das Vaidades, FLama e O Rei Lear. A sua ansiedade pelo conhecimento advinha do tdio da vida quotidiana como mulher
de Torquil e imergia nos seus estudos para no reparar no mundo do lado de fora da sua gaiola de ouro e ansiar por ele.
Uma cinzenta tarde, Torquil regressou a casa e escutou mais uma vez o chilreio da mulher a ecoar alegremente pelas divises da casa enquanto tentava preencher as
horas vazias com longas conversas telefnicas com a me e Toby. Sentiu a irritao trepar-lhe pelo pescoo sob a forma de pequenas picadas desconfortveis, que se
comeavam a tornar to familiares quanto a exasperante sensao de inadequao que experimentava quando confrontado com a virtude e graa naturais da esposa. Franziu
os lbios de impacincia e avanou at  sala de estar, deixando a pasta e o casaco num monte em cima de uma cadeira no vestbulo. Quando Federica o viu na soleira
da porta com um ar zangado, pousou apressadamente o telefone e engoliu em seco de ansiedade, sentindo o estmago contorcer-se.
- Que se passa? - perguntou ela, esperando que no tivesse nada a ver consigo. No breve momento que passou enquanto Torquil tentava digerir o cime que sentia, Federica
ps-se a recordar de imediato a noite anterior, numa tentativa de se lembrar de alguma coisa que pudesse ter dito a algum e que tivesse inflamado a ira dele.
- Estou fartinho de chegar a casa todas as tardes e te encontrar ao telefone - refilou ele por fim.
Federica respirou de alvio.
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- Peo desculpa - murmurou ela. Contudo, Torquil no ficou satisfeito. Avanou at junto da lareira e deteve-se frente a ela com as mos na anca. Abanou a cabea.
- Estou ausente o dia todo a trabalhar, quando venho para casa quero toda a tua ateno. Tens horas para te divertires quando eu nao estou c, porque insistes em
telefonar  tua famlia no preciso momento em que eu chego?
- No o fao de propsito - argumentou ela.
- Talvez no - concedeu ele. Federica retesou-se. Torquil parecia muitas vezes recuar antes de desferir um golpe mais duro. - Querida - prosseguiu ele com cuidado
-, comeo a achar que j no tens idade para continuar to ligada  tua me e ao teu tio. J ia sendo tempo de me dedicares todas as tuas energias.

- Que queres dizer com isso? - perguntou, espantada. Torquil sentou-se ao lado dela no sof e afagou-lhe o cabelo com ternura. Quando Federica olhou para o rosto
dele, a sua expresso suavizara-se e sorria para ela. Suspirou por fim.
- Sou um velho ciumento, querida - explicou submissamente- Sou culpado de te amar de mais. - Federica ficou desarmada com a sbita mudana de atitude.
- No faz mal, Torquil, eu compreendo - respondeu ela num tom compreensivo.
- Sinto a tua falta todo o dia, quando chego a casa e te encontro ao telefone com a tua me, sinto uma raiva a fervilhar dentro de mim- No consigo control-la.
- Depois soltou uma gargalhada acanhada.  assim to mau?
Federica aninhou a cara na mo dele, que agora lhe acariciava a face.
-  claro que no - garantiu ela e sorriu, uma vez mais derrotada pelo encanto dele. - No o voltarei a fazer, prometo.
Torquil abraou-a e beijou-a nos lbios com uma intensidade que demonstrava a sua gratido.
- s demasiado boa para mim, minha pequenina. Nenhuma outra mulher me compreenderia como tu.
Federica riu e acariciou-lhe o rosto com os olhos gentis de uma me carinhosa.
- Tambm nenhum homem me compreenderia como tu.
- Fomos feitos um para o outro - sussurrou ele. - s feliz, no s, querida? Quero muito que sejas feliz.
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-  claro que sou.
- Ests a gostar do teu curso?
- Estou a adorar - respondeu ela, obedientemente.
- Ests a ver - animou-se ele. - Sei o que  bom para ti melhor do que tu mesma.
Embora Federica tivesse feito como o marido lhe pedira e telefonasse  famlia quando ele estava no trabalho, Torquil parecia saber exactamente quando as chamadas
eram feitas e quanto tempo duravam. com os seus modos melfluos, conseguiu convenc-la a limit-las a uma vez por semana. Molly e Hester levaram o mesmo caminho
que Harriet. Embora tenham resistido a todo o custo, no final, Federica afastou-se delas. Teve de o fazer.
- s demasiado sofisticada para estas pessoas provincianas, querida - argumentou Torquil. - Um dia ainda me hs-de agradecer.
No incio iam regularmente a Polperro, mas, aos poucos, as visitas tornaram-se menos frequentes, at quase deixarem de ir.
Federica sentia que perdia o seu poder negocial, pois de cada vez que fazia planos, Torquil levava-a a Paris ou a Madrid ou a Roma.
- Querida, j quase no te vemos - lamentou Toby um dia em que Federica conseguiu telefonar-lhe de um telefone pblico no Harrods.
- Eu sei, ando desejosa de ir a Polperro, e o Torquil tambm mentiu -, mas ele tem viajado tanto ultimamente, abrindo novas sucursais no estrangeiro, por isso passamos
a maior parte dos fins-de-semana por aqui.

- Sei que no devemos preocupar-nos,  costume dizer-se que os recm-casados desaparecem por algum tempo. Isso quer obviamente dizer que ests feliz. No precisas
da tua casa como costumavas precisar.
O corao de Federica ansiava por Polperro. Precisava da sua casa mais do que nunca, mas mal o conseguia admitir, ainda que para si mesma.
- Sou feliz - insistiu ela.
- Ento, ns ficamos felizes por tu estares feliz. Se tivesses saudades de casa a toda a hora, isso significaria, sem dvida, de que havia alguma coisa de errado
com o teu casamento.
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- Quanto a isso podes ficar descansado, asseguro-te. Ele  maravilhoso. Todas as manhs, quando acordo, mal acredito na bno de estar casada com uma pessoa to
deslumbrante. No o mereo - riu Federica.
- Mereces sim, querida.
- No. Ele faz tudo por mim. No tenho uma nica preocupao neste mundo. Mistress Hughes cuida da casa, na verdade fica at zangada se eu mudar sequer uma moldura.
 um bocadinho territorial, mas cuidou dele durante tanto tempo que nem  de admirar. Sabe do que ele gosta melhor do que eu.
- Duvido. No  casada com ele.
- No  isso que ela pensa! - gracejou Federica. - Eu no devia queixar-me. Vivo numa casa magnfica. A maioria dos homens no compra roupas e jias caras s mulheres.
O Torquil estraga-me com mimos. Corro um srio risco de me tornar uma princesa mimada.
- Fede, nada poderia alguma vez transformar-te em tal coisa. s uma menina muito doce e ele tem uma sorte dos diabos em ter-te encontrado. Pelo que me contas, a
tua vida parece perfeita!
- E . Tenho muitas saudades vossas - disse ela, ternamente, e Toby captou uma certa tenso na voz dela, como se estivesse a reprimir um grito de ajuda. - Tenho
saudades de Polperro e do mar, de passear pelas falsias com o Rasta. Oh, tambm sinto a falta do Rasta, como est ele? - inquiriu, tentando soar animada.
- Sente a tua falta. Ns mimamo-lo muito para compensar a tua ausncia, mas ele, mesmo assim, olha-me com aqueles enormes olhos tristes como que a perguntar-me onde
ests.
- No me contes isso que fico aqui a roer-me - lamentou-se ela
- O Torquil no me deixa ter um co aqui em Londres porque no quer plo de co por toda a casa. Tendo em conta que mal est em casa, surpreender-me-ia se reparasse
nisso. Mas ele  muito orgulhoso da sua casa.  meticuloso com tudo.
- Reparei nisso. Veste-se como um duque - comentou Toby, entusiasticamente, mas sentiu um formigueiro estranho e desconfortvel na nuca.
- Nem me fales da roupa dele - suspirou Federica num tom melodramtico. - Fica intratvel se Mistress Hughes deixar algum vinco nas camisas ou no engomar as calas
como ele acha que deve ser. Ainda
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bem que ele no perde a calma daquela forma com a esposa. bom, na verdade at perde, quando fica com cimes, mas a Lcia diz-me que  apenas a forma dele de demonstrar
que me ama. Se ele no fosse minimamente ciumento, sentir-me-ia bem negligenciada.

- J no cozinhas? - perguntou Toby, recordando-se do quanto ela gostara de cuidar dele e do Julian durante todos os anos em que haviam vivido juntos.
- No, no cozinho desde que me casei.  Mistress Hughes quem cozinha ou ento samos para jantar. Como vs, estou mimadssima.
Toby no se atreveu a perguntar se ela ainda colocava flores nas jarras, perfumava os lenis com lavanda e enchia a casa de msica, pois j sabia qual seria a resposta
e no suportava escut-la.
- bom, desde que ele te faa feliz - concedeu por fim. Porm, quando pousou o telefone foi acometido por novas dvidas, incapaz de reconciliar o Torqul que haviam
conhecido antes do casamento com o Torquil que Federica acabara de descrever. Alguma coisa no batia certo.
Contudo, Federica estava feliz - ou pelo menos acreditava que sim. Amava o marido do fundo do corao e modificara os seus gostos e os seus desejos para lhe agradar
sem sequer se dar conta disso. Torquil no lhe negava mais nada a no ser a liberdade, que, nos ocasionais momentos em que a possesso dele ameaava sufoc-la, ela
tratava de justificar como uma expresso da devoo dele, acabando por perdoar-lhe. Raramente questionava os motivos dele ou as suas aces. Torquil era seu marido,
escolhera-o, por isso lidava com quaisquer sentimentos de frustrao que pudesse ter, pois no sabia que outra coisa fazer. Estava determinada em fazer com que o
seu casamento resultasse. Acima de tudo, precisava dele. Torquil dava-lhe segurana e amor, e ela sacrificava de livre vontade a sua liberdade por isso.
Incapaz de transformar a casa num verdadeiro lar, uma vez que Mrs. Hughes tratava de todas as tarefas e supria todas as necessidades domsticas, Federica comeou
a comer para compensar o tdio. Uma bolachinha aqui, uma fatia de bolo ali, at que raramente tinha as mos ou a boca vazias. Lcia, que acreditava ser impossvel
ser-se demasiado rico ou demasiado magro, deliciava-se com a perda da elegncia da sua rival e encorajava-a com astcia. Torquil, que abominava mulheres gordas,
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observava o corpo inchado da mulher com prazer, pois tal reflectia a gradual entrega da sua independncia. Incapaz de ver isso como uma expresso exterior do descontentamento
interior da mulher, sentia-se ainda mais poderoso. A deusa de marfim estava a tombar do seu pedestal. Ao mesmo tempo que a confiana dela ia sendo subtilmente minada,
ficava tambm mais carente. Torquil apreciava o controlo que detinha. Ela pertencia-lhe. Sem que a sua inteno fosse ser malicioso, comeou a chamar-lhe "minha
Vnus" e "voluptuosa", ao mesmo tempo que a encorajava a comer. "No s nada gorda, meu amor, s sensual e eu amo-te assim", dizia ele. E Federica acreditava, pois
ele parecia desej-la mais. Afinal de contas, o sexo era a forma dele lhe dizer que a amava.

No espao de dois anos, Federica adaptara-se s exigncias de Torquil sem sequer reparar na gradual cedncia que fizera da sua liberdade. Fora uma mudana to regular
que nem se dava conta de que era infeliz. No seu limitado entendimento, Torquil era o mesmo homem sensvel e sensato com o qual casara - apenas um pouco mais difcil
de agradar. Federica no comprava a sua prpria roupa, pois sabia que ele gostava de lha escolher. No lhe comprava presentes, porque ficara a saber que, se ele
quisesse alguma coisa, ele mesmo iria compr-la. Conhecera Lcia, e em breve, vira-se includa num pequeno crculo de mulheres que,  sua semelhana, no tinham
mais nada para fazer todo o dia excepto almoar, coscuvilhar e fazer compras em conjunto. Contudo, a natureza controladora de Torquil ensinara-a a ser matreira.
Aprendeu a borrifar o sabonete com gua quando estava com pressa depois de usar a casa de banho, pois sabia que Torquil iria verificar o sabonete para se assegurar
de que ela lavara as mos. Aprendeu a pedir ao motorista que a esperasse  porta do Harrods enquanto ela se esgueirava pelo outro lado e vagueava por Walton Street,
apenas pelo puro prazer de fazer alguma coisa sem ser observada. Telefonava  famlia de telefones pblicos, em lojas, e encontrou-se com Hester uma vez ou duas
na casa de banho das senhoras do Harvey Nichols. Arranjava forma de justificar o comportamento de Torquil perante a famlia usando, sem se dar conta, os argumentos
dele como se fosse um papagaio bem treinado.
Ento, certa vez, Sam telefonou-lhe, sem mais nem menos.
- Ol, Fede,  o Sam.
- Sam! - exclamou ela, surpreendida. - Meu Deus, no te vejo desde que casei.
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- Ouvi dizer que mal tens visto qualquer um de ns desde o casamento - respondeu ele. - Deduzo que o teu marido te anda a esconder.
- No, nada disso - respondeu ela, alegremente. - Tenho andado to ocupada! O tempo voou.
- Dois anos?
- Foi assim h tanto tempo? - arquejou ela.
- Ento, como ests? - quis saber Sam.
- Bem. Muito bem. Na verdade, ficarias impressionado, estou a estudar literatura com um antigo professor de Cambridge - referiu ela com um tom orgulhoso.
- Estou impressionado. Como  o nome dele?
- Doutor Lionel...
- Swanborough - exclamou ele, admirado. - Sortuda, ele  um grande erudito. O que  que leram?
- Oh, estudmos tudo desde Zola a Garcia Mrquez.
- Em espanhol?
- No sejas palerma. H anos que esqueci o espanhol que sabia riu-se.
-  uma pena.
- Pois .
- Ento, ele trata-te bem? - perguntou, evocando o rosto melfluo de Torquil Jensen com averso.
-J chega de falarmos de mim. E tu, como ests, Sam?
- Farto da City. Na verdade, vou regressar a casa.
- A casa? - espantou-se ela.
- Sim, vou voltar para Polperro. -- Para fazer o qu?
- Para escrever.
- Isso  maravilhoso - comentou ela, sentindo-se de repente nostlgica ao pensar nas ventosas falsias e no mar encrespado. Desde o Natal que no ia a Polperro.
- Sim. O Nuno est encantado. Diz que posso usar o escritrio dele para escrever.

- Isso  uma verdadeira honra. - Suspirou ao recordar Pickthistle Manor e os maravilhosos dias que a passara. Sam detectou o tom saudoso na voz dela e ansiou por
saber como ela estaria na realidade.
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- Oh, sim, se . Ele nunca deixa ningum entrar naquele escritrio.
- Como est o velho Nuno?
- Velho.
-  uma pena.  uma pessoa nica.
- Isso  - concordou Sam com uma risada. - Deus partiu o molde depois de fazer o Nuno.
- Diz-me uma coisa, porque nunca o trataste por av? - perguntou com curiosidade.
- Nonno  av em italiano, e acabou por ficar Nuno.
- Sempre me interrogara em relao a isso.
- bom, agora j sabes.
-J no vejo muito as tuas irms.
- Eu sei, elas disseram-me.
- Tem sido agitado. - Suspirou, olhando em redor da imaculada sala de estar e sentindo-se mais sozinha que nunca.
- Telefonei-te para saber se terias tempo para um almoo. Gostaria de te ver antes de desaparecer nas profundezas do escritrio do Nuno.
- Oh, ia adorar - entusiasmou-se Federica. - Ia mesmo adorar. Pode ser esta semana?
- E que tal amanh?
- Amanh  perfeito.
- Eu vou a buscar-te - combinou ele. - Relembra-me o teu endereo.
Quando Sam viu Federica  sua espera nos degraus da entrada, reparou de imediato que ela mudara. Usava um elegante fato azul de Vero com minissaia e saltos altos,
revelando um corpo mais largo e um busto mais generoso. O cabelo, puxado para trs e apanhado num rabo-de-cavalo, traa um rosto mais redondo, coberto de maquilhagem.
Para qualquer outra pessoa ela pareceria sensual e encantadora, mas para Sam parecia um palhao triste, sorrindo sobriamente por baixo de uma espessa camada de pintura.
Sentiu o corao vacilar  medida que ela caminhava para si. Queria tom-la nos braos e lev-la para casa, onde ela pertencia. Contudo, ela beijou-o calorosamente,
comentou que era maravilhoso voltar a v-lo e meteu-se no txi que os esperava.
S quando o caf foi servido  que tentou com cuidado penetrar para l da fachada dela.
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- Ests to diferente, Fede, mal te reconheci  porta de casa - referiu, contemplando os seus olhos azuis, que no conseguiam disfarar a melancolia.
- Tu no mudaste - respondeu ela, mais uma vez desviando a conversa. - Continuas a usar camisas esburacadas e calas gastas. O Torquil devia levar-te s compras!
- Riu e colocou dois cubos de acar na chvena de caf.
Contudo, Sam no achou graa.

- Tenho coisas melhores para fazer do que preocupar-me com o estado da minha roupa - comentou, permitindo que a amargura que sentia em relao ao marido dela perpassasse
nas suas palavras. Reprimiu-se, consciente de que, se a indispusesse, perderia a confiana dela. - Estou encantado que tenhas decidido fazer um curso de literatura
- acrescentou. - Espero que no tenhas deixado a fotografia, sempre tiveste uma paixo por isso.
Federica baixou os olhos e cravou-os no caf.
- Oh, acho que acabei por perder o interesse pela fotografia - respondeu meio  pressa.
- Perdeste o interesse? Como  que isso pode ser, Fede? No acredito no que dizes - exclamou, sentindo a fria apertar-lhe a garganta.
- No tenho tempo para isso.
- Como  que preenches os teus dias?
- Oh, com muitas coisas.
- Como, por exemplo?
- bom, tenho muita coisa para ler... - A voz dela foi diminuindo de intensidade. Sam esticou o brao por cima da mesa e pegou-lhe na mo, instintivamente. Federica
olhou para ele alarmada antes de precipitar os olhos em redor da sala, em pnico, verificando se algum estava a olhar.
- Fede, ests a preocupar-me - declarou ele num tom srio e com um ar ansioso. Ela franziu a testa. Sam abanou a cabea e prosseguiu em voz muito baixa, penetrando
o olhar dela com a intensidade do seu. Por favor, querida, diz-me que foi deciso tua no tirar um curso de fotografia, que foi deciso tua estudar literatura, que
 deciso tua no ires at Polperro, afastar-nos a todos da tua vida, vestires-te dessa forma e maquilhares-te assim... - A voz dele embargou-se. - Porque se  o
teu marido que te est a impor isto, corres o risco de estares a ser totalmente
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reprimida. Recuso-me a ficar de braos cruzados a ver a tua personalidade e natureza arreada e controlada!
Federica olhou para ele confusa, tendo de repente de confrontar os seus medos. Mordeu o lbio inferior. Sam observava-a, tentando ler os pensamentos dela enquanto
ela balanava nitidamente entre abrir-se com ele, como sempre fizera no passado, e armar as suas defesas e afast-lo para sempre.
Seguiu-se um pesado silncio. Sam apertou-lhe a mo para a encorajar.
- S estou a perguntar porque me preocupo contigo - explicou e fez um sorriso tranquilizador. Para seu desapontamento, ela retesou-se e afastou a mo.
- Eu amo o Torquil, Sam - declarou Federica, por fim. Depois acrescentou: - Seja como for, no irias compreender.
- Tentarei - argumentou, mas ela tinha j desviado o olhar. A ligao quebrara-se. Devastado, no teve outra hiptese a no ser pedir a conta e lev-la a casa. Quando
tentou nova aproximao nos degraus de mrmore da casa dela, apercebeu-se, para seu desespero, que a perdera mais uma vez. E interrogou-se se voltaria a ter outra
oportunidade.

Federica enroscou-se no sof com uma embalagem de biscoitos de chocolate e um copo de leite frio. Fungou para um pedao de papel de cozinha e reflectiu no seu almoo
com Sam. Como poderia ele alguma vez compreender a situao dela? O que ele no entendia era que fora escolha dela amar Torquil e deciso sua ser a melhor esposa
que conseguisse ser. Torquil precisava dela e estimava-a. Se era possessivo e controlador, era apenas porque se preocupava consigo. Tambm ela precisava dele. Para
alm disso, pensou de mau humor, a dinmica do relacionamento deles no dizia nem um pouco respeito a Sam. Contudo, enquanto secava os olhos e mergulhava mais fundo
na embalagem de biscoitos, a semente da dvida que Sam plantara instalava-se lentamente em terreno frtil.
Quando Torquil chegou a casa nessa noite, vinha perturbado e encarnado.
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- Querido, ests com um ar exausto, deixa-me preparar-te um banho e trazer-te uma bebida - sugeriu Federica, beijando-o e abraando-o.
- Precisamos de falar - disse ele, friamente, afastando-a. Federica estremeceu e sentiu-se de imediato consumida de culpa.
- Sobre o qu?
- Tu sabes muito bem sobre o qu - ralhou ele, avanando com passos pesados para o escritrio para se servir de uma bebida.
Federica seguiu-o nervosamente.
- O meu almoo com o Sam. - Suspirou de derrota. No valia a pena tentar esconder o que quer que fosse de Torquil pois, de alguma forma, ele era to omnisciente
quanto o diabo.
- Nem mais. O teu almoo com o Sam - repetiu ele num tom irado e de desprezo. Verteu usque para um copo e bebeu-o de um s trago e puro. - Planeavas dizer-me ou
ias esperar para ver se te safavas?
- Qual  o problema, Torquil, o Sam  um velho amigo - protestou ela.
-- No foi isso que eu perguntei - devolveu ele com raiva. Federica engoliu em seco. A expresso dele parecia to alterada que mal o reconhecia.
-  claro que ia dizer-te, mas nem sequer me deste oportunidade.
- Tiveste toda a noite de ontem para me contar. Ele telefonou-te ontem - gritou Torquil de repente, batendo com o copo na mesa, exasperado. Federica estremeceu com
a severidade do tom do marido. No me contaste - prosseguiu ele numa voz ameaadoramente melflua, virando-se para a confrontar -, porque as tuas intenes no eram
honestas.
O queixo de Federica tremeu enquanto combatia o impulso de chorar. Pela primeira vez em todo o seu casamento sentia-se verdadeiramente assustada.
- No te contei porque sabia que no me deixarias ir - explicou com a voz embargada. - E eu gostava muito de ir.
- Ento, mentiste-me? - argumentou ele, examinando o rosto dela com os olhos semicerrados. - A minha prpria mulher mentiu-me? abanou a cabea. - No posso sequer
confiar na minha mulher.
- Sabia que dirias que no - voltou ela a insistir, incapaz de engolir o gemido que lhe oprimia o peito. - H anos que no vejo nenhum dos meus velhos amigos.
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- Fede, eu no sou o teu carcereiro - referiu ele num tom mais brando. - H sempre uma razo por detrs dos meus pedidos. Coloca-te na minha posio, como  que
te sentirias se eu almoasse com uma antiga namorada e no te dissesse?
Federica reprimiu um soluo.
- Provavelmente ficaria com cimes. - Torquil tinha sempre um argumento triunfante para tudo.

- Repara, deixa-me explicar-te isto com uma analogia - disse ele, sentando-se ao lado dela e pegando-lhe a mo. Torquil adorava inventar a analogia perfeita para
ilustrar os seus argumentos. - Tomemos como exemplo um filme pornogrfico. - Federica franziu o sobrolho. -- No, escuta. Se houver um filme pornogrfico no leitor
de vdeo  fcil carregar no boto e dar uma espreitadela, ao passo que se tiveres que te deslocar a uma loja de vdeo, arriscar seres vista por algum, enfrentar
o embarao de pedir o filme, pagar por ele e depois esgueirares-te at casa para o veres,  menos provvel que o faas. Entendes?
- Ests a tentar dizer-me que por ter ido almoar com o Sam corro o risco de ter uma aventura amorosa?
- Exactamente.
- Mas, Torquil - insistiu ela -, isso  um disparate. Ele  como um irmo para mim.
- Mas no  teu irmo - respondeu ele, incisivamente.
- Corro tanto risco de ter uma aventura com ele quanto com o Hal.
-  uma questo de lgica. No quero que a minha mulher tenha amigos chegados do sexo masculino.  perigoso, acredita. Tenho mais experincia do que tu, tu s muito
ingnua, minha pequenina - acrescentou, afagando-lhe o rosto. - Amo-te. Adoro-te. No quero perder-te. Na verdade, farei tudo o que puder para no te perder. O que
for preciso. - Federica sentiu um calafrio e esperou apreensivamente. Quando disse que te amaria para o resto da vida, no estava a brincar. Todas estas minhas exigncias
podem parecer-te estranhas, mas destinam-se a proteger o nosso casamento. So para ti e para mim - explicou Torquil. Inclinou-se e beijou-a. Porm, Federica no
tinha vontade de ser beijada, estava confusa. Ele pegou-lhe na mo. - Vamos para cima, detesto discutir contigo. Faamos as pazes.
- Torquil, por favor - objectou ela numa voz to sumida que mal se ouviu. Ele pareceu no reparar nas lgrimas dela.
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- Quero mostrar-te porque no precisas de ter amigos masculinos. Eles no podem dar-te o que eu te dou. Anda, pequenina, convence-me de que no ests zangada comigo.
Relutantemente, Federica permitiu que ele lhe desabotoasse as calas e lhas despisse. Ficou deitada na cama em camisa e cuecas, tentando controlar os soluos e fungadelas.
Torquil correu as cortinas, tirou o telefone do descanso e colocou um CD dos Pink Floyd no leitor. Depois diminuiu as luzes.
- No chores, minha querida, estamos a fazer as pazes - consolou-a ele, beijando-a na testa. - vou vendar-te os olhos - acrescentou num murmrio.
- Oh, Torquil, eu...

- Chiu - sussurrou ele, colocando-lhe um dedo sobre os lbios. Deslizou-o ento para o interior da boca e delineou-lhe as gengivas. Interiormente, Federica encolheu-se
repugnada. Ele retirou ento um leno de seda da sua mesa-de-cabeceira e atou-o em redor dos olhos dela. Federica fechou os olhos quela escurido, interrogando-se
onde ele estava e o que estaria a fazer. Por fim, sentiu-o desabotoar-lhe a camisa e abri-la, libertando-a do suti. Ao mesmo tempo que deslocava suavemente uma
comprida pena ao longo do seu corpo, deslizou a lngua pelos espaos entre os seus dedos dos ps e retirou um perverso prazer de fazer amor com ela com as cuecas
vestidas. Ela no sentiu nada e reprimiu um soluo.
Queria gritar-lhe que fizesse amor com ela de forma normal. Ento, apercebeu-se de repente de que ele sempre fizera amor consigo sem amor, e a sua pele foi assolada
por um arrepio gelado que a debilitou. No entanto, Torquil no reparou, pois gostava de a ver assim, quieta, submissa, rendida. Foi nesse momento que a semente plantada
naquele dia por Sam lanou hesitantes razes e comeou a desenvolver-se. Pela primeira vez no seu casamento, permitiu-se sentir dvidas. Mas assim que cedeu  primeira
dvida, foi incapaz de controlar a torrente de incerteza que lhe invadiu o pensamento como baforadas de fumo negro.
Federica ps-se de p e comeou a vasculhar no seu roupeiro. A, bem no fundo de uma prateleira, num canto a que as pedantes mos de Torquil no tinham chegado para
a lanar fora com o resto do seu passado, estava a caixa da borboleta. Sentou-se no cho, colocou-a sobre
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um joelho e abriu-a. com mos trmulas releu todas as cartas do pai, uma a uma, reclamando o passado em cada palavra terna, at que as suas lgrimas formaram outra
camada de infelicidade sobre o papel. Lanou ento o olhar para a vcua distncia e retirou conforto das memrias que a encontrou.
CAPTULO TRINTA E CINCO
Outono de 1998
Os dois veres que se seguiram passaram-se numa nvoa de festas, almoos entediantes e visitas interminveis ao ginecologista, uma vez que Federica no engravidara
ainda e Torquil tinha a certeza de que havia alguma coisa de errado com ela. Na opinio do mdico, a anatomia dela estava a funcionar perfeitamente. " preciso dar
tempo ao tempo, no esto a tentar assim h tanto tempo e a senhora tem apenas vinte e dois anos", dissera o mdico, gentilmente. "Talvez esteja demasiado ansiosa.
Tente descontrair-se mais."
Torquil encarara como um insulto pessoal  sua masculinidade o facto de Federica no ter engravidado de imediato. "Um homem dificilmente pode fazer mais amor com
a mulher do que j fao", queixou-se ele, "e tu s voluptuosa o suficiente para seres um smbolo de fertilidade."
Federica ofendeu-se. Sozinha em casa, frente  lareira, folheando revistas e lendo as obras que o Dr. Lionel Swanborough recomendava, ia comendo panettone e bolos
de chocolate. Torquil possua-a sempre que tinha um momento livre, levantando-lhe a saia e inclinando-a para a injectar com a sua virilidade. De cada vez que se
retirava, dava-lhe umas palmadinhas na ndega. "Desta vez  que , pequenina", dizia num tom confiante, enquanto Federica obedecia s instrues dele e se deitava
na cama de ps para cima, durante meia hora, para auxiliar o esperma na sua luta contra a gravidade.
Federica queria desesperadamente um beb, mas no pelas razes certas. Sentia que era demasiado jovem para se ver a braos com uma responsabilidade daquelas, porm
ansiava por agradar ao marido. Todos
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os meses, a sua menstruao era acompanhada de grossas lgrimas de frustrao e da penosa misso de relatar o seu falhano. Quando sugeriu a Torquil que tambm ele
consultasse o mdico, ele retorquiu que estava tudo muito bem consigo naquela rea e que o problema residia nela.
com os ventos frios e melanclicos de Outubro a chegarem, Federica buscou consolo nos seus livros, no chocolate e nas suas recordaes.
Foi ento que Nuno morreu.
Em condies excepcionais como aquela, Torquil permitiu que o motorista levasse Federica at Polperro para o funeral.
- Mas quero-te de volta ao cair da noite - admoestou. Quando lhe explicou que isso no seria de todo possvel, pois Polperro ficava bastante longe de Londres, ele
cedeu relutantemente e permitiu que ela passasse l a noite.
- vou sentir a tua falta, pequenina - acrescentou ele, beijando-a.
- Preciso de ti aqui comigo.
Federica estava muito triste com o falecimento de Nuno, mas o seu entusiasmo por ir regressar a Polperro eclipsava a tristeza. Ansiou por esse dia com tanta antecipao
que esqueceu a sua cautela e telefonou  me e a Toby, todos os dias, de uma cabina. Conseguiu at evitar fazer amor com Torquil, afirmando que estava demasiado
devastada.
O funeral decorreu na pequena igreja da vila. Os que no couberam no interior apinharam-se no caminho atapetado de folhas, cruzando melhor os casacos e enterrando
mais os chapus nas cabeas para combaterem o frio. Ingrid usava um chapu preto com um vu espesso para que ningum a visse chorar. Inigo conduziu-a pelo brao
ao longo da nave com a cabea pendida e os olhos encarnados.
- Agora ficamos eu e tu a encabear a lista - comentou ele, melancolicamente enquanto tomavam os seus lugares no banco da frente.
- Quanto a ti no sei, querido, mas eu vou reincarnar numa bonita ave, vais ver - respondeu ela, colocando o monculo num olho para ler a lista dos hinos. Inigo
meditou sobre as teorias da reencarnao durante todo o servio religioso.
Molly e Hester iam secando as lgrimas ao passo que Sam olhava fixamente o caixo. De cada vez que pensava no seu adorado av, os olhos marejavam-se-lhe de lgrimas.
Federica chegou tarde. Derramara lgrimas de frustrao quando um camio avariado os retivera num engarrafamento durante mais de meia
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hora. Afogueada, avanou pela nave no preciso momento em que o reverendo Boyble tomava o seu lugar. Federica comprimiu-se entre Toby e Julian, que lhe apertaram
o brao afectuosamente, encantados por v-la. O reverendo aclarou a garganta e esperou que Federica se instalasse.
- Ningum alguma vez esquecer Nuno - comeou. - Era uma pessoa singular, um raro raio de luz que brilhava sobre todos ns. Sentiremos muito a falta dessa luz. No
entanto, ela brilha agora junto de Deus. Dmos graas a Deus pela vida do nosso querido amigo Nuno, que tanto deu a cada um de ns.
Ingrid comeou a fungar e os seus ombros estremeceram num esforo por se controlar. Sam continuava com os olhos presos no caixo, como que em transe. Federica virou-se
e cumprimentou silenciosamente a sua famlia que a olhou como se fosse um ser aliengena. Como mudara!

- Estou a ver que ela no  feliz - murmurou Polly para o marido. Jake suspirou e acenou com a cabea. - Ganhou peso. Ela no  uma rapariga de constituio forte.
Foi a infelicidade que lhe fez aquilo acrescentou, sussurrando o mesmo para Helena, sentada do outro lado de Jake. Toby pegou na mo de Federica, que sentiu de repente
uma avassaladora sensao de perda. No apenas por Nuno, mas por toda a gente. Perdera Polperro nos anos em que estivera ausente e agora, que regressara, queria
tanto agarrar-se ao que tivera. No entanto, sabia que no podia. Torquil queria-a de volta no dia seguinte.
Sam caminhou com passadas solenes at ao plpito para o elogio fnebre. No abotoara os punhos da camisa e estes agitavam-se contra os seus pulsos como se fossem
pombas brancas. Federica observou-o. Perdera bastante cabelo desde a ltima vez que o vira. Estava agora claramente a recuar na frente e a rarear em cima. Levantou
a cabea e contemplou a congregao com um ar sombrio. No precisava de nenhum papel pois no preparara o que ia dizer. Tirou os culos, respirou fundo, como que
a controlar as suas emoes, e depois comeou numa voz confiante e clara.
- O Nuno era o meu melhor e mais querido amigo. Ensinou-me tudo o que sei e a ele devo tudo aquilo em que me tornei. - Depois os seus olhos tristes repousaram em
Federica ao mesmo tempo que citava O Profeta. - "O melhor de vs deve ser oferecido ao vosso amigo" declamou numa voz lenta, quase teatral. - "Se ele tem de conhecer
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o refluxo da vossa mar, que conhea tambm o fluxo. Pois para que servir o amigo se o procurais apenas para matar o vosso tempo? Buscai-o antes nas horas vivas,
porque ele est ali para resolver a vossa necessidade de consolo e no para preencher o vosso vazio."
Federica no desviou os olhos, olhando fixamente para os dele. Sentiu-se sufocada por uma onda de pesar e arrependimento. Recordou com nostalgia os momentos que
haviam partilhado no passado. Houvera entre eles ocasies especiais de grande ternura. Ento, quando tentou agarrar-se a elas, dissolveram-se frente a si como nevoeiro,
deixando apenas a desolao do presente e o rosto dorido de Sam iluminado pela luz de Deus.
- Sempre procurei Nuno nas horas vivas - prosseguiu ele, corajosamente. - Ele incentivou e supriu a minha busca pelo conhecimento e a minha necessidade de sabedoria.
Preencheu tambm a minha necessidade de me compreender melhor, e ensinou-me a no desejar ser compreendido ou admirado pelos outros. O Nuno nunca foi compreendido
pelos outros e isso concedeu-lhe uma grande liberdade, porque foi sempre ele mesmo. Sentirei falta das suas entediantes citaes, do seu pedantismo, do seu falso
sotaque italiano e do seu humor irreverente. Mas, acima de tudo, sentirei saudade da sua sapincia, pois sem ela estou perdido. Tudo o que tenho agora so as palavras
que me ensinou no passado, que para sempre relembrarei num esforo para viver melhor.

Federica escutou as palavras dele, vindas do corao, derramadas sem direco, sem constrangimentos. Falou demoradamente, segurando os lados do plpito, para se
segurar ou para um maior efeito. Apenas desviou os olhos de Federica para contemplar o caixo como se estivesse a falar com o prprio Nuno.
Quando terminou, ningum se mexeu ou fez qualquer som. A nica coisa que se ouvia era os passos lentos de Sam enquanto regressava ao seu lugar.
O caixo de Nuno foi descido  terra no pequeno cemitrio anexo  igreja. A famlia e amigos chegados reuniram-se em crculo em redor do caixo e assistiram  sua
ltima viagem de regresso a casa. De volta  terra de onde viera.
- Como  que ele morreu? - perguntou Federica num sussurro a Julian, de p a seu lado.
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- Aparentemente, ele sabia que ia morrer - respondeu Julian, inclinando-se e murmurando-lhe ao ouvido. - Foi na tera-feira  tarde. Deu um beijo  Ingrid, outro
ao Inigo, foi para o escritrio e faleceu na sua cadeira de pele a ler Balzac. - Federica arqueou as sobrancelhas. A Ingrid e o Inigo acharam que ele ia apenas dormir
uma sesta, no perceberam que ele estava a despedir-se deles para sempre.
- Imprevisvel at ao fim - respondeu ela, olhando para os olhos cavados de Sam pestanejando tristemente por trs dos seus culos. Ele olhou-a tambm, mas no a
viu. - O Sam est mesmo abatido acrescentou, sorrindo para ele com um ar compreensivo.
Porm, a viso dele toldara-se de sofrimento. No conseguia ver nada. Deu ento meia-volta e caminhou em direco aos carros com a famlia, e toda a gente regressou
a Pickthistle Manor.
Federica deu boleia a Julian e a Hal no seu carro conduzido pelo motorista. Hal estava impressionado. Julian no.
- Porque no aprendes a conduzir, Fede? - perguntou Julian.
- No preciso.
-  claro que precisas,  uma questo de independncia. - Federica olhou nervosamente para Julian e depois acenou com a cabea na direco do motorista. Julian ergueu
as sobrancelhas. Federica sabia que Paul tinha instrues para relatar tudo o que se passava a Torquil.
- Eu acho muito fixe ter um motorista - comentou Hal. O carro  espectacular. Casaste muito bem, Fede.
Julian olhou para Federica e viu-a sorrir para o irmo. Porm, conseguia sentir o desconforto por trs daquele sorriso, pois o brilho nos olhos dela desvanecera-se.
Pegou-lhe na mo e apertou-lha, mas Federica apenas lha apertou de volta, jovialmente, como se no quisesse que a sua dor fosse reconhecida por ningum.
O ambiente em Pickthistle Manor estava mais leve em comparao com a solenidade que pairara como um miasma invisvel sobre a igreja. Toda a gente aliviou o seu pesar
com o efeito do vinho e Ingrid pediu aos seus convidados que celebrassem a vida de Nuno ao invs de a chorarem. A sala de estar encheu-se de imediato de fumo, dos
vapores do lcool e do calor corporal dos muitos amigos que Nuno fizera ao longo da vida. Quando Lucien trouxe para dentro um ourio imundo que encontrara
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no jardim, Ingrid desfez-se em lgrimas, recordando a averso de Nuno por animais pulguentos, e bebeu meio copo de vodca de um s trago.

Helena abraou a filha e elogiou-lhe o dispendioso fato de marca. Depois lanou-se mais uma vez num monlogo acerca de Hal.
- No vamos l muito bem na escola, de momento - disse ela, sarcasticamente. - Vamos chumbar nos exames. At temos miolo suficiente, apenas nos recusamos a us-lo.
- Suspirou. - Estamos a passar por um perodo assaz doloroso, mas o nosso corao est no lugar certo. Estamos apenas um pouco desorientados, digamos.
A ateno de Federica desviou-se, como sempre acontecia quando a me se mostrava obcecada com Hal. Ficou aliviada quando Jake interveio e desviou a conversa.
- O Hal est muito bem, Helena, o teu problema  no largares o rapaz - comentou ele num tom sabedor.
- Ele precisa da me, pai - respondeu Helena, ofendida. - No me importa o que vocs dizem, no vou deix-lo a afogar-se quando posso dar-lhe a mo.
Molly estava demasiado afrontada com a inconstncia de Federica para ir sequer cumpriment-la. Viu-a abrir caminho por entre a multido com seu fato preto perfeito,
sapatos pretos imaculados, impecvel mala preta e chapu preto, virou as costas e caminhou na direco oposta. Contudo, Hester permaneceu onde estava e cumprimentou
a amiga com a mesma afeio leal que sempre demonstrara ao longo da infncia.
- Ests com bom aspecto - disse amavelmente, reparando na sua robustez e lividez e interrogando-se o que as causara.
- Estou bem - respondeu Federica.
- Como vai o Torquil? - inquiriu Hester, questionando-se se Federica se abriria consigo como sempre fizera na gruta secreta. Ficou desapontada.
- Vai muito bem.  um sonho - acrescentou entusiasticamente.
- S desejava que ele estivesse aqui hoje. Detesto estar separada dele, por um minuto que seja.
- Que bom - comentou Hester num tom montono. -  ptimo que tenhas encontrado a tua alma gmea. Eu continuo  procura da minha.
- Ningum, ento?
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- Ningum. Um verdadeiro deserto - suspirou. - A Molly tem uma queda por construtores - acrescentou, tentando animar a conversa. - Dem-lhe uma obra e est feliz.
-  mesmo coisa da Molly. Foi uma sorte o Torquil ter-me encontrado. Mas s jovem, no precisas de encontrar algum para j. Aproveita a liberdade enquanto a tens.
- Tens razo. vou manter os olhos abertos a ver se acho um Torquil. Ele no ter por acaso uns amigos jeitosos, no? - riram ambas, mas o seu riso foi desconfortvel.
- O Sam est infelicssimo - comentou Federica, vendo-o a conversar com o pai com um ar solene.
- Oh, est devastado - concordou Hester. - O elogio foi bonito, no foi?
- Ele  to talentoso!
- Eu sei. Estou muito orgulhosa dele. - Suspirou. Depois tocou no brao de Federica e virou-se para ela com um olhar suplicante. Vai falar com ele. Bem que precisa
que o animem.
- Sam, lamento muito - disse Federica, depois de Inigo se ter retirado para o calmo santurio do seu escritrio.

- Federica. - Beijou-a. - Fico contente que tenhas podido vir. J quase nos esquecramos de como eras. - Federica fez um sorriso embaraado, recordando a ltima
vez que se haviam visto. - Vamos sair daqui. Estou a sentir-me um pouco claustrofbico - sugeriu.
Sam conduziu-a corredor abaixo at ao escritrio de Nuno. Uma vez l dentro, fechou a porta, obstruindo o murmrio de vozes vindo da sala.
-J deves estar a ver por que motivo o Nuno gostava tanto de estar aqui.  um stio calmo - referiu, sentando-se na cadeira de pele coada do av. Federica sentou-se
no sof, evitando os buracos que revelavam a espuma branca por baixo do cabedal, e cruzou as pernas. Ainda consigo sentir o cheiro dele - prosseguiu Sam. - Esta
 a nica diviso da casa que vibra literalmente com a presena dele, mesmo agora. Venho at aqui e ainda sinto que ele est vivo e prestes a entrar a qualquer momento
e a surpreender-me com um livro da sua coleco ertica.
- No me digas que o Nuno tinha uma coleco de livros erticos? - espantou-se ela com uma gargalhada.
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- Sim, sim. O Nuno era um grande f de literatura ertica - respondeu Sam. - Mas no um grande f da actividade em si.
- Deve t-la praticado uma vez para produzir a tua me.
- Uma s vez. Depois colocou-a de lado para sempre.
- Meu Deus! - exclamou ela, baixando os olhos, pois os de Sam haviam-se fixado nos seus e faziam-na sentir-se incomodada. - Era uma pessoa maravilhosa e extraordinria
- suspirou, mudando de assunto. - Sou uma afortunada por ter convivido com ele.
- Tu e todos ns. - Levantou-se e comeou a empilhar alguns papis na secretria de Nuno, uma antiguidade. - Como  que o Torquil te deixou vir at c?
- Ele no me impediria de vir ao funeral do Nuno - respondeu ela num tom fortuito, esperando que Sam no fosse repetir o mesmo discurso da ltima vez que se haviam
visto.
- Mal regressaste a Polperro desde que casaste.
-  verdade.
- Continuas tremendamente ocupada com aquele curso de literatura, suponho?
- Agora tambm estou a fazer outros cursos - retorquiu ela. Ocupam-me todo o tempo livre.
- Fede - comeou ele num tom srio, sentando-se  secretria de Nuno e esvaziando o seu copo -, tu adoras Polperro, no me digas que no tens saudades?
-  claro que tenho. O que acontece  que o Torquil tem um tipo diferente de vida. Ns fazemos outras coisas.
- Mas nem sequer vires visitar a tua famlia? A famlia era outrora tudo para ti.
Federica ajeitou-se embaraadamente no sof. No estava a gostar deste sbito ataque  forma como escolhera viver a sua vida.
- A famlia  tudo para mim, Sam, mas agora sou casada - protestou num tom severo. - As coisas mudam. Sinceramente, no queria voltar a falar disto outra vez.
- s casada, mas no s feliz - afirmou ele sem tirar os olhos dos dela.
Federica entesou-se. Sim, ganhara alguns quilos a mais, e que tinha isso?
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- Como sabes se no sou feliz? Ests a julgar-me pelos teus padres - argumentou. - Eu no gostaria de ficar para aqui a escrever livros.
- Mas gostarias de ficar para aqui a tirar fotografias.
- Ora - riu-se ela -, isso foi h muito tempo, como te disse. Adoro Londres, no quereria viver em mais lugar nenhum. - Observou a expresso torturada de Sam e interrogou-se
porque haveria ele de se preocupar e interessar.
- Ests a viver numa bonita montra. No h nada por trs dela, Fede. Se h dois anos estava preocupado contigo, agora estou ainda mais.
- Por amor de Deus, Sam, isto  ridculo. Porque te preocupas? Sam voltou a pr-se de p e caminhou at  janela.
- Porque s uma velha amiga - respondeu ele num tom afvel, contemplando o jardim molhado.
- Porque me beijaste certa vez no celeiro.
- Porque te beijei certa vez no celeiro - repetiu ele com uma risada amarga. Quis acrescentar: "e porque abri mo de ti quando devia ter-te mantido junto a mim".
- Preocupo-me, Fede, porque te vi crescer aqui. Fazes parte da minha famlia. Desde o momento em que te salvei daquele lago at s ocasies em que vieste chorar
no meu ombro, fui como um irmo mais velho para ti. Preocupo-me contigo. Por amor de Deus, Federica, olha para ti. - Virou-se e olhou-a com os seus olhos cinzentos,
o rosto plido contorcido de angstia. Federica sentiu o corao apertar-se e engoliu a autocomiserao. - No s tu mesma, querida. Ele est a mudar-te. A Fede
que eu conheo no usa fatos de costureiros da moda com malas de mo a condizer. A Fede que eu conheo no cruza as pernas como a rainha. A Fede que eu conheo no
sorri do nariz para baixo. Sorri com os olhos, sorri por trs dos olhos. E como um bonito cisne no lago, mas este seu marido est a pux-la para baixo.
Ficaram ambos a olhar um para o outro sem saber o que fazer. Sam contemplou-a desoladamente, combatendo o impulso de a tomar nos braos e a beijar de novo. S que
desta vez no se deteria, mas continuaria a beij-la para sempre.
Federica sentia um desconfortvel formigueiro na pele. Olhava para ele, confusa, enquanto a pessoa que era lutava com a pessoa em que se tornara num doloroso conflito
de vontades. Por fim, uma grossa lgrima escapou-se ao seu domnio ao mesmo tempo que se dava conta de que j no sabia quem era.
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- Eu estou bem -? declarou num tom resoluto. - Estou bem e estou feliz. Ests apenas emotivo porque o teu av morreu - gaguejou ela, pondo-se de p. - O mesmo sucede
comigo. Amo o Torquil e ele ama-me tambm. No me parece que tenhas o direito de me criticares acrescentou na defensiva antes de abandonar o escritrio.

Sam virou-se e ficou sorumbaticamente a contemplar o lago. Os cus estavam negros e pesados e uma suave chuva flutuava no vento. Umas poucas folhas castanhas rodopiavam
no empedrado do outro lado da janela. "Tal como Federica", pensou ele, "a ser empurrada de um lado para o outro pela vontade de algo bem maior do que ela mesma."
Recordou-se da tmida e envergonhada criana que brincara com Hester nas grutas junto  praia e assava marshmallows em fogueiras. No reparara nela nessa altura.
Lembrou-se da desadequada adolescente que gaguejava de cada vez que falava com ele e corava. Nem nessa altura reparara nela. No se recordava ao certo de quando
reparara nela pela primeira vez. Talvez o sentimento tivesse penetrado no seu corao sem que disso se tivesse dado conta, pois de repente o seu cime inflamara-se,
deixando-o estupefacto com a surpreendente fora das suas emoes.
Observara impotente o casamento dela com Torquil. Os sinais tinham l estado desde o incio em grandes letras de non, porm ningum tentara faz-la v-los. Recordou-se
das sbias palavras de Nuno: "O conhecimento pode ser ensinado, mas a sabedoria, meu rapaz, tem de ser aprendida por intermdio da experincia." At agora, Federica
no aprendera nada. Quanto mais fundo teria de cair at ganhar alguma autoconscincia e fora interior? Afundou-se na cadeira de pele de Nuno e concentrou-se em
idealizar uma forma de a ajudar.
Federica regressou  sala de estar e tentou esquecer a estranha conversa com Sam. Forou um sorriso e esforou-se ao mximo por escutar o que as pessoas diziam,
contudo, as palavras dele ecoavam nos seus ouvidos e por mais que quisesse ignor-las, sabia no fundo que ele tinha razo. No era feliz.
O motorista conduziu-a a casa de Toby e Julian, onde ela passaria a noite. Rasta sentou-se ao lado da dona com o focinho branco e envelhecido no colo dela, contemplando-a
com os seus adorveis olhos durante todo o jantar. Helena, Arthur e Hal juntaram-se a eles e ficaram
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 conversa todo o sero. Quando se meteu entre os lenis, reflectiu sobre a reunio familiar, que havia sido tal e qual como outrora. A casa do tio estava na mesma.
O perfume hmido do mar, que se misturava com os cheiros do Outono, havia redespertado os seus sentidos e feito crescer em si uma nsia pelos dias despreocupados
da sua infncia. Haviam recordado e rido das velhas histrias que faziam agora parte do folclore familiar. At Hal deixara a angstia de adolescente em casa e se
juntara  conversa com entusiasmo. Helena estava feliz porque Hal estava feliz, e Federica estava feliz porque se sentia ela mesma outra vez.
Contudo, ningum deixara de reparar na mudana que ocorrera nela e todos estavam preocupados.
Quando deixou Polperro na manh seguinte sentiu uma avassaladora onda de saudades. Temia regressar a Londres, s montonas rondas de jantares e festas, almoos de
senhoras e compras e estremeceu ao pensar nas persistentes tentativas de Torquil de a engravidar. Olhou para a sua mala de pele de crocodilo e unhas arranjadas e
suspirou. Para que servia tudo aquilo?
Toby ficou a ver Federica partir e interrogou-se quando a voltaria a ver.  medida que os meses se transformavam em anos, ela ia lentamente flutuando para longe
deles. Uma pequena jangada a boiar nas fortes correntes submarinas de um mar desapontador. O casamento dela no era o que ela sonhara. No era tambm o que a famlia
sonhara para ela. Toby resignou-se com o facto de estar a perder a sobrinha.
- Ver a Fede faz-me sentir desesperadamente triste - disse para Helena.

- Oh, ela est bem. Todos temos os nossos altos e baixos - respondeu, demasiado preocupada com o estado lastimoso do seu prprio casamento para se deter durante
muito tempo no da filha. - O Torquil ama-a - acrescentou, sem querer soar egosta. - As coisas ho-de resolver-se por si s.
- No tenho assim tanta certeza - respondeu Moly num tom frio, retirando-se para casa.
Helena estava irritada. Ningum falava sobre mais nada a no ser sobre Federica. De como parecia infeliz. De como engordara. De como o casamento deveria estar a
desmoronar-se. Desde os Appleby s pessoas
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que viviam na vila, ningum sabia dizer mais nada. Quando Arthur decidiu adicionar a sua opinio  de toda a gente, Helena perdeu a pacincia.
- Por amor de Deus, Arthur. Sabes l como est o casamento da Fede. Nunca falas sequer com ela. No vejo como  que de repente conseguiste penetrar no seu mundo
interior - exclamou acaloradamente. A prpria pacincia de Arthur comeava aos poucos a ser desgastada pelo incessante mau humor de Helena. Ela parecia alimentar-se
do drama de uma discusso. Se no houvesse uma razo para discutir, ela inventava uma, mais feliz por se rebolar na infelicidade do que em tentar encontrar um caminho
que a desviasse do seu umbroso percurso de autodestruio.
- Escuta, Helena. A Federica pode no gostar muito de mim por razes bvias, mas eu vi-a crescer e preocupo-me muito com ela.
- Tambm eu - retorquiu ela. - Ela  minha filha, no tua. Arthur suspirou e semicerrou os seus pequenos olhos castanhos, resistindo  vontade de gritar com a mulher.
- Estou apenas a sugerir que faamos alguma coisa para ajudar, pois  bvio que ela est a passar por um mau bocado. Precisa do nosso apoio - argumentou num tom
compreensivo.
- E o que pretendes fazer? Aparecer a galope num garanho branco? - riu com desdm. - A Fede no quer a nossa ajuda. Se quisesse, t-la-ia pedido. Repara, anda vestida
com roupas de costureiros famosos da cabea aos ps, tem mais dinheiro que o rei Midas e um marido que obviamente beija o cho que ela pisa. Estava com um ar infeliz,
sim, mas era o funeral do Nuno, se bem te lembras, no exactamente uma altura de celebrao.
- Mas ela nunca vem ver-nos.
- No tem tempo.
- A Federica sempre adorou a sua casa, o campo, os Appleby.
- A vida dela mudou, Arthur, e isso  o que ningum parece ser capaz de admitir. Deixou-nos a todos para trs. Por mim, tudo bem. Ela escolheu uma vida melhor para
si mesma do que ficar aqui encurralada numa atroz obscuridade.
Arthur olhou-a nos olhos, furioso. Raramente perdia a pacincia, mas desta vez Helena fora longe de mais. O rosto dele inchou e ruborizou-se como um tomate maduro.
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- bom, se no est contente com o seu fardo, minha senhora, porque no se vai embora? - gritou, lanando os seus papis ao cho. Helena ficou de boca aberta. Ele
nunca elevava a voz. - V, fora, cumpre o que tanto apregoas, pois j estou farto da tua conversa fiada! - E com isso virou-lhe as costas e abandonou a sala.
CAPITULO TRINTA E SEIS

- Que  isto? - perguntou Lcia, tirando a caixa da borboleta de Federica da gaveta da sua mesa-de-cabeceira, onde agora a mantinha escondida por baixo dos seus
livros.
- No sei - disse Torquil, sentando-se na cama e acendendo um cigarro.
- To bonita - comentou ela, abrindo-a. - Adorabile.
- E o que tem dentro?
- Cartas.
- Cartas?
- Sim - respondeu ela, tirando uma. - Che carina.
- De quem raios  que so? -- perguntou ele, furiosamente, arrancando-lha da mo. Abriu a desgastada epstola e leu-a. Respirou de alvio. - So do pai dela.
- Que bonito - disse ela num tom condescendente. - s to possessivo.
- Como j te disse, ela  minha mulher, pertence-me e eu adoro-a.
- E eu?
- Tu no pertences a ningum - respondeu com um sorriso dengoso.
- Torkie! - protestou ela, fingindo estar ofendida.
- Muito bem - concedeu ele. - Pertences-me em part-titne.
- Eu no durmo com mais ningum, tu sabes disso.
- Eu sei. Mataria se o fizesses - afirmou e olhou-a fixamente com olhos verdes impassveis.
- D-me uma dessas cartas, quero l-la - pediu ela, entusiasmada. Adorava quando ele era autoritrio.
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- No podes - respondeu Torquil, dobrando a carta e colocando-a de volta na caixa.
- Torkie, v l, no sejas desmancha-prazeres.
- Eu disse que no. Acaba com isso. - Adorava jogar Lcia contra a sua mulher.
- No fales assim comigo, eu acabei de permitir que saqueasses o meu corpo - riu ela.
- E adoraste cada minuto. Quando estiver pronto, possuo-te outra vez.
- Posso no permitir-te - acicatou-o ela.
- Eu sou mais forte que tu. Prendo-te  cama e tomo-te  fora. No presumas que poders alguma vez impedir-me de ter o que quero quando o quero.
- Adoro esse teu tom severo, como um bandido. - Sorriu e espreguiou-se como um gato. - Quem me dera que a Federica passasse mais vezes a noite fora.
- Nem penses - exclamou ele. - Quanto menos, melhor. Gosto que esteja onde a possa ver.
- s um marido ciumento.
- Ela viceja sob a minha orientao. Precisa de mim. Estaria perdida sem mim.
- Ento, porque diavolo dormes comigo? Torquil sorriu indulgentemente para a amante.
- Porque tu, meu anjo, operas a um nvel completamente diferente. A Fede  a minha mulher. Tu s a minha amante. Amo ambas de forma diferente. No quereria ficar
sem qualquer uma de vocs. Para alm disso, tu e eu conhecemo-nos h muito, muito tempo. No  bem uma relao amorosa, mas antes a continuao de uma velha amizade.
- Como  que sabes que ela no est a ter um caso? - inquiriu Lcia, olhando-o com os seus largos olhos italianos.
Torquil continuou a fumar com um ar complacente.

- Porque sei de todos os seus movimentos, meu anjo.
- Seu espiozinho - comentou, virando-se de frente e passando a comprida unha pelo peito dele. - Tambm me espias?
- Isso no te diz respeito.
-  triste que te vejas reduzido a espiar as tuas mulheres.
- No  espiar. Acho que no entendes. Estou apenas a cuidar dela.  jovem e vulnervel.
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- Ests a espi-la. Se for esperta, anda a dormir com o teu informador. E o que eu faria - disse Lcia com uma gargalhada.
- E eu matava-te - respondeu ele, olhando-a com um ar inflexvel. Ela encolheu-se com uma perversa sensao de prazer ao detectar a ameaa na expresso dele.
- A tua mulherzinha j no  assim to pequena - devolveu Lcia com um sorriso.
- No  gorda, se  isso que ests a sugerir.
- Gorda no, apenas mais gorda.
- Sempre fica mais almofadada. Eu gosto - disse ele. - Para alm disso, se fosse escanzelada como tu, podia confundir-vos no escuro.
- Temos ambas nomes italianos. Admira-me que no tenhas ainda confundido os nossos nomes.
- Nunca perco o controlo. Tu, de todas as pessoas, devias saber isso.
- Ama-la? - perguntou Lcia, amuada.
- Sim - respondeu ele. - Amo-a perdidamente.
- bom, ento  um casamento muito feliz, no ? - afirmou ela
com sarcasmo.
- Mas tambm te adoro.
Ento, ela sentou-se e fez beicinho, permitindo que os seus longos cabelos negros lhe cassem sobre os seios, firmes como claras de ovos acabadas de bater.
- Porque no casaste comigo? Sou mais bonita do que ela, mais inteligente, mais sabichona, sou independente e mundana e no tenho dvidas de que sou uma melhor amante.
Porque no casaste comigo? Dimmi, perche non  siamo mai sposati?
Torquil apagou o cigarro no cinzeiro e saiu da cama.
- Por todas essas razes, meu anjo - respondeu. - Por todas essas razes.
Quando Federica regressou a casa ao princpio da tarde, Torquil estava  espera dela. Envolveu-a nos seus enganadores braos, mas ela nada sentiu a no ser um entorpecimento
e nada mais vislumbrou a no ser aquelas nuvens negras de dvida.
- Ests bem, pequenina? - inquiriu ele, afagando-lhe o cabelo.
Ests com um ar exausto.
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- Foi muito triste - disse, abanando a cabea e tentando no olh-lo nos olhos.
- Sentia a tua falta - declarou ele. - Mal consegui dormir sem ti. Federica esboou um pequeno sorriso.
- Preciso de um banho quente - murmurou ela, afastando-se dos braos dele.
- E de uma massagem - sugeriu Torquil.
- No, o banho ser o suficiente - suspirou, pousando a mala de mo e descalando os sapatos.
- Quero fazer desaparecer esse sofrimento - argumentou ele e seguiu-a escada acima. - Sei exactamente como animar-te.
Federica estremeceu.

Torquil ps-lhe a gua do banho a correr e perfumou-a com essncia de lavanda, sentando-se na beira da banheira a conversar, enquanto Federica tentava afogar a recordao
de Sam e a sua nostalgia. Torquil contou-lhe que planeava lev-la numas frias longas e quentes at s ilhas Maurcias.
- Andas ansiosa, minha querida, no admira que tenhas dificuldades em engravidar - disse ele. Federica sentiu uma onda de pnico trepar-lhe pela garganta, onde cravou
as suas garras e lhe dificultou a respirao. - Do que tu precisas  de umas frias descontradas ao sol. Podemos fazer amor todo o dia.
- Sim - respondeu numa voz rouca, muito embora a ideia a repugnasse.
Quando declinou mais uma vez a sugesto de uma massagem e comeou a vestir-se, ele insistiu que era disso mesmo que ela estava a precisar.
- Meu Deus, ests to tensa - disse, massajando-lhe os ombros.
- Vs?
- Estou bem, a srio - argumentou ela.
- Deita-te.
- Estou bem, Torquil, por favor.
- Minha pequenina, eu sei o que  melhor para ti, no sei? - alegou, empurrando-a para a cama. - V, faz o que te digo e deixa que te alivie dessa tenso.
Relutantemente, deitou-se nua de barriga para baixo e fechou os olhos, pois se os abrisse temia comear a chorar. com as suas mos fortes
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Torquil passou-lhe leo de lavanda pelo corpo e massajou-lhe os msculos contrados em redor dos ombros e do pescoo. O quarto estava aquecido e ela estava tambm
quente do banho. Em breve as mos dele levaram a melhor e ela comeou a sentir o corpo relaxar contra a sua vontade. A sua mente esvaziou-se de pensamentos. J no
recordava Nuno, a sua famlia e a conversa com Sam, concentrando-se, ao invs, na agradvel sensao dos dedos dele sobre o seu corpo. Equilibrava-se naquela tnue
fronteira entre a meditao e o sono quando os seus sentidos foram alertados para a sbita mudana de posio do marido. Afastou-lhe as pernas com um movimento rpido
e caiu sobre ela, abrindo caminho at ao centro do seu ser, sacudindo-a de volta. Possuiu-a com fora e de forma egosta como se se apercebesse de que estava lentamente
a perder o controlo. De que, pouco a pouco, ela o amava menos. Federica abriu os olhos e fixou-os num ponto na parede. Aconteceu ento uma coisa muito estranha.
Retirou-se mentalmente do seu corpo, como se aquilo no estivesse a acontecer-lhe a ela, como se fosse outra pessoa que estivesse ali deitada impotente sobre a cama.
Projectou a sua mente de volta ao Chile, de volta a Cachagua,  praia onde a areia era morna e macia como a farinha de Lidia e o mar hipntico e calmante, afogando
o seu desconforto e humilhao.

Nos estreis meses que se seguiram, a caixa da borboleta tornou-se a sua nica fonte de consolo. Abria-a para escapar  sua infelicidade, lendo as cartas do pai
e flutuando para bem longe nas memrias evocadas pela magia das estranhas e tremeluzentes pedras.  medida que o acto de amor de Torquil se tornava mais brutal,
a caixa da borboleta tornava-se mais vital. Era o seu colete de salvao. A nica coisa que a mantinha.
Foi no seu ponto mais baixo que Federica recebeu um bilhete annimo, entregue por mo na caixa do correio como uma epstola vinda do Cu.
Sereis livres no quando os vossos dias decorrerem sem cuidados e as vossas noites sem desejos e sem fadigas, mas quando todas estas coisas cercarem a vossa vida
e vos elevardes acima delas, nus e livres.
Virou a folha em busca de mais qualquer coisa que pudesse explicar quem a enviara. Porm, no havia nada. Apenas uma simples folha de
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papel com aquelas palavras escritas. Sentou-se e leu-as de novo. No as reconheceu. Leu-as mais uma vez lentamente, pensando bem em cada uma delas. Era bvio que
quem enviara o bilhete queria ajud-la mas manter-se annimo ao mesmo tempo.
Havia apenas uma pessoa que ela conhecia que tinha motivos para esconder a sua identidade. O seu corao bateu mais forte e a adrenalina reavivou-lhe os sentidos,
que a infelicidade lhe entorpecera.
Ramon Campione. O bilhete apenas podia ser do seu pai. To tpico dele enviar cartas annimas. Ramon nunca se anunciara. Sempre aparecera inesperadamente. Isso sempre
enlouquecera a sua me, mas era assim que ele funcionava. O contedo do bilhete era tambm muito o seu estilo. Recordou-se das histrias dele, por vezes msticas,
por vezes espirituais. As palavras faziam-lhe tambm lembrar a poesia dele, mas eram, acima de tudo, a filosofia que ele preconizava. O pai sempre se elevara bem
acima da preocupao e do sofrimento, to alto que haviam deixado de o tocar. No se deixara afectar por preocupaes, nem quando as preocupaes e necessidades
da sua prpria famlia a haviam afastado de si. Deixara-os partir. Outrora preocupara-se com ela. Na verdade, um tempo houvera em que acreditara que o amor dele
era incondicional e eterno. Contudo, desiludira-se, ficara amargamente desapontada. Talvez isto fosse um tmido pedido de perdo. Talvez ele estivesse a tentar explicar-se
a si e  sua negligncia. Porm, h anos que no o via. Porque se interessara ele de repente por si? Onde estaria? Como tomara conhecimento da sua infelicidade?
Porque se preocupava agora?
Mais tarde, deitada s escuras ao lado do distante corpo do marido, pensou no bilhete que escondera no fundo da caixa da borboleta. O seu pai preocupava-se. No
enviaria a carta se no se preocupasse. Sorriu para si mesma. Ramon sabia que ela estava a sofrer e queria ajudar. O bilhete era uma instruo clara. Teria de aprender
a elevar-se acima dos seus problemas. O truque era no permitir que estes a deitassem abaixo, era assumir o controlo. No fundo, tudo era um estado de esprito. A
sua infelicidade devia-se ao facto de ela permitir que os fardos da vida lhe pesassem sobre os ombros. Pela primeira vez desde o casamento, sentiu um resqucio de
entusiasmo ao dar o primeiro e cauteloso passo no sentido de recuperar o controlo. Estava cansada de ser uma vtima, estava na altura de assumir uma posio. Iria
dar incio a uma dieta, inscrever-se
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num ginsio e elevar-se acima das suas preocupaes sem disfarces e liberta. Mas o mais importante era que no estava sozinha. Uma vez mais sentiu o sol no rosto
e deixou-se acariciar pelo amor do pai.
Ramon sentou-se  sua mquina de escrever. No tentara escrever um livro desde a morte de Estella, h mais de trs anos. Apenas escrevera poemas. Longos poemas de
versos atormentados onde desabafava a sua dor e arrependimento. No deixara o Chile, preferindo ficar com o filho e perto da sepultura de Estella, que visitava vrias
vezes para se sentir mais prximo dela, muito embora o corao lhe dissesse que ela no estava ali na terra, mas por todo o lado em seu redor. Observara com orgulho
o filho comear a escrever os seus sentimentos num dirio. Por vezes iam sentar-se na praia e Ramoncito lia-lhe as palavras que compusera sobre a me. Eram ao princpio
hesitantes, muitas vezes desajeitadas, mas ele parecia impaciente por libertar uma dor que no via outra forma de extravasar. Mas, aos poucos, refinara o seu estilo,
detivera-se mais tempo em cada frase e comeara a produzir poemas de grande claridade e beleza. Ramon estava enternecido.
- A mam vai ficar to orgulhosa de ti, Ramoncito - dizia, afagando-lhe o cabelo.
- Como  que ela saber? - perguntava.
- Porque consegue ver-te, meu filho - explicava Ramon, certo de que ela estava com eles em esprito. - Porque o amor no conhece fronteiras.
No fora fcil para nenhum deles. Porm, ao passo que Ramoncito tinha a distraco dos estudos e dos amigos de escola, o pai ficava imerso na sua autocomiserao,
sozinho em casa, onde tudo o fazia recordar-se de Estella. Por vezes, no Vero, o acentuado perfume a rosas elevava-se no ar e entrava de madrugada pelas janelas
para lhe raptar os sentidos. Ramon acordava dos seus sonhos a acreditar que ela estava ali, deitada a seu lado, pronta para acarici-lo com os seus ternos olhos
e sorriso meigo. Era nesses momentos atormentados que sentia o impulso de soluar como uma criana, de segurar a almofada dela contra o seu rosto e inspirar as memrias
contidas nela. Acendia ento a luz e escrevia os seus sentimentos. Aqueles poemas tinham salvo a sua sanidade mental. Haviam tambm mudado a sua vida.
Ramon aprendera, por meio do intenso escrutnio das suas emoes, porque fugira toda a sua vida. Primeiro dos pais, depois de Helena, depois
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dos filhos e por fim de Estella. Fugira do amor. O amor aterrorizara-o. Desde que estivesse sozinho, longe das pessoas que se preocupavam consigo, estava a salvo
da intensidade sufocante do amor delas. No suportara tamanha responsabilidade. Assim, preferira desfrutar do amor deles  distncia, regressando de vez em quando
para verificar se ainda l estava, antes de se libertar mais uma vez a tempo de no se deixar sufocar por ele. As suas intenes haviam sido sempre boas. Sofrera
ao ver Helena e as crianas sarem da sua vida, quando viajara at Inglaterra e encontrara Federica a chorar  porta da igreja porque tinha saudades suas, quando
a vira naquela tarde na bicicleta, semicerrando os olhos contra o sol.

Sofrera terrivelmente porque os amava. Porm, temia tambm a sua prpria capacidade para amar. Fugira disso igualmente. Contudo, Estella fora diferente. A princpio
fugira dela como fugira de Helena. Mas Estella amara-o sem querer possu-lo. Amara-o o suficiente para lhe conceder liberdade. O seu amor fora puro e altrusta.
Sem que disso se apercebesse, aprendera com o amor dela. Fora devido a esta lio que decidira escrever um livro, no para publicao, mas para Helena. Uma alegoria
com uma mensagem escondida. Queria que ela soubesse porque fugira dela. Desejava que tambm ela aprendesse com o amor altrusta de Estella.
Sam sentou-se no cimo da falsia e contemplou o mar que nunca mudava, independentemente da estao do ano. As geadas de Inverno tingiam a erva dos penhascos com
as suas garras glidas, congelavam os rios e ribeiros, e, no entanto, o mar permanecia imutvel. Podia estar encapelado, podia estar calmo, mas nunca era comandado
pelas estaes do ano. Pertencia a si mesmo.
Nuno pertencera a si mesmo. Nunca fora influenciado por ningum. Sam sentia a falta dele. A casa continuava a reverberar com a presena dele e todos continuavam
a falar dele como se estivesse vivo, recontando histrias das coisas engraadas que dizia e das coisas excntricas que fazia. Inigo dera o escritrio de Nuno a Sam.
Este ficara to enternecido que chorara. O pai dera-lhe umas palmadinhas firmes nas costas e dissera-lhe que podia fazer com ele o que quisesse. Porm, Sam mantivera-o
exactamente na mesma. Ingrid ficou comovida por o filho querer manter a memria do av viva na nica diviso da casa que havia sido verdadeiramente
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dele. Sam arrumara a secretria, colocando todas as folhas de papel com notas ilegveis manuscritas por Nuno em duas caixas de papel para que nada fosse inadvertidamente
deitado ao lixo. Depois arrumara as gavetas. Foi a que encontrou um livro amarelecido de Kahlil Gibran, O Profeta. Era um livro que conhecia bem. Nuno citara-o
com frequncia e oferecera a Sam uma cpia na sua Confirmao. Sam citara at o autor no elogio fnebre do av. Contudo, a cpia de Nuno revelava-se enternecedoramente
especial, uma vez que o av apontara os seus pensamentos e ideias nas margens do livro. Contudo, foi a carta inserida no livro que o inspirou.
Foi nessa altura que Sam pensou em Federica. A carta estava dirigida  sua esposa Violet, a av de Sam, e datava de oito de Maio de 1935. Fora escrita de Roma. Falava
do seu profundo amor por ela e do seu desejo de a tornar sua esposa. O casamento entre os dois era algo a que obviamente os pais dela se opunham, e, por isso, Violet
deixara-se envolver numa negra espiral de desespero, da qual parecia no haver sada. Nuno no vira outra forma de a consolar, estando no estrangeiro, por isso enviara-lhe
o seu livro com notas de encorajamento escritas nas margens das pginas, ao lado de versos que achou que lhe dariam fora. Sam ficou to comovido com a carta que
a leu mais do que uma vez. Depois leu os versos e os comentrios de Nuno. Era bvio que o plano dele resultara, pois tinham acabado por casar e partilhado muitos
anos de felicidade.

Sam lembrou-se de Federica. Se o livro ajudara Violet, porque no tentar o mesmo com Federica? Sentou-se  secretria e dactilografou um verso. Decidira envi-lo
anonimamente, pois achava que haveria mais probabilidades de ela o ler e de agir com base nele se no soubesse que fora Sam o remetente. Afinal de contas, tentara
falar com ela por duas vezes e de ambas falhara. Depois, metera-se no comboio e fora de propsito a Londres entregar o bilhete.
Ficara  espera,  porta, debaixo de um chapu-de-chuva preto para que ela no o reconhecesse. Depois, permanecera no passeio durante mais de uma hora a desejar
que ela regressasse. Demorara todo esse tempo a aperceber-se de que ela estava j em casa. Quando espreitara pela janela, vislumbrara-a a deambular pelas divises
de roupo e a comer batatas fritas. Era meio da tarde. Estava de certeza sozinha. Sam resistira
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 tentao de tocar  campainha. Ao invs disso, enfiara a carta na ranhura da porta antes de se afastar e regressar a Polperro no comboio do final da tarde.
Passara toda a viagem de regresso a Polperro a pensar nela. A imagem de Federica a vaguear, em roupo, pelas divises da enorme e elegante casa, a comer para mitigar
a infelicidade, despertara nele sentimentos de raiva e pena. O seu desejo fora ficar  espera de Torquil e espanc-lo at o deixar inconsciente. Porm, sabia que
a nica maneira de a libertar era ensinar-lhe a faz-lo ela mesma. Esperava que o bilhete a inspirasse da mesma forma que inspirara Violet. Sonhava em am-la ele
mesmo um dia, mas esses sonhos no passavam de nuvens dbeis no horizonte.
- Sabes que a tua mulher frequenta um ginsio? At j perdeu peso. Ontem no Blights s comeu uma salada. No parece nada coisa dela comentou Lcia num tom de menosprezo.
- Poverina, detestaria ter de fazer exerccio e dieta. O sexo  a nica forma agradvel de manter a forma.
- Ela no frequenta o ginsio - respondeu Torquil com um ar arrogante. - A Federica tem um personal trainer. Fui eu que o contratei. E  ptimo, ela precisa de perder
um pouco de peso.
- Que bonito - suspirou Lcia. - E tudo por ti, no?
- Claro. Ultimamente tem andado um pouco dispersa. Tenho a sensao que no consigo comunicar com ela. Aquele seu silncio pe-me louco. No sei o que se passa com
a minha mulher. Talvez perder algum peso lhe volte a colocar um sorriso no rosto. - Abanou a cabea para esquecer os problemas domsticos e sorriu de esguelha para
a amante. E se vestisses aquele bonito conjunto preto que te comprei?
- bom, ters de ser rpido, vou-me encontrar com a Fede no Mirabelle para almoarmos.
- Ento, chega-te aqui - aliciou ele, segurando-a contra si e passando-lhe a mo pelas pernas.
- Continuas a fazer amor com a Fede? - perguntou Lcia,  medida que os dedos dele chegavam ao interior das suas coxas.
- Claro.
- E nada at agora?
- Nada.
- Eu tenho a certeza que sou frtil.
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- com certeza que s, meu anjo - respondeu ele, aplicando-lhe uma palmada no traseiro nu. - Ah, vejo que estavas preparada para mim.
- Nunca uso cuecas quando me vens visitar - disse ela e soltou uma gargalhada.

Contudo, por mais que Torquil tentasse dissipar as suas ansiedades no suculento corpo de Lcia, no era capaz de parar de pensar na esposa. Pressentia o distanciamento
dela e isso alarmava-o.
CAPITULO TRINTA E SETE
Helena deveria ter reconhecido a infelicidade da filha, pois tambm ela sofrera e conhecera o descontentamento marital melhor do que ningum. Porm, Helena nunca
possura a capacidade de ver para alm de si mesma e das suas prprias necessidades. Apenas via Hal porque, ao contrrio do que acontecia com Federica, precisava
dele. Hal sempre fora a parte de Ramon que conseguira manter. Por mais que tivesse tentado convencer-se do contrrio, acreditava que nunca deixara de amar Ramon.
Arthur era amvel e compassivo, carinhoso e generoso - tudo o que uma mulher podia desejar num marido, contudo, Helena ansiava pela magia dos primeiros anos de casamento
com Ramon. Estes assombravam-na,  noite, sob a forma de sonhos sensuais que a faziam recordar aquele efmero paraso e, de dia, sob a forma de uma constante e irritante
mgoa. Quanto pior tratava Arthur, mais ele se esforava por lhe agradar.
No incio do casamento, acolhera o afecto dele com gratido e acreditara que tinha, por fim, tudo o que poderia querer. Porm, ao fim de algum tempo, os seus pensamentos
comearam a ser arrastados de volta at ao outro lado do oceano, at outra vida onde achava que conhecera a verdadeira felicidade. No conseguia evitar desejar outra
coisa, algo melhor. Parecia estar sempre insatisfeita, mas a pacincia de Arthur era ilimitada. Este achava que compreendia a mulher. Ela fora negligenciada e magoada.
Precisava de ateno e compreenso, no de inflexibilidade. Tinha a certeza que, com o tempo acabaria por suavizar-se e permitir-se um pouco de felicidade. Estava
certo de que o seu amor era o suficiente para que isso acontecesse.
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Quanto mais rebelde Hal se tornava, mais Helena se apegava a ele. Em criana, nada lhe dera mais prazer do que agradar, embora nunca fosse to obsequioso quanto
a irm. Federica sempre fora auto-suficiente.  semelhana do pai, fora feliz tendo-se a si mesma como nica companhia. No entanto, Hal precisara sempre da me e
da sua constante ateno e se alguma coisa a dispersasse, em breve ele encontraria uma forma de a conquistar de volta. Helena desesperava agora com esta sbita mudana
de carcter do filho. Era como se Hal tivesse sido possudo pelo esprito de outra pessoa, de algum com uma rota traada em direco  autodestruio.
Hal era bem mais complexo do que a me pensava. Como um rio cristalino, a personalidade de Hal revelava uma espessa camada de sedimentos acumulados ao longo de uma
infncia de convulses emocionais. Bastava uma pequena agitao para que os sedimentos turvassem a gua. Foi o casamento da me com Arthur e os acontecimentos subsequentes
que acabaram por lanar o seu corao na confuso. Contudo, as sementes haviam j sido lanadas h muitos anos, em criana, naquele Vero em Cachagua.

Aos quatro anos de idade, Hal tinha-se j apercebido, de forma dolorosa, do bvio afecto do pai por Federica. Incapaz de exprimir o seu cime a no ser por meio
de lgrimas e birras, Helena convencera-se egoisticamente de que o filho pressentia o mal-estar entre os pais e queria proteg-la de Ramon. Porm, Hal ansiava por
ser embalado nos braos fortes do pai e ser amado como Federica era amada. Ficava abatido de cada vez que Ramon saa de casa com a irm e, embora tivesse obviamente
adorado o comboio, invejara a ateno que Federica recebera por causa da caixa da borboleta. Quando Ramon ficara em casa em Cachagua em vez de os acompanhar naquele
almoo em Zapallar, Hal encarara isso, na sua limitada compreenso, como uma rejeio. Ramon mal reparava no filho, e cada desfeita foi-se acumulando no lodo do
seu carcter para um dia vir ao de cima sob a forma de rebelio e infortnio. Desta forma, agarrara-se  me como uma erva daninha, sufocando-a com a sua carncia
at ela no pensar em mais nada a no ser nele. Ento, Helena no lhe dissera que iam deixar o Chile para sempre e prometera oferecer um co a Federica. Hal, desacostumado
a ser deixado em segundo plano pela me, encarou o sucedido como mais uma rejeio.
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Temendo perd-la, agarrou-se a ela com todas as suas foras, conseguindo at dormir nos braos dela  noite, explorando o vazio que Ramon deixara e preenchendo-o
com uma carncia que reabastecia a nsia de Helena de ser amada.
 medida que crescia, tambm o seu autoconhecimento se desenvolvia. Sentia-se culpado por amar a me com tamanha intensidade e sofria terrveis oscilaes de humor,
adorando-a um momento e detestando-a no momento seguinte. Envidara todos os esforos para odiar Arthur porque a me o amava, mas simpatizara desde logo com ele,
involuntariamente. Em parte devido s boas qualidades de Arthur, mas tambm porque a irm o odiava e ele se apercebia do quanto a rebelio de Federica incomodava
a me. Hal sempre desejara agradar  me, por isso deixara o cime fervilhar em lume brando na boca do seu estmago como alcatro, apaziguando-se apenas quando percebeu
que Helena no amava Arthur como o amava a si. O amor dela pelo filho era to forte quanto sempre fora. Arthur dava-lhe a ateno que o pai lhe deveria ter dado,
e Hal deu por si a reagir  amabilidade dele com uma nsia que fora crescendo ao longo dos anos. Envolveu-o na mesma carncia com que envolvia a me. Arthur tinha
tempo para passar com ele, escutava-o, comprava-lhe presentes, levava-o a sair - todas as coisas que Ramon fizera por Federica e, para alm disso, Federica detestava-o.
Arthur pertencia exclusivamente a Hal e  sua me. Era a vez de Federica ficar de fora - at Helena ter permitido que ela fosse viver com Toby e Julian.
A partir desse momento sofreu com a dolorosa separao da irm, que admirava e adorava. Mais uma vez, Federica recebera um tratamento especial. Sofreu em silncio,
incapaz de comunicar o seu ressentimento e angstia. Assim, encontrou consolo no submundo do lcool e do cigarro.
Aos vinte e um anos, Hal estava no ltimo ano da Escola de Arte de Exeter, estudando Histria de Arte. Contudo, conseguira enquadrar-se num grupo da universidade
e durante todo o curso ningum soube que ele no era um estudante universitrio.
Partilhava uma casa com cinco dos seus novos amigos, situada no meio de um lodaal. No possua aquecimento e a electricidade funcionava por moedas inseridas no
contador. Havia excrementos de rato nas gavetas da cozinha e sacos de lixo encostados  parede da rua que ningum
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se dava ao trabalho de retirar. A casa era fria no Vero e glida no Inverno, mas acendiam a lareira e dormiam de camisolas de l. Hal no trabalhava. Apenas concordara
em prosseguir os estudos porque no se conseguia decidir quanto ao que pretendia fazer. Enquanto estudasse no teria de decidir o que queria fazer da vida. com isso,
ganhara mais trs anos para desperdiar a fazer quase nada.
Fumava porque todos os outros rapazes fumavam e para alm disso sempre aquecia. Bebia porque o lcool o ajudava a esquecer a sua inutilidade e a me, que lhe telefonava
todos os dias para saber se ele estava bem e para enterrar cada mais as garras nele, ao mesmo tempo que se convencia de que o marido no a realizava. O lcool dava-lhe
confiana. Enquanto o efeito da bebida durava era to carismtico, enigmtico e autoconfiante quanto Ramon Campione. Durante esses passageiros momentos at se parecia
fisicamente com ele.
Os perodos de depresso eram insuportveis. As inseguranas invadiam a armadura que a bebida construra em redor dele e corroam-lhe a auto-estima mais maldosamente
que nunca. Quando o dinheiro se esgotava, Helena enviava-lhe mais, sem sequer questionar por que motivo o filho precisava dele. No comunicava com Arthur, apenas
lhe dava o que o marido lhe dava a si. Quando j nem isso comeou a bastar, Hal seduziu Claire Shawton, uma rapariga tmida de rosto estreito e plido e pernas compridas
e franzinas, porque o pai dela era dono da Shawton Steel e na conta bancria dela no faltava dinheiro. Desejosa de no deixar fugir o sombrio e impenetrvel Hal
Campione, Claire dava-lhe dinheiro para os copos e os cigarros, para o jogo e para todas as extravagncias dele.
- No sou um alcolico - explicou Hal certa vez, quando ela protestou. - A bebida ajuda-me a relaxar. Eu devolvo-te o dinheiro, prometo. Estou apenas a ter alguns
problemas em contornar os fideicomissrios,  s isso.
Contudo, no havia fideicomissrios, porque tambm no existia qualquer fideicomisso. Apenas a generosidade cega de Helena.
As vantagens de Claire Shawton estendiam-se apenas at ao limite do seu saldo bancrio; sexualmente, no satisfazia Hal nem de longe. Este encarava as suas aventuras
sexuais com a mesma atitude destrutiva com que enfrentava tudo o resto na sua vida. Dormia com dezenas de raparigas, prometia-lhes devoo e entrega e depois abandonava-as
assim que davam indcios de querer um relacionamento para alm da cama.
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Claire sabia das transgresses dele, mas ao invs de fechar o livro de cheques e se afastar dele, dava-lhe mais dinheiro e aceitava os beijos que se seguiam com
uma lamentvel gratido.
Quando Hal regressou a casa de frias, Arthur reparou de imediato que ele estava magro e plido, incapaz de ficar sentado quieto e de se concentrar durante muito
tempo. Dormia durante grande parte do dia e  noite ficava a p at quase de madrugada a ver vdeos. Quando Arthur abordou o assunto com Helena, esta tratou de desculpar
o filho, argumentando que ele andava extremamente cansado dos estudos e que precisava das frias para descansar.
- No o aborreas, Arthur, ele  muito sensvel em relao a isso - disse peremptoriamente. - Assim como assim, j tem pouca autoconfiana. Deixa-me ser eu a tratar
disto.

Mais uma vez, Arthur encolheu os ombros e recuou. Helena mostrara-se fria e distante nos ltimos meses. Era dada a oscilaes de humor, afectuosa num minuto, distante
no minuto seguinte. Arthur estava habituado a isso. Ao que no estava habituado era ao consistente mau humor que agora parecia dominar a personalidade dela. Como
uma vela que se vai consumindo, o afecto dela por si parecia estar a diminuir a cada dia que passava. Se no fizesse nada, a chama apagar-se-ia de uma vez por todas.
Contudo, Arthur no sabia o que havia de fazer. Em desespero, comeou a interrogar-se se ela andaria a sair com algum.
Helena andava de facto com outra pessoa. Andava com Ramon. Quando fechava os olhos  noite e quando a sua mente devaneava durante o dia e, por fim, quando se deitava
nos braos rudes de Diego Miranda, via o rosto deslumbrante de Ramon Campione. O nico homem que ela acreditava ter alguma vez amado verdadeiramente. Chorara lgrimas
amargas de remorso suficientes para afundar um dos navios de Diego. Olhara para trs para a sua vida e reconhecera os seus erros. Mariana tivera razo quando afirmara
que muitas vezes no damos valor ao que temos at o perdermos.
Sabia onde Ramon estava, mas h anos que no tinha notcias dele. Nem to-pouco se dera ao trabalho de o procurar para lhe comunicar o casamento da prpria filha.
Desejava agora t-lo feito. Teria sido uma boa desculpa. Agora no tinha razes para lhe telefonar.
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Helena no se esforara por ter um caso. Nem sequer o considerara ou desejara. O seu corao estava algures no passado, mal se concentrando no presente. Estava num
pub em Polperro com Arthur, num frio domingo de Vero, quando um estranho jovem de cabelos compridos pretos e olhos escuros esbarrou consigo acidentalmente, derramando-lhe
o copo de vinho no casaco de caxemira. Helena perdera a pouca pacincia que j tinha, no tanto com o rapaz, mas com a vida em geral, e exasperara-se, praguejando
furiosamente.
- Lamento muito - exclamara o rapaz, virando-se para o empregado em desespero. Este emprestou-lhe um pano e ele comeou a limpar-lhe o casaco. - No tenho palavras
para me desculpar - acrescentou e Helena estacou de repente, olhando-o estupefacta.
- O seu sotaque - gaguejou. - De onde ?
- De Espanha.
Sentiu o corao apertar-se e a cabea andar  roda com uma estranha sensao de dj vu. O rapaz soava tal e qual como Ramon. Quando olhou para os olhos dele, achou
que tambm eles se assemelhavam aos de Ramon, at que no estado de nsia em que se encontrava comeou a acreditar que o rapaz era a sombra de Ramon que se separara
dele por magia e que atravessara o oceano at ali.
- Diego Miranda - apresentou-se ele, estendendo a mo.
- Helena Cooke - respondeu. - Vivi uns tempos no Chile acrescentou, esquecendo a ndoa no casaco.
- A srio? - devolveu ele num tom educado. - Ento, com certeza fala espanhol.
- Sim,  verdade - assentiu ela, a voz rouca de entusiasmo. Mas h muitos anos que no falo a lngua.
- Nunca se esquece uma lngua como o espanhol.

- Pois,  capaz de ter razo - concordou, flutuando na msica da voz dele que parecia cham-la das costas brumosas do passado distante.
- E o que  que o Diego faz?
- Estou no negcio dos navios.
- Ah, a Armada - gracejou ela.
- Mais ou menos - respondeu. - Por favor, deixe-me dar-lhe o meu endereo para que possa enviar-me a conta.
- A conta?
- A conta da limpeza do casaco - explicou ele, franzindo a testa com uma expresso divertida.
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- Oh, sim, a conta - riu ela, vendo-o sorrir e sentindo o estmago revirar-se outra vez. - Vive em Polperro?
- No, estou apenas de passagem.
- Oh - comentou, tentando dissimular o seu desapontamento. Onde  que est hospedado?
- Em casa de amigos - Veio ento em passeio?
- Sim.
- Curioso - recordou ela, abanando a cabea. - Quando conheci o Ramon ele tambm andava a passear por aqui.
- Quem  Ramon? - inquiriu ele.
- No faa caso, uma outra vida - explicou ela, pondo de parte a recordao com um sorriso. - Levei-o a ver as antigas grutas e covis ligados ao contrabando. Os
locais que no se encontram nos guias de viagem.
Os olhos de Diego tremeluziram de entusiasmo e interesse.
- Mesmo? - respondeu ele, sorrindo com os seus escuros olhos espanhis. - Eu tambm tenho seguido o que o guia sugere.
- Quer dizer que os seus amigos no lhe tm andado a mostrar as vistas?
- No tm tempo, trabalham - referiu, observando a boca dela curvar-se num dos cantos.
- Se quiser um guia, posso mostrar-lhe alguns dos locais que poucas pessoas conhecem. Eu cresci aqui - explicou Helena.
- Seria uma honra - respondeu ele, beijando-lhe a mo e esboando uma vnia.
Helena presenteou-o com um largo e despreocupado sorriso antes de ser chamada  realidade pelos insistentes acenos de Arthur da outra ponta do pub.
- Oh, meu Deus! - suspirou, irritada. - J me tinha esquecido dele por completo. No h problema - respondeu ela ao franzimento de sobrancelhas inquiridor de Diego,
abanando a cabea -, encontramo-nos aqui amanh s onze. - Ele acenou com a cabea indicando o seu assentimento e ergueu uma sobrancelha, mal acreditando na sua
sorte. Reparara na aliana dela e na preocupao do marido. Era latino, afinal de contas.
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Diego ficou surpreendido com a falta de reticncias de Helena no que dizia respeito a embarcar numa aventura amorosa e sups que ela j tivera muitas antes. Ela
conduziu-o ao longo da costa e permitiu que ele fizesse amor consigo na falsia, dentro do carro, com vista para o mar. Mais tarde, convidou-o para sua casa, onde
o levou at  sua cama. Helena apreciava a maneira firme com que ele a tratava, a maneira firme como a beijava, a maneira sensual com que a acariciava. Fechava os
olhos e pedia a Diego que lhe falasse apenas em espanhol e depois projectava a sua mente at ao outro lado do oceano e recuava no tempo at uma poca em que Ramon
no se afastara dela e ela no abrira mo dele e o rejeitara.
Da primeira vez que Arthur teve dificuldades em rodar a torneira do chuveiro ficou surpreendido. Helena deixava-a sempre a pingar. Da segunda vez ficou perplexo.
Da terceira, a sua intuio disse-lhe que outro homem o usara. Encostou-se  parede para travar a vertigem que sentiu,  medida que o corao lhe caa aos ps. Nos
ltimos dias Helena mostrara-se mais amvel, mais satisfeita, no lhe falara de forma rspida ou o ignorara. Beijara-o com ternura e, percebia agora, com culpa.
Deixou a gua quente martelar-lhe a pele, afogando os gritos que ouvia na cabea e que recusavam conceder-lhe a paz necessria para pensar racionalmente.
Acreditara que o distanciamento dela estava enraizado na ansiedade em relao a Hal. Preocupar-se com o problemtico filho tornara-se uma preocupao a tempo inteiro.
'No entendera o distanciamento dela como um sintoma do declnio do amor que sentia por ele. Arthur venerava-a. O sexo nunca constitura problema; haviam-se amado
e rido juntos na cama mesmo em tempos mais difceis. Ficou nauseado com a ideia de ela se dar a outro homem. E estava magoado com a evidente rejeio de que estava
a ser alvo, apesar de todos os seus esforos para lhe agradar.
Interrogou-se quem poderia ele ser. Porm, Arthur no era palerma. Desejou s-lo, pois era tudo demasiado simples e, consequentemente, demasiado doloroso. Vira-a
a falar com o estrangeiro moreno no pub. Regressara  mesa corada e meio alheada. No parara de olhar para ele sempre que podia, observando-o, baixando os olhos
recatadamente quando ele lhe devolvia o olhar. Arthur no gostara, mas cedera e no dissera nada. No havia nada de errado num galanteio inofensivo se isso a fazia
sentir-se mais feliz, mais atraente.
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Abandonara o pub com Arthur de excelente humor e falara durante todo o caminho at casa. Habitualmente, olhava desanimadamente pela janela, reagindo com monosslabos
s tentativas dele de fazer conversa. Contudo, no suspeitara de nada. Nunca lhe passara pela cabea que ela pudesse ser to tortuosa e desleal.
Depois do desespero veio a raiva. Esmurrou os azulejos molhados com a palma da mo ao mesmo tempo que os seus pulmes se enchiam de fria, fazendo-o arquejar. Pensou
no primeiro beijo que haviam partilhado, nas primeiras carcias, no dia do casamento e na inicial satisfao marital e no sentiu mais nada a no ser dio e averso.
Depois, recordou-se com preciso das vrias coisas ofensivas que ela lhe dissera, da forma pouco amvel como o tratava e mordeu o lbio de repugnncia. E ele engolira
isso tudo porque a amava. Mas agora a humilhao fora longe de mais.
- Nunca esquecerei o rosto da beldade de Polperro - declarou Diego, delineando o rosto de Helena com o dedo e detendo-o sobre os lbios dela antes de o descer pela
linha do queixo e a puxar para si para a beijar.
Helena suspirou de prazer.
- Quando  que te vais embora? - perguntou, sem esconder o queixume desesperado presente no seu tom de voz.
- Amanh.

- Amanh? - repetiu ela, sentindo pequenas gotculas de suor a irromperem-lhe na testa e no nariz. - Ento, isso quer dizer que ficamos por aqui, que  o fim?
- Sabes qual  o teu problema? - perguntou ele, abanando a cabea.
- Qual? - quis saber, afastando-se ofendida.
- s demasiado carente.
- Carente? - replicou ela. - Eu no sou carente.
- s, sim, mi amor. s carente e isso  sufocante. s como um enorme polvo. Uma vez apanhado pelos teus tentculos, um homem sente que no consegue escapar.
- Como te atreves! - exclamou ela, saindo da cama do hotel.
- Helena, mi amor, no estou a criticar-te - insistiu Diego, sorrindo divertido com a sbita mudana de humor dela. - s uma mulher linda
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e tambm s divertida. Tenho a certeza que partes coraes por toda a Cornualha.
- Mas no o teu.
- Helena - chamou ele, indulgentemente. - Chega aqui. - Ela caminhou com um ar amuado de regresso  cama, sentando-se na beira do colcho e permitindo que ele lhe
afagasse o cabelo. - s como um anjo cado. Encontraste-me porque te sentias sozinha. s uma mulher descontente, qualquer homem consegue perceber isso. Mas no te
preocupes, haver outros.
- Como assim, outros? - exclamou, indignada.
- Outros homens. Seguramente, mi amor, no serei o primeiro homem com o qual trais o teu marido!
- Pois claro que s. Por quem me tomas? Por uma prostituta?
- Por favor, no me interpretes mal - apressou-se a acrescentar, tentando corrigir o seu erro.
- Faz favor de sares - declarou ela num tom glido, arrependendo-se de repente de o ter sequer conhecido. Ao escutar os ecos da indiferena de Ramon perpassarem
atravs dos anos, interrogou-se porque recordara apenas a magia.
- Helena.
- Sai. J! - continuou, levantando-se e lanando-lhe a roupa. Quis-te porque me recordavas uma pessoa. Mas vejo que fui uma tola! Nem um nem outro passam de uma
iluso. Tenho andado a sonhar, mas agora j acordei. - Diego semicerrou os olhos, tentando compreender o que ela estava a dizer. - Fora!
- V l, Helena. No fiques zangada - adulou-a, levantando-se com relutncia. - Separemo-nos pelo menos como amigos.
- Nunca fomos amigos, para comear - respondeu ela. - Fomos amantes, mas agora j nem isso, por isso no somos nada um ao outro.
- Que aconteceu a essa tal "iluso"?
- Nunca existiu, na verdade - disse ela, cuspindo as palavras. Tal como tu.
- s demasiado ansiosa, Helena. Assim afastas qualquer homem.
- Rua!
-  verdade. Mas o amor que fizemos foi bom - comentou ele com um sorriso dengoso, calando os sapatos. - s uma mulher assaz desejvel, Helena Cooke.
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- Nunca mais quero voltar a ver-te! - gritou para as costas dele. A porta fechou-se com estrondo e ele desapareceu. - Meu Deus, onde  que eu tinha a cabea? - exclamou
em voz alta para si mesma, enterrando-se numa cadeira. Tudo o que restou foi a cama por fazer e um profundo sentimento de auto-averso. Segurou a cabea entre as
mos e arquejou de raiva. Como se atrevera ele a pensar que ela trairia o marido com qualquer um? Como poderia ela ter-se enganado tanto? Pensou em Arthur e foi
de repente acometida por um enorme acesso de vergonha. Ao que se via reduzida! Arthur era apenas culpado de a adorar. De que servia agarrar-se  sombra de Ramon,
quando Arthur era real e o amor dele absoluto? Cometera um erro terrvel.
Quando regressou a casa a luz do dia quase desaparecera. O Sol de final de Vero mergulhara por trs da vila, abrindo caminho  lua cheia. Sentia-se abatida e derrotada.
Para sua surpresa, viu a luz do quarto acesa, o que indicava que Arthur estava em casa. O seu estado de esprito melhorou, aos poucos a princpio, mas depois com
uma velocidade crescente, at que sentiu vontade de correr para ele como uma criana e lhe pedir desculpa por o tratar to mal. A lembrana do odor familiar de Arthur,
do seu confortvel abrao e sorriso encorajador encheu-a de remorsos. Ansiava por se enroscar nele, como faziam quando eram recm-casados, e experimentar aquela
sensao de segurana, de intimidade e de amizade. Queria esquecer Diego Miranda para sempre. Desejava nunca ter entrado no pub naquele dia. Como estivera perto
de perder tudo devido a uma lamentvel paixoneta. Porque seria que perseguia constantemente sonhos e fantasmas?
Meteu a chave na fechadura e rodou-a para um lado e para o outro. Frustrada por no conseguir abrir a porta, tocou  campainha. Vendo que Arthur no vinha abrir,
gritou para a janela do primeiro andar. Depois, para seu horror, a luz do quarto apagou-se, deixando-a sozinha na rua, pestanejando de medo ao aperceber-se subitamente
de que ele devia saber. Sabia de alguma forma. Ou ento, fartara-se simplesmente.
- Arthur! - gritou em pnico. - Arthur! - Mas a casa continuou imersa em silncio e impenetrvel. - Arthur, deixa-me entrar! - voltou a insistir j com a garganta
apertada. Gritou at ficar rouca, at a fria parede da casa fazer eco dos seus rogos apenas para troar de si. Deixou-se cair ao cho e comeou a chorar. A pacincia
de Arthur esgotara-se, por fim.
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Arthur observava-a pela frincha nas cortinas. Viu-a meter-se por fim no carro e afastar-se at desaparecer na escurido. Doa-lhe a garganta de reprimir as emoes
e sentia o corao apertado, pois sabia que ao rejeit-la arriscava-se a perder a nica mulher que alguma vez amara. Contudo, sabia tambm que no podia continuar
a ser tomado como garantido. Fora empurrado at ao seu limite. Helena fora longe de mais. Estava na altura de reconquistar o respeito dela. Ela precisava de espao
para reconhecer que o que tinha com ele era algo precioso, algo sagrado, algo a ser estimado, e no usado e abusado por indiferena e complacncia.
Sentou-se na beira da cama e repousou a cabea nas mos. Pela primeira vez em muitos anos, chorou.
Hal afastara-se de Federica. Ela agora era casada e a vida dela j no corria paralela  dele. Por isso, ficou surpreendido quando a irm lhe telefonou pouco tempo
depois do funeral de Nuno, e o convidou para almoar em Londres durante as frias lectivas.

- Preciso de te ver, Hal - disse ela e a sua voz soou-lhe diferente. Hal ficou aliviado por sair de casa da me. Ela no o largava com as suas perguntas incessantes
e a exigncia tcita de ser includa na vida dele. Queria saber todos os pormenores acerca de Exeter, quem eram os seus amigos, se tinha namorada, o que fazia depois
das aulas. Hal achava a ateno da me ao mesmo tempo gratificante e invasiva. Sufocava-o.
Arthur observava-o a vaguear pela casa como um morto-vivo e decidiu que pelo menos o enteado estava a crescer e a tornar-se independente, mas no gostou da palidez
e da inquietao dele.
Hal encontrou-se com Federica no Le Caprice. Reparou que no espao de um par de meses a irm perdera bastante peso. Ela, por sua vez, reparou como ele estava plido
e magro.
- No ests nada com bom aspecto, Hal. Que raio se passa? perguntou, pedindo uma garrafa de gua mineral.
- Um Bloody Mary para mim - pediu Hal. - Estou bem. Tu ests ptima!
- Obrigada - respondeu Federica. - Estou a ver se me recomponho - acrescentou com orgulho. Perdera quase seis quilos.
- Ainda bem. Este almoo  por tua conta, certo?
- Certo.
- ptimo, vamos pedir, estou esfomeado - afirmou, abrindo o cardpio.
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- Como est a me?
- Bem, suponho. Chata como de costume - murmurou.
- E o Toby e o Julian?
- Porque no lhes perguntas tu mesma? Nunca vais at l v-los.
- No tenho tido muito tempo.
- Pois, pois...
- A srio.
- Eu quero um bife e batatas fritas - disse ele, fechando o cardpio.
- No tens ar de quem come bife e batatas fritas. Tens mais ar de quem sofre de um distrbio alimentar.
- Por amor de Deus, j pareces a me - queixou-se ele. - Seja como for, a que se deve este almoo? No acredito que seja apenas um almoo inocente.
- Claro que . H anos que no te vejo como deve ser.
- No  culpa minha.
- Pois no, eu sei. Mas tambm preciso da tua ajuda.
- O qu? - suspirou ele, revirando os olhos. Federica planeara falar-lhe do bilhete do pai, mas viu o irmo to hostil e indiferente que mudou de ideias.
- Preciso que me consigas junto da me o nmero de telefone da abuelita - declarou.
- Porque no lho pedes tu mesma?
- Porque no quero que ela saiba que o quero - explicou. -- S precisas de ir ver na agenda dela, de certeza que est l.
- Porque no queres que ela saiba? A abuelita  tua av.
- Mas tambm me do nosso pai - acrescentou Federica. - Hal, no te faas de ingnuo. A me no fala com ela h anos, literalmente. E odeia o nosso pai. Detestava
quando ele nos escrevia.
- Escrevia a ti - corrigiu ele num tom exasperado. - A mim nunca escreveu.

- Como queiras.  melhor fazer isto discretamente, confia em mim.
- Vais ter de me pagar esse favor.
- O qu?
- Sim, no o fao de borla - disse ele num tom resoluto.
- No ests a falar a srio?
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-  claro que estou - insistiu no mesmo tom. - De outra forma, que ganho eu com isso?
- bom, quanto queres ento? - perguntou Federica.
- Cem libras.
- Cem libras? - arquejou ela. - S podes estar a brincar!
- Tive de apanhar o comboio, comprar bilhete de ida e volta. Para alm disso,  uma seca.  o mnimo que podes fazer. O dinheiro  do Torquil, assim como assim,
e ele nada nele.
Federica observou o irmo e mal reconheceu o Hal com o qual crescera. Franziu o sobrolho.
- Ests estranho hoje. Que se passa contigo? - perguntou, procurando no rosto dele uma expresso que reconhecesse.
- O dinheiro ou nada de nmero de telefone.
- Endereo e nmero de telefone, de Cachagua e de Santiago regateou ela.
- Muito bem, combinado.
- Combinado - respondeu ela, apertando-lhe a mo. Hal enterrou a faca no bife.
- Quero o dinheiro agora - declarou ele, levantando-se.
- Onde vais?
-  casa de banho.  s um minuto. - Federica ficou a v-lo serpentear vacilantemente pelo restaurante e interrogou-se se o pai estaria tambm a olhar por ele. Depois
recordou-se que Ramon nunca escrevera a Hal.
Helena estava demasiado envergonhada para contar aos pais o verdadeiro motivo por que Arthur a deixara do lado de fora da porta. Foi para o seu antigo quarto, onde
caminhou de um lado para o outro enraivecida.
- Pobre Helena - lamentou Polly para o marido. - Est furiosa com o Arthur.
- No, no est - disse Jake sem rodeios. - Est furiosa consigo mesma. F-las das boas de novo.
Helena recusava-se a ouvir uma palavra sequer contra Arthur. Quando telefonou a Federica a contar-lhe o sucedido, terminou a conversa abruptamente, desligando-lhe
o telefone na cara, porque a filha culpara de imediato o padrasto.
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- Oh, Federica - suspirou Helena sem pacincia. - Que sabes tu? Na manh seguinte fora at casa para falar com Arthur, batera  porta e seguira-o at ao emprego.
- Arthur, eu posso explicar - suplicara, mas ele recusara-se a escut-la.
- Foste longe de mais, Helena - respondera ele, terminantemente. - Esgotaste-me. No te quero de volta a no ser que estejas disposta a mudar, e tu no podes decidir
isso da noite para o dia. Vai-te embora e pensa nisso. - Chocada com o aparente fim dos sentimentos dele, Helena regressara a casa para chorar no ombro da me que
ele j no
a amava.
S a Toby contou a verdade.

- Tive um caso - confessou ela, sentados na praia ventosa a conversarem por cima do barulho das ondas e dos gritos das gaivotas.
- Oh, Helena - lamentou Toby. - com quem, por amor de Deus?
- Um espanhol.
- Um espanhol? - exclamou ele, abanando a cabea ao pensar no disparate da irm.
- Um raio de um espanhol - retorquiu ela, cruzando os braos no peito e fungando de autocomiserao.
- Mas porqu?
- Porque me fazia lembrar o Ramon. Toby apunhalou a areia com um pau.
- Ests obcecada por um fantasma, Helena - comentou ele num tom grave.
- Eu sei - concordou, e depois acrescentou num tom mais irado:
- Agora sei que sim!
- Queres sempre o que no podes ter.
- No preciso que me digas isso - redarguiu na defensiva. - Fui uma palerma, sou a primeira a admiti-lo.
- Alguma vez amaste o Arthur? - perguntou Toby. Helena olhou para l das ondas, para as nuvens cinzentas que se deslocavam com rapidez na direco deles e recordou
a fria do marido. - Ento, amaste o teu marido ou no? - repetiu Toby.
-  claro que sim. Apenas no reconheci esse amor. - Toby franziu a testa como quem no estava a compreender. - No  o amor avassalador
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de Ramon - explicou ela. -  uma coisa mais calma. Acho que no dei ouvidos a esse sentimento. Estava demasiado ocupada a tentar escutar o rugido do amor que conheci.
O meu amor pelo Arthur  mais brando. Demorei algum tempo, mas agora consigo escut-lo.
- O rugido abranda sempre passado pouco tempo, e depois, se formos suficientemente afortunados, ficamos com uma coisa mais forte e mais duradoura - referiu Toby,
pensando em Julian. - O Arthur  um bom homem.
- Apercebo-me disso agora. No acredito que tenha sido necessrio uma aventura extraconjugal oca e desprovida de significado para me aperceber do quanto o Arthur
significa para mim. Tratei-o to mal! Tenho sido to pouco carinhosa com ele! E ele limitou-se a voltar as costas e a deixar-me comportar-me desta forma horrvel.
Que outro homem seria to indulgente? No o mereo. - Depois olhou para o irmo pesarosa e arrependida. - Perdi-o, no foi?
Toby colocou-lhe um brao em redor dos ombros e beijou-lhe o cabelo, que cheirava a maresia.
- No sei, querida. Parece que nunca aprendes com os teus erros.
CAPTULO TRINTA E OITO

Sam observava a chuva a tamborilar os vidros das janelas do escritrio de Nuno. As chamas crepitavam na lareira onde Nuno sempre espicaara o lume com o atiador
de ferro de cada vez que precisara de reunir os seus pensamentos. Trotsky estava deitado no tapete, respirando ruidosamente no seu sono. Contudo, Sam sentiu o frio
nos ossos e estremeceu. Fixou o olhar no sof de cabedal onde Federica se sentara e recordou os olhos dela, opacos de resignao, e o seu infeliz corpo, que suportava
o peso de demasiada comida ingerida para colmatar um vazio. Sam sentia-se tambm vazio. Perdera Nuno, o seu querido av e amigo, mas perdera tambm Federica para
outro homem, e ainda por cima totalmente imerecedor dela; estava a enganar-se a si mesmo, pois nunca a tivera para que a pudesse perder. Quando a poderia ter tido
no a quisera.
Levantou-se e caminhou pelo escritrio para se aquecer. Puxou as mangas da camisola por cima das mos geladas e encurvou os ombros. No escrevera uma palavra desde
que regressara a casa para escrever. Contemplara a ideia de comprar uma pequena casa como a de Toby ejulian - um jovem de trinta e um anos no devia viver em casa
com os pais -, mas no tinha energia ou incentivo para ir procurar uma. Enquanto estivesse em Pickthistle Manor no tinha de sair de casa para procurar companhia,
cozinhar a sua prpria comida ou pagar renda ou uma hipoteca. O pai estava grato por ter a sua companhia e discutia com ele as suas teorias frente  lareira da sala
onde Federica assara marshmallows pela primeira vez com Molly e Hester.
Ingrid deambulava pelas divises como um espectro nos seus compridos vestidos, deixando um rasto de fumo atrs de si e mal se dando conta da presena de Sam. Continuava
a dirigir o seu santurio e refgio
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animal, j to sobrelotado que, quando Sam regressara de Londres descobrira um esquilo a hibernar na sua gaveta das camisolas, aninhado no seu pulver de caxemira
preferido. Quando confrontara a me com o sucedido, ela sorrira alegremente e respondera: "Ah, ento era a que o Amos estava! Sabes, querido, tenho andado o Inverno
todo  procura dele. No o perturbes at  Primavera, est bem?"
Assim, Sam vira-se forado a vestir as camisolas do pai, mas todas tinham buracos, quer das traas quer dos ratos, pois ele nunca trabalhara um dia na sua vida e
saa to pouco que as camisolas raramente viam a luz do dia. Vendo o filho naqueles trajos e no reconhecendo as malhas como suas, Inigo dera umas palmadinhas firmes
no ombro e dissera-lhe: "Filho, se precisas de dinheiro, no sejas demasiado orgulhoso para pedir, est bem?" Sam respondera que estava muito bem, obrigado. Os dois
irmos mais novos vinham a casa aos fins-de-semana. Lucien estava em Cambridge ejoey no seu ltimo ano de escola. Molly e ester vinham a Polperro sempre que podiam,
uma vez que ambas tinham empregos a tempo inteiro, que lhes concediam muito pouco tempo livre.
Molly encontrava sempre qualquer coisa maldosa para dizer acerca de Federica, ao passo que Hester lamentava a perda da amiga.
- Fomos outrora to prximas - suspirava. - Contvamos tudo uma  outra.
- bom,  o que acontece quando algum deixa a riqueza subir-lhe  cabea - comentou Molly, cruelmente. - Se tu e eu fssemos de famlias da sociedade, Hester, podes
ter a certeza que no nos teria virado as costas como se tivssemos lepra.
Porm, Sam sabia a verdade, pois no estava cego pela inveja e o cime como Molly. Mantinha os seus sentimentos para si mesmo e escondia-se por trs da pesada porta
de carvalho do escritrio de Nuno.
- O Sam  tal e qual o pai - riu Molly, um fim-de-semana, ao constatar que o irmo apenas emergira para as refeies. - Est tambm a ficar taciturno.

Sam ansiava por telefonar a Federica, mas no sabia o que dizer e no queria que ela soubesse que era ele o autor do bilhete. Depois da conversa que haviam tido
no dia do funeral de Nuno, duvidava que ela ficasse satisfeita por ter notcias dele. Assim, frustrado por no ser capaz de comunicar, decidiu escrever outra carta
annima. Abriu o livro de
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Nuno e sentou-se frente  lareira, tremendo de frio, e esforou-se por encontrar algumas linhas que fossem teis para ela. Os versos sublinhados por Nuno eram muito
diferentes daqueles que seriam os mais apropriados para Federica, uma vez que Violet necessitara de encorajamento para amar, ao passo que Federica precisava de encorajamento
para viver
- para viver de forma independente e no de acordo com a vontade de outrem. Virou as pginas, roendo a ponta do lpis. Podia usar um dos versos sobre o amor, mas
isso seria mais adequado para si mesmo, pois sofria no "crivo" do amor porque Federica lhe atormentava os pensamentos e lhe abria buracos no corao, como que com
um tio. Podia usar um dos versos sobre a dor, pois ensinar-lhe-iam que a alegria e a dor eram inseparveis, uma vez que sem uma  impossvel conhecer a outra.
Deparou-se ento com uns versos sobre a liberdade e apercebeu-se que nenhum outro se adequaria mais. Tamborilou triunfantemente a pgina com a ponta hmida do lpis
e pensou: "Federica tem o poder de se afastar. O Torquil trata-a como ela permite que ele a trate. Pode sempre dizer no e tem de dizer no." Leu-os ento em voz
alta para Trotsky, que abriu os olhos descados, bocejou e se espreguiou, antes de inclinar a cabea para um lado e levantar as orelhas atentamente.
- "Como pode um tirano dominar homens verdadeiramente livres? E se  a inquietao que quereis expulsar, tal inquietao foi escolhida por vs e no imposta de fora.
E se quereis dispersar o medo, a sede desse medo  o vosso corao e no a mo que vos assusta."
Sam sentou-se frente ao computador na mesa de Nuno e escreveu os versos. Depois passou a meia hora seguinte a imprimir a folha, o envelope e a sel-lo, pois cada
tarefa era conduzida com o maior cuidado possvel, como se fosse uma carta de amor que contivesse os segredos do seu corao. Entusiasmado com a perspectiva de vislumbrar
Federica, apanhou um comboio bem cedo na manh seguinte, olhando pela janela toda a viagem, pois estava demasiado ansioso para conseguir ler. Chegou de txi a tempo
de a ver sair de casa e entrar no carro que a esperava.
- Siga o Mercedes, por favor - instruiu Sam ao taxista, e depois encostou-se no banco e ficou a escutar o martelar do seu corao e os pensamentos cautelosamente
optimistas que lhe povoavam a mente.
Reparara de imediato na figura dela. Emagrecera bastante e o seu andar recuperara a vivacidade que sempre tivera antes de se ter casado.
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A pele no tinha o mesmo ar bao, reluzindo de sade. Interrogou-se se o seu bilhete teria inspirado esta mudana. Depois o seu rosto ensombrou-se: talvez tivesse
sido Torquil.

Federica estava entusiasmada com esta sua nova abordagem da vida, embora no tivesse sido fcil. Tivera de trabalhar arduamente com o seu personal trainer para perder
os quilos ganhos e alterar a sua dieta. Fora desmoralizante. H meses que no olhava bem para si mesma ao espelho e quando as roupas lhe haviam deixado de servir,
pedira simplesmente a Topquil que lhe comprasse outras. Estava mais gorda do que se apercebera. Engordara cerca de doze quilos e a pele sofrera com toda a sorte
de abusos que ela cometera. De repente, deixara de poder esconder-se, pois John Burly vinha todas as segundas, quartas e sextas pes-la, medi-la e exercit-la at
que o suor lhe escorresse de cada poro como se fosse sangue, fazendo-a muitas vezes chorar de desalento.
- No consigo. Fui feita para ser gorda.
- Muito bem, se quer continuar gorda, tudo bem, no precisa de mim para isso - respondia ele e virava-lhe as costas at que Federica lhe suplicava que no fosse.
Assegurara-se de que no frigorfico no faltavam frutas e legumes e cumpria  risca a rigorosa dieta s porque, de cada vez que ansiava por um pacote de batatas
fritas ou uma tablete de chocolate, se recordava dos nomes cruis com que Torquil a elogiava e em vez disso roa uma cenoura.
Em vez de gastar o dinheiro de Torquil em roupa, ia regularmente  esteticista e comeou a orgulhar-se de novo da sua aparncia.  medida que o peso diminua, a
sua confiana crescia. Retirava tambm fora do bilhete do pai, que mantinha escondido no fundo da caixa da borboleta e apenas relia durante o dia, quando Torquil
estava a trabalhar e ela poderia ficar sozinha e em paz com os seus pensamentos. Tinha a certeza de que o pai viera a Inglaterra e a vira. Desejava que a tivesse
abordado, mas compreendia que ele tivesse sentido algumas reticncias. Queria que ele soubesse que no o culpava e que ainda o amava.  medida que os dias foram
ficando mais frios com a aproximao do Natal, Federica esperou que Hal lhe telefonasse com o nmero de telefone dos avs, mas ele tardava em ligar.
Foi ento que Federica deu o seu primeiro passo hesitante em direco  independncia. Foi um pequeno passo, mas extremamente significativo.
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Foi de carro at Sloane Street e comprou roupa nova para substituir a que lhe ficava grande de mais. Continuavam a ser os fatos cinzentos e azul-marinho que Torquil
sempre lhe escolhera, mas o facto de ter ido ela mesma a compr-los concedia-lhe uma satisfatria sensao de desafio e provocao. Encenara a sua primeira rebelio.
Para sua surpresa, Torquil no reparou. Para sua ainda maior surpresa, ela nem se importara com isso. Torquil aplaudira a sua renovada elegncia, abraando-a com
os seus tirnicos braos e beijando-a com lbios adlteros. s to esperta, pequenina, estou to orgulhoso de ti", dissera ele. s quase a Federica com que casei."
Ela deveria ter ficado deslumbrada; afinal de contas emagrecera para ele. Ou no? Pouco a pouco, Torquil ia deixando de estar no centro do seu mundo.

Sam seguia agora Federica at St. James, onde ela saiu do carro e caminhou rua acima. Esperou at que ela se afastasse um pouco e saltou do txi para a seguir. Vestia
um casaco preto comprido e botas de camura igualmente pretas sob umas calas cinzentas e camisa creme de seda. Tinha um ar elegante e sofisticado com o seu comprido
cabelo muito louro atado num bem arranjado rabo-de-cavalo que lhe pendia pelas costas do casaco. No era a adolescente escanzelada que conhecera em Polperro, cheia
de incerteza e dvida. Estava mais encorpada e mais feminina, reflectindo a sua crescente confiana. As emoes reprimidas enrolaram-se num n na garganta de Sam,
pois amava-a ainda mais assim. E sentia-se consumido pela nsia de lho dizer.
Ela parou uma vez ou duas para olhar para montras ou para contemplar o seu prprio reflexo, que ainda tinha o poder de a surpreender. Sam seguia-a a uma distncia
de cerca de cem metros, a cabea escondida sob o chapu de feltro do pai, as mos enterradas nos bolsos do casaco coberto de pelo de co e com um buraco no cotovelo,
obra sem dvida de um rato demasiado zeloso. Arqueou os ombros e observou-a atravs dos culos, que no paravam de se embaciar devido ao frio e  chuva miudinha.
Sentiu-se como um perseguidor e corou de vergonha, o que fez com que os culos se embaciassem ainda mais, at mal conseguindo ver por eles.
Seguiu-a por Arlington Street acima, em direco ao Ritz, onde, pensou, ela iria com certeza encontrar-se com algum para o almoo. Ficou
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surpreendido ao v-la passar pelos porteiros, que a cumprimentaram com acenos de cabea e tocando nos chapus com mos enluvadas, e prosseguiu em direco a Green
Park. Estugou o passo, desviando-se das pessoas que emergiam da estao do metro, e viu-a entrar no parque. Escondeu-se por trs do porto enquanto ela deambulava
como um pombo-correio ao longo do carreiro at um banco que ficava sob as despidas rvores de Inverno. Sentou-se, colocou a mala de mo sobre os joelhos e contemplou
o nevoento parque.
Sam caminhou ao longo da vedao de ferro at se encontrar por trs dela, a cerca de noventa metros de distncia, ficando a olhar para a solitria figura que no
estava obviamente  espera de ningum, pois no olhava em redor em antecipao ou consultava o relgio, apenas olhava em frente, sem se mexer, perdida em pensamentos.
Sam tirou as mos dos bolsos e segurou-se s barras da vedao que o separavam da mulher que amava. Desejava cham-la. O som do nome dela nos seus lbios seria um
luxo, pois nunca falava dela com ningum. Porm, no se atreveu. Deixou-se apenas ficar ali, com as mos geladas coladas  vedao, interrogando-se sobre o que estaria
-ela a pensar, satisfeito apenas por estar perto dela. Reconheceu o solitrio declive dos seus ombros e a melanclica inclinao da sua cabea; sabia o que era estar
sozinho e compreendia-a. Uma vez ou duas ela coou o nariz ou prendeu uma madeixa de cabelo transviada atrs da orelha. Sam esperava que ela se levantasse e continuasse
o seu passeio. Contudo, ao fim de uma hora, e uma vez que ela no dera ainda qualquer sinal de querer ir-se embora, Sam decidiu regressar a casa dela para enfiar
o bilhete na ranhura da porta.
Relutantemente, virou as costas  vedao e caminhou rua acima. Tremeu de repente de frio e enfiou as mos ainda mais fundo nos bolsos. Passou ao lado do carro dela
por curiosidade e viu o motorista a dormir com a cabea enterrada nos refegos do queixo. Babava-se por um dos cantos da boca e um comprido fio de saliva estendia-se
do maxilar at  lapela do casaco.

Sam aproveitou a oportunidade e empurrou o bilhete pela frincha do vidro de trs, que Federica deixara um pouco aberto. Viu-o tombar sobre o banco, voltado para
cima, com o nome Federica Campione dactilografado com amor no envelope.
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Federica sentou-se e saboreou o facto de Torquil no saber onde ela se encontrava. Gostava destes momentos privados a ss com as suas memrias. Pensou na sua incapacidade
de engravidar e decidiu que no seria justo colocar uma criana no meio de um casamento to conturbado. Talvez fosse a vontade de Deus, uma vez que Ele com certeza
conseguiria ver mais alm. Pensou no Natal e se Torquil estaria disposto a acompanh-la at Polperro para passarem as festas com a famlia dela. Todos os anos lhe
prometia que iriam e todos os anos tinham ido para um destino extico. E de cada vez ela telefonara  me e desculpara-o com um tal fervor que, no final, acabara
mesmo por acreditar nas desculpas que inventava. Contudo, interiormente sentira-se terrivelmente desiludida. Queria mais do que tudo ir  Cornualha.
Gostava de recordar a sua juventude. As memrias reconfortavam-na e transportavam-na para longe de si mesma e da sua infelicidade. Recordava-se dos piqueniques na
praia quando o vento soprava a areia para as sanduches e estava tanto frio que ficavam sentados todos juntos a tremer sem despir as camisolas at que Toby os desafiava
para irem procurar ourios e caranguejos. Julian apanhava conchas e ajudava-os a construir castelos, ao passo que Helena ficava sentada na manta a conversar com
a me, aplaudindo distraidamente os esforos deles de quando em vez. Haviam sido dias idlicos.
Falava com Toby e Julian, com a me e, ocasionalmente, com Hester, mas no com tanta frequncia como nos primeiros tempos em que se esgueirara at s cabinas do
Harrods para lhes telefonar. O tempo e as circunstncias haviam-se interposto entre eles como uma montanha intransponvel. Tambm para isso arranjou desculpas -,
mas se fosse sincera consigo mesma sabia que tudo se devia ao facto de Torquil no gostar da famlia dela. Achava-os provincianos e fazia tudo o que podia para a
afastar deles. com determinao conseguiria vencer essa montanha, porm no sabia se tinha coragem para desafiar o marido.
Federica estava to habituada a amar Torquil que isso se tornara um hbito. No incio precisara dele e ele cultivara essa necessidade at ela j no ser capaz de
passar sem ele. Depois perdera a capacidade de pensar por si mesma. Ao longo dos quatro anos de casamento, ele arrasara-a aos poucos at ao cho -, porm a partir
da o nico caminho possvel era para cima. Que auspicioso o facto de o pai lhe ter enviado aquela mensagem secreta mesmo na altura de maior desespero, encorajando-a
a reconstruir-se
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e a recuperar a confiana e controlo perdidos. Fora uma altura de tamanha aflio que se teria agarrado a qualquer coisa para sobreviver. No o conseguiria fazer
sozinha.

Pensou no pai e interrogou-se o que haveria de fazer para o localizar a partir de Londres. Se tivesse estado na cidade, com certeza j teria partido. Ramon nunca
permanecia muito tempo no mesmo lugar. A sua sombra acabava sempre por alcan-lo e incit-lo a prosseguir viagem. A determinada altura, sentiu o olhar de algum
cravado na sua nuca. Constrangida, prendeu uma madeixa de cabelo por trs da orelha, mas no se atreveu a virar-se. Mexeu-se no banco com alguma inquietao, contudo
havia qualquer coisa de familiar na sensao daquele olhar. De confortavelmente familiar. Imaginou de repente que podia ser o seu pai, a observ-la da rua, no desejando
ser visto. Num sbito acesso de coragem, virou-se. com um olhar esperanoso, vasculhou a multido de rostos desconhecidos enevoados pela neblina de Inverno, mas
no reconheceu nem um. Suspirou de desapontamento, olhou para o relgio e decidiu que estava na hora de regressar ao carro.
Caminhou rua abaixo, os olhos presos no passeio, questionando-se como iria abordar o assunto do Natal. Quando chegou ao carro, viu o motorista a dormir e bateu na
janela. O motorista sobressaltou-se, atabalhoou-se na procura do boto para destrancar as portas e saiu do carro para lhe abrir a porta. Contudo, Federica tinha
j visto a carta e abrira a porta sozinha. Disse ao motorista que a levasse a casa e com uma mo trmula leu o nome escrito no envelope, Federica Campione. Era quase
de certeza do pai, uma vez que ele no deveria saber o seu nome de casada e ningum que ela conhecia teria usado o sobrenome Campione. Rasgou o envelope e com olhos
vidos devorou as palavras como se fossem a palavra de Deus. Fora afinal de contas o pai quem estivera a observ-la.
"Como pode um tirano dominar homens verdadeiramente livres? E se  a inquietao que quereis expulsar, tal inquietao foi escolhida por vs e no imposta de fora.
E se quereis dispersar o medo, a sede desse medo  o vosso corao e no a mo que vos assusta", leu para si mesma.
Sentiu as faces ruborizarem-se at latejarem de vergonha.
- Pare o carro, preciso de sair - disse de repente.
- O qu, agora? - inquiriu o motorista, olhando para ela pelo espelho retrovisor.
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- Agora - repetiu ela.
- Sim, senhora - respondeu o homem, estupefacto. com relutncia, virou para uma rua mais calma e parou junto ao passeio. Federica abriu a porta do carro e cambaleou
para o passeio hmido. Caminhou a passo apressado rua acima at que encontrou um pequeno caf. Entrando precipitadamente, sentou-se numa mesa de canto, pediu uma
chvena de ch e contemplou o bilhete horrorizada. No teria mesmo uma pinga de orgulho? A sua infelicidade devia-se realmente  sua prpria fraqueza e falta de
personalidade? Seria Torquil, o homem que acreditava amar, de facto um tirano, controlando cada movimento seu?

Atulara-se to cegamente no infortnio, sentindo pena de si mesma, que nunca se atrevera a acreditar que a sua salvao estava apenas e s nas suas mos. A obedincia
tornara-se mais natural que a rebelio. Agora estremecia perante a sua falta de fora. Era pattica. Leu o bilhete outra vez e de repente tudo lhe pareceu demasiado
bvio. Olhando para o ch, lanou uma implacvel luz sobre a natureza do seu casamento. O que viu aterrou-a. Permitira que Torquil controlasse cada aspecto da sua
vida, desde a roupa que usava s pessoas que conhecia. Recordou com pesar a forma astuciosa como a impedia de ir a Polperro. Um a um foi recordando cada passo gradual
em direco  ditadura total. Torquil no ficara satisfeito apenas com o seu amor, quisera tambm a sua liberdade. Sam tivera razo. Desejava agora ter tido a coragem
de lhe dar a mo quando ele a tentara ajudar. At Arthur a avisara, mas ela no lhe dera ouvidos.
Regressou por fim a casa no final da tarde. Torquil no estava em casa. Abriu o frigorfico e tirou uma garrafa de sumo de toranja. Depois subiu ao andar de cima
e ps a gua do banho a correr. O seu corpo tremia de resoluo. Iria passar o Natal a Polperro quer Torquil gostasse, quer no. Na verdade, ia comear a ser mais
assertiva, exigente. Despiu a roupa e vestiu um roupo, ensaiando o que iria dizer ao marido. Parecia simples, mas temia que a sua garganta lhe pregasse uma partida
quando o confrontasse cara a cara.
Depois entrou em pnico ao pensar que ele talvez j tivesse organizado outra coisa, recordando a ameaa dele de a levar numas frias para as ilhas Maurcias, e encolheu-se.
No havia qualquer motivo para a ter informado de tais planos, pois ela sempre permitira que ele planeasse tudo, ela nem sequer tinha uma agenda. Tinha de estar
preparada para que
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ele no a pudesse manipular. Correu escada abaixo at ao escritrio dele e comeou a abrir todas as gavetas da secretria. Tudo tinha o seu lugar determinado, at
os lpis estavam bem alinhados, igualmente afiados e quase nada usados. No encontrando nada nas gavetas da secretria, prosseguiu a busca nos armrios, mas mais
uma vez nada encontrou. Nada de bilhetes de avio, nada de nada. Correu de novo para o andar de cima e entrou no quarto de vestir dele, onde havia sapatos imaculadamente
engraxados em filas perfeitas, cada par com formas de calado em mogno.
De repente a busca deixou de ser de uma agenda e passou a ser de qualquer coisa, como se de um momento para o outro tivesse crescido e fosse por fim capaz de ver
o mundo fora do casulo que o marido tecera para si. Febrilmente, esquadrinhou os bolsos dos casacos e das calas, todos em filas perfeitas em cabides de madeira.
O seu corao martelava de ansiedade, pois estava consciente de que ele podia chegar a qualquer momento. A curiosidade empurrou-a para a gaveta da mesa-de-cabeceira
dele, onde encontrou um pequeno livro de bolso. Pegou nele e abriu-o. Era um pequeno caderno com capa de pele que continha listas manuscritas de afazeres. Colada
 primeira pgina estava uma Polaroid de uma jovem mulher sentada nua numa cadeira com as pernas afastadas num impudico abandono, sorrindo consciente do poder do
seu encanto. O corao de Federica parou. Reconheceu o rosto da jovem e recordou-se da ocasio. Como pudera demorar tanto tempo a perceber?
Federica telefonou a Hester. A amiga detectou o estranho tom na voz dela e percebeu que alguma coisa dramtica acontecera.
- O que  que ele te fez? - perguntou.
- Preciso de ti, Hester - suplicou Federica e os seus olhos encheram-se de lgrimas. - Vens buscar-me?
Hester largou de imediato o telefone, agarrou nas chaves do carro e bateu com a porta, tudo sem dizer uma s palavra a Molly, que meteu a cabea para fora da enevoada
casa de banho e se interrogou o que raio se passava.

Quando Hester chegou a casa de Federica, esta estava  porta de roupo, segurando uma caixa de madeira contra o peito. Desceu os degraus a correr, olhando temerosamente
para um lado e para o outro, e mergulhou dentro do carro da amiga.
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- Vens assim? - espantou-se Hester, franzindo a testa. Federica irrompeu em lgrimas.
- Sim, porque isto foi tudo o que trouxe para o meu casamento. A minha caixa e a minha confiana.
Foi s depois de se encontrar s e salva no apartamento em Pimlico  que o choro de Federica se transformou num riso histrico. Molly e Hester olharam uma para a
outra ansiosas, ambas recordando o dia do casamento de Helena em que Federica chorara incontrolavelmente por Sam. Depois de se acalmar o suficiente para conseguir
falar, secou os olhos na manga do roupo e fungou.
- Ests bem? - perguntou Molly, preocupada.
- Oh, estou muito melhor - respondeu Federica, controlando o riso com dificuldade. -  que me lembrei que no desliguei a gua do banho!
CAPITULO TRINTA E NOVE
Quando Torquil regressou a casa, viu gua a correr pelas escadas abaixo. Temendo que Federica pudesse estar em apuros, correu at ao quarto, os sapatos escorregando
na alcatifa molhada, o sangue afluindo-lhe  cabea com toda a velocidade.
- Federica! - gritou - Federica! Est tudo bem? - Tropeou para dentro da casa de banho, onde a gua transbordava em cascata por cima das bordas da banheira num
acto final de provocao. Fechou as torneiras e enfiou a mo na gua para puxar a tampa do ralo, que gorgolejou de satisfao. - Merda! - praguejou, olhando para
as dispendiosas alcatifas que teriam de ser todas substitudas.
Olhou em redor em busca da mulher, mas tudo o que restava eram as suas roupas bem dobradas em cima da cama. Reparou que havia apenas um roupo pendurado atrs da
porta. Voltou a cham-la e foi avanando de diviso em diviso. No houve resposta, apenas o eco vazio da sua voz que ressaltava das paredes. Sentou-se na beira
da cama e esfregou o queixo com a mo.
Estava muito preocupado. Federica desaparecera pura e simplesmente. Contudo, no havia quaisquer vestgios de uma luta ou de um assalto, apenas a gua transbordada
da banheira. Por fim, pegou no telefone e telefonou ao motorista.
- bom, Mister Jensen - respondeu Paul, cuidadosamente - ela esteve s compras em Saint James durante cerca de uma hora, depois quando eu a trazia de volta, pediu-me
para parar o carro, assim de repente. bom, como pode imaginar, Mister Jensen, fiquei um pouco preocupado. Ela parecia perturbada... No, no sei porqu, Mister Jensen,
apenas tinha um ar plido. Correu passeio acima e desapareceu dentro
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de um caf durante uma hora. Quando a deixei  porta de casa, ela j parecia bem. Por isso, fui para casa, Mister Jensen. A sua esposa disse que j no iria precisar
mais de mim. - Seguiu-se um curto silncio. - Mister Jensen? - chamou o motorista, receando ter talvez cometido algum erro. - Mister Jensen? Mistress Jensen no
precisou de mim depois disso, pois no?

- Est tudo bem, Paul - respondeu Torquil, mas a sua voz mudou de tom a meio da frase. Pousou o auscultador e coou o queixo pensativamente. Ento, alguma coisa
lhe chamou a ateno. A gaveta da sua mesa-de-cabeceira tinha uma frincha, pois Federica esquecera-se de a fechar bem. Torquil era muito atento aos pormenores. Abriu
a gaveta e viu o pequeno caderno virado ao contrrio, no como sempre o deixava. Pegou nele e examinou-o. com um profundo gemido observou a fotografia de Lcia,
que colara  primeira pgina. Ento, tudo fez sentido. Ela sara de casa to perturbada que se esquecera de fechar as torneiras.
Descolou a fotografia e rasgou-a em pequenos pedaos antes de os lanar iradamente no cesto dos papis. Ela entendera tudo mal. Aquela fotografia fora tirada h
anos. Explicar-lhe-ia tudo e ela perdoar-lhe-ia. Olhou em redor do quarto para ver se ela fizera alguma mala. No fizera. No levara nada, nem sequer roupa interior.
Devia ter sado de roupo. Descontraiu os ombros. Era bvio que ela planeava regressar. Afinal de contas, no poderia ir muito longe de roupo.
Federica contou a Molly e a Hester tudo, omitindo apenas a parte sobre os bilhetes annimos, que permaneceriam um segredo s seu at que conseguisse localizar o
pai.
As trs amigas estavam sentadas frente ao lume com duas garrafas de vinho tinto barato enquanto Kenny Rogers cantava Its afme time to leave me, Lucie.
Molly estava fascinada com o infeliz mundo de Federica. No conseguira ver para alm da roupa de marca e das malas de pele de crocodilo. Hester escutava-a com um
ar compreensivo.
- Eu sabia que no estavas feliz, Fede, dava para perceber. Que vais fazer agora?
- vou regressar a casa, a Polperro, e comear de novo - declarou ela, simplesmente.
- Quer dizer que vais deixar o Torquil? - exclamou Molly, acendendo um cigarro.
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-  claro que vai deixar o Torquil - disse Hester. Ele  um
monstro. Tu mereces bem melhor, Fede - acrescentou, apertando afectuosamente o brao da amiga.
- Oh, no quero olhar para mais nenhum homem enquanto for viva - fungou Federica. - Quero ficar sozinha por um tempo, tomar as minhas prprias decises. Preciso
de perceber quem sou. Acho que j no tenho a certeza de nada.
Quando o telefone tocou, todas estacaram. Molly e Hester olharam para Federica, que as olhou de volta, atemorizada.
- Atende tu, Molly - disse ela numa voz ansiosa. Levou o polegar  boca e roeu a pele em redor da unha. - No me viste - acrescentou com um ar srio.
Molly levantou-se do cho e o vinho, que lhe subira  cabea, afluiu aos membros, devolvendo-lhe depressa a sobriedade. Respirou fundo antes de levantar o auscultador.
O estridente toque de chamada cessou deixando a sala em silncio e com um ambiente pesado de antecipao.
- Estou - atendeu Molly, esforando-se ao mximo por soar normal. Os seus ombros penderam. - Sam! Por que raio me ests a telefonar agora? Estamos no meio de uma
crise,  por isso... O qu, agora? Oh, meu Deus! Ters de dormir na sala, a Federica est c e vai dormir com a Hester... E uma longa histria, contamos-te quando
chegares... Est bem, at j. - Desligou com um sorriso no rosto. - Mais um para a festa - gracejou. -  melhor abrirmos outra garrafa de vinho.

- O Sam perdeu o raio do comboio - anunciou Molly, avanando para a cozinha.
-  mesmo dele - suspirou Hester. - Vive num mundo muito prprio desde que o Nuno morreu.
- Pobre Sam - comentou Federica. - Ele gostava mesmo do Nuno, no era?
- Mais do que qualquer outra pessoa. Mais do que o meu pai e a minha me, eu diria - respondeu Molly, regressando com outra garrafa de tinto. -  que o Nuno passava
a maior parte do seu tempo com o Sam. Nunca teve um filho e sendo o chauvinista que era, provavelmente sempre preferira ter. Assim, o Sam era uma espcie de filho
adoptivo para o Nuno. O meu pai deu-lhe o escritrio do Nuno, para ele poder
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dedicar-se  escrita. S Deus sabe o que ele tem escrito, mas o certo  que passa o tempo todo trancado naquele escritrio, tal como o meu pai. A nica pessoa que
consente perto de si  o Trotsky - acrescentou, abrindo a garrafa.
- Ele devia era arranjar uma namorada - fez notar Hester. Costumava ter tantas namoradas.
- Isso era quando ainda tinha cabelo - gracejou Molly num tom pouco simptico.
- O nosso irmo no  o Sanso, Mol - censurou Hester em defesa dele. - Eu acho que ele fica muito bem com menos cabelo. J no tem um ar bonito. Agora tem um ar
rude e encantador.
Molly torceu o nariz para indicar o seu desacordo.
- Cada um tem o seu gosto, suponho - concedeu, soprando o fumo em bonitos anis.
- Uma das coisas que aprendi com o Torquil - disse Federica, tristemente -  que as aparncias podem enganar. No h ningum to belo quanto o Torquil ou to egosta.
Para mim mais vale que seja simples por fora e lindo por dentro.
Molly baixou os olhos, envergonhada por ter cobiado Torquil.
Quando Sam chegou ao apartamento, Federica ficou de imediato espantada com a rpida deteriorao do jovem que outrora tivera um cabelo sedoso e ureo, como uma bela
esttua grega. Entrou de ombros curvados, tremendo de frio. Tinha o mesmo ar plido e acinzentado que exibira aquando do funeral de Nuno e os seus olhos traam uma
certa lassido, pois as saudades haviam-lhe consumido todo o entusiasmo e energia. Quando a viu sorriu acanhadamente, embora no desejasse mais nada a no ser correr
para ela e abra-la. Federica recordou-se da embaraosa conversa depois do funeral e sorriu-lhe, indicando que j pusera o sucedido para trs das costas. Levantou-se
para o cumprimentar.
Sam agarrou-a pelos antebraos.
- Ests bem? - perguntou ele num tom srio.
- Agora estou ptima - respondeu, afastando-se e esfregando as covas que ele lhe deixara na pele. - Deixei o Torquil - acrescentou, sentando-se de novo no tapete
frente ao lume.
- Deixaste o Torquil? - repetiu ele, incredulamente, virando-se para ela no ver o brilho que regressava aos seus olhos e a alegria que lhe
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curvava os lbios num esgar de triunfo. - Deixaste o Torquil? - voltou a perguntar.
- Acabou - declarou ela.
- Estamos a comemorar com vinho - fez notar Molly com alegria.

- Eu diria que estamos a comiserar com vinho - corrigiu Hester.
- A pobre da Fede passou mesmo por um mau bocado.
- Que aconteceu? - perguntou Sam, tirando o casaco e sentando-se no sof. Sentia-se demasiado quente. Despiu a camisola esburacada do pai e ficou de camisa azul
com os punhos desapertados e a penderem-lhe dos pulsos.
- Oh,  uma longa histria - disse ela, sorvendo o vinho e sentindo-se bem melhor.
- Mol, passa-me um copo - pediu ele, animando-se. - Fede, vejo-te com tanta fora. Estou orgulhoso de ti. O que fizeste  a coisa mais difcil do mundo, e fizeste-o
sozinha.
- No completamente - argumentou ela. Sam desviou o olhar. Digamos apenas que os meus olhos tm estado mais abertos. Suponho que cresci um pouco. No acredito que
tenha sido to fraca e de vistas to curtas. Desperdicei quatro anos da minha vida.
- Nada se perde, Fede, aprendeste muito sobre a natureza humana, mas acima de tudo sobre ti mesma - fez ver Sam, sabiamente. Depois mudou de assunto. - Que vais
fazer agora?
- vou regressar a casa. A minha me e eu vamos fazer um bom par.
- Pois, j soubemos - disse Hester. - Lamento muito.
- Ela  uma pateta - suspirou Federica. Todos franziram a testa ao aperceberem-se desta sbita mudana de atitude. A opinio que ela tinha do padrasto era bem conhecida.
- Mas no detestavas o Arthur? - perguntou Molly, sacudindo cinza para o tapete.
- Digamos que no o compreendia bem. Agora est tudo muito mais claro - explicou ela, sorrindo para Sam. - Devo-lhe um pedido de desculpa. Foi mais uma pessoa a
quem no dei ouvidos quando devia.
Sam entendeu o que ela queria dizer e aceitou as desculpas dela com um pequeno sorriso.
- Eu fao-te companhia no comboio se quiseres - sugeriu ele.
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Federica acenou com a cabea, agradecida.
- No te importas? - Suspirou de alvio. - Ia sentir-me muito melhor. Morro de medo que ele me encontre e me arraste de volta para casa.
- Eu mato-o se ele sequer se aproximar de ti - declarou, e depois riu-se, pois no queria que ela soubesse que estava a falar a srio.
Nessa noite Federica e Sam mal dormiram. Ficaram  conversa muito depois de Hester e Molly se terem ido deitar. Ela desabafou com ele as suas preocupaes e segredos
e ele escutou-a com compreenso, como fizera naquele dia por entre as campainhas.
- Quem me dera ter tido a coragem de te contar tudo daquela vez que almomos - disse ela.
- Estiveste bem perto de o fazer.
- Pois foi.
- Que foi que te assustou? - quis ele saber.
Federica pensou nisso por um momento, contemplando as chamas douradas da lareira a gs pularem alegremente por trs da grelha.

- Acho que no me dava ainda bem conta de que no era feliz explicou com sinceridade e depois abanou a cabea, incrdula. - Sei que soa disparatado, mas no era
capaz de o admitir para mim mesma. Acreditava que o amava.
- No soa nada disparatado.
- A srio?
- A srio - garantiu ele e pegou-lhe na mo. - No estavas errada em am-lo. Torquil  que errou em abusar do teu amor.
Federica sorriu para ele, ternamente.
- Compreendes tudo to bem.
- Tudo no - respondeu ele. - S a ti.
Na manh seguinte Federica pediu roupa emprestada a Hester. Estava a vestir um par de calas de ganga quando Molly soltou um guincho na sala de estar.
- Oh, meu Deus! - gritou. - Merda, merda. - Correram todos para a janela. - No, Fede, tu no - disse ela, travando-lhe o avano.
- Ele est ali!  tua espera - sibilou. - E j me viu a espreitar.
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Federica comeou a andar de um lado para o outro. Molly correu a cortina e olhou para o garboso homem que estava ao lado do Porsche com os braos cruzados, lastimosamente,
junto ao peito.
- Raios, que hei-de fazer? - inquiriu Fede num tom nervoso, mordendo de novo o polegar.
Sam sentou-se no brao do sof.
- Eu chamo um txi e samos juntos - afirmou numa voz decidida, pegando no telefone. -  simples.
- Acho que no consigo encar-lo.
-  claro que consegues. Tiveste fora suficiente para o deixar, no tiveste? - insistiu ele. - Ento, tambm conseguirs encontrar coragem para lhe dizer que est
tudo acabado.
- Acho que no consigo.
- Consegues e vais faz-lo - contraps Sam num tom srio. Ou ento, fao-o eu por ti.
- J vieste at aqui, Fede, no podes recuar agora - concordou Hester.
- Eu seguramente que no quereria voltar para uma alcatifa encharcada e um marido furioso - acrescentou Molly. - Por mais deslumbrante que ele fosse.
Sam revirou os olhos e chamou um txi.
- Pensa s em tudo aquilo para que irias regressar - argumentou cuidadosamente. Susteve a respirao enquanto ela andava de um lado para o outro da sala com as mos
na anca, deliberando sobre o que fazer. Ento, Sam acrescentou: - Fede, gostas da pessoa que s quando ests com o Torquil? - Ela olhou-o com olhos receosos e abanou
a cabea. - bom, ento pe-na de lado e vem comigo. - Sam levantou-se e tomou as mos dela nas suas. - Sabes bem que ests a fazer a coisa certa.
- Mas ele ama-me - protestou ela, debilmente.
Sam apertou-lhe as mos.
- No ama, no, Fede. Quer possuir-te como ao seu carro ou  sua casa. Se te amasse, agradar-lhe-ia a tua liberdade, a tua crescente confiana, o teu sucesso. Se
te amasse, encorajar-te-ia a traar o teu prprio rumo na vida. Ter-te-ia comprado uma mquina fotogrfica e pago lies em vez de te comprar malas e sapatos ridculos,
como se fosses uma boneca
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que ele podia manipular. No s uma boneca, Fede, s uma pessoa com ideias prprias e uma personalidade s tua. Se regressares, ele esgotar-te- at seres incapaz
de ter um nico pensamento prprio. Pensa nisso. Ela ficou a olh-lo nos olhos, sabendo que tinha razo, pois tambm j chegara  mesma concluso.
- Est bem, vamos a isso - afirmou ela num tom resoluto. Mas quando sairmos daqui eu quero falar com ele - insistiu. Depois, quando viu as sobrancelhas de Sam a
erguerem-se para demonstrar a sua objeco, acrescentou s pressas: - Preciso de ser eu mesma a dizer-lho. Preciso de provar a mim mesma que sou capaz de faz-lo.
Vinte minutos mais tarde, quando Sam e Federica desceram os degraus que conduziam ao passeio, Torquil correu para ela e rodeou-a com os seus braos. Sam tentou de
imediato separ-los.
- Deixa-nos em paz! - rosnou Torquil. Seguiu-se uma breve rixa no decurso da qual Federica conseguiu contorcer-se e libertar-se dele.
-- Vai-te embora, Torquil! - gritou. - Est tudo acabado. - Reparou ento no rosto abatido dele, nos olhos raiados de sangue e nos ombros, que se encurvavam lastimosamente.
- No preguei olho a noite toda. Estava to preocupado - explicou, erguendo as palmas para o cu. - Podias ter-me dito onde estavas. Pensei que tinhas sido raptada.
Federica voltou-se para Sam.
- Espera por mim no txi - instruiu. Ansioso, Sam afastou-se dela. Ficou junto ao txi, pronto para interceder caso ela precisasse, mas esperava que isso no acontecesse.
Ela tinha de aprender a no precisar de ningum, nem do pai, nem do marido, de ningum. Uma vez dominada essa arte, estaria preparada para amar como devia ser. Sam
no estava preocupado com o tempo que isso iria demorar, esperaria por ela.
- Aquela fotografia foi tirada h muitos anos, pequenina. No reparaste que era antiga? - argumentou Torquil, esticando o brao para ela. Porm, Federica deu um
passo atrs, levantando as mos para o manter  distncia. - V l, querida, eu no estou a ter nenhum caso. Amo-te. Sinto-me perdido sem ti. S tu me completas.
- Acabou, Torquil - respondeu ela, abanando a cabea.
- No sejas palerma, Federica. Ests zangada, eu compreendo. Vamos para casa e conversamos sensatamente. No deites fora o que temos.
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 to especial - implorou ele, lanando um olhar a Sam, que a olhava protectoramente.
-- No me chames "pequenina", detesto - reclamou ela, de repente fortalecida pela vulnerabilidade dele. - No vou para casa.
Torquil tentou ignorar o tom desafiador da voz dela.
- No  o que tu pensas, raios! - rosnou, cerrando os dentes para reprimir a sua frustrao. - Pronto, cometi um erro ao guardar aquela fotografia. Vais castigar-me
por um pequeno erro? O importante  que eu te amo. Amar  tambm perdoar, caramba!
- Amar  confiar - respondeu ela, friamente.

- Ento, confia em mim quando te digo que no estou a ter um caso. A Lcia  uma velha amiga, a fotografia foi uma brincadeira.
- No acredito em ti.
- Acreditas quando te digo que te amo? - alegou ele.
- Tu no me amas, Torquil. Queres possuir-me, como se fosse o teu carro ou a tua casa. Sou como uma boneca. Tu vestes-me, tiras-me da prateleira de vez em quando
para brincar comigo, mas no me amas. Se me amasses, deixavas-me tomar as minhas prprias decises. - Federica comeou a sentir-se estonteada com o recrudescer da
sua confiana.
Torquil estava abismado. Nunca antes ela falara assim. Respirava pelo nariz como um touro enraivecido, incapaz de conter a sua crescente raiva.
- E vais regressar ao qu? - argumentou, semicerrando os olhos com um ar agressivo. - A uma vilria provinciana na costa?  tua me neurtica, aos teus avs burgueses?
- Depois acenou com a cabea na direco de Sam e acrescentou: - Ou a uma famlia de excntricos? Sam conteve uma risada. - Posso dar-te tudo o que tu quiseres.
Federica endireitou-se corajosamente.
- O qu? Mais malas, mais pares de sapatos? Por favor, Torquil, no sejas condescendente. s oco por dentro e no quero mais estar contigo. Comunicaremos por meio
dos advogados e no tentes seguir-me...  que as excentricidades da famlia do Sam so contagiosas e no me parece que as queiras apanhar como eu apanhei, ou queres?
- Vais lamentar isto para o resto da vida. No te aceitarei de volta. Vais-te arrepender - gritou, enquanto ela caminhava para junto de Sam, que a esperava com a
porta do txi aberta. Sorriu para ela com orgulho
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e meteu-se no txi a seguir a ela, fechando a porta. Quando olhou para cima, para a janela do apartamento de Molly e Hester, os rostos alegres delas sorriram para
ele. Hester ergueu o polegar e acenou com a cabea. Torquil afastou-se, os pneus do seu Porsche derrapando e deixando duas tiras pretas no alcatro que fumegaram
de fria. Federica afundou-se no banco, dando-se de repente conta de que tinha as mos e as pernas a tremerem.
- No vai haver mais? - perguntou o taxista, que observara a confrontao com prazer. - Foi melhor que uma telenovela.
- Para a estao de Paddington, por favor - pediu Sam, colocando o brao em redor dos ombros de Federica.
Ela permitiu que ele a confortasse enquanto pensava calmamente nos ltimos quatro anos da sua vida com alvio e pesar.
O regresso de Federica foi muito comemorado, no s porque era Natal, mas porque toda a gente estava encantada por a ter de volta. Ingrid admitia agora que achara
que Torquil era um "homem horrvel", ao passo que Toby e Julian confessaram que apenas se tinham lembrado de onde o haviam visto quando era j tarde de mais para
fazer o que quer que fosse.
-J na altura era arrogante e presumido - disseram. - Desapontmos-te, Fede.
Helena estava encantada por haver mais algum to infeliz quanto ela e acompanhava a filha em longos passeios pelas falsias, lamentando o doloroso silncio de Arthur.
- Perdi-o, Fede. Ele nem sequer fala comigo - queixava-se.

Jake e Polly acarinharam-na e apoiaram-na, como haviam feito com a sua me. De repente, toda a famlia se reunia em redor do drama. Polly cozinhava grandes lasanhas
de legumes, fazia po e bolos e sentavam-se os sete em redor da mesa, cercados pelos barcos em miniatura de Jake, agora suspensos do tecto para no serem derrubados
por mos e cotovelos desastrados, bebendo vinho e o sumo de baga de sabugueiro de Polly e conduzindo quatro conversas ao mesmo tempo.
Federica mudou-se de imediato para junto de Toby, Julian e Rasta, que levava nos seus longos passeios com a me. Ajudou Toby a decorar a casa para o Natal e Julian
levou-a  vila para comprar presentes.
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- No tenho um centavo - afirmou ela, pensando nas montanhas de centavos que deixara em Londres.
- Eu tenho - respondeu Julian, alegremente - e tu podes ter quantos quiseres.
Passava tanto tempo em Pickthistle Manor quanto passava em casa de Toby e Julian. O esquilo na gaveta das camisolas de Sam emergira do seu sono mais cedo que o previsto,
por isso Ingrid conseguira prender o ninho dele no cimo da rvore de Natal, contudo, uma famlia de ratos fixara residncia debaixo da cama de Sam e por isso ele
tinha de dormir num dos outros quartos para no os perturbar. As duas famlias celebraram o Natal com almoos e jantares que se prolongaram para alm das festas,
e o Ano Novo foi celebrado com champanhe, abraos e beijos.
Quando Sam abraou Federica, beijando-lhe o rosto afectuosamente dissera: "Este ser o teu ano, Fede. Vais ver."
Esperava que ele tivesse razo.
Torquil comeou a enviar-lhe longas cartas numa tentativa de a reconquistar. Escrevia acerca do seu profundo amor por ela e do quanto lamentava ter sequer alguma
vez colocado a vista em cima de Lcia. "Tudo o que fiz foi por ti, porque queria proteger-te. Sou apenas culpado de amar demasiado", escreveu ele numa das cartas.
A princpio, Federica lia-as, mas depois,  medida que se foram tornando cada vez mais repetitivas e deplorveis, destrua-as simplesmente sem as abrir sequer. Contudo,
havia uma linha que no lhe saa da ideia: "Sou apenas culpado de amar demasiado." Dito pelo enganador Torquil, no passava de uma frase vazia; porm, quando aplicada
a Arthur ganhava um significado novo.
Federica sentia muita pena de Arthur, to esquecido por entre a destruio do casamento dela. Sabia que a me era uma pessoa de trato difcil, mas sabia tambm que
ela amava Arthur. Afinal de contas, escutara os interminveis monlogos de remorso de Helena durante os passeios pelas falsias. Estava na altura de intervir.
Quando Arthur viu Federica  sua porta, ficou de incio terrivelmente desapontado. Pensara que era Helena. Foi ento que a sua surpresa se transformou em assombro.
- Que fazes aqui? - perguntou.
- Vim pedir desculpa, Arthur - respondeu ela. Ele ficou na soleira da porta de boca aberta. - Posso entrar?
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-  claro,  claro - gaguejou, dando um passo ao lado para lhe franquear a entrada. Ela entrou para a cozinha e despiu o casaco. Senta-te, se faz favor. D-me o
casaco, que eu penduro-o no bengaleiro
- ofereceu, pegando-lhe no casaco. - Queres um ch?

- Sim, se faz favor, est um frio de rachar - comentou ela, esfregando as mos uma na outra.
- Como  que vieste?
- De txi.
- A tua me sabe que ests aqui? - perguntou ele, ansiosamente
- No.
- ptimo.
Estendeu-lhe uma chvena de ch e depois sentou-se frente a ela. Federica adicionou leite ao ch e ficou a v-lo dissolver-se.
- Deixei o Torquil - declarou Federica sem rodeios.
- Pois - respondeu Arthur com tacto.
- Devia ter-lhe dado ouvidos.
- No, no devias - disse ele, rapidamente, desarmado pela sbita mudana de atitude dela. - O assunto no me dizia respeito.
- Claro que dizia - insistiu ela. -  meu padrasto.
- Era - corrigiu ele num tom tristonho.
Federica contemplou os olhos angustiados do padrasto e apercebeu-se de que nunca o conhecera verdadeiramente.
- Ainda  - argumentou. - A minha me morre de saudades suas. O rosto dele enrubesceu-se de esperana.
- Mesmo?
- Acha que o perdeu - prosseguiu Federica, vendo os pequenos olhos dele brilharem.
- No sei - afirmou, abanando a cabea e pressionando os lbios um contra o outro. - Sinceramente, no sei.
- Escute, no vim negociar um tratado de paz. Vim pedir-lhe desculpa por o ter tratado to mal. Tem sido maravilhoso com a minha me. Eu sei que ela consegue ser
um verdadeiro pesadelo - gracejou Federica. - Mas o Arthur lidou com ela muito bem. - Olhou-o nos olhos. - Tem de a aceitar de volta, pois mais ningum saberia como
lidar com ela.
- Ela  uma mulher difcil, mas nunca entediante.
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- O que  que o atraiu nela quando a conheceu? - perguntou Federica por curiosidade, mas sem saber abriu a porta s felizes recordaes que ele reprimira intencionalmente.
Arthur recostou-se na cadeira e sorriu.
- Percebi que ela no era fcil. E passara por um mau bocado tambm, por isso, por baixo do gelo havia uma menina desesperada por ser amada...
Federica bebericou o seu ch e escutou Arthur relatar a histria de como se haviam conhecido, do casamento, dos bons e dos maus momentos, at que ele se apercebeu
de que valia a pena lutar pelo que tinha.
Era j tarde quando Arthur levou Federica a casa. Deixou-a em casa do tio e depois hesitou por um momento, debatendo se haveria de ir a casa de Helena ou regressar
 sua, vazia. Sentia ainda o calor da conversa com Federica e sorriu interiormente ao lembrar as ternas recordaes que evocara. Contudo, sabia que a ocorrer uma
reconciliao, esta teria de ser iniciativa de Helena, ou a balana do poder penderia a favor dela e ele acabaria por voltar a perd-la. Para alm disso, ela teria
de aprender com o seu erro e estar disposta a mudar. Fazia figas para que Helena no tivesse desistido de si.

Sam acompanhava Federica at  praia, onde apanhava lenha para as fogueiras que faziam e insistia que assassem marshmallows como haviam feito no passado. Emprestava-lhe
livros para ler e depois discutiam-nos ao calor da lareira no escritrio de Nuno, antes de a levar a casa no carro do pai. Andava em mangas de camisa, tanto quando
passeava pelas falsias como no escritrio, pois sentia-se constantemente quente por dentro, quer houvesse um lume aceso ou no. Enquanto estivesse perto de Federica
de pouco precisava para subsistir, apenas do ar partilhado entre os dois e da certeza de que ela estava ali. Pouco a pouco, Federica foi-se sentindo to confortvel
e familiar perto de Sam quanto o velho cadeiro de Nuno. Ansiava pelas conversas e passeios que faziam juntos, pelos jantares que tinham com os pais e pelas discusses
sobre literatura e histria.  medida que as semanas foram passando, Federica comeou a pensar cada vez menos em Torquil e apenas sofria com um ou outro pesadelo
que, quando estava acordada, a recordavam dos motivos por que o deixara.
500
Contudo, uma coisa que no esquecia eram os bilhetes do pai e sabia que no descansaria enquanto no o encontrasse.
Foi um estranho telefonema que a fez decidir voar at ao Chile. Preparava-se para sair de casa quando o telefone tocou. Sentia-se sempre relutante em atend-lo,
pois imaginava que fosse Torquil, mas tranquilizou-se que no seria ele, pois h semanas que no tinha notcias do ex-marido. Ainda assim, a sua mo tremia quando
levantou por fim o auscultador.
- Estou - disse meio a medo.
- Estou sim - respondeu uma jovem mulher. Os ombros de Federica relaxaram. - Estou a falar com Federica Jensen?
- Federica Campione, sim, sou eu - respondeu num tom firme. com quem  que eu estou a falar?
- O meu nome  Claire Shawton. Sou amiga do Hal.
- Ah, ol - cumprimentou Federica num tom mais amistoso. Posso ajud-la?
- bom, na verdade, o assunto  um pouco delicado - comeou Claire. - Eu no queria falar com a vossa me, pois sei o que o Hal pensa dela...
- Pois - disse Federica, interrogando-se o que seria que Hal pensava sobre a me.
- E tambm no podia falar com o vosso padrasto. O Hal tambm  esquisito em relao a ele.
- Sim.
- Contudo, fala muito bem de si, tem-na em grande considerao
- prosseguiu ela. - Encontrei o seu nmero na agenda dele. Ningum atendeu no nmero de Londres.
-  natural - murmurou Federica, tentando no pensar em Torquil. - Que se passa com o Hal?
-  um alcolico - declarou Claire sem rodeios. - Precisa de ajuda. Est numa triste situao.
- O qu? - perguntou Federica, estupefacta. - Que tipo de situao?
- Falta s aulas, dorme o dia todo, bebe toda a noite. Anda completamente alheado, entende, parece que no est c.
- Tem a certeza que ele  alcolico?
- Sim, tenho. Sei porque sou eu que patrocino a bebida e o jogo h vrios meses.
501
- Jogo?

- Mquinas, pquer, cavalos. Sou eu que pago tudo.
- Porqu?
- Porque estou apaixonada por ele - respondeu, envergonhada. Ele no tem dinheiro e eu tenho bastante. Mas a situao descontrolou-se. Anda a beber de mais e est
diferente.
- Onde est ele agora?
- Est aqui, a dormir.
- A esta hora?
- Sim,  que ele fica a p a noite toda a beber e. depois no consegue adormecer, por isso toma comprimidos para dormir, muitos. Depois no consegue acordar.  como
se estivesse morto. - Gaguejou e a sua voz tremeu de emoo. - No sei o que fazer - fungou.
- Oh, meu Deus! - suspirou Federica. - Que podemos ns fazer?
- Ele precisa de ajuda.
- Estou a ver que sim. Eu vou para a. Mas terei de levar algum comigo - acrescentou, lembrando-se que no sabia conduzir.
Sam ficou satisfeito por poder levar Federica at Exeter. Conversaram todo o caminho sobre o leque de opes possveis, porm Sam estava convicto de que a bebida
era apenas o sintoma de algo mais profundo.
- Ele bebe para se esconder de si mesmo - disse ponderadamente.
- Deve estar tudo relacionado com o meu pai - concluiu Federica com um suspiro. - Tenho a certeza.
Quando chegaram, Hal estava deitado a dormir, o rosto lvido e inerte. Federica comeou a aban-lo violentamente, temendo que estivesse morto e no a dormir. Quando
acordou tinha os olhos raiados de sangue e um ar distante. No se parecia nem um pouco com o Hal que ela conhecia. Sam olhou em redor do quarto, constatando a sordidez
em que ele vivia.
Havia beatas de cigarros em pratos sujos com restos de comida, copos de vinho vazios e canecas de caf a ganharem p, havia roupa espalhada pelo cho a encher-se
de bolor. O quarto cheirava pior que a coelheira que Hester tivera em criana.
- Hal, ests doente - disse Federica, amavelmente.
502
- Vai-te embora e deixa-me em paz! - gritou ele, esbracejando. No preciso dos teus sermes.
- Eu preocupo-me contigo, Hal. Olha para o estado em que ests. Vives como um animal.
- No  assim to mau - protestou ele.
-  horrvel. Precisas de ajuda - argumentou Federica. -- Eu estou bem.
- s um alcolico - declarou ela sem cerimnia.
- Bebo de vez em quando. Toda a gente o faz. Isso dificilmente faz de mim um alcolico - respondeu numa voz sarcstica.
Ento, Claire deu um passo em frente, emergindo da sombra.
- Eu contei-lhe tudo, Hal - afirmou ela, limpando as lgrimas do rosto.
Hal ficou a olhar para ela por um momento, pestanejando num esforo para focar a imagem dela. Depois o seu rosto contorceu-se numa expresso de derrota.
- Cabra! - vociferou.
-  por te amar que no posso ficar de braos cruzados a ver-te destrures-te a ti mesmo.
Hal escondeu o rosto nas mos e comeou a chorar.

Hal permitiu que Sam e Federica o levassem para casa. Claire concordou em emalar as coisas dele e arrumar o quarto. Federica agradeceu-lhe encarecidamente, mas sabia
que Hal, provavelmente, nunca mais a quereria ver outra vez. Hal seguiu no banco de trs, tremendo de frio e desconforto, a pele revelando um enfermio tom esverdeado.
Parecia ter j um p na morgue. Federica e Sam decidiram que manteriam o verdadeiro motivo da doena dele em segredo para no perturbar a famlia. Combinaram que
diriam que Hal sofrera um esgotamento nervoso. Federica sabia que o irmo precisava de se afastar, comear de novo noutro lugar, longe do amor possessivo de Helena
e do tormento dos seus prprios demnios.
- vou levar o Hal para o Chile - disse a Sam.
- Quando? - perguntou, alarmado.
- O mais cedo possvel. Ele precisa de sair do pas por algum tempo. S uma pessoa o poder ajudar a ultrapassar isto, pois tambm me ajudou a resolver a minha vida.
503
- Quem? - inquiriu Sam, sentindo uma mo invisvel a rodear-lhe o pescoo.
- O meu pai.
- O teu pai?
- Sim.  ele a raiz do problema que ensombra o Hal.
- E de que forma  que ele te ajudou? - quis Sam saber, fixando os olhos na estrada  sua frente e agarrando o volante com fora num esforo para controlar os seus
impulsos.
- No planeava contar-te porque pensei que talvez fosses achar tudo isto ridculo, mas o meu pai enviou-me bilhetes annimos com versos lindssimos. Devem ter sido
escritos por ele, pois, afinal de contas, tambm  poeta, para alm de romancista.
- Estou a ver - disse Sam sem trair as suas emoes. O seu corao murchou de desapontamento, mas no foi capaz de arruinar a felicidade dela dizendo-lhe que os
bilhetes, na realidade, haviam sido enviados por si.
- Ele  muito espiritual e filosfico. As palavras dele abriram-me os olhos, suponho, e ajudaram-me a ver a situao em que me encontrava de forma mais clara. Senti
que no estava sozinha, que ele estava ali a ajudar-me. O meu pai deu-me a fora necessria para deixar o Torquil. Quero agradecer-lhe. Mas acho que ele poder tambm
ajudar o Hal.
- E quanto tempo pretendes ficar por l?
- O tempo que for necessrio. No tenho nada que me prenda aqui.
- Pois no - respondeu ele num tom uniforme, engolindo a sua desdita para cismar nela mais tarde. -- Nada.
CAPTULO QUARENTA
Hal queria melhorar. Polly afirmou que isso era o primeiro passo e que revelava tambm muita coragem da parte dele. Helena ficou aterrada quando soube, mas Federica
foi firme.
- Ele precisa de mudar de ares - declarou. - E eu tambm. Helena insistiu que podia cuidar dele e p-lo bom de novo.
- No precisas de o levar para o outro lado do mundo, por amor de Deus! - exclamou, magoada por Hal no hesitar em deix-la e humilhada por no ter sido capaz de
o ajudar ela mesma.
- Vamos procurar o pai - admitiu Federica, por fim. - Sei que a origem do problema do Hal se encontra na sua infncia no Chile. Ele precisa de falar com o pai.

Helena ficou branca de indignao, como se Federica a estivesse a atacar pessoalmente por ter deixado Ramon. Apertou os lbios, furiosa, consumida de culpa e cime
por no ser includa.
Arthur ficou to aliviado por algum ter finalmente assumido a responsabilidade por Hal que lhes comprou as passagens areas para Santiago.
- No me agradeas a mim - disse para Federica -, isto  para te agradecer a ti. No sabes como estou grato.
Federica sabia que Arthur estava discretamente a agradecer-lhe por mais do que preservar a sade do enteado. Beijou-lhe a face rechonchuda e sussurrou:
- No se esquea dos bons momentos com a minha me, est bem? Houve muitos mais bons momentos do que maus.
Porm, Arthur estava determinado em esperar. Infelizmente, no tinha outra escolha. Se ela no voltasse por vontade prpria, teria de abrir mo dela.
505
Sam estava mortificado por Federica ir deixar Polperro e magoado por ela acreditar que no teria motivos para ficar. Queria aban-la, dizer-lhe que a amava com todo
o seu corao e todo o seu ser, mas sabia que, se o fizesse, arruinaria qualquer hiptese que tivesse.
Ela seria sua quando estivesse preparada, ou ento no seria. Teria de ser paciente. No dia anterior ao da partida, Sam foi a casa de Toby e Julian para se despedir.
Comprara-lhe um presente na esperana de que ela se recordasse de si de cada vez que o usasse.
- Oh, Sam, no devias ter-te incomodado - disse ela, aceitando o embrulho. Ele ficou com as mos enfiadas nos bolsos do casaco de l esburacado que mal continha
o frio que lhe penetrava at aos ossos. Federica abriu o pacote e encontrou uma mquina fotogrfica Pentax.
- Meu Deus! - exclamou. -  uma cmara a srio.
- E tem uma boa lente de potn tambm - referiu ele, sorrindo para ocultar o seu desespero.
- s um amor, Sam, obrigada - respondeu ela, beijando-o na tensa face. Ele inalou o perfume da sua pele, que lhe invadia os sentidos de cada vez que ela se aproximava,
e resistiu ao impulso de a puxar contra si e a beijar como fizera naquela noite no celeiro.
- No te vais esquecer deste teu amigo, pois no? - perguntou, reprimindo a sua emoo.
Federica sorriu para ele com gratido.
- Tens sido to meu amigo, Sam. Estou-te muito grata. Se no fosses tu, no teria suportado to bem estas ltimas semanas.
- bom, no te esqueas de que o fizeste sozinha - afirmou ele. J no precisas de ningum, s forte por ti mesma e sozinha. - Federica franziu a testa e pensou que
ele soava mesmo como Ramon.
Mariana acabara de regressar de um passeio pela praia quando o telefone tocou. Ao levantar o auscultador percebeu pelo rudo crepitante na linha que se tratava de
uma chamada de longa distncia e de imediato ouviu a voz de uma jovem.
- Boa, quin es? - perguntou, tapando a outra orelha com a mo para abafar o som de Ramoncito que estava a jogar um competitivo jogo de xadrez com o av.
-  a Federica.
506

Mariana arquejou.
- Fede? s mesmo tu? - perguntou em ingls, incrdula.
- Aboelita, sou eu mesma! - exclamou, sentindo-se de repente inundada por uma onda de nostalgia.
- Passou tanto tempo! Como ests?
- Parto para o Chile amanh com o Hal. Podemos ficar com vocs?
-  claro que podem - concordou, entusiasmada. - Nem acredito. Achava que nos tinhas esquecido.
- Nunca me esqueci de vocs, abuelita. Tenho tanta coisa para vos contar, tanta coisa... - disse, a alegria apertando-lhe a garganta e dificultando-lhe a fala. -
O pap est com vocs? - quis saber.
- Tem uma casa na praia, entre Cachagua e Zapallar.
- E ele est l?
- Sim - respondeu a av, alegremente. - Est, sim. Ele vai ficar to feliz de vos ver aos dois! Eu mando um carro buscar-vos a Santiago e trazer-vos para aqui. -
Depois acrescentou esperanosamente: Quanto tempo planeiam ficar? - E Federica teve de soltar uma gargalhada, pois a av no mudara nem um pouco.
- No sei - respondeu e depois interrogou-se se alguma vez regressaria.
Quando Mariana chegou ao terrao, os seus velhos olhos brilhando de alegria, Ignacio levantou o rosto do tabuleiro de xadrez.
- Que aconteceu? - perguntou, interrogando-se que milagre tinha o poder de fazer o rosto da mulher iluminar-se daquela forma.
Mariana esfregou as mos uma na outra, incapaz de conter a sua satisfao.
- Ramoncito - comeou -, vais conhecer o teu irmo e a tua irm. Chegam daqui a dois dias e ficam connosco.
Ramoncito olhou para o av, cujo rosto se enrugava de felicidade.
- Mulher, que bela maneira de perturbar a nossa concentrao comentou ele, sorrindo. - Achava que eles j se tinham esquecido de ns - acrescentou, tirando os culos
e limpando os olhos.
- No, e pelo que percebi no tm planos - contou ela num tom esperanoso.
- Talvez venham para ficar - disse Ignacio, olhando para a mulher com ternura.
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- Talvez. - Depois apressou-se a entrar em casa para comear a preparar os quartos. Queria faz-lo pessoalmente, pois no confiava em Gertrude para o fazer como
ela queria. No confiava em Gertrude para fazer muita coisa, mas por alguma razo Ignacio gostava dela, por isso ia ficando.
- Abuelito? - perguntou Ramoncito, movendo a sua pea no tabuleiro. O av voltou a colocar os culos e olhou para o neto por cima deles. - Achas que vou gostar do
Hal e da Federica?

- Sim, claro que sim, vais gostar muito deles. Mas no te podes esquecer que foram afastados do pai quando eram ainda muito pequenos. Tm portanto muitas feridas
por sarar. S paciente e d-lhes tempo para as sararem e para lidarem com o que vo encontrar. O teu pai ama-te muito, Ramoncito, e amava a tua me mais do que amou
qualquer outra pessoa. Nunca te esqueas disso.
O rapaz acenou que sim com a cabea e observou o av a devolver a sua ateno ao jogo.
Ramon escreveu a ltima linha do seu livro com grande satisfao. Fora uma experincia catrtica. Estella mostrara-lhe que era possvel amar sem possesso, amar
o suficiente para conceder ao outro liberdade. A vida dela mudara literalmente a dele. De certa forma, Ramon acreditava que ela se sacrificara de forma involuntria
para o iluminar. Estella dera um exemplo com o qual ele aprendera. Apenas desejava ter tido a capacidade interior de aprender com ela enquanto fora viva. Assim,
desabafou os sentimentos de culpa e falhano que atormentavam a sua conscincia desde que abandonara por vontade prpria os filhos por meio de uma alegoria sobre
trs pssaros: o pavo, que exige o compromisso total do amor, a andorinha que voa para longe do amor, e a fnix, que traz o seu amor incondicional sem pedir nada
em troca. Quando a fnix desaparece nas chamas, o pavo e a andorinha aprenderam por fim a amar sem ansiarem por possuir o outro. Ramon estava satisfeito com a sua
obra. Deu-lhe o ttulo de Amar o Suficiente e dedicou-a "queles a quem amei".
Pensou em Federica e Hal. Era tarde de mais para tentar compensar a sua negligncia e isso entristecia-o. Porm, tinha Ramoncito e dedicava-lhe o amor que no seu
corao chegava para trs. Afundou-se num cadeiro e, na meia-luz do seu escritrio, leu o manuscrito do princpio
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ao fim. As venezianas estavam fechadas para impedir a entrada do calor vespertino, mas o embalador rudo da ondulao penetrava pelas frinchas das venezianas, trazendo
o aroma a jasmim e a madressilva e acariciando-lhe a alma, que ainda chorava a perda de Estella.
Quando Ramoncito o encontrou mais tarde, Ramon estava imerso nas suas memrias, os olhos fechados e a respirao pesada. Ramoncito estava ansioso por lhe contar
a novidade; sabia como ele ia ficar feliz. Por isso, abanou-lhe o ombro suavemente e sussurrou-lhe ao ouvido:
- Acorda, pap! Tenho boas notcias para ti.
Ramon abriu os olhos, despertando dos seus sonhos perfumados a rosa, e pestanejando olhou para o filho.
- O Hal e a Federica chegam de Inglaterra dentro de dois dias declarou e ficou a ver o pai entreabrir a boca de espanto. -  verdade. A Federica telefonou  abuelita
esta tarde. vou finalmente conhecer o meu irmo e a minha irm - disse e sorriu de orelha a orelha.
Ramon sentou-se e esfregou os olhos.
- Diz-me tudo outra vez - pediu meio confuso. - A Federica e o Hal vm para c? Tens a certeza?
- Sim - garantiu Ramoncito, alegremente.
- E a Helena?
- No, apenas a Federica e o Hal.
- E ficam com os avs, certo?
- Sim.
- Meu Deus, eu no mereo isto - murmurou Ramon, levantando-se e sentindo uma terrvel vertigem.
- Claro que mereces, pap - argumentou Ramoncito. - A mam estava sempre a dizer-te para os ires visitar.

- E eu nunca lhe dei ouvidos.
- Ela ficaria contente.
- Eu sei.
-J terminaste?
- O livro?
- Sim.
-J, est terminado.
?- ptimo, vamos abrir uma garrafa de vinho. Temos duas coisas para comemorar - afirmou Ramoncito, satisfeito.
Contudo, Ramon ficou ansioso. Federica e Hal nada sabiam acerca de Estella e Ramoncito.
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Hal e Federica embarcaram no avio que os levaria na longa jornada sobre o oceano at ao Chile. Nenhum deles sabia o que esperar, mas ambos estavam esperanosos
de que, de alguma forma, os fantasmas do passado fossem confrontados e exorcizados. Hal estava plido e visivelmente trmulo, pois o seu corpo ansiava pelo veneno
que o destrua. Federica forava-o o beber gua para fazer o veneno sair, andando de roda dele como uma enfermeira. Assim que entraram no avio, ele afundou-se na
sua cadeira, fechou os olhos febris e adormeceu.
Federica tentou ler, mas no conseguia concentrar-se. Os acontecimentos do ltimo ms invadiram-lhe a mente, no lhe dando paz. Voltou a pensar em Torquil. Fora
infeliz desde o incio do casamento, mas acreditara que o amava e fizera tudo o que ele lhe pedia para lhe agradar. Como fora fcil para ele manipul-la e fazer
de si um joguete submisso. Ela engolira tudo, cada abuso, cada humilhao, at que se acostumara de tal forma  sua personalidade controladora que j no a reconhecia
ou se apercebia de que estava ao seu alcance resistir e opor-se a ela. Quisera uma figura paternal para cuidar de si e proteg-la do mundo. Era um milagre que tivesse
crescido sequer no ambiente sufocante do casamento, onde a personalidade autoritria de Torquil tolhera o seu desenvolvimento, mas, de alguma forma, apercebera-se
de que j no queria algum que vivesse por si, mas antes viver por si mesma da forma que queria.
Parecia uma coisa simples em retrospectiva. Devia t-lo deixado mais cedo. Estava horrorizada com a sua falta de carcter e jurou silenciosamente para si mesma que
nunca mais deixaria ningum trat-la assim. Pensou no pai e nos bilhetes que lhe enviara. Fora devido ao apoio dele que ganhara coragem para dar um passo atrs e
contemplar o seu casamento com distanciamento. E depois Sam ajudara-a a manter-se  tona.
Quando pensava em Sam sorria interiormente at que o sorriso lhe aflorava aos lbios, curvando-lhe os cantos da boca. Imaginava o ar desalinhado dele, as camisolas
pudas que sempre usava, os sapatos empoeirados que nunca haviam desfrutado do luxo de um pouco de graxa, a expresso pomposa no seu rosto e os olhos inteligentes.
Fora um rapaz to bonito, recordou melancolicamente, lembrando o episdio no lago. Tinha cabelo louro espesso que lhe pendia para os olhos, lbios rosa--plidos
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que sorriam com uma expresso sardnica, pele luminosa que reluzia de contentamento e o carisma de um jovem que sabe que  muito mais inteligente que qualquer outro.

Ento, o que acontecera? A idade roubara-lhe o cabelo dourado, a experincia tornara-o mais humilde, e a morte de Nuno arrebatara-lhe o contentamento. Estava mais
encantador agora, menos afastado. Contudo, Federica no se permitiu examinar os seus sentimentos por Sam; no estava pronta ainda para os confrontar. Tirou a caixa
da borboleta da mala e virou a sua ateno para o pai e os avs, revivendo aqueles gloriosos momentos de infncia antes de a me os ter levado para Inglaterra.
Hal passou a maior parte da viagem a dormir, acordando para comer e ir  casa de banho. S quando aterraram no aeroporto, em Santiago,  que ele se sentou direito
e olhou pela janela, a vista para os Andes abrindo dentro de si uma antiga ferida que lhe causou um aperto na garganta e lhe encheu os olhos de lgrimas. Engoliu
com fora, agarrando os braos da cadeira com fora ao mesmo tempo que a confuso de emoes que sentia lhe punham o estmago s voltas.
- Estamos em casa, Fede - disse com a voz embargada, virando-se para olhar para ela. Federica acenou com a cabea, pois tambm ela estava demasiado comovida e incapaz
de falar. Pestanejou para conter as lgrimas e deu a mo ao irmo.
Mariana enviara o motorista para os ir buscar ao aeroporto e trazer para Cachagua. Ele apresentou-se como Raul Ferro, mas no falava uma palavra de ingls e Hal
e Federica tinham esquecido o espanhol que outrora haviam falado fluentemente. Assim, comunicaram por gestos e seguiram-no at ao carro. O calor em Santiago era
opressivo e escaldante, mas Hal e Federica receberam-no com alegria em conjunto com as h muito esquecidas memrias que esse calor evocava. A princpio iam em silncio,
observando a paisagem, perdidos nos poeirentos recantos do seu passado. Depois, quando o carro deixou a cidade para trs e acelerou pela estrada que atravessava
as ridas montanhas em direco  costa, recostaram-se e olharam um para o outro com outros olhos. Aps anos de afastamento, encontravam-se reunidos por uma infncia
partilhada e pelo desejo comum de a reclamarem.
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- Tinha apenas quatro anos quando partimos, mas, sabes, lembro-me de tanta coisa - disse Hal, melancolicamente, limpando a testa suada com a manga da camisa. - J
me sinto melhor!
- Achei que ia ser estranho estar aqui de novo, mas  como se nunca me tivesse ido embora - apontou ela, observando o calor tremeluzir na estrada como se fossem
poas de gua.
- Eu nunca senti realmente que pertencia ao pap - confessou Hal de repente. Federica olhou para o rosto perturbado do irmo e esboou um sorriso compreensivo.
- Eu sei. Ele ignorou-te, no foi? - concordou ela.
-  estranho porque eu era to pequeno, mas ainda assim senti a rejeio dele ao longo dos anos.
- Mas eras o menino querido da mam, pelo contrrio.
- Isso teve o seu preo, acredita.
- Bastante sufocante, eu sei. - Federica abanou a cabea ao lembrar a avassaladora carncia da me e constante insatisfao.

-  uma mulher profundamente infeliz - comentou Hal. - Eu cresci com a responsabilidade de a fazer feliz onde toda a gente falhara. Sabes, o Arthur tambm j desistiu
dela, tal como o nosso pai fez. Acreditei mesmo que o Arthur a conseguiria fazer feliz.
- Oh, no desistas j do Arthur - argumentou ela com um sorriso de esguelha.
- Que queres dizer com isso? - Franziu a testa. - Pensava que detestavas o Arthur.
- E detestava. A verdade  que nunca lhe dei sequer uma oportunidade.  um bom homem e a me  uma sortuda por t-lo. - Federica reparou no ar perplexo do irmo
e acrescentou: - Fui falar com ele, Hal. Eles ainda se amam.
- Isso  bom. - Hal suspirou. - A me no tem mau ntimo. Falta-lhe  o bom senso.
- Levou algum tempo a esquecer o pai, mas acho que aprendeu da forma mais difcil. "Porque na muita sabedoria h muita arrelia" - citou num tom douto.
-J pareces o Sam Appleby - fez notar o irmo. Federica sorriu.
- Achas?
- Sim, a pomposidade  contagiante. Tens obviamente passado muito tempo com ele. - Hal olhou pela janela. - Porque achas 512
que o pap nos abandonou? - perguntou, mudando de assunto. Nunca antes haviam falado assim sobre o pai. Nunca se haviam atrevido a colocar tais questes.
Federica baixou os olhos.
- No sei - respondeu, permitindo que a imagem de Sam Apple by se dissolvesse na sombra do pai. - Mas tenciono perguntar-lhe. Preciso de saber e tu tambm.
- O que te faz pensar que ele ficar satisfeito por nos ver?
- Sei-o simplesmente - respondeu Federica sem hesitar.
- Podia a qualquer altura ter ido ver-nos a Inglaterra, mas no o fez. Porque h-de ficar contente de nos ver agora?
- Eu entendo o que queres dizer, Hal - disse Federica. - Confia em mim. Eu sei que ele lamenta o passado e sei que ainda se preocupa.
Hal pousou os olhos na magnificncia que o rodeava, to distante das frias falsias da Cornualha, e sentiu uma profunda nsia na sua alma. Sentia como se uma fora
invisvel lhe enchesse o esprito com qualquer coisa impondervel que o fazia sentir-se leve e pleno de optimismo.
Ramon estava sentado no terrao da casa dos pais, olhando para o mar, calmo e brilhante sob a luz do final da manh. Mal dormira naquela noite, pois a sua mente
contorcera-se de culpa e ansiedade - como ia explicar-se s duas crianas s quais virara as costas h tantos anos e deixara a lamentar a sua perda? Como iria explicar-lhes
a existncia de Ramoncito e de Estella? Iriam eles compreender? Como iria Ramoncito sentir-se ao constatar de repente que teria de partilhar o afecto do pai quando
nascera com o direito exclusivo a ele? Consultou o relgio: deviam estar a chegar. Sentiu o estmago contorcer-se de nervosismo. Sabia que devia ter ido busc-los
ao aeroporto, mas precisava do apoio moral dos pais.
Mariana concordara com ele.
-  melhor que eles nos vejam todos juntos aqui em casa, haver menos tenso - argumentara ela.
- Toma, filho - disse Ignacio, oferecendo-lhe um copo de rum.
-  capaz de te fazer bem.
- No sei o que esperar - confessou acanhadamente.

- No penses muito nisso - aconselhou Ignacio, sentando-se frente a Ramon e colocando o panam na cabea para se proteger do sol. -
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Eles vm ver-te porque s pai deles, no para te atormentarem. Pe o passado para trs das costas e comecem de novo, conheam-se uns aos outros.  esse o meu conselho.
- Aconteceu tanta coisa entretanto - argumentou Ramon, olhando para o copo. - A Estella, o Ramoncito...
- A vida continua. Tem muitos captulos e no entanto  um s livro. H um fio condutor que liga todos os captulos.
- E qual  ele, pai? - quis saber Ramon, suspirando.
- O amor - declarou Ignacio sem cerimnia. Ramon franziu a testa para ele, mas o pai limitou-se a acenar com a cabea como resposta. Sou velho e sbio, filho. No
admira, depois de oitenta e quatro anos nesta terra aprendi algumas coisas durante a vida. Essa  uma delas. Aprende qualquer coisa com este velho - gracejou Ignacio.
- O amor unir-vos-, vais ver.
- Isso e o perdo - acrescentou Ramon, bebendo o rum de um s trago. - Uma grande dose de perdo.
 medida que o carro percorria a costa, Federica e Hal comearam a recordar coisas com um crescente entusiasmo. Reconheceram a banca onde sempre paravam quando vinham
para casa dos avs, onde Ramon lhes comprava bebidas e empanadas, onde as crianas chilenas haviam jogado futebol com uma lata de Coca-Cola vazia sob os sicmoros.
Ficaram ambos espantados com o pouco que as coisas tinham mudado em tantos anos, como se viajassem ao longo de um vcuo que o tempo era incapaz de penetrar.
Quando desceram a estrada poeirenta para Cachagua ficaram ambos demasiado comovidos e ansiosos para conversar. Hal pegou na mo de Federica, o que a surpreendeu
pois fora sempre ela quem iniciara demonstraes de afecto. Ela apertou-lha de volta, grata pelo apoio dele, pois tambm estava nervosa. As casas de telhado de colmo
estavam na mesma, rodeadas por verdejantes rvores e arbustos, embora houvesse mais umas quantas. Quando o carro parou  porta das familiares paredes da casa dos
avs, ambos escutaram o martelar do corao um do outro, batendo em unssono.
- Tenho medo - confessou Hal.
- Tambm eu - respondeu Federica. - Mas agora j aqui estamos, portanto, vamos a isso - encorajou ela, tentando ignorar o medo que sentiam.
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Ramon ouviu o motor do carro e depois o silncio expectante que se seguiu quando a ignio foi desligada. Ouviu as portas abrirem e fecharem. Olhou para os pais
e para Ramoncito; todos se haviam posto de p e encaminhavam-se para dentro de casa. As velhas pernas de Mariana eram lentas, mas ela avanava pela sala de estar
to depressa quanto podia, arquejando de felicidade. Ramoncito no compreendia o mal-estar do pai e foi contagiado pelo entusiasmo dos avs. Sempre se interrogara
como seriam os seus irmos, fantasiando muitas vezes que viviam no Chile para que pudesse desfrutar da alegria de ter uma grande famlia como os seus colegas de
escola, que tinham muitas vezes dez irmos e irms para brincar.
Ignacio virou-se para o filho, que permanecia hesitante no terrao, plido e apreensivo.

- Filho,  como mergulhar no mar, a antecipao  desconfortvel, mas assim que te vs na gua,  morna e aprazvel. - Sorriu para ele, compreensivamente. - Tens
de mergulhar e no pensar nisso.
Ramon acenou que sim com a cabea e seguiu o pai at ao escurecido interior da casa, onde estava mais fresco e cheirava a flores. Na sua mente, imaginava ainda Federica
como a vira aos treze anos na sua bicicleta em Polperro. De Hal no se recordava to bem e isso fazia-o sentir-se mais culpado do que nunca.
Quando Federica e Hal viram a av emergir de casa para os receber, os seus coraes deixaram de bater com ansiedade e aceleraram de alegria. Estava mais grisalha
e parecia mais pequena, pois da ltima vez que a tinham visto eram ainda crianas. Mas o seu sorriso e as suas lgrimas eram ainda as mesmas expresses da sua natureza
afvel, que permanecera nas memrias deles durante quase duas dcadas. Correram para ela para a abraarem. Mariana queria dizer-lhes que estavam muito crescidos,
que Federica estava linda e que Hal se tornara um jovem encantador, mas tinha a garganta apertada de emoo e os lbios tremiam-lhe de pesar, pois estava velha e
perdera inmeros anos do crescimento deles. Por isso, voltou a abra-los, gesticulando e dizendo com as mos trmulas e o rosto expressivo tudo o que no conseguia
colocar por palavras.
Ignacio foi o segundo a aparecer na soleira da porta, pois Ramoncito ficara de repente para trs, vencido pela timidez. Abraou os netos, rindo
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de alegria, pois tambm ele estava demasiado comovido para falar. Hal recordava-se do av, dos passeios que fizera s suas costas, mas mal conseguiu conciliar o
enorme homem da sua infncia com o magro e engelhado homem que tinha agora  sua frente.
Ento, o enorme corpo de Ramon surgiu hesitantemente  porta com o filho.
Federica detectou a ansiedade nos olhos dele e avanou a passos largos para o pai, lanando-se nos braos dele como sempre fizera em criana. Ramon ficou assombrado
com a confiante manifestao de afecto por parte da filha e envolveu-a nos seus braos com gratido. Ficou deslumbrado ao ver nas feies dela reflexos da jovem
Helena pela qual se apaixonara no embarcadouro em Polperro. O seu cabelo era plido e leve, a pele translcida e os olhos tinham o mesmo tom de azul que o havia
desarmado na me dela. Segurou o rosto dela entre as mos e engoliu o arrependimento.
- Ests to crescida - disse com a voz embargada. - E fizeste tudo isto sem mim? - disse, puxando-a novamente para os seus braos.
- Sem ti, no - fungou ela, inalando o familiar odor do pai que a acompanhara todos estes anos e a impedira de alguma vez o esquecer. Ramon lanou ento os olhos
por cima dos ombros de Federica e viu o rosto plido do filho que o contemplava, por seu turno, com um olhar assombrado. Afastou-se de Federica e caminhou para ele.

- Hal - disse, estendendo a mo. Hal tentou dizer "pap", mas tudo o que se escapou da garganta foi um rudo spero. Olhou para o rosto do pai em busca de algum
sinal de afecto, mas tudo o que conseguia ver era medo e incerteza. Engoliu em seco. Ramon atrapalhou-se, sem saber o que fazer a seguir. Olhou para Ignacio e recordou-se
do conselho que ele lhe dera. - Hal, desculpa - murmurou. Os olhos do rapaz amenizaram-se e os cantos da boca contorceram-se de emoo. Ramon deu o primeiro passo,
esticou os braos e puxou o trmulo rapaz contra si. Hal respondeu com um gemido antes de o seu decrpito corpo ser sacudido por soluos. - Eu recompensar-te-ei
- disse Ramon. - Prometo.
Ramoncito observava as cenas de reunio desde a soleira da porta e sentia-se excludo. As lgrimas e a emoo eram-lhe estranhas, pois nem sequer chorara no funeral
da prpria me. Observou Federica e Hal com curiosidade e ouviu-os falar numa lngua que no compreendia. Federica
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no se parecia em nada com o pai, mas Hal era muito semelhante, embora tivesse um ar adoentado e magro. Queria avanar e apresentar-se, mas estava consciente de
que no desempenhava qualquer papel nesta reunio de famlia, uma vez que estavam todos a lamentar uma separao que ocorrera antes do seu nascimento.
De repente, Ramon lembrou-se de Ramoncito. Recomps-se e virou-se para ele,  espera ansiosamente na sombra.
- Ramoncito - chamou. - Vem conhecer o teu irmo e a tua irm. - Disse-o em espanhol, mas Hal e Federica compreenderam e olharam um para o outro espantados. O rapaz
de quinze anos avanou para a luz do sol. Era alto e atltico, com cabelos negros e olhos brilhantes da cor do chocolate de leite.
Federica reconheceu de imediato Ramon na languidez do seu sorriso e no seu porte, contudo a pele do rapaz era da cor do mel e o rosto comprido e afvel, o que o
distinguia do seu pai.
Hal viu-se de imediato reflectido nas feies morenas de Ramoncito e deu dois passos  frente para lhe apertar a mo.
- Sempre quis um irmo - declarou.
Quando Ramon traduziu, Ramoncito esboou de imediato um largo sorriso e respondeu em espanhol:
- Eu tambm.
Federica pegou-lhe na mo e deu-lhe um beijo. Ramoncito corou at  raiz do seu sedoso cabelo. Ela sorriu-lhe. Para alm do sangue, tinham outro aspecto em comum:
ambos coravam com facilidade.
CAPTULO QUARENTA E UM
Tanto Hal como Federica se recordavam do enorme terrao dos avs, com vista para o imenso mar. Os aromas a gardnia e a eucalipto transportavam-nos de novo at 
infncia -, porm agora eram pessoas bem diferentes e o passado parecia outra vida. Sentaram-se ao sol, o calor derretendo as suas apreenses, mas a atmosfera era,
ainda assim, embaraosa. Havia tanta coisa que queriam dizer uns aos outros, mas ningum parecia saber como comear.
Gertrude trouxe um tabuleiro com pisco sour e serviu toda a gente, interrogando-se por que motivo a casa vibrava ao mesmo tempo com uma alegria e uma tristeza to
intensas. Por uma vez, o seu olhar carrancudo foi substitudo por uma expresso de curiosidade enquanto mirava os dois estranhos com desconfiana. Ficou ainda mais
perplexa quando Hal pediu um copo de gua.

- Nem acredito que esto aqui - disse Mariana transbordando de alegria. - Depois deste tempo todo, o que vos fez voltar?
Federica bebericou a bebida alcolica que em criana nunca fora autorizada a provar e torceu o nariz.
-  to amargo! - exclamou.
-  do limo - explicou Mariana. - Acabars por te acostumar.
- Depois de um copo, nunca mais querers mais nada - acrescentou Ignacio.
- O que vos fez ento decidir vir at ao Chile? - perguntou Ramon. Federica suspirou e olhou para Hal, que sorvia a sua gua sofregamente.
- Por vezes acontecem coisas na nossa vida que colocam tudo em perspectiva - disse ela, escolhendo as palavras com cuidado. - Eu tive
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um casamento infeliz e o Hal, bom, o Hal passou tambm por um mau perodo. Precisvamos de regressar s nossas razes. Precisvamos de vos ver outra vez. No  natural
estar-se separado da famlia durante tanto tempo. - Baixou os olhos, no querendo fazer o pai sentir-se culpado por os ter abandonado. Mariana olhou de relance para
o filho e sentiu-se embaraada. -  maravilhoso chegar e descobrir que a famlia ganhou mais um membro - prosseguiu Federica, quebrando o desconfortvel silncio.
Olharam todos para Ramoncito, que corou mais uma vez e esboou um sorriso envergonhado.
- Esqueceram o espanhol? - inquiriu Mariana.
- Sim, acabmos por esquecer - respondeu Federica. - compreendo um pouco, mas esqueci quase tudo.
- Pap, onde est a tua mulher? - perguntou Hal, esvaziando o seu copo. O rosto de Ramon contorceu-se de tristeza.
- Morreu - disse Ramon, Hal retesou-se e murmurou um pedido de desculpa. Mariana comentou o tempo e, por fim, Ignacio ps-se de p.
- Filho, porque no levas a Federica e o Hal num passeio pela praia? Tm tanto que conversar. Depois podem regressar e comearemos de novo.
Ramon fez um ar aliviado e traduziu para o filho. Ramoncito acenou com a cabea e viu o irmo e a irm levantarem-se e entrarem em casa na companhia do pai.
- Meu Deus, o ambiente estava mesmo tenso - suspirou Mariana assim que eles partiram.
- Tem calma, mulher, eles precisam apenas de pr tudo em pratos limpos - disse Ignacio. - E que tal um jogo de xadrez, Ramoncito? acrescentou para o neto, que olhou
para ele e sorriu.
-  uma bonita rapariga, abuelito! - comentou com admirao.
Ramon no quis passear pela praia.
- Quero levar-vos a outro lugar - declarou, abrindo a porta do carro e entrando.
- A av disse-me que tambm tens uma casa na praia - referiu Federica, reparando que o cabelo do pai ficara completamente grisalho por cima das orelhas e que a difana
pele em redor dos olhos pendia de demasiada melancolia. Tinha um ar envelhecido.
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- Sim, tenho, mas no  a tambm que quero levar-vos - respondeu ele, subindo a poeirenta estrada de terra batida. - vou levar-vos a conhecer a Estella.

- Quem  a Estella? - inquiriu Hal.
- A me do Ramoncito.
- Ah - respondeu Hal, tossindo para esconder o seu embarao.
- Quero falar com vocs algures onde no sejamos perturbados explicou Ramon.
O cemitrio repousava numa calma celestial no cimo de uma falsia virada para o mar. Estava calor e a fragrncia das flores e dos pinheiros perfumava o ar derramando
serenidade por todo o lado. Ramon estacionou o carro e caminharam pela sombra, com o cuidado de no perturbar as sepulturas de espritos adormecidos, at onde Estella
estava enterrada.
- Este  o local de repouso da Estella - afirmou Ramon, ajeitando as flores que colocara junto  lpide naquela manh.
- Tem uma vista muito bonita - comentou Hal, desesperado por compensar o seu passo em falso.
Ramon sorriu para ele.
- Sim,  verdade.
- Fala-nos dela, pap - pediu Federica - Ela deve ter sido uma mulher muito bonita, pois o Ramoncito  um rapaz deslumbrante.
- Era mesmo - concordou Ramon com um ar pesaroso. - Mas primeiro quero comear pelo princpio. Quero comear com vocs: Federica, Hal e Helena. Sentemo-nos aqui
- sugeriu ele, apontando para a encosta relvada que dava para a arriba.
Sentaram-se ao sol e observaram o movimento hipntico do mar l em baixo. Ramon deu a mo a cada um dos filhos.
- Peo a ambos que me perdoem - declarou. Hal e Federica no souberam o que dizer e olharam para o pai, assombrados. - Fugi da vossa me porque o amor dela era demasiado
intenso e eu sentia-me claustrofbico. Devia ter-vos colocado em primeiro lugar e tentado resolver os problemas que tnhamos, mas fomos ambos demasiado egostas.
No lutei pela vossa me nem tentei convenc-la a ficar e ela no tentou mudar por mim. Eu amava-vos a ambos, mas no me apercebi do que perdera at ser tarde de
mais, e depois sentia-me demasiado
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envergonhado para encarar a realidade e por isso fugi e deixei-vos. Era mais fcil virar as costas e ir embora. Afinal de contas, fugira do amor toda a minha vida.
- Tanto Federica quanto Hal estavam estupefactos com toda esta honestidade.
Ramon recontou ento momentos da infncia dos filhos que o haviam tocado e os pequenos pormenores das suas personalidades que guardara na sua lembrana e transportara
consigo ao longo dos anos.
- Hal, tu costumavas andar sempre agarrado  tua me. Acho que te assustava. Eras to sensvel, que pressentias o mal-estar entre ns e isso perturbava-te. Eras
to pequeno, por isso costumava deixar-te com a Helena e levar a Federica a sair comigo. Nunca te conheci na realidade. Mas gostaria de comear de novo e conhecer-te
agora - confessou Ramon olhando para os olhos perturbados do filho e reconhecendo o tormento que residia por trs deles. - s meu filho, Hal, e nada  mais importante
neste mundo que o sangue. Compreendo isso agora. Foi precisa muita infelicidade, mas agora sei o que  importante.
- Isso seria muito bom, pap- murmurou Hal, cuja habilidade para se exprimir fora inibida pelo calor e o lcool que ainda contaminava o seu fgado.

Ramon contou-lhes a ocasio em que fora a Inglaterra para os ver e como Helena os protegera dele. Disse que vira Federica na sua bicicleta, mas que prosseguira,
seguindo o conselho de Helena.
- Mas no culpem a vossa me por isso. Eu era um insensvel, aparecendo nas vossas vidas quando me era conveniente s para ficar a sentir-me melhor com a minha conscincia.
Ela tinha razo, no teria sido bom. A morte da Estella ensinou-me o valor da vida - prosseguiu ele, gravemente. Por mais que Federica tentasse recordar-se da bonita
e jovem empregada que percorrera as divises da casa de Cachagua, enchendo-as com um suave aroma a rosas, no conseguia. - No planeei apaixonar-me por Estella.
Ela mitigou uma nsia fsica, que depois cresceu para algo mais urgente, mais profundo. Quando estava com ela, no havia outro lugar no mundo onde preferisse estar.
Nunca antes sentira isso. Passara a minha vida inteira a fugir das pessoas, desejando estar sozinho, no querendo comprometer-me com ningum. A Estella era diferente.
No fazia exigncias. No me sufocava com carncias. Tudo o que queria era o meu afecto. Por isso, comecei a escrever na praia, em vez de viajar pelo mundo. No
precisava de ir a lado nenhum, pois ela
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era a minha inspirao e escrevi as minhas melhores obras com ela. O Ramoncito  uma expresso viva do nosso amor. Quando ela morreu na estrada, senti como se o
meu mundo tivesse de repente implodido. Fiquei consumido de arrependimento. Devia ter casado com ela, mas era mais conveniente para mim permanecer solteiro. Devia
ter-lhe dito mais vezes que a amava. Devia ter-vos dito a vocs que vos amava tambm e ter-me esforado mais por fazer parte da vossa vida. Mas agora posso fazer
isso. Ao virem at c, deram-me uma segunda oportunidade. Nunca terei outra com Estella.
- Pap, ns perdoamos-te - sussurrou Federica, tomando a mo do pai nas suas e apertando-a. - Estamos juntos agora e podemos comear de novo e conhecermo-nos outra
vez, no , Hal? - Hal acenou que sim com a cabea. - Se no tivesse sido a tua poesia, nunca teria tido a fora para deixar o meu marido - prosseguiu ela.
- A srio? - questionou Ramon, surpreendido, interrogando-se a que livro ela se referia. Federica contou-lhe ento os pormenores do seu casamento e como a caixa
da borboleta, que continha as cartas dele, a ajudara durante tempos difceis e infelizes.
- No o sabias, pap, mas estiveste sempre presente. Estavas l quando mais precisei de ti - declarou ela.
Ramon sorriu para a filha, mas estava consciente de que Hal falava muito pouco.
Ficaram sentados no talude at o sol ficar demasiado intenso e depois retiraram-se para a sombra dos pinheiros. Falaram sobre o passado, aproximando os anos que
haviam alargado a distncia entre eles, at que os roncos dos seus estmagos os despertaram das suas emoes e os alertaram para a rpida passagem do tempo.
- A Gertrude vai ficar furiosa por chegarmos atrasados para o almoo - disse Ramon e piscou o olho a Hal.

Gertrude estava de facto mais azeda que o costume. Almoaram no terrao e desta vez a atmosfera era de celebrao. Recordaram o passado e Federica relatou-lhes como
era a vida deles na Inglaterra, elogiou a beleza da paisagem da Cornualha e contou as excentricidades das pessoas que l viviam. Hal fez um valoroso esforo por
resistir s garrafas de vinho que circulavam pela mesa, saciando a sede com interminveis copos de gua. Fatigado por causa do calor e da viagem, retirou-se para
o quarto para dormir uma siesta.
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Ramon aproveitou a oportunidade para questionar Federica acerca do estado de sade dele.
- No est nada bem, receio - respondeu ela.
- Est com um terrvel aspecto, pobrecito! - suspirou Mariana num tom compreensivo, recordando o rapazinho que adorava comer gelado, manjar blanco e passear aos
ombros do av.
- Mas olhem que comeu o suficiente para manter um exrcito referiu Ignacio.
-  profundamente infeliz - admitiu Federica. - Tem vindo aos poucos a autodestruir-se, consumindo lcool e conduzindo uma vida intil e decadente. Achei que vir
at c talvez o afastasse dos problemas. - Depois olhou para o pai. - Tinha esperana que talvez conseguisses chegar a ele. Afinal de contas, ajudaste-me a mim.
- Tentarei - respondeu ele com sinceridade.
- De que forma  que o Ramon te ajudou, Fede? - quis saber Mariana, ansiando por descobrir que ele no abandonara por completo os filhos, como se pensava.
- Enviou-me bilhetes com versos - respondeu ela e sorriu para o pai com ternura. - Podero achar estranho que uns poucos versos possam mudar a vida de uma pessoa,
mas foi isso mesmo que aconteceu. Andava to cega em relao  situao em que me encontrava, e os bilhetes abriram-me os olhos. Saber que o pap estava a pensar
em mim deu-me coragem para abandonar o Torquil. Percebi que no estava sozinha.
Ramon sorriu-lhe de volta, acanhadamente. Federica entendeu isso como modstia.
- Seu grande matreiro, Ramon - disse Mariana num tom orgulhoso. - Depois do almoo gostava de te mostrar os lbuns de famlia, Fede. Tm fotografias lindas de ti
e do Hal em criana.
- E eu gostaria de ir buscar a minha mquina e tirar fotografias a todos. Nunca esquecerei este reencontro.
Depois de almoo, Federica foi colocar a mala no seu quarto. Reparou de imediato no aroma a lavanda nos lenis e nos enormes ps de tuberosa na cmoda. As venezianas
estavam fechadas, mantendo o quarto fresco, mas ela abriu-as e permitiu que o sol lhe inundasse o quarto, iluminando as suas memrias  medida que reconhecia os
quadros nas
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paredes e a moblia. Abriu a mala e tirou a mquina. Sentou-se na cama e tirou as lentes das suas capas protectoras, recordando-se de como Julian a ensinara a segurar
na mquina. Pensou ento em Sam. Queria telefonar-lhe e dizer-lhe como corriam as coisas, mas preferiu tirar algumas fotografias primeiro para lhe poder dizer tambm
que j usara o presente dele.
- Fede, posso entrar?
Virou-se e viu o pai na soleira da porta.
- Claro - respondeu. - Estou s a preparar esta fabulosa mquina para poder tirar algumas fotografias para mostrar a toda a gente em Inglaterra.

- Boa ideia - concordou o pai, sentando-se na outra cama. Acerca daqueles bilhetes com versos... - comeou Ramon.
- Foram inspiradores - declarou ela, entusiasmada. - Sou uma pessoa diferente agora.
- No fui eu que os enviei - disse Ramon.
O rosto de Federica perdeu de imediato qualquer vestgio de entusiasmo.
- No foste tu que os enviaste? - repetiu ela, espantada.
- No - confirmou o pai, abanando a cabea. - No quis diz-lo frente a toda a gente, pois no queria embaraar-te.
-  claro que foste tu que os enviaste - argumentou ela, confusa. - Eram duas cartas, uma enfiada por baixo da porta e a outra pelo vidro do carro!
- Estavam assinadas?
- No - respondeu, semicerrando os olhos.
- H anos que no vou a Londres - admitiu ele.
- A srio?
- A srio. Escuta, quando o Hal acordar vou lev-lo at a minha casa. Tenho l um livro que gostaria que ele lesse. Por ti, tudo bem?
- Sim, claro, tudo bem - disse ela num tom vacilante. - No acredito que no tenhas sido tu quem me enviou os bilhetes.
- Lamento - respondeu ele, levantando-se. - Quem dera que tivesse sido.
- No importa. O resultado foi o mesmo, independentemente de quem mos tenha enviado - referiu Federica, fortuitamente, como se no tivesse muita importncia.
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Assim que Ramon deixou o quarto, Federica ficou a contemplar a mquina, desnorteada. Depois sentiu o estmago cair-lhe aos ps ao aperceber-se que s podia ter sido
Sam quem lhe enviara os bilhetes. De repente, tudo fazia sentido. Ele exprimira as suas preocupaes logo desde o incio. Confrontara-a naquele almoo e depois no
funeral de Nuno. Ela no lhe dera ouvidos. Era claro que ele no iria abord-la uma terceira vez, pelo menos de forma aberta. Era to bvio, porm, ela quisera tanto
acreditar que era o pai quem estava por trs daqueles versos que conseguira convencer-se a si mesma. Que insensvel da sua parte atribuir todo o crdito a Ramon.
No admirava que Sam tivesse feito um ar to desanimado.

Quando Mariana lhe mostrou os lbuns com as fotografias de infncia e dos anos que ela perdera, Federica teve de fazer um esforo para se concentrar, pois a nica
coisa que queria era pensar em Sam. Mariana contou-lhe uma pequena situao engraada relacionada com cada fotografia que viam, mas Federica estava agitada e s
olhava para o telefone. Seria impertinente pedir para fazer uma chamada para Inglaterra? Enquanto escutava meio ao longe as histrias da av, pesava as probabilidades.
Quando Mariana apontou para uma fotografia de Estella, Federica voltou a sua ateno momentaneamente para o lbum enquanto contemplava o rosto sereno da mulher que
roubara o corao do seu pai. Era bela e tinha um ar afvel e a mesma expresso amvel e rosto comprido de Ramoncito. Soube instintivamente que teria gostado dela.
A tragdia da morte de Estella comoveu-a e recordou-lhe a sua prpria mortalidade. Estella era demasiado jovem e bela para morrer. Pensou de imediato em Topahuai
e imaginou que devia parecer-se com Estella. Na morte de ambas Federica reconheceu a transitoriedade da vida e a importncia de viver plenamente cada momento, pois
a morte poder surpreender-nos a qualquer altura.
Ignacio estava sentado no terrao com Ramoncito a conversar e a terminar o jogo de xadrez. O sol estava ainda quente e, ocasionalmente, Ignacio tirava o chapu e
limpava a testa com um leno branco, que mantinha no bolso. Ramoncito aproveitava ento a oportunidade para contemplar o bonito rosto da sua irm quando ela no
sabia que estava a ser observada. Estava ansioso por contar a Pablo e a Maria Rega a sbita chegada dos filhos perdidos do seu pai. Tudo acerca de Ramon os fascinava,
pois ele era de outro mundo e, no entanto, amara a filha deles.
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Quando Hal acordou da sua longa e profunda sesta, demorou algum tempo a orientar-se. Olhou em redor do quarto para as paredes brancas e mveis de madeira e lembrou-se
aos poucos de onde estava. Doa-lhe a cabea do calor, e o seu corpo sofria com a carncia do lcool que quase o destrura. Levantou-se e cambaleou at  banheira.
Deixou a gua fresca diluir a exausto e quaisquer vestgios de infelicidade que o pudessem ter seguido at ao Chile. Quando apareceu no terrao, Ramon estava 
espera para o levar at sua casa.
- A Federica tambm vem? - perguntou quando o pai sugeriu que fossem.
- No, s tu e eu - respondeu Ramon. - Tenho uma coisa que gostaria que lesses. - Assim, Hal seguiu o pai at ao carro sentindo uma vivacidade no seu andar que o
envergonhou, pois sentia-se infantilmente feliz por o pai o ter finalmente chamado para fazerem uma coisa s os dois.
- Esta  a casa da Estella - afirmou Ramon quando se aproximaram. - Comprei esta casa logo depois de ela ter o Ramoncito. Ela adorava a casa, assim junto ao mar.
Eu tambm gosto muito.
-  encantadora! - exclamou Hal, encontrando por fim a sua voz.
-  simplesmente linda. - Reparou na abundncia de dentelria, que trepava pelas paredes e pendia por cima da cobertura da varanda e reparou na magnificncia das
montanhas por trs da casa. De repente, sentiu-se emocionado por alguma coisa que no conseguia entender. - Tudo aqui te recorda a Estella, no ? - perguntou.
Ramon acenou que sim.
- Tudo - respondeu. - No passa um dia em que no pense nela numa ocasio ou noutra.
- Gostaria um dia de amar assim - devaneou Hal com um ar melanclico.
- E hs-de amar, um dia, tenho a certeza - declarou Ramon. -? s muito jovem.
-- Eu sei e tenho a minha vida toda pela frente - acrescentou Hal. - At aqui s tenho feito disparates.
- Vais sempre a tempo de comear de novo.
- Quero comear de novo, pap. E quero comear de novo aqui declarou num tom decidido. - No sei explicar, mas sinto-me ligado a este lugar.
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- Est no teu sangue - explicou Ramon.
- Talvez seja isso - concordou Hal. - Est no meu sangue.

Ramon mostrou-lhe a casa, agarrou no manuscrito que acabara de escrever para Helena e numa garrafa de gua e conduziu Hal at  praia. Sentaram-se sob o sol que
se punha e conversaram, s os dois, sobre a vida e o amor. Depois Ramon mostrou-lhe o livro.
- Escrevi isto para a tua me, para ti e para a Federica - afirmou. Hal aceitou-o e folheou-o num instante. - No  muito grande. Gostaria muito que o lesses. Mais
ningum o leu ainda. Escrevi-o em ingls.
- Seria uma honra - respondeu Hal, agradecido. - A srio que ainda ningum o leu?
- A srio.
- Porque o escreveste?
- Porque foi catrtico, porque quero que a tua me entenda onde errmos. - Hesitou e depois sorriu para Hal. - Onde eu errei.
- Torturaste-te mesmo com este sentimento de culpa, no foi? disse Hal.
Ramon olhou para o filho e riu.
- Achas que exagerei?
- Acho que no precisas de te flagelar - respondeu ele e devolveu-lhe o sorriso de esguelha.
- Achas ento que me estou a flagelar,  isso? - disse Ramon, dando-lhe uma cotovelada na brincadeira.
- Um pouco. No precisas de te sentir to envergonhado contigo mesmo. Montes de pessoas se divorciam e deixam os filhos. Eles sobrevivem, no sobrevivem? Ns sobrevivemos.
Ramon olhou para Hal com ternura e ps-lhe o brao em redor dos ombros.
- Sabes, para algum de fraca sade, conversa no te falta.
- Fico satisfeito, pensei que a tinha perdido - gracejou ele.
- Que mais achaste que tinhas perdido? As barbatanas?
- Queres nadar? - perguntou Hal, entusiasticamente.
- Se me fizeres companhia.
Sob a luz mgica do crepsculo, correram para as guas douradas do glido Pacfico. Hal uivou ao sentir o frio entranhar-lhe no corpo, despertando de chofre todos
os seus sentidos. Ramon gritou-lhe que
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agisse como um homem e mergulhasse de uma vez. Seguindo o exemplo do pai, mergulhou e sentiu a gua entorpecer-lhe os membros at deixar de sentir a glida temperatura
do mar. Nadou e chapinhou, rindo e brincando com o pai  medida que as suaves ondas arrastavam para longe o tumulto dos ltimos anos. Quando por fim se deitaram
na areia, secando-se com os ltimos raios de sol, Hal sabia finalmente aonde pertencia.
- Pap, e se eu nunca mais regressasse? - perguntou, pestanejando para ele com os olhos a tremeluzir.
- Para Inglaterra?
- Sim, e se eu simplesmente no voltar?
- Estars onde pertences, Hal. Para alm disso, ters regressado a casa - declarou e olhou para o filho com um ar srio.
- Obrigado, pap - afirmou, depois virou a cabea para o horizonte e suspirou de satisfao. - Estou em casa.
Federica perguntou  av se no fazia mal que telefonasse para Inglaterra.  claro que Mariana no se importou nem um pouco que ela usasse o telefone.

- Faz todas as chamadas que quiseres - declarou. - A tua me seguramente que querer saber como esto as coisas a correr.
Porm, Federica no telefonou a Helena. Telefonou a Sam. O telefone tocou durante bastante tempo at que algum por fim o atendeu. Era Ingrid.
- Ingrid,  a Federica.
- Ah, Fede, querida, como ests? - perguntou ela, alegremente.
- Estou no Chile - respondeu Federica com ansiedade.
- Que bom.
- O Sam est?
- No, foi-se embora - disse Ingrid num tom vago.
- Embora? - arquejou Federica. - Embora para onde?
- Foi ficar a casa de uma antiga namorada, acho eu.
- Uma antiga namorada?
- Sim, algum de quem ele gosta h muito tempo. J ia sendo tempo de ele comear a pensar no futuro dele.
- Sim, claro - murmurou Federica, mas mal conseguiu disfarar a ansiedade patente na sua voz.
- O Sam no est propriamente a ficar mais novo - acrescentou Ingrid, aumentando a angstia de Federica.
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- Ele disse quanto tempo estaria ausente?
- No, querida, j sabes como  o Sam! Nunca partilha com ningum os seus planos.
- E ele deixou algum nmero?
- Mais uma vez, no, querida. Se bem que me parece que  uma casa grande na Esccia, se  que isso ajuda. Tu deves saber melhor que eu quem so os amigos dele. Queres
que lhe diga que te telefone quando ele regressar?
- No vale a pena. Diga-lhe apenas que eu liguei - disse Federica, engolindo o seu desapontamento.
Ingrid tinha acabado de pousar o auscultador quando Sam entrou regressando de um passeio com os ces pelas falsias.
- Quem era, me? - perguntou ele.
- Ningum que tu conheas, querido - respondeu ela, pegando num raposinho rfo e afagando-lhe o plo hmido. - Algum que queria saber se tnhamos cachorrinhos
- acrescentou ainda, beijando a cria de raposa. - Infelizmente, no esto interessados aqui no Raposinho Encarnado, no , meu pequenino? - Observou o rosto abatido
de Sam e esperou que Federica se apercebesse do quanto o amava ao correr o risco de o perder. Sam tirou uma ma da fruteira. - Para onde vais agora, filho? - inquiriu,
tentando esconder a sua preocupao.
- Para o escritrio do Nuno.
- Ainda um dia te perdes l dentro - comentou ela num tom compreensivo.
- Espero que sim.
Federica deixou que Hal liderasse a conversa durante o jantar e retirou-se cedo para a cama.
- Deves estar to cansada, Fede - disse Mariana, amavelmente. -- Dorme bem e levanta-te quando quiseres. Agora ests em casa. - Federica rodeou a mesa e beijou cada
membro da famlia com carinho. O rosto de Ramoncito enrubesceu-se assim que ela colou os lbios  face dele e continuou a ferver at ao final da refeio. Hal e
Ramon conversaram com animao, os rostos iluminados pelas tremeluzentes chamas das velas. Ignacio cruzou o seu olhar com o de Mariana e sorriu. Compreendiam-se
perfeitamente. Ambos pressentiam que Hal iria ficar

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para sempre. Mariana percebeu tambm que Federica estava um pouco perturbada, era daquelas coisas que s as mulheres parecem entender.
Federica deixara as venezianas abertas para que o luar se derramasse pelo quarto em conjunto com os cantos nocturnos das cigarras e o murmrio do mar. Estava na
cama a observar as sombras a treparem aos poucos pelas paredes e pensou em Sam. Que irnico, contemplou, que quando estivesse em Inglaterra ansiasse pelo pai e agora
que estava no Chile ansiasse por Sam. Ficara apreensiva desde a conversa com Ingrid. Interrogava-se com quem teria Sam ido ficar e viu-se acometida por um desconfortvel
acesso de cime. Virou-se na cama, frustrada, e ficou de barriga para baixo a contemplar as rvores balouantes e o cu estrelado. Recordou-se do rosto hirsuto dele
e dos olhos atormentados e questionou-se se a sua interveno silenciosa no seu casamento fora inspirada por amizade ou por amor. No se atreveu a analisar os seus
prprios sentimentos, pois temia o amor.
Recordou os longos seres frente  lareira no escritrio de Nuno, discutindo literatura e poesia, dos churrascos na praia e os passeios pelo cimo das falsias. Sam
fora indispensvel. Se ele se apaixonasse por outra pessoa, perd-lo-ia e no suportava tal ideia. Quando o sono a venceu por fim, foi preenchido por sonhos que
a atormentaram. Sonhou com Sam: ele corria pela falsia abaixo e ela chamava-o, mas ele no a escutava e por mais que ela corresse no conseguia alcan-lo. Acordou
to cansada quanto se sentira na noite anterior.
No dia seguinte, Hal saltou da cama com uma energia que no sabia que tinha. No se recordava da ltima vez que se sentira to optimista em relao  vida. Inalou
os aromas da sua infncia, inspirando o ar para o fundo dos pulmes. Lera o livro do pai, Amar o Suficiente, e descobrira uma intensa histria que explicava o seu
prprio caminho de autodescoberta, bem como uma filosofia sobre o amor que se podia aplicar a qualquer pessoa: irmos e irms, amigos, amantes e marido e mulher.
Leu-o at de madrugada mas no se sentira cansado. Os seus olhos haviam continuado a devorar aquelas linhas de prosa at que a escurido se desvanecera com os primeiros
raios da aurora. Enquanto dormia, a sua mente continuara a meditar na alegoria do amor, por isso ao acordar sentira que o seu corao tinha sido tocado por algo
mgico. Algum, algures, lhe concedera outra oportunidade de viver. Desta vez resolveu viv-la de forma sensata.
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Avanou para o terrao quase aos pulinhos. O sol estava ofuscante e o aroma a caf e torradas to cativante que voltou a respirar fundo e reflectiu na sua boa sorte.
- bom dia a todos - cumprimentou, inclinando-se para beijar a av. - Onde est o pap?
- Chega daqui a pouco - disse Mariana. - Achmos que seria boa ideia almoarmos em Zapallar, onde costumvamos comer marisco, lembras-te?
- Sim, lembro - respondeu Hal, esfregando as mos de contente.

- ptima ideia. - Sentou-se e serviu-se de uma chvena de caf. Estou esfomeado! - exclamou, espalhando manteiga num croissant. Mariana adorava ver o neto comer
bem. A cor regressara s faces dele e parecia feliz e descansado. - Abuelita, quero aprender espanhol - declarou ele de repente.
- Podemos tratar disso - respondeu Mariana, olhando para o marido, que pousou o jornal e se interessou pela conversa.
- No regressarei a Inglaterra - acrescentou num tom casual. Quero ficar aqui.
Mariana no conseguiu esconder a sua satisfao. Sorriu de orelha a orelha e apertou as mos uma na outra.
- Mi amor, estou to feliz! Tu pertences aqui - declarou ela, tocando-lhe no brao. - Que bom que vai ser para o Ramoncito ter um irmo. E a Federica? - inquiriu.
Hal sorriu de esguelha.
- No, ela no fica - respondeu. - Est apaixonada por uma pessoa l de Inglaterra. Apenas no o sabe ainda.
S no quinto dia, aproveitando o facto de Ramoncito e Hal estarem imersos num jogo de xadrez e Ramon e Ignacio a caminhar pela praia,  que Mariana teve oportunidade
de conversar com Federica a ss,
- Tens andado muito dispersa estes ltimos dias, Fede - comeou Mariana, sentando-se ao lado dela no sof. -  por causa do tal jovem? - perguntou.
Federica fez um ar surpreendido.
- Que jovem? - interrogou Federica, encolhendo os ombros na defensiva.
- Aquele de que o Hal falou.
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- Como  que o Hal sabe?
- Talvez tenha andado mais alerta do que tu pensas - gracejou Mariana. - Ele parece vicejar sob o sol chileno - acrescentou, observando-o no terrao a rir com Ramoncito
como se conhecessem desde sempre.
- Oh, abuelita - suspirou Federica, confusa. - Quero ficar aqui porque gosto muito de estar contigo e com o abuelito e  maravilhoso ver o pap outra vez e termos
colocado por fim o passado para trs de ns. Somos amigos agora.  tudo o que sempre quis. Mas...
- Mas tu cresceste, Fede.
- Passei os ltimos vinte anos a ansiar pelo pap. Lia as cartas dele quando estava infeliz e lembrava-me de todas as estranhas histrias que ele me contava. Agarrava-me
 minha infncia como a uma tbua de salvao. Acho que o Torquil foi uma tentativa de encontrar o pap. E agora h o Sam - disse ela, ternamente, e deixou cair
os ombros - Acho
que o amo.
- Ento, qual  o problema?
- Acho que o magoei - explicou ela num tom melanclico.
- De que forma?
- bom, em criana adorava-o. Ele  sete anos mais velho que eu, excntrico e inteligente. No h ningum como ele no mundo, ao passo que devem existir centenas de
Torquils. O Sam costumava ser lindssimo, mas j no o ,  apenas adorvel e encantador. Durante o meu casamento com o Torquil ele escreveu-me bilhetes annimos
de poesia, que mudaram a minha vida. Amava-me  distncia, ajudou-me a deixar o Torquil e apoiou-me depois de eu ter regressado a casa. No o conseguiria ter feito
sem ele. S que eu achava que os bilhetes eram do pap. E disse isso ao Sam. Depois ainda lhe disse... - Deteve-se e corou.

- O que  que lhe disseste? - perguntou Mariana com carinho. Federica contorceu-se no sof.
- Disse-lhe que ia partir para o Chile, que no sabia quanto tempo c estaria porque no havia nada em Polperro que me fizesse ficar.
Mariana deu-lhe umas palmadinhas no joelho.
- Oh, meu Deus - suspirou. - Acho que  melhor regressares e revelares-lhe o que sentes.
- Mas a questo  que eu no sabia o que sentia. No me atrevia a sentir o que quer que fosse por ele. Acho que lhe disse aquilo de propsito
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para o forar a declarar os seus sentimentos. Mas ele no o fez. Ficou apenas com um ar magoado. No suporto isso. Sou um monstro. S agora me dou conta que gosto
dele. Gosto profundamente. E se j for tarde de mais?
- Porque haveria de ser?
- Porque telefonei  me dele - confessou ela, baixando os olhos - e ela disse-me que ele foi para casa de uma antiga namorada e no sabia quando regressaria.
- com certeza no acreditas que ele poderia apaixonar-se por outra pessoa assim to depressa,-?
- No sei. Poderia? - perguntou Federica, olhando a av com um ar esperanoso.
- Minha querida o amor no  uma coisa que se possa ligar e desligar como uma lmpada. No  possvel. Se ele te ama, estar  tua espera. Se no te amar, no estar.
E Fede, se ele no tiver esperado, ento nem vale o limo no" seu pisco!
- Que hei-de fazer?
- Regressar a Inglaterra.
- Mas eu quero estar aqui com vocs.
- Minha querida, o Chile no  a Lua. Telefona-me quando quiseres voltar e eu trato do bilhete, ou ento trata o teu pai. As coisas mudaram de h vinte anos para
c. Estars apenas a quinze horas de distncia. - Depois sorriu. -- Talvez o possas trazer contigo. Federica irradiou de alegria.
- Oh, abuelita, espero que sim - disse entusiasmada e abraou
a av. - Obrigada acrescentou com um ar srio, olhando para os
olhos tremeluzentes de Mariana.
- No, eu  que te Agradeo! - respondeu a av, acariciando-lhe a face com a sua terna mo idosa. - E assim que deve ser.
CAPTULO QUARENTA E DOIS
Polperro
Helena estava sentada no sof de Toby a partilhar um pacote de biscoitos de chocolate com Rasta, remoendo a sbita partida dos filhos para o Chile. Roa os biscoitos
iradamente, imaginando o reencontro deles com Ramon e os pais deste, a casa na praia em Cachagua e recordando todas as memrias que guardava desse local. Quando
chegou ao fundo do pacote, os seus pensamentos haviam-se entretanto concentrado em Arthur e mal se apercebera dessa transio.

Arthur no empreendera o mnimo esforo para comunicar consigo. Nem sequer durante o drama com Hal e a subsequente partida dos filhos. Nem uma nica palavra. Sentia-se
desesperadamente isolada e sozinha. Tinha saudades dele. Sentia falta da companhia e da compaixo do marido, mas o que a surpreendia mais era que, a pouco a pouco,
comeara a sentir saudades dele pelas coisas que antes a irritavam: a forma alegre como caminhava, o seu entusiasmo e boa disposio, a sua cintura larga e as mos
macias e carnudas. Em termos fsicos no se assemelhava em nada a Ramon, mas o seu corao ansiava por Arthur e culpava-se inteiramente a si mesma por t-lo afastado.
As ltimas semanas haviam sido dolorosas, pois aos poucos fora despertando das suas iluses. O Ramon na sua memria no era real. Pertencia a uma poca no passado
que h muito emurchecera e morrera. Ansiar por ele seria o mesmo que suspirar por um fantasma. E durante todo este tempo no reparara nas qualidades do homem que
escolhera para partilhar a sua vida, esse, sim, real e a precisar dela. Fora uma palerma. Tal como Toby referira to sabiamente, parecia nunca aprender com
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os seus prprios erros. Nunca estava feliz com o que tinha e apenas reconhecia a felicidade quando a analisava em retrospectiva. Porm, Arthur sempre a amara apesar
das suas falhas. Amarrotou o pacote vazio dos biscoitos e lanou-o para a lareira, onde irrompeu em chamas e ficou reduzido a cinza.
Iria comear de novo e desta vez esforar-se-ia por no cometer erros.
Arthur estava no seu escritrio a contemplar a buliosa rua l em baixo. Chovera sem parar nos ltimos dias, uma chuva fina soprada por um vento vingativo. Sentia-se
infeliz, incapaz de se concentrar no seu trabalho, o que no era comum, pois o trabalho sempre fora um escape da tenso domstica. Brincava distraidamente com o
lpis, desenhando caras tristes no seu caderno de apontamentos. Pedira  secretria que no passasse quaisquer telefonemas e apontasse os recados; no estava com
disposio para chamadas que pudessem exigir a sua concentrao. S conseguia pensar em Helena. Esperara que ela lutasse para o reconquistar. Infelizmente, equivocara-se
a respeito dela. Nada escutara a no ser um silncio gritante. O casamento deles significaria assim to pouco para ela?
Olhou para o relgio na parede e ficou a ver o ponteiro dos segundos a avanar aos solavancos em redor do mostrador com uma regularidade metdica. O dia arrastava-se.
Todos se arrastavam desde a noite em que deixara Helena do lado de fora da porta. A voz dela a chamar o seu nome ainda ressoava nos seus ouvidos, mas no se permitia
sentir remorso. Fizera a coisa mais acertada. Ela no regressara, por isso ele confrontava-se agora com a triste realidade de que ela nunca mais voltaria. Tinha
de abrir mo dela.
Por fim, derrotado, vestiu o casaco e abandonou o escritrio. Lutou contra o feroz vento at ao carro e depois lutou contra o trnsito para chegar a casa. Mas, acima
de tudo, lutou contra o impulso que lhe implorava que baixasse as defesas e suplicasse a Helena que regressasse. Cada dia era uma batalha, mas at aqui a sua determinao
sempre sara vencedora.
Escurecera j quando chegou a casa. Sorumbaticamente, interrogou-se o que havia de fazer para o jantar daquela noite. Imaginou uma tigela de cereais ou um prato
de queijo e bolachas e especulou sobre os programas televisivos daquele sero - nunca havia nada a que valesse a pena assistir. Depois reparou que havia luzes acesas
em casa. A mulher a dias, que vinha duas vezes por semana, esquecera-se obviamente de as
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desligar, e era o mnimo que podia fazer, uma vez que no tinha assim tanto para arrumar. Helena precisara de arrumar depois de ela sair; Arthur no via necessidade.
A casa estava to arrumada quanto um museu. Como ansiava pelo caos da mulher para devolver vida  casa.
Meteu a chave  porta e abriu-a. Ao entrar, os perfumes aromticos da cozinha chegaram-lhe s narinas e reconheceu de imediato o familiar aroma do assado de galinha
de Helena. Arquejou ao mesmo tempo que o seu corao se acelerava de esperana e reserva, para o caso de vir a constatar que tudo no passava de um sonho e acordar
desapontado. Sem sequer tirar o casaco, avanou pelo corredor. Conseguia ouvir o som de passos e o barulho de utenslios por trs da porta da cozinha. Receava abri-la
e os seus dedos trmulos hesitaram ao apertar a maaneta, consciente da terrvel angstia que se seguiria se descobrisse no a esposa, mas a mulher a dias, ou a
filha ou qualquer outra pessoa.
Reuniu ento toda a sua coragem e abriu a porta. Quando levantou os olhos descobriu Helena a espreitar para um tacho fumegante, vestida com um par de calas de camura
e camisa de seda protegidas pelo seu avental. Pestanejou para ela, estupefacto. Ela voltou a pousar a tampa sobre o tacho e virou-se para ele. O excesso de rmel
mal conseguia conter o remorso dela. Sorriu-lhe nervosamente, porm, quando reconheceu a saudade na expresso dele, ganhou confiana e avanou para ele e abraou-o.
Nenhum deles disse uma palavra. No precisavam. Arthur puxou-a contra si e inalou o perfume do seu pescoo. Mantiveram-se unidos por este abrao durante um grande
momento, apreciando como nunca o poder do amor que os unia. Por fim, Helena afastou-se. Olhou para os olhos brilhantes de Arthur e sussurrou chorosamente:
- Nunca mais me comportarei daquela forma. Arthur olhou-a de volta com uma expresso grave.
- Eu sei, porque tambm no o permitirei.
Ramon acenou  medida que o carro que transportava Federica ao aeroporto de Santiago desaparecia na estrada de terra batida, deixando para trs uma nuvem de p e
uma alegre sensao de realizao. Sorriu para a filha at a ter j perdido de vista e recordou aquele dilacerante momento h vinte anos, quando ela se despedira
lacrimosamente dele sem saber se o voltaria alguma vez a ver. Porm, agora era uma mulher adulta e podia decidir quando voltar. Ramon estava muito orgulhoso dela
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e agradecido, pois desta vez tinham-se separado no apenas como pai e filha, mas tambm como amigos. Ele entregara-lhe o seu manuscrito e dissera-lhe que o desse
a Helena, pedindo-lhe que o lesse tambm no avio. Federica abraara os avs, Ramoncito e por fim Hal. Contudo, as suas lgrimas no haviam sido de tristeza, mas
de alegria, pois tinham-se voltado todos a encontrar e tal como Mariana afirmara, "o Chile no  a Lua" - era um at  vista, no um adeus.
Depois Ramon foi at ao cemitrio conversar com Estella. Ramoncito no quis ir pois estava a meio de um renhido jogo de xadrez com Hal.
- Diz  mam que estou com o meu irmo - afirmou ele, orgulhosamente, e Ramon sorriu-lhe e acenou. O xadrez era uma lngua que ambos os rapazes entendiam.

Ramon estacionou o carro numa sombra e caminhou at  sepultura de Estella. Era o final da tarde e os fortes aromas a relva e flores erguiam-se no ar e misturavam-se
com a intangvel sensao da morte que assombrava a tranquila falsia. Deteve-se, como muitas vezes fazia, em algumas sepulturas para ler as inscries talhadas
na pedra. "Um dia venho at aqui acima", pensou, "e no regressarei". A certeza da morte no o assustava, pelo contrrio, concedia-lhe um sentimento de paz. Afinal
de contas, num mundo incerto, era a nica coisa de que se podia ter a certeza.
Ao aproximar-se do enorme e frondoso pinheiro viu Pablo Rega a dormitar encostado  lpide com o queixo encostado ao peito e o chapu puxado por cima dos olhos.
Cumprimentou-o alegremente com a inteno de o acordar. Porm, Pablo no se mexeu. Permaneceu to imvel e inerte quanto um espantalho. Ramon percebeu ento que
Pablo encetara a sua ltima viagem e passara para o outro lado. Agachou-se e tomou o pulso do idoso s para se assegurar. No havia qualquer movimento nas veias,
pois o seu esprito abandonara aquele corpo decrpito e fora-se juntar a todos aqueles que haviam partido antes de si, como Osvaldo Garcia Segundo e,  claro, Estella.
Ao pensar nisso Ramon sentiu alguma inveja. Estava a envelhecer e estava sozinho. Os seus filhos seguramente que se apaixonariam como ele se apaixonara, mas Ramon
estava demasiado velho para amar outra vez. Estella amansara o seu corao fugitivo e este para sempre lhe pertenceria.
Passaria o resto da sua vida a viver apenas da memria do amor.
Federica viu as montanhas dos Andes tremeluzirem por baixo da sua janela,  medida que o avio se elevava nos ares com um ribombar que
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a sacudiu at aos ossos. Desejava ficar.  semelhana de Hal, sentia que a sua casa era no Chile, estava no seu sangue. Porm, ansiava por Sam e esse anseio quase
a sufocava. Comparou a infantil paixoneta de outrora com o amor maduro que agora sentia por ele e deduziu que o seu casamento com Torquil fora vital. Sem ele, teria
continuado em busca do pai nos braos de outros homens, como Torquil, e nunca se teria dado conta de que era vtima de si mesma e sempre fora. Sam libertara-a e
ela nem sequer lhe agradecera.
Quando a hospedeira se aproximou com os jornais, Federica aceitou um, apenas para folhear, muito embora no entendesse espanhol. Abriu-o e olhou para a primeira
pgina, incapaz de se concentrar noutra coisa que no nos seus atormentados pensamentos acerca de Sam. Quando viu a fotografia do corpo congelado de uma jovem inca
descoberto nos Andes peruanos, arquejou e sentou-se direita, assombrada.
Virou-se para o homem que ia sentado a seu lado e perguntou-lhe se falava ingls. Quando lhe respondeu que sim, Federica pediu-lhe se no se importaria de traduzir
a notcia para si. O homem ficou satisfeito por poder encetar conversa com a sua bonita vizinha e comeou a ler a notcia em ingls e em voz alta.

Federica mordia a pele do dedo enquanto escutava. A mmia pertencia a uma jovem rapariga e fora preservada pelo clima frio e seco das montanhas durante quinhentos
anos. Usava um manto extraordinariamente elaborado e intricadamente tecido, o cabelo estava ainda ornamentado com cristais e na sua cabea eram ainda visveis vestgios
de um toucado feito com penas brancas. Acreditava-se que a jovem fora sacrificada aos deuses. Quando o homem lhe devolveu o jornal, Federica examinou o rosto da
jovem rapariga. Reviveu o horror dos seus ltimos momentos nas palavras da histria que o pai lhe contara.
"Segurando a caixa contra o peito, a princesa fora adornada com um requintado vestido de ls tecidas e o seu cabelo fora entranado com uma centena de cristais reluzentes.
Sobre a sua cabea colocaram um enorme leque de penas brancas que a transportariam at ao outro mundo e afugentariam os demnios que pudesse encontrar pelo caminho.
Wanchuko foi incapaz de a salvar."
Aps algumas tentativas de fazer conversa, o homem percebeu que Federica no iria responder e, desapontado, devolveu a sua ateno ao livro que ia a ler. Federica
ficou a olhar fixamente para o rosto de Topahuai como se tivesse testemunhado a Ressurreio. Ao longo de todos
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estes anos acreditara na lenda, apesar de o seu bom senso lhe dizer que no passava de um mito. Sorriu para si mesma. Talvez a caixa da borboleta fosse mesmo mgica,
afinal de contas.
Sam acordou cedo devido  inquietude na sua alma e deu um passeio pelas falsias com os ces. Via os primeiros assombros da Primavera nos botes que emergiam e que
emprestavam  floresta uma ressonncia que parecia flutuar pelos ramos das rvores como fumo verde. Porm, isso de pouco serviu para o animar. Enrolou-se melhor
no casaco, mas o frio vinha de dentro de si e fazia-o tremer. No tivera notcias de Federica desde que ela partira na semana anterior e ficara com a terrvel premonio
de que talvez nunca mais voltasse. Afinal de contas, ela mesma o dissera, no havia ali nada que a prendesse. A fora daquelas palavras no era de forma nenhuma
diminuda pela frequncia com que pensava nelas e detinham ainda o poder de o debilitar.
Ainda no pensara em nada para escrever. Haviam-se passado anos desde que deixara o seu emprego em Londres para dar uso  sua criatividade, como Nuno referira. Porm,
a sua criatividade parecia no estar a dar frutos, estava estril. Tentara uma vez ou duas comear um romance, mas a sua mente vagueara at Federica e o que lhe
sara haviam sido os mais sombrios poemas acerca da morte e do amor no correspondido. Assim, escolhera alguns livros da biblioteca de Nuno e em vez de escrever
sentara-se no cadeiro de pele e lera. Tudo menos ceder os seus pensamentos ao apetite voraz da angstia.
Sozinho nas falsias, sob a frgil luz da aurora, considerou as suas opes caso Federica nunca mais regressasse. Tinha de encarar essa realidade. No podia viver
naquela autocomiserao para sempre. Afinal de contas, no fora isso mesmo o que ensinara a Federica por meio dos bilhetes?  semelhana de um mdico, no gostava
do seu prprio remdio. Tinha de se recompor, decidir-se a escrever alguma coisa, comprar uma pequena casa para si mesmo, talvez um co e um porco e emergir deste
exlio auto-imposto.

A viagem de Federica no teria sido to longa e cansativa no fora a febril impacincia que lhe comprimia o peito com ansiedade e lhe causava dores de cabea devido
 nsia de tentar mudar coisas que no podia. O avio teve de voar em redor do aeroporto de Heathrow durante vinte minutos antes de aterrar por fim aos solavancos.
Federica sentia-se
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maldisposta, tanto da preocupao como das interminveis voltas do avio enquanto esperavam autorizao para aterrar, depois sofreu de um ataque de soluos durante
toda a viagem de metro at  estao de comboios. Estava frio e chovia miudinho, os habituais cus cinzentos de Londres - uma Primavera triste. Conseguiu apanhar
um comboio no ltimo momento e afundou-se num lugar junto  janela, da qual pde contemplar a cinzenta cidade l fora. Fechou os olhos por um momento, abrindo-os
apenas algumas horas depois, estremunhada e perra, dando por si j imersa na familiar paisagem da Cornualha.
 medida que os seus olhos contemplavam os verdejantes campos, recordou-se dos seus longos passeios com Sam e interrogou-se o que lhe iria dizer quando o visse.
Esperava que j tivesse regressado da Esccia. Sabia que ficaria doida de frustrao se ele no estivesse em casa. Silenciosamente comeou a ensaiar a conversa.
"Sam, tenho uma coisa para te dizer... no, demasiado simples... Sam, amo-te... no, no era capaz, no me atreveria... Sam, percebi que as cartas eram tuas e voltei
de propsito... no, no, horrvel... Sam, no acredito que tenha demorado todo este tempo a aperceber que te amo... no, no consigo, no sou capaz de ser assim
to sem papas na lngua. Oh, meu Deus!", suspirou. "No sei o que dizer."
 medida que o comboio atravessava os campos, Federica contemplou as vacas nos pastos, as encantadoras casas brancas e as pequenas quintas e pensou como a regio
era bonita, apesar dos cus carregados e da chuva. Fantasiava viver numa pequena casa com Sam, talvez com um co ou dois e uma deslumbrante vista para o mar e sorriu
interiormente. A riqueza e o conforto no lhe interessavam. No se importava se nunca mais fosse s compras. Tivera malas e sapatos suficientes para saber como tudo
isso podia ser oco. Ansiava por ser envolvida pelos braos de Sam e nada mais importava.
Quando o comboio parou finalmente na estao, Federica arrastou a mala para a plataforma e ficou sob a chuva miudinha a pensar se haveria de ir para casa de Toby.
Porm, a sua impacincia levou-a a meter-se num txi e a seguir directamente para Pickthistle Manor. Quando o carro virou para o carreiro de gravilha, o corao
comeou a bater mais depressa no seu peito antecipando a desiluso de no o encontrar ali. Olhou em redor em busca do carro dele, mas no estava estacionado no local
habitual frente a casa. Engoliu em seco e saiu do txi, dispensando-o. Se Sam no estivesse em casa telefonaria a Toby para a vir buscar.
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Para alm disso, tambm seria bom ver Ingrid. "Raios partam", pensou, "estou a enganar-me a mim mesma! Se ele no estiver aqui, o que eu quero  estar na casa onde
ele esteve, sentar-me no escritrio onde ele esteve sentado, sentir o eco da presena dele no ar e esperar."
Avanou at ao vestbulo e pousou a mala no cho. Depois mirou-se no espelho dourado pendurado na parede. Franziu o nariz e tentou compor o cabelo desalinhado e
encharcado e beliscou as faces plidas para ganharem alguma cor.

- Sam, s tu? - gritou Ingrid do patamar.
- Ingrid - disse Federica c de baixo. - Sou eu, a Federica.
- Fede, querida! - guinchou ela alegremente, flutuando escada abaixo num comprido vestido turquesa que arrastava pelo cho. - No estvamos  tua espera to cedo!
- bom, cheguei esta manh - respondeu, lanando os olhos em redor em busca de Sam.
- Deves estar exausta. Pobrezinha. Queres um caf ou qualquer coisa para te aquecer? - sugeriu ela. Depois olhou para Federica atravs do monculo, que ampliava
o seu olho verde-plido e o transformava no olho de uma iguana monstruosa. - Querida, ests a tremer. No ests nada com bom ar.
- Estou bem, obrigada - insistiu ela sem grande firmeza. O Sam est por a? - perguntou, tentando no soar ansiosa.
- Saiu com os ces. Tem estado a manh toda fora.
Federica no conseguiu conter o sorriso em que o seu rosto de repente se abriu como uma rosa primaveril.
- Importava-se muito que eu fosse procur-lo?
- Ento, tens de levar um casaco, seno morrers de frio. No servirs de nada para o Sam se morreres de frio, pois no? - argumentou Ingrid, os seus lbios tremendo
de alegria.
Federica sentiu o sangue afluir-lhe s faces, enrubescendo-as de embarao. Seguiu Ingrid at ao armrio e aceitou as botas e o casaco de pele de cabra que ela lhe
emprestou.
- Era do meu pai.  tambm um dos preferidos do Sam. Se o casaco no te aquecer, o Sam aquecer. Tenta o trilho das raposas na falsia. Suponho que ele esteja por
l - sugeriu e ficou a ver Federica correr porta fora. No seu entusiasmo esqueceu-se de fechar a porta. Ingrid esperou que se esquecesse tambm de mencionar a Esccia.
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Federica correu pela chuva sem se importar se ficava molhada ou no. O casaco dificultava-lhe os movimentos, pois era pesado e duro. Vasculhou o cimo da falsia
ansiosamente, observando rvores e arbustos em busca de qualquer sinal dos ces ou do seu dono.
- Sam! - gritou, mas a sua voz perdeu-se no vento. - Saaaam! Deteve-se impotente, observando o mar desfazer-se contra as rochas l em baixo e interrogou-se se ele
fora insensato o suficiente para se aventurar at  praia l em baixo. Recordou o sonho que tivera e estremeceu. Ento, um movimento nas rvores f-la virar-se.
Semicerrou os olhos contra a chuva e colocou a mo em pala junto  testa para proteger a cara. Primeiro viu dois ces e depois a figura cinzenta de Sam de casaco
comprido e chapu. Ele parou e ficou a olhar para ela. Sem saber se podia confiar na sua viso, tambm ele semicerrou os olhos e protegeu o rosto com a mo.
- Sam! - voltou ela a gritar.
- Federica? - devolveu ele e a sua voz foi transportada pelo vento.
?- Sam! - disse ela em voz alta, avanando a passos largos para ele.
Os ces rodearam-na com as caudas a abanar de entusiasmo e as lnguas pendidas para fora das babadas bocas, ofegantes e exaustos. Federica fez-lhes festas no plo
molhado, satisfeita por a chuva no seu rosto esconder o nervosismo que sentia.

- Federica! - chamou Sam, aproximando-se. Ela levantou a cabea e pestanejou para limpar a chuva dos olhos. - Quando  que regressaste? - perguntou ele, surpreendido.
- Eu... - comeou ela, mas o aperto que tinha na garganta impediu-a de falar. Olhou para os ces e voltou a afag-los, pois de repente no sabia o que fazer consigo
mesma.
Sam reparou que a mo dela tremia.
- Ests bem? - perguntou, aproximando-se mais.
Ela acenou que sim e levantou os olhos. Levou os dedos trmulos aos lbios e engoliu. Queria dizer-lhe que o amava, mas s conseguia olhar para ele silenciosamente
enquanto a emoo crescia no seu peito.
Sam colocou a mo no brao dela.
- Regressaste por mim? - perguntou.
Federica reconheceu a esperana na voz dele e acenou freneticamente com a cabea.
- Amo-te - sussurrou, mas a sua voz foi engolida pelo vento. Sam inclinou a cabea. - Amo-te - repetiu ela, agarrando-o pelas lapelas do casaco e olhando para os
seus olhos cinzentos com desejo. Sam no
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precisou de mais nenhuma confirmao do afecto dela. Puxou-a para os seus braos e beijou-lhe o rosto encharcado. Federica sentiu o calor dos lbios dele e a rudeza
da barba e fechou os olhos para que nada a distrasse do amor dele.
Quando Sam fez amor com Federica no pequeno quarto no sto da casa, ela apercebeu-se de que estava a experienciar pela primeira vez na vida a mais intensa expresso
de amor verdadeiro. Ele segurou-lhe o rosto com confiana e olhou-a fixamente como que incapaz de acreditar que ela estava realmente ali, retribuindo sentimentos
que ele escondera durante tanto tempo. Cada beijo era uma demonstrao do seu afecto, cada carcia das suas ternas mos. Riram e conversaram e depois, quando o peso
dos sentimentos os subjugou, choraram. Tantos anos de anseio impediram Sam de adormecer. A nica coisa que conseguia fazer era contempl-la a dormir e acarici-la
mentalmente, at que a fora dos seus pensamentos penetraram os sonhos dela e ela sorriu.
Federica abriu os olhos para um mundo diferente. Escutou o ladrar dos ces l fora ao mesmo tempo que o carteiro lhes lanava uns biscoitos, dava uma corrida at
ao alpendre e corria de volta para o carro, fechando a porta mesmo a tempo de evitar os ces. Escutou os pneus do carro na gravilha e depois algumas mudanas arranhadas.
Espreguiou-se voluptuosamente  medida que os seus olhos se adaptavam  ofuscante luz do Sol que penetrava pela frincha nas cortinas, iluminando as desconhecidas
paredes de um quarto que ela apenas vira uma vez antes, quando Molly e Mester a haviam apresentado a Marmaduke, a doninha. Depois, corando, levou a mo ao rosto
e sentiu o quente resplendor do amor que irradiava das suas bochechas e sorriu de felicidade. Recordou-se das carcias dele, dos beijos e do jbilo que sentira,
deitada nos braos dele, ao pensar que encontrara por fim o amor,

Virou-se e descobriu um pequeno ramo de campainhas tmpors sobre a almofada onde ele dormira, em conjunto com um livro castanho e gasto. Sentou-se e levou as flores
ao nariz. O aroma a Primavera e o sabor a orvalho fizeram o seu corao inflar de prazer. Depois olhou para o livro. Estava muito usado e com os cantos das folhas
revirados. O Profeta de Kahlil Gibran. Abriu-o e descobriu que o livro era de Nuno. Tinha versos sublinhados e comentrios manuscritos por ele nas margens. Reconheceu
a poesia como a fonte dos bilhetes que Sam lhe enviara.
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Reparou ento num marcador de pgina e abriu o livro a. Havia algumas linhas sublinhadas a lpis. Leu-as atentamente e depois, para compreender a fundo o seu significado,
leu-as mais uma vez.
"A beleza  a vida quando ela se mostra nua e vs sois a vida, mas tambm o vu. A beleza  a eternidade que se contempla num espelho, e vs sois eternidade e espelho."
Quando Sam entrou no quarto com o tabuleiro do pequeno-almoo, Federica segurava as campainhas junto ao nariz ao mesmo tempo que lia o livro de Nuno. Levantou o
rosto e sorriu para ele, um sorriso ao mesmo tempo terno e namoriscador. Sam colocou o tabuleiro em cima da cmoda e trepou para a cama para junto dela. No precisaram
de falar, pois os seus rostos irradiavam sentimentos que nunca poderiam colocar por palavras. Ele puxou-a para os seus braos, sabendo que desta vez nunca mais a
deixaria partir.
Passaram-se alguns anos at Federica Appleby redescobrir a caixa da borboleta no fundo de um dos armrios da casa deles mesmo nos arredores de Polperro.
Sam publicara com sucesso o seu primeiro livro, Nuno, em Livro, e Federica estava grvida do segundo filho.
Tirou a caixa para fora do armrio e soprou-lhe o p da tampa. com uma sensao de nostalgia que se tornara doce devido  sua prpria felicidade e  passagem dos
anos, encostou-se  parede e abriu-a. Ficou pesarosa ao ver as pedras que outrora haviam revestido o interior juntas numa pilha no fundo da caixa, expondo as rudes
paredes de madeira que antes haviam tremeluzido com um esplendor mgico.
Melancolicamente, levantou os olhos para reflectir sobre o passado e viu, para seu encanto, uma borboleta encarnada e cor de laranja pousar no peitoril da janela.
Deteve-se um momento, como que comunicando de forma silenciosa, e depois abriu as asas, ergueu-se no ar e desapareceu no brilho do sol.

Fim
